sábado, 14 de maio de 2011

O MENDIGO QUE QUERIA MORRER


Por Gustavo do Carmo

Acordou com gosto de laboratório. Mas estava bem longe do ambiente de um. É verdade que esteve num hospital horas antes, entre cheiros de éter, álcool e laboratório. Agora estava na sarjeta da rua. Tinha que aceitar, mas não queria, o seu novo status social: o de mendigo.

Seu orgulho já não estava mais ferido. Fora fulminado e agora está em decomposição. E é com odores próximos a este estado que ele teria que conviver daqui pra frente. Lenílson não aceitava. Foi exatamente por isso que acordou com gosto de laboratório. Tinha tomado as últimas caixas de daforin, ritalina e rivotril que tinha em casa. Estava internado no hospital público para fazer a lavagem estomacal.

Lenílson tinha uma vida boa. Se formou em jornalismo, fez pós-graduação na sua área. Teve dinheiro e conforto à vontade fornecido pelo pai. TV a cabo e internet em casa. Comida feita pela mãe. Podia comprar o que quiser. Mas o dinheiro acabou. A loja de utilidades domésticas do seu pai faliu (a metade sadia fora roubada por empregados). E seus pais morreram. Lenílson ficou sem dinheiro para pagar o IPTU, condomínio, contas de água e luz. O apartamento foi penhorado.

Lenílson tentou se suicidar. E já não era a primeira vez. Nas outras não teve coragem de ir à fundo. Na primeira tentativa sobreviveu. Recebeu alta da enfermaria e não tinha para onde ir. Ainda dormia quando foi deixado na rua pelos seguranças do hospital.

Acordou com gosto de laboratório. Estava debaixo de uma marquise. Recobrou a consciência e a situação. O seu novo status social. Correu para a rua. Tentou ser atropelado pelos carros que passavam. Atravessou a pista de cinco faixas ileso. Só ouviu buzinas e xingamentos.

Perambulou pelas ruas, mas ainda se recusava a aceitar que era um sem-teto. Queria aceitar apenas a morte. Procurava pela morte. Procurava ratos pelo esgoto. Queria a sua leptospirose. Queria a sua raiva. A doença, não o sentimento.

Idosos passavam piedosos e diziam:

— Coitado! Está procurando comida.

— Eu não estou procurando comida. Estou procurando veneno. Pensava indignado.

— Esses vagabundos são o atraso do Brasil! Vociferavam os politicamente incorretos.

— Dá uma vassoura pra ver se esses vagabundos trabalham! Isso eles não querem!

— E não quero mesmo. Eu sou jornalista! Não sou faxineiro! Bradava, descobrindo que o seu orgulho ainda estava vivo.

Passaram a lhe jogar moedas e cédulas de dinheiro. Lenílson recusava. Queria apenas morrer. Tentou se enforcar mas corda de pobre arrebenta para o lado mais fraco. Tomou banho no rio poluído para contrair uma doença. Sua energia só revigorava. Começou a tentar invadir edifícios para subir até o terraço e se jogar de lá. Era sempre detido pelos seguranças. Até que um dia conseguiu. Se jogou de um edifício de cinquenta andares. Sobreviveu ao cair no toldo espumado.

O guarda municipal o levou para o abrigo, onde cortou os pulsos e sobreviveu. Inclusive à infecção provocada pelo banho no rio. Uma assistente social o apadrinhou no abrigo. Foi contratado como contínuo no abrigo. Lenílson quase reergueu a sua vida. Mas lembrou-se do seu passado de classe média. Não queria continuar pobre. O seu orgulho ainda estava vivo. Só estava sujo como ele.

Mesmo formado em jornalismo, descobriu que nunca teve vocação para a profissão. Esqueceu até o que aprendeu na pós-graduação. Os colegas já estavam devidamente esquecidos. Viu que não tinha futuro. Largou o emprego de contínuo e voltou a viver nas ruas. Voltou às suas tentativas de suicídio. Ficou muito conhecido no bairro como o mendigo que queria morrer. Já havia abraçado o seu novo status social. Junto com o orgulho que achava estar morto.


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