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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Por Dudu oliva 


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quarta-feira, 20 de junho de 2018




Proprietária de novas olheiras profundas, eu fechei a porta atrás de mim e desci mais uma ladeira da vida.

Até enquanto eu lembro meu nome era Dalila, dado por Mainha e Painho por ser um nome bíblico, mesmo eles não conhecendo a história trágica de minha homônima. Sim, eu sei o que significa a palavra homônima. Sou pobre, não acéfala. Pois é, tá surpreso? Também conheço a palavra acéfala. Vai ser um pouco vergonhoso você ter que ir ver no dicionário. O que acontece é que desde cedo eu fui perdendo meu nome. Lila, foi como começaram a me chamar. Eu sempre me faço essa reflexão, pois se o nome é a primeira coisa que nos confere a individualidade, o que é de nós quando o tiram? Lila era o novo título ao qual eu deveria responder. E durante muito tempo era a esse nome que eu respondia, era por esse nome que me chamavam, até esse nome se amalgamar tanto à minha pessoa que antes de ser mulher eu era Lila.

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Mas, ao final daquele festivo período, o rumo do Dr. Garcia encontrou uma segunda e inesperada bifurcação iniciada por uma noticia curiosa, veiculada meses antes, que dava conta da descoberta de um asteróide batizado de “Letícia” pelos astrônomos. 
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terça-feira, 19 de junho de 2018



Vai logo. Corre. O tempo está passando. Não está percebendo? O tempo está passando. Tique-taque, tique-taque, tique-taque. Vai lá. Faça isso, faça aquilo. Tamo na correria, não é mesmo?

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segunda-feira, 18 de junho de 2018

Conto de Gustavo do Carmo
Publicado originalmente em 10/03/2014



Quando criança, Afrânio tinha medo do escuro e do bicho-papão. Entre os pavores reais estavam os bate-bolas no carnaval e as baratas. Dos três primeiros perdeu quando cresceu, mas ainda continua com medo dos insetos.

Na escola, tinha medo de ficar de castigo e tirar nota baixa, o que não deixava de acontecer. Quando tirava nota baixa, seus pais se recusavam a assinar o boletim. Ele ficava com medo de ser castigado por entregar o boletim sem assinatura e chegou  ao ponto de falsificar a do pai.
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quarta-feira, 13 de junho de 2018




Hoje completam 15 anos de casamento. Decidiram comemorar compartilhando gostos mútuos, algumas coisas que marcaram o início romântico de seu relacionamento, então estão num motel, na banheira de hidromassagem e do lado dela duas taças de champanhe com um prato cheio de azeitonas, presunto e queijo, o notebook está tocando Bach, Invenções de duas e três partes ao piano, sim, é por causa do filme O Silêncio dos Inocentes. Ambos tem uma queda pelo Dr. Lecter. Tudo teria de estar perfeito, afinal não é todo dia que um casal consegue superar os 7 anos de experiência e manter uma convivência estável por mais 8 anos.

Na banheira seus corpos são uma luta de músculos, um roçar de pele, uma sinfonia crua. Seus gemidos e gritos são animalescos, as expressões faciais são de um prazer orgástico. Uma fome mútua que, mesmo após tantos anos, segue acesa como uma chama no Olimpo. Seus corpos ainda possuem jovialidade, curvas atrativas, aromas atiçadores, sabores desejáveis. Após posições variadas, estocadas fortes, beijos famintos e uma gozada dentro dela de quatro, ambos se afastam lentamente, exaustos, corações acelerados, corpos úmidos numa solução de suor, água e gozo, os cérebros boiando em endorfina.

Ela posta as costas na parede da banheira, entrega a ele uma taça, a qual ele pega e se encosta do outro lado. Ofegantes, suas pernas em paralelo. Ela pega a outra taça e seus olhos se fixam na parede atrás dele, como se estivesse vendo uma tela que só ela consegue enxergar, como que hipnotizada e, num tom monótono, apático e mecânico, começa a falar. Suas palavras se desprendem de sua boca como que tecendo um enorme tapete, como uma aranha preparando uma complexa teia.

"Aconteceu ontem, depois das 15 horas, quando começou a chover e o céu pareceu desabar durante duas horas. Meu celular havia descarregado por ter deixado a Mara ficar jogando durante o almoço e nem eu via um táxi por perto nem podia pegar um Uber ou ligar pra você. Fiquei abrigada da chuva do lado de uma banca de revista, então vi um carro passando na rua que eu reconheci, mas não tinha como eu gritar porque a chuva caia com estrondo. O que eu não contava é que o motorista tinha me visto ali, escondida da tempestade, me reconheceu e estacionou perto, abrindo a porta do carona. Era o seu irmão. Entrei no carro sem vitória sobre a chuva, pois eu pingava como se estivesse derretendo. Parecia o dilúvio e eu entrava na arca. Rimos do meu estado e ele falou que antes de me deixar em casa precisava passar em um lugar pra pegar uma encomenda, não demoraria nem 5 minutos. A chuva continuava forte, pareciam pedras caindo do céu e batendo na lataria e nos vidros do carro. Os faróis de todo mundo estavam acesos e entramos na rua que dá pro parque. Enquanto conversávamos uma atmosfera foi se formando ao nosso redor, densa como o calor, capaz de ser tocada, como meus dedos desenhando no bafo impregnado do vidro da janela. Se instalou um silêncio palpável depois que falei do dia seguinte, 15 anos de casados. Então como se numa aquiescência telepática, ele entrou numa ruazinha que dá entrada no parque e estacionou perto de uma das árvores, naquele campo geralmente repleto de gente caminhando e se exercitando, mas que agora era dominado apenas pelos grossos pingos de chuva. Eu não estava pensando. E acho que nem ele. Creio que apenas cada um de nós respondeu a um comando interligado de nossos corpos, como um bocejo, incontrolável, delator, inesperado. Nos abraçamos e nos beijamos loucamente."

Ela continua olhando fixamente para a parede atrás dele, como em um transe, seus olhos quase não piscam e sua mão permanece segurando a taça no ar. Ele a ouve olhando para sua expressão impassível e seus olhos ardem, seu lábio inferior treme levemente enquanto ouve ela descrever tudo sem que seu rosto demonstre algum sentimento.

"Depois que ele tirou a camisa veio desabotoar minha blusa, enquanto eu abria o cinto e o zíper de sua calça. Nossas bocas permaneciam coladas enquanto nossas mãos trabalhavam. Um fraco suspiro escapou de minha boca quando ele esmagou um de meus seios e minha mão já sentia sua ereção quente. Nós trepamos ali mesmo, os corpos suando em enormes gotas e enevoando todo o carro. Era algo diferente que eu sentia. Meu coração não palpitava apenas por causa da violência com que ele me comia, mas por causa do quanto aquilo parecia errado e, por isso mesmo, delicioso. Sim, eu pensei em você enquanto ele metia em mim. Vocês tem o corpo parecido, então minha fantasia se realizava mais facilmente, mas o caso é que ele não era você. Por isso não poderia ser a mesma coisa. As palavras obscenas que eu sussurrava no ouvido dele eram justamente pra que ele percebesse que eu estava aberta a qualquer coisa, então eu me entreguei. Me entreguei como nunca me entreguei a você. Eu não te traia ali naquele momento, eu traia a mim mesma. E era isso que me excitava. Foi a primeira vez que um homem gozou na minha boca. Sim, ele conseguiu isso. Você em 15 anos não conseguiu. Não sei o que eu sinto sobre isso. Não sei o que você sente sobre isso. Acho que não importa, na verdade. Você e eu também nunca transamos no carro, né? Mais um ponto pro seu irmão. Não são seus pais que vivem dizendo que você se sai melhor em tudo, ao contrário do seu irmão? Gostaria de saber o que eles achariam disso. Quando terminamos não teve beijo de cinema, nem palavras melosas. Apenas vestimos nossas roupas, ele seguiu dirigindo, pegamos a encomenda e me deixou em casa. Em todo esse tempo o único barulho foi o da chuva violenta abafada dentro do carro. Não teve uma despedida nem uma conversa sobre o acontecido. Não havia necessidade. Não é que aquilo nunca tivesse acontecido entre nós, é só que não havia necessidade de comentar, como um entendimento mútuo. Você deve lembrar que quando entrei você estava fazendo café e eu te dei um longo beijo na boca. Aceitei a xícara e percebi que você estranhou quando eu não quis colocar as quatro colheres de açúcar que sempre o adoçam. Eu precisava beber o amargor. Acho que agora você precisa também."

É só o tempo de pousar a taça na beira da banheira, abaixar um pouco a cabeça, olhar para o próprio corpo nu e voltar a encarar a parede atrás dele, com a mesma expressão vazia como se fosse a própria parede que a colocasse em transe, e ela volta a falar.

"Sei que seu sangue está fervendo.
Sua mente está girando entre saber se odeia mais a mim ou ao seu irmão, sendo que a balança pode pender mais pro lado dele, já que você sabe, em todos esses anos, eu nunca te trai. Mas aí é que essa história continua, pois sim, de fato, essa é a primeira vez que te traio. Já você, bem, a história é outra, não é mesmo? Você pode achar que as mulheres podem ser enganadas facilmente, que elas não percebem detalhes aparentemente inúteis, que você, por ser homem, desfruta de uma vantagem intelectual superior e que eu, sendo mulher, tendo à emoção, emoção que leva a ilusões, enfim, criações da minha própria cabeça sobre você ter um caso com outra pessoa. Se tem uma coisa que eu aprendi nessa minha vida é que só uma coisa compete em nível à covardia de um homem: a sua ingenuidade. De fato parece uma ideia de gênio colar com fita um celular mantido constantemente no silencioso abaixo da gaveta de cintos, onde só você toca. Parece ainda mais genial receber WhatsApp de uma tal de Elena, quando há uma Elena no seu trabalho, lembrando do fato de que essa segunda tem mais de 60 anos. Parece mais genial ainda contratar uma babá com a metade da minha idade e depois a mandar embora porque o serviço dela não agradou a você. Mas o suprassumo da genialidade ainda reside no celular, que recebe chamadas de um cliente chamado Iris, ora, os pais do garoto escolheram esse nome pra ele e você por vezes precisa ir à casa dele pra fazer uns ajustes no servidor. Tudo estaria normal, pois realmente existem muitos homens chamados Iris, é só pesquisar no Google, mas fica difícil acreditar quando o Iris te manda uma foto pro celular colado abaixo da gaveta de cintos em que ele aparece mostrando uma buceta bem depilada, seguida de um vestido azul bem justo e decotado. Óbvio, o Google vai mostrar muito mais resultados de mulheres com esse nome e, com alguma sorte e um pouco de teimosia, até pode achar o endereço dela. Sim, eu fui lá, faz duas semanas. Mas não se preocupe, eu não fui fazer um escândalo. Sabe o que mais o Google te ajuda a encontrar? Deixa eu te dizer: 'Como satisfazer uma mulher?' Sabe, tem tutoriais, com imagens, com vídeos. Confesso que num primeiro momento eu tive vontade de vomitar, mas minha força de vontade foi maior. Entrando em contato com algumas pessoas mais íntimas dela, aposto que você nunca pensou nisso, eu descobri que ela tinha uma tendência ao lesbianismo, mas que tinha receio enorme de se assumir. Sim, é isso mesmo que você está pensando. Na metade da primeira semana que eu apareci lá na casa da Iris, eu a comi. Acho que esse seria o termo, né? Nos comemos, não sei ao certo. Enfim, eu atuei como uma lésbica inexperiente, mas ela ficou louca. Me orgulho disso? Não. Ou sim, já que pela sua cara você ficou chocado. Agora você deve estar entendendo a razão de ela pedir pra não a procurar mais nos últimos dias. Sim, eu sou apaixonante, mas na boa, eu prefiro homens (e, também não me orgulho disso, prefiro você). Então ela também levou um fora. Agora deve tá passando nessa sua cabecinha (falo da que tá acima do seu pescoço): 'Você tá mentindo pra mim. Você me traiu duas vezes e não uma.' Bem, devo te lembrar que te traí com um homem apenas uma vez. Não são vocês homens que tem tesão em ver duas mulheres juntas? Bem, não sei se isso conta se é com a sua amante, né? Aliás, a Elena, sua colega de trabalho de mais de 60 anos, curte ver vídeos de homens chupando o próprio pau. Loucura, né?"

Ela se estica para pegar na bolsa no chão um cigarro. Ele continua inerme, apenas olhando e ouvindo, um redemoinho de sensações lhe assaltando o corpo. As vibrações de Bach reverberam pela banheira. Ela acende o cigarro e prossegue.

"Agora eu vou te dizer o que vai acontecer. Nós ainda nos amamos, acredito, mas não gostamos mais um do outro. Não vamos querer começar o fingimento das novas relações, aprendendo a conviver com uma nova pessoa na cama, inventar novos carinhos, novos costumes, construir uma nova homeostase. No lugar de um recomeço, uma vida nova, vamos preferir uma vida imperfeita, essa que nós temos. O verme da desconfiança se instalou em nosso meio, permeia o passado, rasteja no nosso presente e se fará presente no futuro. Você sabe que eu tô falando sério. Talvez você esteja com o mesmo sentimento que eu. Não consigo sentir raiva, tristeza ou alguma agitação, mas apenas cansaço. Então as coisas a partir de hoje serão assim: durante um tempo eu vou acordar com uma parte fria da cama, pois você vai dormir no sofá. Teremos que experimentar esse tipo de amputação, talvez entendamos o quanto essa realidade é irreversível. Uma espécie de abandono. Nossa casa, por alguns dias, será preenchida por um silêncio denso, quase palpável, pois faremos um esforço titânico pra nos ignorarmos, mesmo enquanto eu preparar duas xícaras de café e te oferecer uma. Esse negrume interior nos próximos dias vai transbordar e se embrenhar pelas paredes como algo viscoso. Nossos pensamentos serão espíritos Invisíveis dançando ao nosso redor. Não é interessante como uma relação de anos parece tão frágil ao ser quebrada uma vez? Vamos pular a parte da briga, é desnecessário. Vamos ver se o tempo é o melhor remédio, realmente. Lembra quando dançamos pela primeira vez? Foi naquele aniversário de seu primo. Hoje vamos começar uma nova dança, meu amor. Cada um vai cuidar de seus afazeres, evitando se tocar, dando espaço pra a cortesia, se mantendo à distância, comendo em cômodos separados, mas conscientes da presença do outro, apenas oculta entre as paredes. Então talvez um dia, quando nossos dedos se tocarem enquanto eu lhe entrego uma caneca de café, possamos lembrar de que ainda nos amamos, mas mesmo aí haverá cautela, pois ainda é tudo frágil e pode quebrar de novo."


Hemerson Miranda

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Umberto Eco se pergunta: Que teria acontecido com os grandes clássicos se tivessem se submetido à máquina editorial moderna?

(Para uso exclusivo das editoras e seus funcionários assessores;o)



Homero
A ODISSÉIA

Pessoalmente, gosto do livro. A historia é bela, apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose certa de amor, de fidelidade e de escapadas adulterinas (muito boa a figura de Calipso, uma verdadeira devoradora de homens); tem, inclusive, um momento "à la Lolita", com uma garotinha chamada Nausicaa: ao longo do episódio, o autor se permite mais de uma ousadia, mas em nenhum momento incorre em excessos.
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terça-feira, 12 de junho de 2018



Não sei o nome do cemitério.

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segunda-feira, 11 de junho de 2018




Já está no You Tube, no canal da Del Picchia Filmes, o curta-metragem Diz a Lenda, baseado no conto Cantoria de Excelência, escrito por Marcos Mairton, cearense, juiz federal, escritor, músico e um dos colaboradores do blog de microcontos Umas Linhas, criado pelo colaborador do Tudo Cultural Lucas Beça e do qual eu também integro o time de autores, composto ainda por Magno Andrade, Zi Carloni e Cynthia Santana. 

Diz a Lenda é um curta-metragem ficcional, com uma pitada de humor nonsense do diretor, que traz como base um desafio de cordel ácido, bem humorado e por demais realista (apesar de se passar em um país fictício).


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Conto de Gustavo do Carmo

O casamento deles estava à beira do abismo. Faltava dar um passo à frente: o divórcio. Adelaide não aguentava mais a folga do marido Agenor. Ele não trabalhava. Perdera o emprego por causa da crise econômica. O jornal onde trabalhava fechou a editoria de automóveis. E nem pretendia procurar outro emprego. 

Ficava o dia inteiro em casa, vendo televisão e acessando a internet até de madrugada, sem ajudá-la na cozinha. Além de tudo isso, ele era frio com ela e quando o convidava para sair, dizia que não estava a fim. Mas dava umas saídas suspeitas, que para Adelaide, era para encontrar com a amante.
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