quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012


Gustavo do Carmo


Nasceu às oito e onze da manhã do dia 29 de fevereiro de 1976. Seu aniversário seria comemorado no dia 28 de fevereiro ou primeiro de março? Ou só faria aniversário nos anos bissextos? Esta foi a segunda dúvida que perseguiu Arnaldo Augusto na hora do nascimento do seu primeiro filho. A primeira, que durou até a hora do parto, já foi resolvida: nasceu um menino. A terceira foi escolher o nome da criança. Durante a gravidez, pensou em vários nomes masculinos e femininos: Rafael, Marcos, Ricardo, Roberto, Reynaldo, Ronaldo, Flavia, Luciana, Marcela, Mariana, Daniela... Como nasceu um menino, Arnaldo Augusto optou, pelo menos, em começar o nome com a letra R.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

João Paulo Mesquita Simões

Pergunta-me o Gustavo, se irei fazer folhetim com o meu livro (ainda na Editora) aqui no "Tudo Cultural".
Ainda não decidi. Aliás, vou deixar aqui à votação dos leitores deste Blogue, sobretudo para aqueles que leram o primeiro capítulo.
Acham que devo fazer folhetim, ou aguçar a curiosidade?
Aguardo os vossos comentários a esta postagem.
Mediante a votação procederei em conformidade.
No entanto, posso deixar aqui a sua sinopse.
O Teclas, é um jovem de 14 anos que vive no mundo das TIC, até se deparar com um site sobre selos.
Fala do assunto aos Pais, que o levam até ao Avô, grande coleccionador de selos.
O Teclas começa a aprender com o seu avô e começa a apreciar a Filatelia, começando ele mesmo a fazer a sua colecção. Expõe com o Avô e, mais tarde, já na escola e após os colegas terem visto a sua exposição, toda a turma se lança num projecto de um núcleo filatélico na escola do Teclas.
O Teclas faz a sua segunda exposição, primeira da sua turma.
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012


Ela saiu do prédio em direção ao seu carro e viu preso no limpador de pára-brisa um folheto que a principio não lhe chamou atenção e quase a fez amassar e jogar fora, mas a curiosidade ao ver o título foi maior. Estava escrito o seguinte:

Palestra Desmotivacional
Com o palestrante Henrique Castro
Venha conferir como suportar a vida neste mundo miserável.
Hoje às 20:00

O sorriso foi inevitável e ela abafou a boca para impedir uma gargalhada. Que conversa era aquela? Ela leu mais algumas vezes não acreditando no que estava escrito. A foto de um homem pensativo estava logo abaixo das palavras. Atrás estava escrito o endereço do local. Ela pensou novamente em se livrar daquilo, mas desistiu. Dirigiu até sua casa ainda com a mensagem do folheto na cabeça. Depois do jantar solitário ela olhou para o relógio. Faltavam 15 minutos para as 20 horas. Ela colocou as mão na cabeça não acreditando no que estava prestes a fazer. Sorriu pelo nariz, deu um salto do sofá e, pegando as chaves do carro, saiu em direção ao endereço no folheto.

Quando chegou ao local percebeu que a coisa realmente era séria. Um prédio suntuoso fora escolhido para a palestra. Havia algumas pessoas do lado de fora conversando. Ela passou por elas cumprimentando-as e entrou.

A sala era climatizada e um leve cheiro de eucalipto podia sentir-se no ar. Quase todos os assentos estavam ocupados por pessoas vestidas elegantemente, com ar de intelectuais, mas havia também pessoas vestidas normalmente com características normais. Pessoas de todas as idades e classes sociais podiam se ver ali.

Ela escolheu um lugar na segunda fileira. Sorriu para as pessoas próximas que lhe devolveram o cumprimento. O quadro era totalmente oposto ao que ela esperava. Pensava encontrar ali pessoas desesperadas e deprimidas, cada uma portando sua própria corda para o suicídio. A visão de pessoas felizes e falantes a deixou confusa e se perguntando se não estaria no lugar errado.

Após alguns instantes de espera todos se acomodaram educadamente e aguardaram. As luzes enfraqueceram um pouco e a luz do palco foi ficando amis intensa. Um homem surgiu por trás das cortinas. Era alto, usava óculos e tinha um ar de intelectual antigo. Ela sentiu certa atração pelos seus cabelos grisalhos e a forma como ele ajustava os óculos. Ele não cumprimentou os presentes, apenas começou seu discurso com uma voz solene.

- Nascemos derrotados e isso pode ser um choque para você esta noite, mas é a mais pura verdade. As pessoas se preocupam em vencer na vida, mas a derrota é nossa sorte desde que saímos do útero materno. Ao nascermos já estamos derrotados e a grande vitoriosa é a morte. Não importa quantos dias dure a batalha, a guerra já foi vencida por ela. A vida na verdade é uma luta eterna e inútil contra a morte. Todos os dias somos derrotados, pois quanto mais o tempo vai passando mais perto de nossa derrota final estamos chegando. O que as pessoas fazem então? Elas ocupam seu tempo tentando esquecer isso. Alienam-se com hobbies, com música, com livros, com qualquer coisa que os deixe esquecer-se da verdade. A verdade de que não importa o que façamos, já perdemos. A verdade de que nada faz sentido.

A palestra durou 1 hora e todos os presentes ouviam atentamente. Algumas vezes riam de algumas piadas que o palestrante dizia, outras vezes aplaudiam com fervor. Ao termino ele mostrou um livro que estava a venda chamado O Pensamento Crepuscular. Todos os exemplares foram vendidos e ela mesma comprou um. A data, horário e endereço da próxima palestra fora marcado e todos se mostraram dispostos a comparecer.

Ela voltou para o seu carro ao som dos cumprimentos das pessoas que estavam junto dela, sorrindo como se tivessem acabado de sair de uma verdadeira palestra motivacional. ela dirigia com a mente ainda na palestra. As palavras ressoavam em sua mente como verdades reveladoras. Ela não compreendia como ou porque, mas certamente esse fora o dia mais feliz de sua vida. O que não fazia sentido.

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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Por Gustavo do Carmo


Chamou um táxi. Estava nua. Não inteiramente, mas com o corpo pintado de dourado e um tapa-sexo. Vinha do sambódromo. Arrasada por ter prejudicado o desfile da sua escola de samba. Safrane Camargo desfilara como madrinha de bateria da Interesseiros da Cidade de Deus, uma escola do segundo grupo.
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sábado, 18 de fevereiro de 2012


Conto de Gustavo do Carmo



Quando criança, Fernandinho chorava de medo ao ver um bate-bola na rua. Se a turma de clóvis batesse forte a bexiga de plástico duro e colorido no chão, aí mesmo é que ele se desesperava. Pedia a mãe pra voltar para casa e ela o debochava, primeiro aos risos: “Deixa de ser bobo!”, mas depois perdia a paciência e esbravejava com o filho.

Preocupada com o medo do menino, a mãe de Fernandinho deixava o baile de carnaval no clube do bairro antes da hora. Para desespero da irmã mais velha de Fernando, que era obrigada a interromper o prazer de recolher todos os confetes que eram jogados no chão por outros foliões. Ela ia para os bailes com um saco na mão e voltava com dois. Mesmo saindo às pressas do clube, Fernandinho abria o berreiro quando encontrava um enorme bando de bate-bolas no caminho de volta para casa.

No ano seguinte, o medo de Fernandinho dos palhaços assustadores continuou. Já não ia ao clube, com medo de encontrá-los. Um dia, ao visitar a avó em Ramos, acompanhado do pai, encontrou mais um grupo deles.

Na segunda-feira de carnaval, voltava da casa da tia materna ao lado da mãe quando se assustou com uma dezena deles. Fernandinho não chorava mais à toa, mas neste dia se desesperou tanto, que ficou aos prantos e perdeu o ar de tanto soluçar. Desmaiou. O líder do grupo ficou tão preocupado que tirou a máscara e o acudiu. Acompanhou a sua mãe ao hospital onde o menino ficou em observação. Após melhorar, o rapaz, que aparentava ter uns vinte anos, ironizou, aos risos: — Você é a vergonha da nossa família! Em seguida, recolocou a máscara, reencontrou o seu grupo e voltou para a sua folia e seu anonimato.

Sim, Fernandinho se fantasiava todos os anos de bate-bola. Pedia à mãe uma fantasia diferente e uma máscara mais assustadora do que a outra a cada ano. O macacão de viscose era feito sempre pela tia do menino, irmã de sua mãe. A máscara comprada na Rua da Alfândega.

Mesmo com a máscara mais feia que usasse, Fernandinho ainda tinha medo dos seus irmãos de fantasia carnavalesca. Aparecia em muitas fotos com o rosto descoberto e chorando. O seu macacão colorido de bolinhas ou estrelinhas pretas mais parecia o de um palhaço. Se quisesse se fantasiar assim ou de pierrô, bastava pintar o rosto.

Depois de pagar o mico de ser socorrido por um bate-bola, Fernandinho perdeu o medo. Parou de se afligir. Descobriu que eles eram do bem. Só queriam se divertir. Fernandinho entrou na brincadeira. Cada vez que ouvia uma batida de bola, por mais forte que seja, ele desafiava.

O tempo passou. Fernandinho cresceu e se cansou de frequentar bailes carnavalescos no clube, que passou a proibir a entrada de máscaras, por causa da violência. Não achava graça em ir a um lugar em que não pudesse usá-la. Não gostava de dançar. Só queria mesmo era assustar. A festa perdeu o sentido. A irmã, também crescida, já não ia ao baile para recolher outros confetes e sim para dançar com as amigas, como toda adolescente.

Fernandinho, por sua vez, não tinha muitos amigos. Foi crescendo, mudando de níveis de escolaridade, fazendo e desfazendo amizades. Era muito tímido. Não gostava de sair com eles. Parou de se fantasiar e de brincar. Carnaval para ele, agora, só assistindo, pela televisão, aos desfiles das escolas de samba. A irmã se casou e mudou-se para a Inglaterra. Seus pais se transformaram em senhores cansados e desanimados.

Aos trinta anos, Fernando também já se desiludiu com os desfiles de escola de samba. Os quatro dias e meio de carnaval se transformaram em uma boa oportunidade de descanso e colocar o trabalho em dia, corrigindo a prova dos seus alunos da faculdade onde dá aula.

Cinco anos depois, foi tomado por um forte sentimento de nostalgia ao ver, pela janela, um grupo de bate-bolas passando na rua, na sexta-feira à noite. No sábado, amanheceu na Rua da Alfândega e comprou uma máscara de látex com uma figura de um monstro bem feio, uma bola preta, uma capa roxa e, também, um macacão grená com finas listras brancas. A tia que confeccionava os seus macacões de criança já havia morrido há muitos anos.  

Saiu fantasiado pelo centro da cidade no domingo de carnaval. Sentiu dois estalos fumegantes nas costas. Caiu abatido no asfalto ardente do verão carioca. O sangue lhe escorria por baixo da máscara. Já não ouvia mais um homem desvendar seu rosto pálido e comentar:

— Ô Catuaba, seu imbecil! Você acertou o cara errado. Este é um folião comum. Puta que pariu! Agora vai sujar pra gente! Vamo vazá!

— Foi mal, chefia.

Duas horas depois, o IML chegou para recolher o corpo e a polícia iniciar as investigações. O investigador dizia para o delegado:

— Tudo leva a crer que ele foi morto por engano.

— Sei não, mas esse cara não me é estranho. Disse o delegado, um quarentão gordo de cabelos grisalhos, camisa social com gravata, suspensório e coldre. Um figurino bem diferente daquele macacão de clóvis que vestia quando ajudou uma moça a levar o menino Fernandinho, que desmaiou de medo ao vê-lo e que era a vergonha da família. 
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

João Paulo Mesquita Simões

O Teclas é um adolescente de 14 anos, bastante inteligente e distraído.
Só vivia para uma coisa – A Internet! Era tão absorto pela net, que passava o dia a navegar por todos os sites de música, MSN para conversar com os amigos. Contudo, era um bom estudante, com muito boas notas.
Chamavam-lhe Teclas por passar tanto tempo agarrado ao computador. O seu verdadeiro nome era José Pedro, mas a família e amigos tratavam-no por Zeca.
Mas vamos continuar a chamar-lhe Teclas.
Um dia, o Teclas andava muito bem a navegar no seu computador a fazer uma pesquisa na Internet. Era para um trabalho para a escola.
A dada altura da sua pesquisa, apareceu-lhe um sítio com imagens de selos. O Teclas sabia o que eram selos, pois lá em casa de vez em quando, lá se recebia uma carta selada, mas nunca se tinha debruçado sobre aquele tema.
Percorreu o sítio, e foi fazendo as suas descobertas. Viu que muitas pessoas colecionavam selos, e que a esse hobbie se chamava Filatelia. Ficou intrigado com a descoberta, mas continuou a sua pesquisa para o trabalho da escola.
Nesse dia à noite, depois do jantar, o Teclas fechou-se no seu quarto, como era hábito nos adolescentes da sua idade. Pegou no telemóvel e, como tinha SMS grátis tal como os seus amigos, começou a enviar mensagens ao seu grupo de amigos.
- Zeca! Vem ajudar a levantar a mesa e depois vai estudar! – Disse-lhe a Mãe.
Não se obteve resposta.
- Zeca! Vem ajudar a levantar a mesa e depois vai estudar! – Repetiu a Mãe.

O Teclas continuava sem responder.
A Mãe dirigiu-se ao quarto dele, abriu a porta, e lá estava o nosso Teclas de fones nos ouvidos a ouvir música e a enviar SMS!

- Zeca! Não me ouviste chamar?

- Hã?!

- Ó Zeca! Vai levantar a mesa e depois vai estudar! – Pediu a Mãe.

Contrariado, o Teclas, lá desligou a música, e de telemóvel na mão, lá veio fazer o que a mãe lhe tinha mandado.

No dia seguinte lá na escola onde andava, o Teclas contou aos seus amigos a descoberta que tinha feito no dia anterior, enquanto andava a pesquisar para o seu trabalho.

Os amigos e colegas riram a bom rir!

- Ó Teclas! Voltaste à pré-história? – Perguntou o Cebola.

Chamavam-lhe o Cebola, porque a sua cabeça parecia de facto uma cebola. E como estes miúdos não deixam escapar nada, o Miguel ficou alcunhado de Cebola.

Todos riam do pobre Teclas. Envergonhado, afastou-se e ficou sossegado num canto do recreio sózinho.

- Ainda te mudamos a alcunha. Em vez de Teclas, passamos a chamar-te Pré-Histórico! – Disse a Andreia.

Risada geral.

Mas como o Teclas não era rapaz de ficar amuado, pois tinha uma personalidade forte, deixou-os falar e, sozinho no seu canto disse para si:

“Ainda vou saber o que é a Filatelia e fazer ver a esta gente que são uns incultos.”

Assim pensou, assim o fez!

Quando as aulas acabaram, correu para casa. Despachou-se a fazer os trabalhos de casa, lanchou e foi consultar a Enciclopédia lá de casa.

A Mãe, quando o viu de livro na mão sentado no sofá, espantou-se.

- Zeca, meu filho? Estás doente? A consultares um volume da enciclopédia, em vez de procurares na Internet?

- Mãe – Disse o Teclas – Isto é um caso de vida ou de morte!

A Mãe, como já lhe conhecia as manhas, nem respondeu. Virou costas e continuou o seu trabalho.

O Teclas leu, releu, consultou outros livros e, claro está, a sua internet.

À hora do jantar, o Teclas continuava agarrado ao computador, e só despertou quando o pai foi ao pé dele para o chamar para jantar e, ao mesmo tempo, aproveitar para ver o que o filho há tanto tempo fazia na Internet.

O pai era muito cauteloso com a Internet, sobretudo na idade que o filho atravessava. É que a Internet tem coisas boas e coisas más. Nunca era demais dar uma vista de olhos aos sítios por onde o Teclas andava e com quem falava lá no MSN.

Quando o pai viu que ele andava a pesquisar sites filatélicos, ficou espantado, mas não disse nada.

Chamou o filho para jantarem, e, quando estavam todos à mesa, o pai inquiriu:

- Então Zeca? Tens uma nova paixão?

- Eu? Porquê?

- Vais dedicar-te à Filatelia?

- Fiquei só curioso. É que ontem quando estava a pesquisar para o meu trabalho de História, apareceu-me uma página a falar dessa cena.

- Não é “cena”. Chama as coisas pelo nome. – Retorquiu a Mãe.

- “Tá bem” Mãe.

- Ó Zeca, pá! Fala português! – Exclamou o Pai.

- Ok! Mas vocês conhecem alguém que colecione selos?
Mas poquê esse interesse tão repentino? – Interrogou o Pai.

- É que lá na escola hoje, gozaram comigo quando contei o que tinha descoberto e quero-lhes dar uma lição de cultura.

- Hum! Estou a gostar de ouvir! – Exclamou a Mãe – Por isso andaste quase a tarde toda a consultar enciclopédias e a internet.

- Foi – Disse o Teclas.

- Bem, acho que tenho a solução para o teu problema. – Disse o Pai – Lá em casa do teu Avô, há uma grande colecção de selos feita por ele. Ninguém melhor do que ele para te explicar todo o processo por que passa o selo, a sua história, e mais! Pode ser que te venhas a interessar por esse hobbie tão cultural!

- Ó Pai, a sério? Não sabia que o Avô era coleccionador!

- Era eu da tua idade, e já ele coleccionava selos!

- Podemos lá ir no fim-de-semana?

- Claro!


Naquela manhã de Sábado, o Teclas e os seus pais, saíram de casa na zona da Mealhada até à Figueira da Foz onde moravam os avós do Teclas.

De cabelo espetado e louro, óculos redondos naquele semblante esguio, o Teclas, no seu corpo magro, vestia uma T-shirt preta com uma caveira na frente, umas calças de ganga coçadas e rasgadas e umas sapatilhas Adidas.

Munido do seu telemóvel, amigo inseparável e do seu Mp4, assim que entrou no carro, ligou o aparelho ao rádio, fazendo ecoar o batuque no seu interior.

- É fixe esta música, não é? – Perguntou o Teclas aos Pais.

- Zeca! Desliga isso! É insuportável! – Exclamou o Pai.

O Teclas, resignado, lá desligou o seu Mp4 do rádio do carro e enfiou os fones nos ouvidos e fez a viagem dentro do seu pequeno mundo.

Chegados à Figueira, aproveitaram o bom tempo para irem até à praia. O Teclas estava desejoso de ir para os Avós, pois queria que o Avô lhe ensinasse tudo sobre os selos.

Ao serão, e já depois de estarem bem instalados na casa dos Avós, o Teclas contou ao Avô o que se tinha passado naquela semana e a sua curiosidade pela Filatelia.

- Bem, Zeca. Se queres de facto saber como nasceu a Filatelia no Mundo, tens muito que ouvir! – Disse o avô.

- “Tá-se” bem! Podes começar. Não me importo de apanhar seca.

- Mas que linguagem Zeca! – Retorquiu o Avô. – Bem vou então contar-te como tudo começou. A sua descoberta deve-se ao inglês Rowland Hill, que foi o grande reformador postal.

Contam que este homem estava de passagem por uma pousada escocesa, quando o carteiro entrou e entregou uma carta à estalajadeira. Ela disse que não podia ficar com ela por custar dois xelins e ser pobre.

Ao ouvir isto, Rowland Hill, pagou os dois xelins ao carteiro, o que a mulher agradeceu, dizendo que tinha empregue mal o dinheiro, pois a carta era da família que vivia longe e, como cada um tinha escrito uma linha, e lhes conhecia a letra, sabia que estavam todos bem.

Hill pensou naquele caso e propôs uma taxa fixa e que os expeditores enviassem as suas cartas em pequenos envelopes que, com um bocadinho de cola a toda a volta, depois de humedecida, se aplicava. Mas esta ideia não foi bem aceite, achando o público aquilo ridículo. Os sacos foram então todos queimados, dando as pessoas valor só à etiqueta que os acompanhava.

Então, para ver o seu plano concretizado, Hill abriu um concurso entre artistas e homens da Ciência, tendo aparecido 2600 planos e 1000 desenhos. Como não ficou satisfeito com nenhum, esboçou ele mesmo um projecto com o perfil da Rainha Vitória tendo no topo a palavra Postage e em baixo a inscrição da taxa. Um gravador copiou o perfil da rainha e cunhou de uma medalha que já tinha sido feita em sua honra.

Era negro, e por isso se chamou Penny-Black e custava um dinheiro

Estava apresentado o primeiro selo do Mundo que circulou a partir de 1 de Maio de 1840. Estava também apresentado que viria a ser o mais potente sinal posto na mão de alguém.

O sucesso foi enorme em Inglaterra, que outros países lhe seguiram o exemplo. As máquinas não davam vazão perante tanta procura.

Presentemente calcula-se que em todo o Mundo circulem 50 biliões de selos. De entre eles, uns quatrocentos milhões não chegam aos serviços dos Coreios indo directamente para os álbuns dos coleccionadores.

- Que história bué da fixe! Então e como surgiram os selos portugueses?

- Os nossos selos surgiram uns anos mais tarde em 1852 e promulgados pela rainha D. Maria II. Mas só em Julho do ano seguinte saíu uma emissão de selos de D. Maria II idêntica à que tinha saído em Inglaterra – o mesmo perfil inspirado na rainha Vitória. O desenho foi confiado a um artista, Francisco Borba Freire, que segue os parâmetros combinadas e depois enviado para a gravação. Depois de feita e aprovada a gravura, é fabricada multiplicando assim as chapas da gravura em folhas de cinquenta ou cem unidades cada uma, sendo depois entregues à Casa da Moeda. O selo de D. Maria II não tem qualquer taxa, pois poderia circular em cartas de qualquer valor. Foi feita uma matriz muito maior do que o seu tamanho normal para ser retocada minuciosamente até ficar pronta. Exactamente como o Penny-Black.

- Amanhã conto-te mais sobre a Filatelia. Agora vou fazer companhia aos teus pais e à tua Avó, que daqui a pouco são horas de deitar.

Resignado, o Teclas, lá deixou o Avô ir ao encontro dos seus familiares. Viu um bocado de televisão, enviou e recebeu vários SMS e depois deitou-se.

Na manhã seguinte, o Teclas levantou-se por volta das onze horas. Foi o ultimo a levantar-se.

- Então rapaz? Adormeceste? – Perguntou o Avô – Olha que tenho umas coisas para te mostrar!

- O quê, Avô?

- Já não te lembras do nosso serão de ontem?

- Ya! Deixa-me só comer alguma coisa. “Tou” esfomeado!

- Quando estiveres pronto vai ter comigo ao escritório – disse o Avô.

Quando chegou perto do Avô, ficou admirado com tantas caixas, envelopes, folhas e álbuns repletos de selos.

- Isto que aqui vês é a minha colecção. Tenho aqui uma fortuna! Espero que alguém da família dê continuidade a isto.

- Fogo! Onde conseguiste tantos? Compraste?

- Alguns juntei, outros fui comprando até juntar aquilo que aqui vês.

- Que fixe! Como é que se começa uma cena dessas?

- Qual cena, Zeca?

- Essa de colecionar selos.

- Então não é cena nenhuma. É colecionar selos.

- Pronto! “Tá-se” bem!...

- Tu queres mesmo aprender a coleccionar? – Perguntou o Avô.

- Quero. “Sério” Avô.

- Então, vou-te ensinar como se começa uma colecção de selos.

Pacientemente, o Avô começou a explicar ao seu neto, como se iniciava uma colecção de selos.

- Primeiro, tens de ter uma ideia daquilo que pretendes coleccionar. Há quem coleccione só selos portugueses, há quem coleccione selos estrangeiros e quem coleccione temáticas.

- Os selos têm temas? – Perguntou o Teclas.

- Claro que sim! Podem-se fazer temas de animais, flora, barcos, automóveis... olha! O que tu quiseres!

- Altamentel! Achas que podia coleccionar carros? Adoro carros!

- Claro que sim. Mas primeiro tens de aprender como coleccionar.

- Então como é?

- Os selos podem ser coleccionados novos ou usados.

- Usados?

- Deixa-me explicar. Um selo novo é um selo que nunca circulou. Nunca foi posto numa carta e carimbado. Logo, tem mais valor. O selo usado é aquele que é comprado nos Correios, colado numa carta e enviado ao destinatário. É carimbado nos correios com uma marca do dia em que foi expedido. Expedido, quer dizer que saíu daquela estação dos CTT. Imagina. Eu resolvo escrever-te uma carta. Meto-a num sobrescrito ou envelope com a tua morada e o teu nome e coloco-lhe um selo. Ponho no marco do correio ou mesmo no Correio. Há hora da saída da correspondência, as cartas são todas carimbadas e seguem o seu destino.

E o Avô continua.

- Daí a dois dias, sensivelmente, tu recebes a minha carta em tua casa. Vês que o selo levou um carimbo. Circulou. É um selo usado. Portanto, a diferença entre um selo novo e um selo usado é que um circulou (de minha casa aqui na Figueira) para a tua lá para os lados da Mealhada. Esta é a primeira noção que deves reter sobre um selo usado e um selo novo.

- Porquê? Há mais?

- Há. Repara...

O Avô do Teclas percorre minuciosamente a sua colecção à procura de algo. O Teclas nem ousa perturbar o raciocínio silencioso do seu Avô.

- Ora aqui está o que procurava! – Exclama o Avô todo satisfeito.

- Vês estes dois selos?

- Ya.

- Que diferenças encontras?

O Teclas aproxima-se mais da secretária do Avô, debruçando-se para examinar bem as diferenças através dos seus óculos redondos.

- Hum... nada de especial!

- Ora vê bem – insistiu o Avô.

- São iguais, mas um tem uns riscos arredondados!

- Ora vês? E o que é que isso quer dizer?

- Sei lá! Não percebo nada disso! – Exclamou o Teclas.

- E isso quer dizer o quê?

- É aquela cena do novo e do usado?

- Exactamente. Mas sabes dizer qual é um e qual é o outro?

O Teclas coça a cabeça e franze o sobrolho.

- Coleccionar selos é complicado, já estou a ver!

- Não sejas preguiçoso, rapaz! Ora pensa um bocadinho naquela história que te acabei de contar.

- Olha, o que não tem nada deve ser novo e o outro é usado. É isso?

- Ah grande Zeca! Muito bem! – Exclamou o Avô – Então agora vamos ver quais são as outras diferenças entre eles.

- Um selo novo, tal como te disse nunca foi usado e tem por trás uma película de goma que depois de humedecida se cola ao sobrescrito.

- O meu Pai e a minha Mãe lambem-nos! – Exclama o Teclas dando gargalhadas.

- Há quem faça isso, há quem ponha um pouco de saliva no dedo e há quem ponha cola. Mas vamos ao que interessa.

O Teclas continuava a rir.

Pacientemente, o Avô esperou que ele parasse de rir para continuar a falar.

- Já riu tudo, o menino?

- Desculpa Avô. Mas a cena de lamber os selos deve ser saboroso – disse o Teclas ainda com mais gargalhadas.

- Não levas nada a sério. Aprende alguma coisa além dos telemóveis e dos computadores! – Disse o Avô com um ar já carrancudo.

- Eu estou a levar a sério e quero aprender. Mas fizeste-me rir ao falar na colagem dos selos.

- Vá lá! Acalma-te lá.

Depois de recomposto, o Teclas continuou a ouvir atentamente o que o Avô lhe dizia.

- Como eu estava a dizer, o selo é humedecido e colado no envelope. É carimbado lá nos Correios e segue o seu destino até à morada do seu receptor. Deixa de ser novo, para passar a ser um selo usado. Imaginemos agora que a pessoa que recebeu a carta em casa, era coleccioadora de selos. Essa pessoa abria o envelope, retirava a carta e, com uma tesoura, recortava o papel do envelope à volta do selo sem o danificar.

- Hum... interessante!

- Depois de ter vários selos nesta situação, o coleccionador pega num recipiente com água morna e coloca lá os selos para que se descolem sózinhos do papel. Depois de descolados, são limpos levemente com a ponta dos dedos para retirar o excesso de goma e postos a escorrer à borda do recipiente. Seguidamente, são colocados num papel mata-borrão, difícil hoje de encontrar, para ficarem bem secos. O seu aspecto depois de secos é meio enrolado. Então, colocam-se dentro de um livro grosso, uma lista telefónica por exemplo, até ficarem direitos. Passados uns dias, são retirados e passam por outro processo que te explico depois do almoço.

- Isto é altamente, Avô!

- É quê?

- Giro!

O Teclas estava entusiasmadíssimo com as explicações do Avô, e durante o almoço fartou-se de lhe fazer perguntas.

- Então, Zeca? Perguntou o Pai – Aprendeste muito esta manhã?

- Claro! O Avô é um fixolas! Acho que vou colecionar selos de automóveis.

- E já tens ideia como isso se faz? – Perguntou a Mãe.

- Mais ou menos. Mas o Avô vai-me ensinar. Não vais Avô?

- Claro que sim. – Disse o Avô sorrindo.

- Tens é de ter bem ciente aquilo que pretendes coleccionar e como. A partir daí, é usares a imaginação – continuou o Avô.

Depois do almoço, decidiram ir passear. O tempo convidava para um passeio à beira-mar, ao longo da Marginal.

O Teclas disse logo que não queria ir. Preferia ficar em casa com o Avô a aprender mais alguma coisa sobre a Filatelia, pois não se tinha esquecido de como tinha sido humilhado pelos colegas.

- Zeca! Vais obrigar o teu Avô a ficar em casa? – Retorquiu a Mãe.

- Deixa lá. Por acaso tenho que fazer. Tenho de organizar uma exposição. Se o Zeca quizer ficar, eu não me importo.

- Vais fazer uma exposição sobre quê, Avô?

- Sobre a história do selo português.

- Lá vou eu aprender mais umas coisas, não é?

- Se de facto queres ser filatelista a sério, tens de aprender!

- Ok, malta! Eu fico em casa com o Avô!

Os Pais e a Avó aprontaram-se e foram passear. O Teclas e o Avô, ficaram em casa, fechados no escritório, tendo como pano de fundo uma imensidão de caixas, classificadores, envelopes, selos espalhados pela secretária, que o avô estava a preparar para a sua exposição daí a uma semana.

- Tão velhinhos, estes selos! – Disse o Teclas.

- Mais velhos do que tu e do que eu, acreditas?

- Do que tu?

- Claro! Não te disse que o primeiro selo português datava de 1852?

- Ya. Tens de dar um desconto! Mas conta lá como apareceu cá essa cena do selo em Portugal.

- Foi em 1852 como já te disse. Mas um pouco de História não te fica nada mal saber. Sabes quem foi D. Maria II?

-Não.

- D. Maria II “nasceu num domingo de Ramos a quatro de Abril de 1819 em terras brasileiras. Seus pais, rei D. Pedro IV e sua mulher a arquiduquesa Leopoldina de Áustria, tiveram a sua primeira filha no Palácio da Boavista. Ali vivia a família real fugindo aos Franceses que tinham invadido o reino. (…) Não teve na pia baptismal mais do que um nome pomposo e um título, como se impunha à sua condição de futura rainha – Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Rafaela Gonzaga, princesa da Beira e do Grão-Pará(…).
Na quinta de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, Maria da Glória vai ter uma infância despreocupada e feliz, educada e muito amada pelas camareiras do palácio e pelos pais. Aos 7 anos, essa alegria é interrompida abruptamente com a morte da mãe. O pai será o seu grande amigo e protector (…). Estava-se no ano de 1822 e a nossa princesa contava com dois anos e meio quando nas margens do rio Ipiranga se dá o grito da independência do Brasil. Em Portugal morre entretanto D. João VI e seu filho, D. Pedro IV, residente no Brasil, vai ter de optar entre ser imperador do Brasil ou rei de Portugal.

Escolhe o Brasil e, em 1826, abdica do trono de Portugal, em nome da filha Maria, apenas com sete anos (…). Esta menina começa a pouco e pouco a aperceber que vai deixar de ser criança e que o seu destino lhe vai impor uma conduta diferente da das outras meninas da sua idade. Aos nove anos é mandada para a corte de Viena para ser educada pela avó materna, mulher de Francisco I(…).
Tem 15 anos quando sobe ao trono D. Maria II, 29º monarca português e a segunda rainha reinante da nossa História (…). O seu primeiro ministério, presidido pelo duque de Palmela, encontra a oposição das Câmaras. Mas, por agora e por motivos políticos, é prioritário que a rainha se case e dê um herdeiro ao País.

Às rainhas de Portugal estava vedado o casamento com estrangeiros e mesmo na Carta Constitucional de 1836 esse preceito ficara expresso. As Câmaras tiveram, pois, de reunir para autorizar que a rainha pudesse casar com um estrangeiro.

Dos diversos noivos que lhe estavam destinados, a madrasta vai-lhe escolher o seu próprio irmão. Fica decidido o casamento com Augusto de Leuchtenberg, neto de Maximiano da Baviera.

(…) O noivo morre dois meses depois. Ainda mal refeita do acontecimento, decidem casá-la de novo com Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo Constitucional (…).

Temos de admirar esta rainha que consegue manter a cabeça fria, com um povo em pé de guerra permanente e em casa com uma prole numerosa para educar.

Nos seus 19 anos de reinado, soube sempre ser rainha e mãe ao mesmo tempo, pois, em todas as crises políticas que o país atravessou, estava sempre D. Maria à espera de um filho e as obrigações como governante nunca foram descuradas por esse motivo (…). Se não tivesse sido uma rainha de pulso, não teria acabado o seu reinado já sem guerras civis e proporcionando aos seus filhos que foram reis, reinados com uma certa estabilidade (…).

No seu reinado, apesar das vicissitudes por que passou, houve tempo para o progresso. Em 1835, já fora estabelecido o ensino primário gratuito. Em 1836, por acção de Sá da Bandeira, é decretado o fim do tráfico de escravos nas colónias portuguesas a sul do Equador. O primeiro selo postal a circular em Portugal tinha a sua efígie em branco, moedas de ouro, prata e as primeiras de cobre (…).

A rainha tinha paixão pelo teatro, gosto esse que lhe ficara dos tempos vividos na corte de França.

Vai empenhar-se, apoiada por Garrett, para que se construa um teatro que será edificado no Rossio sobre as ruínas do Palácio da Inquisição – O teatro D. Maria II, segundo projecto de Fortunato Lodi. As obras vão decorrer entre 1842 e 1846. O tecto tinha pinturas de Columbano Bordalo Pinheiro que foram destruídas no incêndio de 1964 (…).

Em 1838, vai comprar o antigo convento dos monges de S. Jerónimo. O palácio começou a ser edificado em 1844. É o mais belo exemplar da arte romântica. Infelizmente D. Maria II não pode desfrutar muito deste local maravilhoso, visto que vem a morrer de parto a 15 de Novembro de 1853 (…).”

Nunca Rowland Hill pensou que a sua invenção corresse o mundo e tivesse tantos adeptos!

Por outro lado, o selo português - além de abordar os temas mais diversos, também é um múltiplo de arte, altamente apreciado em todo o mundo, designadamente por filatelistas dos quatro cantos do globo.

- Eia Avô! Tu sabes muita coisa! Onde aprendeste essa história toda da D. Maria?

- Sabes, Zeca. Devemos saber sempre um pouco de tudo. Como diz o ditado, “o saber não ocupa lugar”. E tu devias seguir este exemplo.

- Pois…

Os Pais e a Avó do Teclas chegaram entretanto e foi tempo para um breve lanche, as despedidas e o regresso a casa.

No dia seguinte era dia de trabalho.



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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


O Tudo Cultural tem duas novidades. Uma boa e uma ruim.

Começamos pela ruim. Nosso amigo Miguel Angel, colunista de todas as terças, que estava afastado, infelizmente, deixou a nossa equipe. Alegou problemas pessoais. A porta do blog continua aberta para ele.

Como a vida segue, precisei de um substituto e consegui mais rápido do que imaginava. Hemerson Miranda é técnico em hardware e redes, apaixonado por tecnologia, tuiteiro prolífero, escritor do pensamento crepuscular.

Tem o blog O Corvo - http://ocorvo.livrespensadores.org e o seu perfil no Twitter é www.twitter.com/hemersomn. A estreia dele é no post abaixo, com a crônica Toda segunda-feira tem mau-hálito. 


Seja bem-vindo, Hemerson. 

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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Por Gustavo do Carmo




A Executiva de Bonsucesso
Era fiel ao marido, mas ganhava mais do que ele. 

A Peituda de Ramos
Sofria com a rejeição das amigas da zona sul, mas afogava as mágoas e os homens com os seus fartos seios. 

A Alpinista de Del Castilho
Largou o namorado da infância para se casar com o cantor rico e famoso do momento. 

A Preconceituosa do Cachambi
Desprezou um jovem e ingênuo amigo só por causa de um gesto infeliz.

A Patricinha Apadrinhada de Ipanema
Só se preocupava com festas, pois o emprego já estava garantido. 

A Arrogante da Glória
Boicotava qualquer um que poderia envergonhá-la. 

A Convencida do Andaraí
Odiava suburbano chato, mas ainda não morava na zona sul. 

A Prepotente do Recreio
Era a filha da empregada. Mas decidiu ser a dona da casa ao engravidar do patrão.


A Desaparecida de Bento Ribeiro nunca mais deu notícias. 

A Traidora de Itaipava
Largou o marido rico e doente para ficar com um colega de faculdade feio e pobre. 
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sábado, 4 de fevereiro de 2012


Gustavo do Carmo




— Sinto muito, ele não vem.

A noiva, com seu vestido decotado de renda branca, se pôs a chorar em uma tsunami de lágrimas. Ivan seguiu o seu caminho. Não a conhecia, mas sentiu-se vingado pelo que fez, sem nenhum remorso.

 Afastou-se tranquilamente da multidão de convidados que a cercaram para consolá-la na porta da igreja. Não era uma situação inverossímil porque ele tinha falado a mesma coisa para o noivo, que encontrara meia hora antes, na rua dos fundos da matriz. Aliás, mesma coisa, não! A crueldade foi mais requintada.
— Eu vi a sua noiva beijando outro quando passei por ela.

Estava voltando de uma corretora de valores em Botafogo, onde provocara a demissão de um ex-colega da faculdade de economia. Foi lá especialmente para dizer os podres do operador que o ignorava desde a formatura. Mostrou para o diretor um vídeo, no qual seu então amigo criticava a empresa onde trabalhava, e uma foto recente dele, tirada de uma rede social, em que o profissional aparecia com olhos virados de embriaguez e entornando duas tulipas de cerveja. Completou a vingança com uma acusação de cleptomania.

***

Depois de frustrar o casamento, Ivan foi abordado por uma mulher grávida. Mais do que uma simples mulher, aliás. Era uma ex-amiga sua. Ex-colega de ensino médio. Ele era apaixonado por ela. Agora a moça estava lá, barriguda de seis meses e esperando um filho de outro homem.

Trabalhando como repórter em um canal de televisão, ela o chamara para lhe dar uma opinião sobre uma matéria que fazia. Ivan ficou tão nervoso e frustrado pelo estado da conhecida, que a empurrou para espantá-la e não dar a entrevista. Ela caiu e perdeu o bebê. Foi socorrida pelo cinegrafista e a produtora, enquanto Ivan embarcava no ônibus que o levaria para o bairro do subúrbio onde morava.

Dentro do veículo, uma criança de uns dois anos brincava e o irritava. Falava alto e dava gritinhos quando ria. Ivan foi engolindo a raiva. Ouvia a mãe mandar o filho parar de gritar. No quinto grito, ele estourou.

— Dá pra calar a boca?!
— Quem é você para dar ordens no meu filho?! Indignou-se a mãe, enquanto o filho chorava.
— Alguém que está cansado de ouvir essa criança chata piando como uma maritaca.
— Quem cuida do meu filho sou eu. E só por causa disso vou deixá-lo gritar quando quiser! Mal-educado! Grosso! Esúpido! Os incomodados que se mudem. Se quiser, pega outro ônibus.

E foi isso mesmo que Ivan fez. Sob vaias dos outros passageiros. Pegou outro veículo dez minutos depois. Neste intervalo, viu, no ponto, um jovem casal de namorados. A moça era loura, cabelos curtos. O rapaz era negro, forte. Disparou para ele:

— Ela te contou que é casada?
— Não! Sério? Estranhou o rapaz assustado.
— Seríssimo.
— Vagabunda! Está tudo acabado! Gritou, esbofeteando a moça.
— Você vai acreditar nesse louco que nunca viu a gente na vida? Quem está acabando o noivado sou eu! Você confia mais nos outros do que em mim!

E enquanto o casal discutia, chegou o segundo ônibus de Ivan, mais vazio do que o primeiro. Sacou o celular e fez uma ligação.

— Aqui quem fala é um amigo. Presta atenção na sua mulher que ela está te traindo com o seu melhor amigo.

E desligou o telefone. Ajudou um cadeirante a entrar no ônibus pelo elevador. E na saída, ajudou um idoso a descer. 
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