terça-feira, 5 de março de 2013

O Lamento de Susanna

Por @hemersomn



I

Era o terceiro dia que Susanna estava naquela cidade e a igreja abandonada sempre despertava sua curiosidade. Ela voltaria para casa em dois dias e seus olhos e a lente de sua câmera ansiavam em poder fotografar o interior daquele prédio.

Quando perguntou a sua tia, cuja casa lhe estava servindo de lar naqueles dias, ela desconversou e disse que lá era um lugar proibido. Isso só fez a vontade de Susanna entrar lá, crescer mais e mais.
Neste dia, quando o sol estava prestes a se por ela caminhava do lado da igreja. A câmera na mão, um vestido esvoaçante e um brilho no olhar que poucas vezes lhe animava o semblante. A rua estava deserta e sua cabeça rapidamente começou a trabalhar. Havia um nicho no muro dos fundos; ela correu até ele e,com um pouco de dificuldade conseguiu passar, mas não sem arranhar sua perna e o lado de sua câmera.
Musgos, trepadeiras e todo tipo de erva daninha invadiam cada canto da fachada e dos muros do prédio. Ela ouviu pequenos animais correrem ante suas passadas. Rodeou o lugar e subiu a escadaria que dava para a porta principal. Para sua surpresa a grande porta estava entreaberta. Parecia que tudo aquilo fora abandona às pressas. A porta rangeu quando ela empurrou e uma camada de poeira caiu sobre si.
Depois de tossir e se limpar um pouco ela olhou para a grande e imponente nave. Um lustre que já fora com certeza o orgulho daquele lugar suspendia-se no teto sem brilho, unicamente congelado no tempo pela poeira que o encobria com uma camada. A luz dourada do crepúsculo tentava entrar pelas frestas das grandes janelas que ainda permaneciam limpas, formando assim vários raios que atravessavam de maneira bela o interior daquela igreja.
Susanna caminhou pelo meio dos grandes bancos e se dirigiu ao altar. Parou em alguns para fotografar. Percebeu como o lugar era uma imagem digna de ser eternizada pelas fotos. Subiu os dois degraus que precediam o altar e, para sua surpresa, no lugar de uma mesa ou um púlpito, encontrou apenas algo estreito e alto, coberto por um grande pano negro. Ela tirou mais uma foto e ficou olhando aquilo por um instante.
A curiosidade falou mais alto e ela pegou no pano negro para puxá-lo. Deu um suspiro e o puxou com força. Uma nuvem de poeira subiu, o pano caiu no chão e os olhos de Susanna se arregalaram com o que estava a sua frente. Ela deixou a câmera cair em seu peito, que arfava sob a blusa. De seus lábios vermelhos um gritinho abafado saiu e sua mão tapou a boca.
Ela se aproximou daquilo que era um espelho de aparência muito antiga. Seus olhos pareciam 
que iam saltar de suas órbitas. O coração palpitava freneticamente. A imagem que Susanna via diante de si era a coisa mais incrível que ela já vira. Ali, na mesma posição que ela estava, com a mesma expressão no rosto, só que com a face bastante envelhecida, o cabelo branco, a pele caída e cheia de manchas senis, estava Susanna.
Ela ficou minutos contemplando aquela que, para muitos, seria a visão mais desagradável já vista. Ela possuía poucos dentes e o cabelo branco e raro deixava à mostra sua cabeça. O rosto cheio de rugas, os olhos já perdendo sua vida, seu brilho. Aquela imagem macabra a deixou sem respirar e num mundo só seu, até que ela ouviu um barulho por trás de si.
Um pombo havia entrado e ficara se debatendo no teto. Aquilo a fez voltar para si. Mas virou novamente para o espelho. A imagem continuava do mesmo jeito. Susanna viu lágrimas brotarem de seus olhos como uma cascata. A imagem à sua frente chorava também, só que ela sentiu pena de si mesma, ou daquela imagem que na verdade era ela...ela se sentiu confusa.
Susanna passou a chorar não pelo que via à sua frente, mas pelo seu presente, que logo se tornaria passado.

II

A visão de si mesmo envelhecido não é, com certeza, a melhor imagem que se possa desejar contemplar.
A maioria das pessoas nunca pensa em como vão ser ou como vão ficar quando envelhecerem. Elas tentam constantemente nunca pensar nisso, pois com certeza atrapalharia o presente. É uma imagem que muitos consideram um pesadelo. E ter esse vislumbre é desesperador.
Susanna teve a oportunidade de ver isso. E ela não gostou.
A visão enrugada à sua frente era ela, sem sombra de dúvidas. O olhar era inconfundível, mesmo com todos os pés de galinha a lhe rodearem os olhos. O cabelo, branco como a neve, podia ter perdido já o seu brilho, mas ainda emoldurava seu rosto do mesmo jeito.
Susanna era vaidosa, assim como toda mulher em sua idade ou qualquer idade que uma mulher tenha. E essa vaidade se demonstrou nessa sua visão futurística. A maquiagem estava ali. O batom na boca minguada. A roupa bem passada. O cabelo bem penteado. Exatamente como ela se arrumava no presente.
As lágrimas lhe corriam dos olhos por vários motivos. Primeiro foi a surpresa. O susto lhe fizera todo corpo estremecer. Depois foi a tristeza ao lembrar-se que um dia ficaria velha e decrépita. Saber que a vitalidade se esvaia de seu corpo a cada dia que passava a entristeceu bastante. Depois veio a alegria. Um misto de felicidade e esperança por saber que ela chegaria a velhice e que sua personalidade não havia mudado com o tempo. A dúvida também entremeou seus pensamentos, já que ela não sabia o que era na verdade aquele espelho e nem se a imagem que ela via realmente era ela num futuro ainda distante.
Foi nesse momento de introspecção, onde sua mente vagava pelos recônditos de seu inconsciente, buscando respostas para suas perguntas e alivio para seu atual desespero, que um barulho lhe chamou a atenção.
O barulho de sandálias se arrastando inundou a nave da igreja e ecoava pelos seus quatro cantos. Susanna virou-se rapidamente para o lugar em que parecia estar vindo o som. Num sobressalto e num ímpeto costumeiro, ela pegou sua câmera e gravou aquilo que seus olhos viam se arrastando para perto dela.
Susanna respirou fundo. Deixou a foto tirada abaixo da verdadeira imagem em seu campo de visão. Uma senhora, apoiada numa velha bengala, olhava para ela com olhos brilhantes e um sorriso maroto. Parecia que ela esperava alguma fala da parte de Susanna, mas esta ficara muda, com o coração ainda batendo forte. A velha olhou para o busto de Susanna e viu seu peito arfando sob a blusa. E sua voz cortou o silêncio que imperava.
- Posso te ajudar?
Susanna engoliu em seco.
- Desculpe...eu...eu pensei que esta igreja estava abandonada.
- E está. E eu também fui abandonada junto com ela.
- A senhora mora aqui?
- Pode-se dizer que sim.
- Eu não queria incomodar...eu só...
A velha começou a se aproximar de Susanna, que recuou três passos.
- Não precisa ter medo menina. Não vou fazer-lhe nenhum mal.
Os passos fracos da mulher cessaram quando ela ficou do lado do espelho, pois viu que Susanna ainda recuava. Ela apoiou as mãos na bengala gasta e sorriu dizendo:
- Qual o seu nome?
Susanna abriu a boca para falar, mas sua mão a fechou no mesmo instante.
Um arrepio passou pela sua espinha. Os pelos de seu corpo se eriçaram por completo.
Ali, na posição em que a velha estava, de frente ao espelho, deveria estar aparecendo seu reflexo...
Mas não estava.

III

A velha olhava para Susanna com um sorriso.
A moça olhava da velha para o espelho e do espelho para a velha. O coração ainda acelerado.
- O que houve? - perguntou a velha olhando para o espelho.
- Por que você não tem reflexo?
- Ah. Isso...Ahn...Você não faz nem ideia?
- Você está morta?
Uma risada ecoou.
- De maneira alguma. - a velha falou sorrindo. - Me sinto tão viva quanto você.
- Você é uma vampira?
- Por favor menina. Não me venha com essas crenças infantis de fantasmas e vampiros.
- Então...?
- O espelho pode estar mostrando que eu não terei um futuro.
- Então é por isso que eu me vi velha? Ele mostra o futuro?
- Espelhos são coisas inconstantes. Eles podem mostrar o que querem ou o que você quer. Nunca podemos saber com certeza.
- Essa não é uma crença infantil?
- Diga-me você, pois foi você mesma que se viu mais velha.
Susanna coçou a cabeça.
- Bem...pelo que eu pude entender ele mostra o futuro. Eu, como sou mais nova ficarei velha e você que já está velha, morrerá.
- Qualquer um pode tirar as mesmas conclusões não é?
- Isso quer dizer que eu to errada?
- De forma alguma. A verdade é tão subjetiva não é?
A velha caminhou para o banco mais próximo e sentou-se. Susanna se aproximou do espelho e se viu novamente com suas rugas e a pele frágil. Passou a mão na moldura do espelho como se o estivesse acariciando.
- Esse é um espelho especial.
A velha sorriu mais uma vez.
- Não há nada de especial nele, menina.
- Como não? Ele pode mostrar o futuro! Ou pelo menos é o que eu acho.
- Entenda que não há nada de especial no espelho, mas sim em você.
Agora Susanna que sorriu.
- O que há de especial em mim?
- O espelho pode dizer-lhe.
- Bem. O que ele tá me dizendo é que eu vou ficar velha. O que tem de especial nisso?
- Você pode não achar especial agora, mas ele acha.
- Quem é você afinal? A mãe do Mestre dos Magos?
- Uma coisa é certa. Seu bom humor não acaba nunca. Isso é uma coisa especial.
- Interessante.
Susanna olhou novamente para sua imagem no espelho. Passou a mão em seu rosto. Ela chegou a sentir sua pele enrugada. Viajou por um momento nesses pensamentos. Ficou feliz por saber que mesmo velha, a beleza de sua juventude ainda poderia ser vista em alguns de seus traços. Sorriu para si mesma.
- O espelho hipnotiza não é?
Susanna virou-se para a velha.
- Verdade.
- É sempre bom acreditarmos em alguma coisa.
- Esse espelho poderia ser um portal para outro mundo?
- Isso não importa. A questão é: se ele realmente é um portal como saber de que lado dele nós estamos?
Susanna a fitou com olhos curiosos.
- Como eu saberei de que lado do espelho estou?
A velha sorriu e disse:
- É fácil. Você é destra ou canhota?
- Destra.
- Então qual mão você usou quando passou a mão no rosto?

Final

Duas enfermeiras estavam de braços cruzados na porta do quarto esperando. Dr.ª Olívia se aproximou com o rosto sério.
- O que houve? - ela perguntou parando diante delas.
A enfermeira loira respondeu:
- Ela não come nem bebe. Não quis tomar banho nem escovar os dentes.
- Desde que acordou ela ficou parada na frente do espelho e quase não pisca. - disse a enfermeira morena.
A Dr.ª Olívia entrou no quarto e olhou para a velha senhora sentada em sua poltrona olhando fixamente para o espelho. Os olhos azuis esperançosos e molhados.
- O que aconteceu Susanna? - a Dr.ª puxou uma cadeira e sentou-se do lado dela pegando em sua mão.
A senhora não respondeu. Continuava olhando para o espelho como se tivesse medo de lhe desviar a atenção.
- Vamos Susanna, me conte o que você tem. Vamos comer um pouco.
- Não... - a velha falou num sussurro. - Não posso.
- Por que não?
- Eu preciso esperar.
- Esperar o que?
- Esperar...
A Dr.ª Olhou para a enfermeira loira e fez um sinal com a cabeça. A moça entendeu e foi para uma mesa preparar algo.
- Você precisa se alimentar Susanna.
- Não...eu preciso...preciso esperar...
- O que você está esperando olhando para esse espelho? - a Dr.ª olhou também para o espelho na parede. Viu a mulher do seu lado com os olhos azuis faiscantes.
- Eu estou esperando...
A enfermeira se aproximou e entregou uma seringa para a Dr.ª Olívia.
- É melhor então você esperar dormindo.
A velha olhou rápido para a seringa e em seguida voltou a olhar rapidamente para o espelho.
- Não! Não! Você não entende!
- Entendo sim, Susanna.
A Dr.ª chamou as duas moças para ajudarem.
Alguns de nossos sentimentos nos proporcionam uma força que nós nunca saberíamos que existia em nossos corpos não fossem esses momentos.
A duas enfermeiras seguraram os braços da senhora enquanto a Dr.ª se aproximava para aplicar a injeção, mas Susanna não se renderia tão fácil. Sem tirar os olhos do espelho ela tentava se desvencilhar das mãos das duas moças.
- Vocês não entendem! Ela estava ali olhando para mim!
- Calma Susanna. Calma!
- Ela vai voltar pra me ver! Vocês não entendem! A menina vai voltar pra me ver! Eu só preciso esperar!
A Dr.ª ajudou a segurar a mulher. Se preparou para a aplicação, mas antes viu os olhos da senhora brilharem ainda mais fortes olhando para o espelho. Um sorriso lhe aflorando nos lábios como nunca ela tinha visto.
Ela aproveitou esse momento e aplicou a injeção.
Susanna olhava para o espelho com uma felicidade indescritível. As três mulheres no quarto olhavam para ela e olhavam para o espelho.
A alegria no rosto de Susanna inundou o quarto. A Dr.ª recuou um pouco e as enfermeiras a acompanharam olhando para o espelho como se esperassem algo.
As últimas palavras que aquelas mulheres ouviram da parte de Susanna foram essas:
- Ela veio.
Susanna suspirou. Havia algo naquele espelho que ela não entendia, mas ela acreditava. Os olhos azuis do outro lado do espelho também sorriram.
E tudo ficou escuro.









Um comentário:

Amanda Borges disse...

Simplesmente fantástico!

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