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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Flagrante de Madame Magda numa pausa de folgedos
eróticos na sua mansão, 
enquanto o carnaval explodia na Av. Paulista.


E virou jardineiro dos bons. Meio sem graça na terra dos outros. Então cismou, queria um pedaço de terra para ele. Qualquer pedaço. O mundo era grande. Alguma devia ter por aí, esperando por ele.
Aí, então... então apareceu Madame num domingo de Carnaval. Que fruta rara! Lindura maior nunca vira, maior que o alvoroço dos aviões no céu. Brilhavam os olhos verdes igual alface até mais que o metal voador ao sol. Sinhá olhava ele parecendo querer abocanhar. Assim que ficou claro o que ela queria, ia negacear? Sem mais porquês foi atrás dela com a roupa do corpo: o uniforme de jardineiro. Uniforme! Uniforme era sinal de obediência cega ao que dá na telha dos mandantes, coisa prometida nunca mais. Verdade que agora obedecia - assim, por dizer - aos gostos da lady, mas de forma diferente. Neste caso foi mais cômodo obedecer. Eram desfrutes divertidos. Ela o mimava com presentes e borós que ele não gastava em besteiras, não. Guardava direitinho até virarem contos. Dia viria e estaria pronto para comprar sua terrinha. Só dele e das verduras, plantas. Algumas galinhas, bichos variados... um sítio, assim o chamego com a lady terminar. Terminar? Lembrou o verso que roubou dela: "regaço sólido que sacia quente / minha doce febre. / Pelo e pele / solidez incauta / balanço e aconchego / de meus peitos". Aquele namoro não estava ficando chameguento demais? Tem ditado que diz amor demais enjoa, como o alimento mais gostoso embrulha o estômago, quando comido sem moderação.
Será mesmo, crioulo?
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(Extraído do romance 'A Cena Muda' - Copyright Miguelaf)
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terça-feira, 21 de novembro de 2017


Ele entra em uma padaria. Senta-se em um dos bancos encostados no balcão. Uma atendente aproxima-se dele. A padaria está meio vazia, apenas com algumas pessoas na fila do pão e dois homens comendo pão na chapa e café com leite.

“Olá. O que gostaria?”

“Eu quero um copo de chá gelado e o sanduíche de bacon mais gorduroso que você tiver. E um suco de laranja também, por favor.”

“Tudo bem, já volto.”

Ele agradece e fica ali sentado, observando as outras pessoas.


Alguns minutos depois. A atendente volta com o prato com o X-bacon em uma mão e o chá na outra.

“Aqui está.”

“Ah, parece ótimo. E se você preparou aposto que está delicioso.”

“Você tem que provar primeiro.”

Ele pega alguns guardanapos do suporte.

“Está tendo um bom dia, posso ver... Tão sorridente.”

“Bom, eu tenho que estar. Consegui esse emprego umas semanas atrás, minha vida está voltando ao normal...”

“Mas é o suficiente?”

“Bom, sim. Por enquanto.”, ela hesita por um momento. “E quanto a você?”

“Por enquanto eu tenho esse X-bacon aqui.”

Ela ri. Ele pega o sanduíche e dá uma mordida. Depois de engolir ele sorri para ela.

“Está muito bom. Você tem talento.”

“Obrigada, mas não é tão difícil”

Ficam em silêncio por um tempo.

“Então... É novo na cidade?”

“Por que diz isso?”

“Ah, sei lá, não parece daqui.”

“É, sou sim, sabe... Estou à negócios.”

“Humm...”, Ela entrega a comanda e enche um copo de suco de laranja da máquina. “Aqui está. Qualquer coisa é só chamar.”

“Obrigado.”

Ela vai atender outra pessoa que acabava de chegar ao balcão do outro lado. Ele começa a comer novamente.

Ao terminar, bebe o último gole do suco e tira uma caneta do bolso. Escreve no guardanapo. Pega a comanda e vai em direção ao caixa.

Ela o vê pagar e ir embora. Ao aproximar-se para pegar o prato e os copos vê o guardanapo. Vê que há algo está escrito nele. Ela sorri e o guarda.


Conto de Lucas Beça
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Conto de Gustavo do Carmo


Entre lágrimas e soluços, a novela mexicana se desenrolava na televisão. A mocinha loura, de vestido florido, vaticinava com a maquiagem borrada pelo choro:

“Rodrigo Augusto: Fernando Eduardo não é seu filho!”

“O quê?!?!?!”

Espantou-se o personagem típico dessas produções do país latino, aos gritos, que foram quase abafados pela trilha sonora de suspense. A câmera por pouco não bateu em seu rosto redondo com cabelos grisalhos, topete e fino bigode no rosto:

“Fernando Eduardo é filho de Miguel Antônio”
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quinta-feira, 16 de novembro de 2017


João Paulo Mesquita Simões










A Biblioteca Joanina foi construída entre os anos 1717 e 1728 e é um dos expoentes máximos do barroco português. O seu nome surge em honra e memória do Rei D. João V (1707-1750), que patrocinou a sua construção e cujo retrato, da autoria de Domenico Duprà (1725), ocupa um local de destaque no espaço.

Situa-se numa das universidades mais antigas da Europa, senão a mais antiga: a Universidade de Coimbra.

Para comemorar os seus 300 anos de existência, os CTT Correios de Portugal, emitiram dois selos, lançados em 25 de outubro, com os valores faciais de 0,50€ e uma tiragem de 125 000 exemplares e outro com o valor facial de 1,00€ e uma tiragem de 115 000 exemplares. Os selos têm o formato de 80 X 30,6 mm e o design esteve a cargo de B2 Design.

Um dos selos desta emissão mostra-nos diversos pormenores desta biblioteca da Universidade de Coimbra, entre eles: a vista geral da sala 2 da biblioteca (lado norte) através de uma fotografia de Paulo Mendes; uma Bíblia Hebraica, dita “Bíblia de Abravanel”, da segunda metade do século XV; a folha 6 (salmos iniciais), parte do acervo da Biblioteca Joanina; a bíblia “atlântica” do século XIII, num pormenor da folha 2 do Livro da Sabedoria; e uma carta de fidalguia manuscrita e iluminada do licenciado Prado de Vivar Vecino de Griñon, de 13 de agosto de 1569.
O outro selo apresenta a estante, da autoria de Gaspar Ferreira e Manuel da Silva; também a Bíblia Hebraica, dita «Bíblia de Abravanel», mas desta feita a folha 384v (decorações micrográficas finais); um pormenor da coroa sobre o «emblema» da Teologia, na Sala 3 da Biblioteca, da autoria de Gaspar Ferreira (talha) e Manuel da Silva (douradura); e a Bíblia «atlântica» (atrib. Estrasburgo, séc. XII), Tábuas dos Cânones Evangélicos.
Segundo os CTT, esta emissão filatélica celebra “o património cultural e arquitetónico de Portugal e levam-no além-fronteiras, através daquela que já por várias vezes tem sido apontada por organismos nacionais e internacionais como a «biblioteca mais bela do mundo»”.



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quarta-feira, 15 de novembro de 2017


Conto de Miguel Angel Fernandez (1948-2017)

Foram três os que saíram de repente da escuridão da obra em construção e dois a agarraram. O terceiro andava na frente, reconduzindo-os até o abandonado casebre do vigia. Mão na sua boca; voando entre os braços deles; fechou os olhos; permaneceu com eles fechados, mesmo quando voltou a sentir o chão sob os pés, e o calor da luz de uma vela sobre seu rosto.
- Babacas! Não é ela! Puta que o parió!
- Tem certeza?
- Tá me gozando? Não conheço a pilantra? Isso que dá junta de pentelhos.
- Merda, cara! Fazê o quê agora?
- Manda a dona embora, moleque.
- Pra caguetar a gente? Se reconhecé depois?
- Fazê o que, neguinho? Já fodeu. Vai matá?
- Sei lá. Por aí.
- Xápralá, vai. Melhor abandoná o campo e dá o fora.
- Quem garante que a velha não vai dá a ficha da gente?
- Ela vai? Aí, dona. Nem abre os olhos. Tá vendo alguém? Não, tá certo? É assim que vai ser. Não viu nem aconteceu nada, tá bom? Simbora, pentelhinhos, deixa ela aí.
- E a pistoleira? Se ainda aparecer?
- Fóda-se. Outro dia. Por hoje chega, mermão. Sujou. Fechou o expediente. Vamo’nessa.
- Tonce. Como é que é? Apago a velha?
- Neguinho. Tô falando com quem, caralho? Falei, va-mo-ne-ssa, porra! Tá vendo não, pivete, que a dona aí não tá com nada? Nem percebendo o que acontece.
- Sei não, bicho, periga cair em cana causa duma dona dessas. Posso usar a faca. Rapidinho. Sem barulho, nem nada.
- Olh’aqui, neguinho. Quem manda nesta merda? Tamo junto nessa, ou não? Que foi que eu falei?
- Tá limpo. Fica puto, não, Líder. Tá legal. Só não entendo as firula por causa duma dessas’aí. Pô, nem estrupo, nem nada? Assim, sem lucro. Eu tó na maior pendura, cara. Afim de comer a velha. Tu não, Gordo?
- Até comia.
- Tá vendo? O Gordo tá comigo.
- Tu também, Gordo? Puta que o pariu!
- Que "comia". Não que "matava".
- É rebelião dos pentelhos, é? Olh’aqui, se a gente comê a muiê, aí é que piora. Se deixar queto, vai dedar o quê? Se ela chamá os tira, vão até gozar na cara dela. Sacaram? Fica o dito pelo não dito. Só o susto e a corrida. Ninguém aprontou nenhuma. E tu, sua merda, fica de olho fechado que não mandei abrir! Tá querendo morré?
- Tá sim. Tá provocando.
- Tetão tem aí a velhinha, heim? Deixa passá a mão.
- Tá legal, se quiser comê, come. Eu tó fora e me evadindo do local. Noite de merda! Puta que os parió!
- Quanto fuzuê por uma dona dessas, porra. Tem coisa que nintendo que se passa na cachola desse cara.
- Passa, neguinho babaca, que eu bolei a jogada e a bola é minha. Tá ligado? Por que é de lei homem se vingar d’uma filha da puta que te mete os corno com teu pai, enquanto a gente tá dormindo no xilindró. Não vim cá pra matar gente que nunca vi, neguinho. Saco cheio dessa merda. Tá ligado? Então? Já falei. Tó em curso. Adiós, galera. Os moleque façam o que quisé com a dona. Se estupra, mata, é com vocês. Nem conheço a banda. Indo!
- Onde cê vai? Caralho, cara chato! Peraí, Líder, só uma trepadinha, cinco minutinhos. Três! Só isso. Não é mais pra sangrar, não! Né, Gordo? Vá lá, fala com ele.
- Eu não. Vai tu.
- Gordo bundão!
- Não enche o saco, neguinho. Pega logo na velha e vamo’nessa.
- Começa aí, vai, Gordo. Eu seguro o bagulho.
- Depois de tu.
- Gordo bundão! Até parece veado.
- Tu é cú mesmo, heim, baixinho! Dando onda e depois fica enchendo. Fôda-se! Tá ligado? Come sozinho a velha.
- Ué! Vai embora, Gordo? Peraí, galera! Porra, assim num dá. Vou comê a muié sozinho? E qual a graça? Quem vai segurar o bagulho? Volta aqui Gordo puto! São uns veados. Saco! E a culpa é tua, velha filha da puta! Posso te cortar, se eu quiser, tá sabendo? Aquele panaca não t’aqui pra te defender, velha escrota. Tá sabendo? Vai se preparando que vô te comê. Se abrí a porra desses olho, aí que tu vai conhecé quem te mata. Sem um pio, sarnenta! Vá logo com isso! Levanta as sáia e tira as calcinha. Vira aí, bota as mão na parede e põe o rabo pra fora. Abre essa bunda. Aííí, bundão gostoso tem a velha. E grita não, putona! Olha aqui a faca. Isso, assim mesmo que gosto. Gemer pode, que eu gosto, mas baixinho. Gostoso. Tá gostando, puta? Diz que sim! Se mexe, bruxa! Assim, assim que vou gozar. Vou gozar. Tô gozando, putona. Ah, coisada boa! Ah! Ei, essa é minha faca! Me dá ela aqui, velha escrota. Ai, caráio! Viu o que fez? Olh’aqui, tu me cortou a feize! Xi, vou te matar, filha da. Ai, porra, que tá fazendo? Ai! Mas. Peraí, velha! Pára com isso. Não empurra! Ei, tu me derrubou, sua vaca! Quer me matar, velha louca? Me dá essa faca que te perdôo, vai. Ai, minha mão! Que é isso, dona, cortou os dedo! Sai de cima de mim, filha d’égua! Sai! Ai! Galera! Gordo! Acode que a louca tá me matando! Ai! Mas. Mas, que merda. Pára, muié. Pára com isso, porra! Pirou. Ai, abre a porra desses olhos pra tu ver. O sangue no peito! Olh’aqui! Tá vendo? Ai, não tá vendo que. Que. Que tá me matando. Pára. Louca. Velha. Mãaaaae!
Ela levantou e jogou a faca sobre o corpo ainda estertorante.
- E, velha, é essa filha da puta de tua mãe, neguinho escroto!
Depois de se arrumar e chutar na cara do morto, saiu do casebre. Limpou o sangue dos sapatos mergulhando os pés numa poça de água. Quando chegou em casa, o primeiro que fez foi olhar-se no espelho.
- Velha, eu heim? Ainda dá pro gasto, viu? Moleque safado. Tsc!
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terça-feira, 14 de novembro de 2017


A mulher estava sentada em uma cadeira de praia debaixo de um guarda-sol. Usava óculos escuros e lia um romance.

Apareceu um homem em sua frente e começou a encará-la.

- Posso ajudar?

Ele continuou encarando.

De repente ele pegou o livro de suas mãos.

- Por que você fica aí, enfurnada nesse livro, de óculos escuros e chapéu de palha, longe de tudo e de todos quando estamos todos aqui, querendo um pouquinho de conexão humana? Por quê?

Ela ficou assustada. Levantou-se e tentou pegar o livro da mão do desconhecido.

- Mas que... Me dá isso aqui!

- Vai ler no banheiro, que é quando não tem ninguém, só você e a privada. É o que eu faço. É o que toda pessoa em sã consciência deveria fazer.

Ele teve um acesso de raiva. Rasgou o livro em dois. Atirou uma metade no mar. Jogou outra para cima, que caiu em cima de sua cabeça.

O homem desmoronou no chão com o impacto da metade do livro em sua cabeça. Começou a gritar e chorar no chão. A mulher ficou sem reação. Não sabia se fugia por conta das outras pessoas que agora estavam olhando para eles e aglomerando-se para ver o que estava acontecendo, se tentava ajudá-lo a se levantar ou se gritava com ele por ter rasgado seu livro.

- Moço? Moço, cê tá bem?

Ele estava agora só chorando. Parara de gritar e espernear.

Muito lentamente ele se levantou enxugando os olhos. Virou-se para a mulher com um olhar triste. Começou a chorar de novo.

- Fala alguma coisa que eu possa fazer, pelo amor de Deus.

- Nada, não tem nada.

As pessoas começaram a se dispersar.

- O Joca morre no final – disse e deu uma baita de uma risada.

Virou-se e começou a correr.

- Filho da puta! Vem aqui que você vai ver! – ela começou a correr atrás do desgraçado, mas ele era muito rápido e ela se cansou logo.

Voltou para seu guarda-sol. Pegou a metade do livro que estava na areia. Era a segunda metade. Já tinha lido a primeira. Pelo menos isso.


Conto de Lucas Beça
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segunda-feira, 13 de novembro de 2017


Microcontos de Gustavo do Carmo



Bom pra tosse
— Você vai ver o que é bom pra tosse. Disse o médico, procurando um remédio na sua farmácia para o paciente que não parava de tossir.


Acordado
Acordou pra Vida. Ela precisava lhe dar um remédio. 

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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

João Paulo Mesquita Simões







Foi com grande pesar que todos nós recebemos a notícia inesperada do falecimento de Miguel Angel Fernandez.

Foi através dele, que comecei a escrever neste blogue. Além disso, e porque a virtualidade é o oposto da realidade, o Miguel não era só mais um amigo virtual. O Miguel, entrou em minha casa pela Internet, via então MSN, onde, juntamente com sua esposa, cantaram, tocaram para minha filha, na altura com 4 anos.

Depois, veio a "Cena Muda", "As Moscas", romances que acompanhei, que o Miguel me ia enviando por e-mail e que até me chegou a enviar ["A Cena Muda"] com uma bela dedicatória.

Foi um choque para mim, receber aquela notícia. Ainda poucas semanas antes, tínhamos trocado e-mails.

Guardo num dossier, todos os poemas, prosas, e pensamentos de Miguel Angel Fernandez. Será essa a minha mais pura recordação daquele escritor, poeta, dramaturgo, "homem dos sete ofícios", como eu lhe chamava! E que ele sabia que eu o tinha, para quando se proporcionasse a vinda dele a Portugal, "ver esse dossier que você tem", como ele muita vez me dizia, passarmos um bom bocado de umas férias que nunca chegaram a acontecer

Perdeu-se um homem da Cultura Argentina e Brasileira. Perdeu-se um homem bom.

Todos nós ficámos mais pobres e o "Tudo Cultural" também, embora ele já aqui não publicasse.

Foi a primeira vez que este blogue perdeu alguém para todo o sempre.

Descansa em paz, Miguel! 
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quarta-feira, 8 de novembro de 2017


Por Miguel Angel Fernandez - in memorian

Da primeira vez que falou, alguém gritou: "Pára com esse berreiro, garoto!"
Da segunda vez disse alguma coisa, e ouviu gritarem: "Vai pra escola e aprende a falar, moleque!"
Depois, toda vez que falava, ouvia dos outros:
"Que tá falando menino? Cala a boca que é muito criança!"
Então trocou palavras por assobio:
Logo de madrugada na ponta do bico, o assobio despertava com ele.
"Pára, que não ouço o galo cantar!" - a mãe no quarto.
E o papagaio, ciumento cordial, imitava no bico, tentando o assobio.
"Pára, que vai confundir o coitado" - a mãe na cozinha.
Ela dizia o tempo todo: "menino, pára que vai chamar as galinhas"
Mas o garoto não queria parar. No assobio, o cantar e o falar.
Se perguntar, ele respondia com assobio.
Se cantarem, ele, assobiante, a acompanhar.
Se pensar, nem pensar!
Que o ressabio confundia o assobio. "Menino pára com esse ruído que não ouço o leite a ferver!"
Mas que biquinho magoado é esse na boca do constante assobiador?
"Mas o assobio não era um pequeno vento com música?" - pensava o menino.
Vento pequeno traz tempestade.
E a mãe gritava tempestade:
"Menino, pára com isso e fala!"
Para quê, se assobiando falava melhor?
"Que algazarra! Sai já daqui!"
Então pegou desgosto, pegou assobio que ninguém gostava, e foi-se embora!

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terça-feira, 7 de novembro de 2017


Ele não estava apaixonado por ela. Não se permitia deixá-la saber o porquê de continuarem juntos naquele apartamento. Talvez ele nem saiba. Ainda.


A senhora saiu do apartamento e ficou paralisada. Não sabia o que estava fazendo ali. Quem era. Onde estava. Apenas ficou ali. Parada. Desesperada por dentro.


O homem deixou sua mulher na porta da academia e foi trabalhar. Ao voltar para casa deparou-se com sua vizinha parada, olhando para o nada, em cima do capacho. Ao passar pela vizinha disse um boa noite baixinho de praxe e entrou em seu apartamento.


“Nossa amor, para de ser tão insensível. Ela era uma mulher tão bacana. Coitada.”

“Tá, então me diga: quantas vezes você conversou com ela nesse tempo todo que você tá morando aqui?”

“Ah... Eu não sei, não sei. Mas isso não é importante. Não deviam ter internado ela. Coitada...”


Subiam no elevador.

A loira do último andar o olhou com segundas intenções.

“Oi.”

“Oi”, ele respondeu.

Ele olhou para cima, como todos quando estão dentro de um elevador.


“Acabou o café.”

“Foda-se”, disse ele.

A mulher arregalou os olhos.

“C-c-como é que é...?”

“É isso aí. Tô pouco me fodendo pra porra do café.”


Brigaram. Ela o expulsou de casa. Ele entrou num bar e pediu uma caixa de cerveja. Enquanto ele tomava a primeira, as outras foram perdendo o gelo.


Não implorou para voltar.


Bateu na porta da loira. Ela atendeu.


Em todos os anos em que os três moraram no mesmo prédio, encontraram-se no elevador apenas três vezes. Mas todas as vezes que um deles apertava o botão, torciam para que os outros dois não estivessem lá dentro.


A senhora nunca mais saiu do asilo. A ex-mulher nunca foi visitá-la, mesmo dizendo que iria.


Conto de Lucas Beça
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