domingo, 31 de dezembro de 2017

Conto de Gustavo do Carmo 



Toca o celular. Selton atende e ouve uma voz conhecida, mas de péssimas lembranças. 


— Alô, Selton? 


Ele desliga o celular. Queria evitar conversa com aquela senhora desagradável. O celular tocou novamente. 

0

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Resultado de imagem para selos ano novo portugal madeira


João Paulo Mesquita Simões





2017 está quase a terminar.

Durante este ano, falei-vos de emissões saídas em Portugal, e algumas saídas no Brasil.
2018, será outro ano. Um ano que vou planear em termos de filatelia. Com certeza, não fugirei muito ao que até aqui tenho feito. Vou tentar inserir emissões vossas e, provavelmente, darei uma outra visão da Filatelia.

Irei, talvez, falar de temáticas minhas, como as faço, e porquê.

Mas para terminar este último post deste ano, deixo-vos, à semelhança da passada semana, uma emissão de selos autoadesivos da Madeira, com o tema "Passagem de Ano".

1

terça-feira, 26 de dezembro de 2017


Ele comprou um sorvete para ver se isso tirava um pouco da dor de cabeça que estava sentindo por conta da quantidade de álcool que acabara de ingerir. Pagou, pegou o sorvete e, ainda desnorteado, pegou o celular e ligou para ela, que estava atrasada de novo. Talvez ele dissesse para cancelarem e marcar para outro dia, até porque... Ele não estava cem por cento.

Tropeçou em seus próprios pés. O celular foi para o chão. Ele viu a tela trincada. O sorvete esparramou pelo chão.

Vendo-o de quatro, ali, cansado, alcoolizado, um caco, ela aproximou-se dele.

Ao invés de ajudá-lo, cruzou os braços e ficou parada, com um riso de escárnio no rosto. Todas as pessoas simplesmente passavam por eles. Ele pegou o celular. Tirou a gota de sorvete que caíra sobre a tela agora trincada. Ficou de joelhos. Percebeu que as calças esfolaram, quase a ponto de rasgar. Suspirou e deixou o corpo se curvar.

Virou-se para o lado e viu-a ali parada, observando-o com os braços cruzados e o riso de escárnio no rosto. Assustou-se um pouco. Ela semicerrou os olhos (ainda com o sorriso) e disse:

“O que você está fazendo aí... De quatro?”

Ele a olhou o mais furioso que conseguiu.

“Valeu por ajudar, hein?”, disse quase balbuciando, tentando se levantar.

Ela o ajudou, e ao se encontrarem de pé, olharam-se. Ele desviou o olhar para frente. Ela riu um pouco mais. Começaram a andar.


Derradeiro conto do ano de Lucas Beça
1

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017



Conto de Gustavo do Carmo


I

Numa festa familiar de Natal, a tia pergunta para o sobrinho:

— E as namoradas, Arthurzinho?
— Não tenho nenhuma, tia.
— Que isso, como pode um homem tão bonito como você não ter namorada?
— É que na verdade eu não sou bonito. E também sou meio bobo. Tenho déficit de atenção, acho que também tenho Síndrome de Asperger.
— Que bobagem! Você não tem nada. É também muito esperto e lindo.
— Não foi isso que ouvi a senhora dizendo para a minha mãe. Pelas minhas costas eu ouvi você perguntar a ela se eu tenho algum probleminha de cabeça.
— Eu não disse nada disso. Você anda inventando.
— Aí! Está me chamando de louco.
— Não estou te chamando de louco! Estou é muito decepcionada com você pensar isso de mim. Acho que você tem mesmo problema de cabeça.
— Está vendo? Para me humilhar diz que eu sou doente. Agora quando eu assumo que não sou normal não gosta. Acha que eu me faço de vítima e que invento doença para fugir das minhas responsabilidades.

0

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017



João Paulo Mesquita Simões









Em 7 de abril de 2015, os CTT - Correios de Portugal emitiram uma coleção de selos da Ilha da Madeira, relativos ao Natal e Fim de Ano, que são festividades culturais e religiosas que atraem imensos turistas às ilhas.

As ruas são decoradas e, depois, há os espetáculos de fogo de artifício, muito apreciados, e que já foram considerados os melhores do mundo.

0

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


Suzana dos Santos Schneider era loira, gordinha clara, olhos azuis, herdados do pai (dentista alemão, jurara a mãe, que fora assistente dele e conhecera a cadeira dos pacientes sem abrir a boca, só as pernas, e devia ser verdade, porque ela era mulata.) Suzana andava pelas ruas do bairro, para onde tinha mudado recentemente, numa bicicleta cor de rosa, sacudindo o rabo herdado da mãe, um no selim e o outro, de cavalo, no penteado. Todos os dias, sempre à hora da sesta, quando as ruas do bairro estavam quase vazias, passava como se deslizando, graças à força de um empurrão invisível dado no início da rua em declive, pela porta da casa de Oscar que, ao voltar da escola, sentava na soleira da porta, a bocejar a modorra depois do almoço.
0

terça-feira, 19 de dezembro de 2017


O chamado Papai Noel ajeitou sua gravata verde e vermelha sobre a camisa branca. A mulher atrás da câmera fez um sinal de positivo indicando que podia começar.

“Olá a todos. Provavelmente não me reconhecem por conta da mítica imagem que vocês têm de minha pessoa como um velhinho gordo vestido de veludo.  É, esse mesmo, o "Papai Noel". Primeiro eu não tenho oitenta anos, não sou gordo, nem tenho filhos. Não mesmo. Então pelo amor de Deus, não me chamem de "Papai". Garanto que vocês não chamam nem os seus pais de papai, então...”

Noel parou e tomou um gole de água.

“Bem, mas uma coisa vocês tem que ter crédito. As luzinhas e as cores verdes e vermelhas. Dão um bom clima. Bacana.”

“Ah, e as renas se aposentaram há muito tempo. Agora uso um dirigível, que é muito mais eficiente do que elas. É claro que isso foi uma bênção, por que o número de crianças aumentou bastante nos últimos séculos e as renas estavam precisando de um merecido descanso. Estão em alguma fazenda nos trópicos. Mas eu até que gostava da companhia delas. Às vezes elas conversavam comigo.”

“Devo dizer que vi alguns filmes natalinos e, desculpe-me a palavra, mas são uma porcaria. Lá está o velho gordo com um saco minúsculo que não daria para presentear nem trinta crianças. E querem que eu acredite que ele entrega presentes para todos desse jeito. E os efeitos especiais então, parece que fazem o filme em dois meses. "Ah, já estamos em outubro, vamos fazer qualquer coisa pra lucrar um pouquinho no natal". Que é isso? Por favor! Se vão fazer qualquer coisa, que seja bem feita. Mas não posso reclamar tanto quanto a isso, já que tem algum ouro perdido sempre, que vale a pena passar duas horas na frente da TV.”

“Isso: TV. Ou vocês acham que eu moro em uma casinha de madeira no meio do pólo norte? Minha mansão é grande, mas não tão grande quanto a fábrica. Meus camaradas duendes trabalham duro o ano todo fazendo enfeites natalinos para vender e conseguir dinheiro para comprar os presentes dessas crianças mal agradecidas que crescem e começam a dizer: "Eu já sou grande, eu sei que Papai Noel não existe." Sim, o gordinho de óculos não existe mesmo, mas o Sr. Mosmorel existe sim. Isso, esse é meu nome, Noel é só apelido. Aqui ó!”

Ele tira sua identidade do bolso e mostra para a câmera. “Viram?”

Ele toma mais um pouco de sua água e continua.

“Bom, para fechar, já que a produtora aqui está dizendo que o tempo está acabando, queria dizer que essas crianças me tiram do sério. Todo ano é um celular, tablet, ipad, iphone, inãoseioquemais. Um mais caro que o outro. Era tão bom quando elas se contentavam com um cavalinho de madeira, uma boneca ou uma bicicleta.”

“De quem é a culpa de toda essa imagem que fizeram de mim ou do natal no geral eu não sei. Fica com você o poder de decisão. E escuta, produtora, pode colocar o nome da matéria: A verdade sobre o “Papai Noel”. Isso, entre aspas. Pega esse papai e enfia no cu. Ih, é mesmo, não pode falar palavrão, né? Desculpe. Bom é isso, foi bom desabafar.”

Ele se levanta da cadeira.

“O quê? Tem que deixar uma mensagem bonitinha? Tá bom”, ele se senta de novo de dá um sorriso. “Pessoas, os presentes não importam, mas sim os cérebros de vocês, que podem julgar o que é certo para viverem em harmonia. Não, não escutem o coração. O coração não faz nada além de manter o sangue circulando. Menos poesia e mais atitude, por favor.”

O cameraman corta a tomada.


Conto natalino de Lucas Beça
0

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


Conto de Gustavo do Carmo

Teve uma noite inesquecível. Perdeu a virgindade com a mulher dos seus sonhos: uma linda morena clara de seios fartos, chamada Joyce, uma escritora famosa com quem fez amizade na internet. Mesmo assim, Depreciano encerrou a deliciosa relação e se levantou enfadonho, desanimado. Isso chateou a moça, que perguntou:
0

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Por  dudu oliva






0

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017




João Paulo Mesquita Simões




Com votos de Boas Festas para os Leitores, Colaboradores e, claro, o Patrão do Tudo Cultural!
0

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

miguelaf/guache/papel

Ana Paula mal desfez as malas ao chegar e, no dia seguinte, pouco antes de encher a mala com renovadas mudas de roupas, disse a Lenilson, “conheci alguém” e voltou para Minas , onde havia passado alguns dias de férias, sozinha-sem ele - um descanso que resolveram dar ao casal depois de dez anos morando juntos, e conhecera esse alguém na casa da amiga comum que a hospedara.

0

terça-feira, 12 de dezembro de 2017


Perguntou se o seu hambúrguer caseiro estava bom.
- Tá bom – eu respondi.
- Tá bom nada: Tá bom pra caralho!
Verdade.


Pegou o velho caderno para encontrar uma receita de família. Acabou fazendo omelete. E abriu um vinho para acompanhar.


Ela acordou e bebeu um pouco da garrafa ao seu lado na mesa. O celular já pronto para ser alcançado, mas algo a lembrou. Ela não precisava fazer isso. Poderia apenas voltar a dormir. Era domingo. Mas é claro que ela tinha que pegar o celular.


- Muito obrigado, muito obrigado. Está tudo indo como devia. O meu hambúrguer do jeito que eu gosto. O White Russian, a maionese... A sua companhia... Tudo ótimo. ... Quer provar? Por quê? Ah, você e sua mania de ser saudável!


- Estou muito cansada. Não consegue ver?
- Naa. Pra mim está tudo bem. Parece ótima.
- É, mas não estou.
- Nossa.
- É.
- É.
...
- Essa conversa vai a algum lugar?


Um gol aos 49’ é muito mais memorável do que aos 02’.
  

Por Lucas Beça
0

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017


Microcontos de Gustavo do Carmo


Vermelho e preto
Fechou o ano com a conta no vermelho. A coisa ficou preta para ele. Decidiu parar de torcer pelo Flamengo.


Comércio
Era mulher de fechar o comércio. Sugava todo o dinheiro dos comerciantes com quem se envolvia e os deixava na falência.
0

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Trecho de romance de Miguel Angel Fernandez (in memorian - 1948-2017)

Foi na segunda-feira, ainda estava acamado, mas a febre e as dores no corpo todo haviam passado. Estava mais era fingindo para não ir à escola. Então ela entrou no quarto quase às escuras, cuidando para não fazer barulho, parecendo procurar algo. Ele fingiu que dormia, mas a observava entre-pestanas. Ela revirou alguns objetos, e quando se preparava para sair:

0

terça-feira, 5 de dezembro de 2017


Dormiu pouco. Acordou tarde. Não viu nada da cidade.


O enfeite metálico na forma de um violinista ficava no canto de sua escrivaninha. Via-o todos os dias. Já nem lembrava que o tinha.


- Oi.
- Oieee!
- Menos, menos...


O mundo ia acabar no dia seguinte.
Tomou mais uma cerveja.


Tatuou uma palavra em japonês e descobriu que estava errada. Dava uma desculpa e ia embora toda vez que via um oriental.


- Um café, por favor. Pode ser preto, com açúcar, adoçante... Você que sabe. Pra mim tanto faz.
  

Por Lucas Beça
0

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


Conto de Gustavo do Carmo

Moça bonita parada no ponto de ônibus em Copacabana. Estava de vestido de alcinha florido. Branca, magra, cabelos curtos, mas femininos. Cortado à altura dos ombros. Do jeito que eu gosto. 

0

quinta-feira, 30 de novembro de 2017



João Paulo Mesquita Simões


"Nas últimas décadas, Portugal sofreu um processo de profunda alteração territorial, com a saída das populações dos velhos centros urbanos para as novas periferias e a imposição de um outro paradigma, baseado nas grandes superfícies comerciais, com claro prejuízo para o comércio tradicional. A «cultura de café» diluiu-se nos novos hábitos e algumas das casas mais conhecidas fecharam portas neste período. Apesar disso, muitos estabelecimentos sobreviveram e apresentam hoje uma história para contar." 


0

quarta-feira, 29 de novembro de 2017


Em silêncio entrou no quarto, fechando a porta atrás de si; só então respirou mais calmo. As batidas do coração, que lhe pareceram ecoar ruidosas pela escuridão da casa, diminuíram ao constatar que ela dormia profundamente; boca aberta e leve gargarejar o demonstravam.
0

terça-feira, 28 de novembro de 2017


Tirei uma licença poética. Não me pagaram nada por isso.


Cansei de acompanhar meu time. Quando ele sair da várzea eu volto a torcer.


Vejo os outros fazendo isso e aquilo e me pergunto se eu estou fazendo alguma coisa.


Coloquei uns livros pra vender. Ninguém quer ler.


Disse Eu te amo. Estava mentindo.


Andou, andou e andou. Chegou ao final da linha. Não conseguiu atravessá-la. Ficou com medo.


Por Lucas Beça
0

segunda-feira, 27 de novembro de 2017


Crônica de Gustavo do Carmo

Há alguns meses, uma grande discussão tomou conta da opinião pública e das redes sociais. Uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM-SP – colocou um homem nu à disposição de crianças que quisessem tocá-lo. O peladão brincou até de roda com as meninas. Um claro incentivo à pedofilia.

O Fantástico, da Rede Globo, fez uma matéria para comentar a “polêmica”, ou melhor, a canalhice que atentava contra a moral e os bons costumes do Brasil. Só que acabou botando gasolina na fogueira ao só entrevistar defensores da arte indecente, todos ligados a partidos de esquerda, em vez de ouvir os dois lados, como manda a regra do jornalismo, ensinada nas faculdades (aliás, dominadas por comunistas). Todos condenando os que são contra a essa baixaria disfarçada de arte, chamando de intolerantes e preconceituosos.
0

quinta-feira, 23 de novembro de 2017


João Paulo Mesquita Simões







Idanha-a-Nova, situada no distrito de Castelo Branco e Óbidos, situada no distrito de Leiria, foras as duas cidades escolhidas pelos CTT - Correios de Portugal para serem homenageadas pela  promoção de iniciativas de caráter musical e literário, respetivamente, que protagonizam. Ambas têm em comum uma enorme história e tradição mas também o facto de terem sabido reinventar-se ao longo do tempo.

0

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Flagrante de Madame Magda numa pausa de folgedos
eróticos na sua mansão, 
enquanto o carnaval explodia na Av. Paulista.


E virou jardineiro dos bons. Meio sem graça na terra dos outros. Então cismou, queria um pedaço de terra para ele. Qualquer pedaço. O mundo era grande. Alguma devia ter por aí, esperando por ele.
Aí, então... então apareceu Madame num domingo de Carnaval. Que fruta rara! Lindura maior nunca vira, maior que o alvoroço dos aviões no céu. Brilhavam os olhos verdes igual alface até mais que o metal voador ao sol. Sinhá olhava ele parecendo querer abocanhar. Assim que ficou claro o que ela queria, ia negacear? Sem mais porquês foi atrás dela com a roupa do corpo: o uniforme de jardineiro. Uniforme! Uniforme era sinal de obediência cega ao que dá na telha dos mandantes, coisa prometida nunca mais. Verdade que agora obedecia - assim, por dizer - aos gostos da lady, mas de forma diferente. Neste caso foi mais cômodo obedecer. Eram desfrutes divertidos. Ela o mimava com presentes e borós que ele não gastava em besteiras, não. Guardava direitinho até virarem contos. Dia viria e estaria pronto para comprar sua terrinha. Só dele e das verduras, plantas. Algumas galinhas, bichos variados... um sítio, assim o chamego com a lady terminar. Terminar? Lembrou o verso que roubou dela: "regaço sólido que sacia quente / minha doce febre. / Pelo e pele / solidez incauta / balanço e aconchego / de meus peitos". Aquele namoro não estava ficando chameguento demais? Tem ditado que diz amor demais enjoa, como o alimento mais gostoso embrulha o estômago, quando comido sem moderação.
Será mesmo, crioulo?
__________________________________
(Extraído do romance 'A Cena Muda' - Copyright Miguelaf)
0

terça-feira, 21 de novembro de 2017


Ele entra em uma padaria. Senta-se em um dos bancos encostados no balcão. Uma atendente aproxima-se dele. A padaria está meio vazia, apenas com algumas pessoas na fila do pão e dois homens comendo pão na chapa e café com leite.

“Olá. O que gostaria?”

“Eu quero um copo de chá gelado e o sanduíche de bacon mais gorduroso que você tiver. E um suco de laranja também, por favor.”

“Tudo bem, já volto.”

Ele agradece e fica ali sentado, observando as outras pessoas.


Alguns minutos depois. A atendente volta com o prato com o X-bacon em uma mão e o chá na outra.

“Aqui está.”

“Ah, parece ótimo. E se você preparou aposto que está delicioso.”

“Você tem que provar primeiro.”

Ele pega alguns guardanapos do suporte.

“Está tendo um bom dia, posso ver... Tão sorridente.”

“Bom, eu tenho que estar. Consegui esse emprego umas semanas atrás, minha vida está voltando ao normal...”

“Mas é o suficiente?”

“Bom, sim. Por enquanto.”, ela hesita por um momento. “E quanto a você?”

“Por enquanto eu tenho esse X-bacon aqui.”

Ela ri. Ele pega o sanduíche e dá uma mordida. Depois de engolir ele sorri para ela.

“Está muito bom. Você tem talento.”

“Obrigada, mas não é tão difícil”

Ficam em silêncio por um tempo.

“Então... É novo na cidade?”

“Por que diz isso?”

“Ah, sei lá, não parece daqui.”

“É, sou sim, sabe... Estou à negócios.”

“Humm...”, Ela entrega a comanda e enche um copo de suco de laranja da máquina. “Aqui está. Qualquer coisa é só chamar.”

“Obrigado.”

Ela vai atender outra pessoa que acabava de chegar ao balcão do outro lado. Ele começa a comer novamente.

Ao terminar, bebe o último gole do suco e tira uma caneta do bolso. Escreve no guardanapo. Pega a comanda e vai em direção ao caixa.

Ela o vê pagar e ir embora. Ao aproximar-se para pegar o prato e os copos vê o guardanapo. Vê que há algo está escrito nele. Ela sorri e o guarda.


Conto de Lucas Beça
0

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Conto de Gustavo do Carmo


Entre lágrimas e soluços, a novela mexicana se desenrolava na televisão. A mocinha loura, de vestido florido, vaticinava com a maquiagem borrada pelo choro:

“Rodrigo Augusto: Fernando Eduardo não é seu filho!”

“O quê?!?!?!”

Espantou-se o personagem típico dessas produções do país latino, aos gritos, que foram quase abafados pela trilha sonora de suspense. A câmera por pouco não bateu em seu rosto redondo com cabelos grisalhos, topete e fino bigode no rosto:

“Fernando Eduardo é filho de Miguel Antônio”
0

quinta-feira, 16 de novembro de 2017


João Paulo Mesquita Simões










A Biblioteca Joanina foi construída entre os anos 1717 e 1728 e é um dos expoentes máximos do barroco português. O seu nome surge em honra e memória do Rei D. João V (1707-1750), que patrocinou a sua construção e cujo retrato, da autoria de Domenico Duprà (1725), ocupa um local de destaque no espaço.

Situa-se numa das universidades mais antigas da Europa, senão a mais antiga: a Universidade de Coimbra.

Para comemorar os seus 300 anos de existência, os CTT Correios de Portugal, emitiram dois selos, lançados em 25 de outubro, com os valores faciais de 0,50€ e uma tiragem de 125 000 exemplares e outro com o valor facial de 1,00€ e uma tiragem de 115 000 exemplares. Os selos têm o formato de 80 X 30,6 mm e o design esteve a cargo de B2 Design.

Um dos selos desta emissão mostra-nos diversos pormenores desta biblioteca da Universidade de Coimbra, entre eles: a vista geral da sala 2 da biblioteca (lado norte) através de uma fotografia de Paulo Mendes; uma Bíblia Hebraica, dita “Bíblia de Abravanel”, da segunda metade do século XV; a folha 6 (salmos iniciais), parte do acervo da Biblioteca Joanina; a bíblia “atlântica” do século XIII, num pormenor da folha 2 do Livro da Sabedoria; e uma carta de fidalguia manuscrita e iluminada do licenciado Prado de Vivar Vecino de Griñon, de 13 de agosto de 1569.
O outro selo apresenta a estante, da autoria de Gaspar Ferreira e Manuel da Silva; também a Bíblia Hebraica, dita «Bíblia de Abravanel», mas desta feita a folha 384v (decorações micrográficas finais); um pormenor da coroa sobre o «emblema» da Teologia, na Sala 3 da Biblioteca, da autoria de Gaspar Ferreira (talha) e Manuel da Silva (douradura); e a Bíblia «atlântica» (atrib. Estrasburgo, séc. XII), Tábuas dos Cânones Evangélicos.
Segundo os CTT, esta emissão filatélica celebra “o património cultural e arquitetónico de Portugal e levam-no além-fronteiras, através daquela que já por várias vezes tem sido apontada por organismos nacionais e internacionais como a «biblioteca mais bela do mundo»”.



0

quarta-feira, 15 de novembro de 2017


Conto de Miguel Angel Fernandez (1948-2017)

Foram três os que saíram de repente da escuridão da obra em construção e dois a agarraram. O terceiro andava na frente, reconduzindo-os até o abandonado casebre do vigia. Mão na sua boca; voando entre os braços deles; fechou os olhos; permaneceu com eles fechados, mesmo quando voltou a sentir o chão sob os pés, e o calor da luz de uma vela sobre seu rosto.
- Babacas! Não é ela! Puta que o parió!
- Tem certeza?
- Tá me gozando? Não conheço a pilantra? Isso que dá junta de pentelhos.
- Merda, cara! Fazê o quê agora?
- Manda a dona embora, moleque.
- Pra caguetar a gente? Se reconhecé depois?
- Fazê o que, neguinho? Já fodeu. Vai matá?
- Sei lá. Por aí.
- Xápralá, vai. Melhor abandoná o campo e dá o fora.
- Quem garante que a velha não vai dá a ficha da gente?
- Ela vai? Aí, dona. Nem abre os olhos. Tá vendo alguém? Não, tá certo? É assim que vai ser. Não viu nem aconteceu nada, tá bom? Simbora, pentelhinhos, deixa ela aí.
- E a pistoleira? Se ainda aparecer?
- Fóda-se. Outro dia. Por hoje chega, mermão. Sujou. Fechou o expediente. Vamo’nessa.
- Tonce. Como é que é? Apago a velha?
- Neguinho. Tô falando com quem, caralho? Falei, va-mo-ne-ssa, porra! Tá vendo não, pivete, que a dona aí não tá com nada? Nem percebendo o que acontece.
- Sei não, bicho, periga cair em cana causa duma dona dessas. Posso usar a faca. Rapidinho. Sem barulho, nem nada.
- Olh’aqui, neguinho. Quem manda nesta merda? Tamo junto nessa, ou não? Que foi que eu falei?
- Tá limpo. Fica puto, não, Líder. Tá legal. Só não entendo as firula por causa duma dessas’aí. Pô, nem estrupo, nem nada? Assim, sem lucro. Eu tó na maior pendura, cara. Afim de comer a velha. Tu não, Gordo?
- Até comia.
- Tá vendo? O Gordo tá comigo.
- Tu também, Gordo? Puta que o pariu!
- Que "comia". Não que "matava".
- É rebelião dos pentelhos, é? Olh’aqui, se a gente comê a muiê, aí é que piora. Se deixar queto, vai dedar o quê? Se ela chamá os tira, vão até gozar na cara dela. Sacaram? Fica o dito pelo não dito. Só o susto e a corrida. Ninguém aprontou nenhuma. E tu, sua merda, fica de olho fechado que não mandei abrir! Tá querendo morré?
- Tá sim. Tá provocando.
- Tetão tem aí a velhinha, heim? Deixa passá a mão.
- Tá legal, se quiser comê, come. Eu tó fora e me evadindo do local. Noite de merda! Puta que os parió!
- Quanto fuzuê por uma dona dessas, porra. Tem coisa que nintendo que se passa na cachola desse cara.
- Passa, neguinho babaca, que eu bolei a jogada e a bola é minha. Tá ligado? Por que é de lei homem se vingar d’uma filha da puta que te mete os corno com teu pai, enquanto a gente tá dormindo no xilindró. Não vim cá pra matar gente que nunca vi, neguinho. Saco cheio dessa merda. Tá ligado? Então? Já falei. Tó em curso. Adiós, galera. Os moleque façam o que quisé com a dona. Se estupra, mata, é com vocês. Nem conheço a banda. Indo!
- Onde cê vai? Caralho, cara chato! Peraí, Líder, só uma trepadinha, cinco minutinhos. Três! Só isso. Não é mais pra sangrar, não! Né, Gordo? Vá lá, fala com ele.
- Eu não. Vai tu.
- Gordo bundão!
- Não enche o saco, neguinho. Pega logo na velha e vamo’nessa.
- Começa aí, vai, Gordo. Eu seguro o bagulho.
- Depois de tu.
- Gordo bundão! Até parece veado.
- Tu é cú mesmo, heim, baixinho! Dando onda e depois fica enchendo. Fôda-se! Tá ligado? Come sozinho a velha.
- Ué! Vai embora, Gordo? Peraí, galera! Porra, assim num dá. Vou comê a muié sozinho? E qual a graça? Quem vai segurar o bagulho? Volta aqui Gordo puto! São uns veados. Saco! E a culpa é tua, velha filha da puta! Posso te cortar, se eu quiser, tá sabendo? Aquele panaca não t’aqui pra te defender, velha escrota. Tá sabendo? Vai se preparando que vô te comê. Se abrí a porra desses olho, aí que tu vai conhecé quem te mata. Sem um pio, sarnenta! Vá logo com isso! Levanta as sáia e tira as calcinha. Vira aí, bota as mão na parede e põe o rabo pra fora. Abre essa bunda. Aííí, bundão gostoso tem a velha. E grita não, putona! Olha aqui a faca. Isso, assim mesmo que gosto. Gemer pode, que eu gosto, mas baixinho. Gostoso. Tá gostando, puta? Diz que sim! Se mexe, bruxa! Assim, assim que vou gozar. Vou gozar. Tô gozando, putona. Ah, coisada boa! Ah! Ei, essa é minha faca! Me dá ela aqui, velha escrota. Ai, caráio! Viu o que fez? Olh’aqui, tu me cortou a feize! Xi, vou te matar, filha da. Ai, porra, que tá fazendo? Ai! Mas. Peraí, velha! Pára com isso. Não empurra! Ei, tu me derrubou, sua vaca! Quer me matar, velha louca? Me dá essa faca que te perdôo, vai. Ai, minha mão! Que é isso, dona, cortou os dedo! Sai de cima de mim, filha d’égua! Sai! Ai! Galera! Gordo! Acode que a louca tá me matando! Ai! Mas. Mas, que merda. Pára, muié. Pára com isso, porra! Pirou. Ai, abre a porra desses olhos pra tu ver. O sangue no peito! Olh’aqui! Tá vendo? Ai, não tá vendo que. Que. Que tá me matando. Pára. Louca. Velha. Mãaaaae!
Ela levantou e jogou a faca sobre o corpo ainda estertorante.
- E, velha, é essa filha da puta de tua mãe, neguinho escroto!
Depois de se arrumar e chutar na cara do morto, saiu do casebre. Limpou o sangue dos sapatos mergulhando os pés numa poça de água. Quando chegou em casa, o primeiro que fez foi olhar-se no espelho.
- Velha, eu heim? Ainda dá pro gasto, viu? Moleque safado. Tsc!
0

terça-feira, 14 de novembro de 2017


A mulher estava sentada em uma cadeira de praia debaixo de um guarda-sol. Usava óculos escuros e lia um romance.

Apareceu um homem em sua frente e começou a encará-la.

- Posso ajudar?

Ele continuou encarando.

De repente ele pegou o livro de suas mãos.

- Por que você fica aí, enfurnada nesse livro, de óculos escuros e chapéu de palha, longe de tudo e de todos quando estamos todos aqui, querendo um pouquinho de conexão humana? Por quê?

Ela ficou assustada. Levantou-se e tentou pegar o livro da mão do desconhecido.

- Mas que... Me dá isso aqui!

- Vai ler no banheiro, que é quando não tem ninguém, só você e a privada. É o que eu faço. É o que toda pessoa em sã consciência deveria fazer.

Ele teve um acesso de raiva. Rasgou o livro em dois. Atirou uma metade no mar. Jogou outra para cima, que caiu em cima de sua cabeça.

O homem desmoronou no chão com o impacto da metade do livro em sua cabeça. Começou a gritar e chorar no chão. A mulher ficou sem reação. Não sabia se fugia por conta das outras pessoas que agora estavam olhando para eles e aglomerando-se para ver o que estava acontecendo, se tentava ajudá-lo a se levantar ou se gritava com ele por ter rasgado seu livro.

- Moço? Moço, cê tá bem?

Ele estava agora só chorando. Parara de gritar e espernear.

Muito lentamente ele se levantou enxugando os olhos. Virou-se para a mulher com um olhar triste. Começou a chorar de novo.

- Fala alguma coisa que eu possa fazer, pelo amor de Deus.

- Nada, não tem nada.

As pessoas começaram a se dispersar.

- O Joca morre no final – disse e deu uma baita de uma risada.

Virou-se e começou a correr.

- Filho da puta! Vem aqui que você vai ver! – ela começou a correr atrás do desgraçado, mas ele era muito rápido e ela se cansou logo.

Voltou para seu guarda-sol. Pegou a metade do livro que estava na areia. Era a segunda metade. Já tinha lido a primeira. Pelo menos isso.


Conto de Lucas Beça
0

Arquivo do blog