quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Imagem ctt.pt

João Paulo Mesquita Simões


As edições filatélicas dos CTT - Correios de Portugal são, como já referi, de excelente qualidade.

O último livro a ser emitido, é sobre a arte de navegar à vela.

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quarta-feira, 26 de setembro de 2018



Nem sempre a gente tem controle sobre as coisas ao nosso redor. Isso por vezes nos dá a sensação de incapacidade, de inferioridade diante da indiferença sádica da vida. Podemos escolher e permitir o que entra na nossa boca ou em nossos orifícios inferiores, mas há uma invasão quando se trata dos outros orifícios na cabeça. Um cheiro que invade nossas narinas, às vezes causando até náusea; uma música odiosa ou palavras capazes de causar dor entrando em nossos ouvidos; imagens repulsivas, tristes e aterradoras que são capturadas sem nenhuma intenção por nossas retinas. Essa invasão, essa quebra forçada de nossa privacidade e nossas escolhas, é como uma espécie de estupro.

A memória está aqui para nos lembrar disso. Sequer um fragmento de observação desaparece, basta resgatarmos e lembraremos. A mente é como uma praia onde o mar vive lançando restos de naufrágios.

Mas, na condição de presidiários em nosso próprios corpos, desenvolvemos uma espécie de Síndrome de Estocolmo e nos acostumamos ao que nos é jogado e enfiado diretamente nesses orifícios. 

Breno é uma dessas pessoas com todos os orifícios funcionando.

Ele está com seu amigo Rony no quebra-mar. Ambos seguram garrafas de cerveja e estão usando apenas calções de banho, o segundo fica com o celular na outra mão, na expectativa de alguma notificação. Suas bicicletas estão jogadas ali próximas. Eles olham para as ondas que quebram na praia, a pele de suas costas queimando sob o sol escaldante. É dia de semana e só se veem raros caminhantes e banhistas. Há uma ideia antiga pairando entre os dois, que supuram em hormônios e tentam o máximo possível aproveitar tudo o que a vida lhes dá na casa dos 20 anos.

“O nome dela é Kátia.”

Breno dá um longo gole em sua cerveja e olha para seu amigo que estreita os olhos para olhar um pequeno barco que passa ao longe.

“Qual a idade dela?”
“Vai fazer 18 daqui a duas semanas.”
“Ela ainda é de menor, não?”
“Ah vá… Sério isso? Por causa de duas semanas?”
“Eu só não quero criar problemas pra nós depois. Se meu pai e o tio Henrique souberem e nos condenar você sabe o que temos a perder.”
“Isso é uma coisa só nossa e além disso, ela quer. É consentido. Eu conversei muito tempo com ela e ela falou que topa.”
“Você já a conhecia?”
“Ela era muito amiga da Darlene antes de aquela doida ir embora. Reencontrei ela um dia desses numa livraria. Convidei ela pra beber e começamos a conversar. Ela é de boa, não precisa ficar com medo.”

Breno pensa em falar que está pasmo em saber que o amigo estava em uma biblioteca, mas afasta esse comentário e pergunta:

“Então ela topa transar com dois caras ao mesmo tempo e ser filmada assim, de boa?”
“Sim, qual o problema? Em que bolha você vive onde as mulheres ainda usam camadas e mais camadas de roupas e cintos de castidade?”

Breno joga a lasca de uma pedra no ombro de Rony e ambos sorriem.

“Não é isso. Só quero ter certeza de que isso não vai nos dar problemas e que não estamos fazendo nada de errado.”
“Tô achando é que você tá com vergonha de que eu vejo seu pinto pequeno.”

Dessa vez Breno dá um soco no ombro do amigo, que revida com outro soco na sua coxa.

“Idiota!”
“Viadinho!”

Esses dois amigos já foram confundidos com irmãos várias vezes. Se conhecem desde que tinham 10 anos, sempre estudando na mesma escola, morando no mesmo bairro e quando possível trabalhando nos mesmos lugares. Apesar dos cabelos de Rony serem cor de areia, os físicos de ambos são muito semelhantes, bem como alguns trejeitos que nascem de amigos que passam muito tempo juntos.

“Então quando vai ser?”
“Bem, o local a gente já combinou e tudo. Agora o dia, pode ser no próximo domingo, pois nesse agora ela vai pro interior, alguma coisa com uma tia dela, sei lá.”
“Ok, isso dá tempo pra eu organizar o material de filmagem.”
“Vai por mim. Ela é muito gostosa. Você não vai se arrepender.”

Rony mostra a foto de uma garota no seu celular, que faz um V com a mão direita e um bico de pato sob olhos verdes.

“Espero mesmo que não.”

Nossos amigos estão ansiosos, o que não pode ser dito também com relação a Kátia, que agora termina de arrumar sua bolsa e se dirige ao terminal de ônibus para o interior, ver como vai sua tia Míriam, aparentemente novata na longa fila de pessoas diabéticas. Quanto ao projeto de Rony e seu amigo, ela está apenas curiosa. Para Kátia, o sexo é algo superestimado, mas ela curte todo o processo químico envolvido e que faz seu corpo se sentir bem, mesmo que por pouco tempo.

Ignora os olhares e os comentários dos babacas ao redor dos ônibus que a comem com os olhos e revira os seus quando o motorista, um velho sem noção que recebe o dinheiro da mão dela e aproveita para a alisar demoradamente enquanto pega as cédulas. Ela senta no fundo do ônibus, coloca os fones de ouvidos e se recosta, fechando os olhos e pensando em quão idiotas e engraçados são os homens.

São 4 horas de viagem e o passar constante e repetitivo das plantações que ladeiam a estrada a fazem sentir sono, então sem se dar conta ela acorda quando o ônibus entra na próxima cidade. Foi nessa cidade que sua mãe também nasceu. Ali mesmo que ela engravidou pela primeira vez e também abortou. Ali também que decidira dar uma chance a Kátia de fazer parte do teatro tragicômico que é a vida. Nessa mesma cidade ela bebeu até seu corpo não suportar mais. Kátia pensa se o alcoolismo pode ser genético e sorri um esgar triste diante desse pensamento. Dali a alguns dias ela dará um passo maior para o seu próprio corpo junto com dois homens e mais dias à frente entrará no mundo dos adultos oficialmente ao completar 18 anos.

O que vai acontecer daqui a uma semana vai mudar a vida de nossos amigos para sempre.

E um deles vai morrer.

Breno: Audição

Desde que Rony descobriu o smartphone e a internet ele se desligou do resto do mundo. Seja onde estiver, seu tronco está curvado sobre o celular, deslizando a tela ou digitando freneticamente. Demorei, mas me acostumei com essa nova situação. Relevei mesmo até os momentos em que ele me mandava mensagem de texto estando a apenas 10 metros de distância. Sempre tem um vídeo novo para me mostrar, um nude de alguma garota, uma foto de alguma tragédia.

Como eu não posso contar com ele, já que está debruçado no celular, eu carrego o tripé e a câmera. Kátia está olhando em volta, mascando um chiclete. Ela usa uma blusa regata preta e um short azul escuro. É magra, mas tem carne nos lugares importantes. Cabelos loiros quase chegando na bunda, ombros com sardas marrom claras. As panturrilhas possuem duas tatuagens, uma fênix em chamas na esquerda e uma máscara da morte mexicana na direita. Uma de suas orelhas está fechada por um fone e eu não imagino essa garota ouvindo algo como forró.

Eu mexo no meu novo brinquedo. Dei de presente a mim mesmo, num dos raros momentos de amor próprio quando recebi um extra no mês passado. É uma GoPro Fusion, 18MP. Essa belezinha filma em 5.2k a 30 fps. Sempre que posso me ufano dessas informações e em 80% das vezes sofro a decepção de pessoas que ou não entendem ou não se importam.
“Rony, coloca a lona ali, por favor.”

Eu aponto para um lugar próximo a uma parede, onde o mato não está alto e tem indícios de que é visitado por algumas pessoas. Ele consegue me ouvir e digitar ao mesmo tempo, o que me deixa surpreso. Então pega a lona e estica, tirando da mochila em seguida uma enorme toalha felpuda.

“Eu não conhecia esse lugar.”

Kátia agora fala retocando a maquiagem com um espelhinho redondo.

“Ele costuma ser frequentado por alguns viciados durante a noite” eu falo para a garota  cujo rosto me parece mais bonito agora.

O sol conseguiu ultrapassar as nuvens e lança seus raios em diagonal aonde nós estamos. Não há teto, mas as paredes altas impedem que ele entre em sua totalidade. Kátia agora está mexendo em seu celular.

“Ainda vai demorar um pouco aí, né?”

Eu confirmo para ela com a cabeça. Aí ela tira o fone do celular e uma música dance começa a sair dos alto-falantes, fazendo ela dançar em meio aos cascalhos, jornais velhos, cacos de vidro e guimbas de cigarro que cobrem o chão.

Rony tinha razão, ela é muito gostosa. Sinto uma ereção se formar quando vejo seu corpo em movimentos sensuais rodopiando, espalhando uma leve nuvem de poeira ao seu redor. Daqui a alguns minutos os gemidos dela serão gravados pela câmera em um áudio de 360º. Eu volto a me concentrar na câmera, mas antes dou uma olhada em Rony, que já terminou de organizar a lona, já colocou as camisinhas e o lubrificante ali junto e voltou ao teclado fervorosamente.

Um arroto nasce no meu estômago, sobe pela minha garganta e escapa por minhas narinas. Sinto cheiro de cerveja e uma leseira me acomete. Estou de costas para meus dois amigos, terminando de preparar a câmera no tripé.

Eu ouço a música de Kátia, que começa a baixar pois está chegando ao seu final.

Ouço o som das teclas de Rony, que teima em deixar o som do teclado ativo e alto, o que é irritante na maioria das vezes.

Ouço o farfalhar de ervas daninhas e do mato alto que o vento toca em outros cômodos.

Ouço ao longe o canto de algum pássaro que eu desconheço, a sirene de alguma ambulância, o efeito doppler de algum avião acima de nós.

Ouço um isqueiro. Uma tosse. Um suspiro.

E ouço algo que a princípio eu não consigo discernir.

Parecem batidas. Golpes secos que em seguida se tornaram úmidos.

Eu viro e peço para Kátia desligar o som. Ela não atende de imediato, mas faço uma cara de raiva e ela assente. Faço um gesto para ela prestar atenção no som, mas ela fica confusa. Rony não está ali conosco agora e isso me causa um frio na barriga.

As batidas agora são como de algo sendo quebrado, esmiuçado, alternadas pela respiração ofegante de alguém, um baixo gemido que fica preso na garganta.

Quando olho para Kátia ela está com a boca aberta e parece tremer.


Kátia: Olfato

Ainda sinto a dor da cera quente na minha xoxota e com o calor que está fazendo fico preocupada com o cheiro aqui em baixo. Tem uns homens que não curtem muito um cheiro forte e eu não os culpo nem os chamo de viados, porque gosto é uma coisa que realmente não se discute.

Quando eu olhei para o amigo de Rony pensei que era irmão dele. Ia ser legal fazer isso com gêmeos, eu acho. O importante é que ele é tão gostoso quanto Rony. Nunca fiz isso antes e estou curiosa. Fiquei curiosa desde que descobri um dia uma foto de mamãe com três caras trepando. Ela nunca soube disso, claro e sempre me perguntei se papai, quando estava vivo, sabia e se ela estava sóbria.

Nas minhas leituras eu descobri que o motivo de nós, mulheres, termos orgasmo com sexo anal é a esponja do períneo. Esse tipo de informação não é muito compartilhado pelas mulheres, mas eu sou uma garota que gosta de ler e saber o que acontece com meu corpo.

Esse lugar que escolheram é o que eu chamaria de trash. Uma construção abandonada, que começou a ser construída e desistiram na metade do caminho, agora invadida por mato, lixo e, segundo os garotos, viciados tanto em drogas quanto em sexo. Gostei da escolha deles para o lugar, é algo melhor para ser lembrado que a cama incipiente de um motel.

Não sei quem é mais nerd desses dois caras. Um não para de olhar para o celular e o outro toca na sua câmera como se fosse o próprio pau. Eu sempre achei os homens engraçados.

“Eu preciso de uma toalha dessas” falo abraçando a enorme toalha fofinha que Rony me passa para esticar na lona.

Sinto o celular vibrar no meio dos peitos. É uma mensagem de mamãe. Ela acabou de chegar na casa de tia Míriam. Segundo ela a tia vai vir para o meu aniversário, semana que vem e eu fiquei feliz, pois me deu pena de ver a tia sozinha naquela casa enorme e agora com essa doença. Me causa um leve arrepio pensar nessas duas mulheres e ver que uma delas pode muito bem ser o meu futuro.

Eu não respondo a mamãe agora. Abro o spotify e começo a ouvir uma playlist que a Pâmela me enviou mais cedo.

Acho impressionante que esses dois caras estão aqui para me comer juntos e no momento estão simplesmente me ignorando, concentrados em seus aparelhos eletrônicos. Aparentemente se no meu lugar estivesse uma robô do sexo não faria diferença. Como eu percebo que aquela coisa ali com a câmera no tripé vai demorar eu tiro o fone do celular e começo a dançar.

Sempre senti uma liberdade em dançar. A maioria das noites, antes de dormir, minha irmã e eu dançamos no quarto até cansar, até suarmos e ficarmos exaustas a ponto de apenas cair na cama e apagar. Pode ser que agora eu esteja dançando em comemoração aos meus próximos 18 anos, quando muita coisa vai mudar na minha vida, ou ao menos é isso que me dizem desde que completei 11 anos. Também estou dançando para me desapegar do meu corpo, pois vou precisar disso enquanto dois caras estiverem me pegando e uma lente capturando tudo isso para a posteridade.

Nas minhas leituras, ser penetrada por dois caras massageia a fina camada entre minhas duas cavidades, e aquilo é cheio de terminações nervosas, ou seja: orgasmo como nunca. Isso me excita.

Só espero que eles não demorem muito mais, pois eu me canso fácil e sair daqui desistindo de tudo é só uma questão de segundos para mim. Abro um pequeno bolso da mochila de Rony, que nem liga, e pego o cigarro e o isqueiro que guardei ali. Quando acendo e aspiro a fumaça uma nova onda de disposição nasce dentro de mim.

O cheiro do cigarro me envolve, mas também percebo que estou suando muito, então ergo os braços para verificar o desodorante. Felizmente é um 48 horas.

Sinto o cheiro cítrico de algum dos perfumes dos meninos.

Cheiro de folhas secas, cigarro velho e cerveja choca.

Cheiro de reboco aquecido pelo sol.

Uma brisa vem de algum dos outros cômodos em ruínas e traz outros cheiros estranhos.

O amigo de Rony me pede alguma coisa que eu não entendi e depois me olha com fúria para eu desligar a música. Eu ainda estou tentando sentir o cheiro que vem agora, então jogo o cigarro no chão e piso nele. Tem algo de errado acontecendo. Olho atrás de mim e Rony não está conosco.

Sinto cheiro de suor azedo.

Sinto um cheiro metálico que se torna cada vez mais forte.

O amigo de Rony olha para mim e pede que eu preste atenção em algum som, mas estou ficando enjoada com o cheiro que entrou no meu nariz.

Quando era pequena e o marido da tia Míriam tinha uma fazenda eu passava muitos fins de semana com eles. Via os animais correndo, comendo, cagando. Via as vacas terem seus filhotes, via minha tia matando galinhas para o almoço e via o marido dela matando vacas para vender.

Um dia cheguei no lugar que eles chamavam de matadouro e quase vomitei quando aquele fedor enorme bateu no meu rosto. Nunca mais esqueci esse cheiro.

É parecido com o cheiro que sinto agora.

É o cheiro de morte.


Rony: Visão

Cara, meus últimos tweets não tem menos de mil curtidas e retweets, meus posts no Facebook estão bombando e as últimas fotos na piscina que coloquei no Instagram tem muitas curtidas e vários comentários. Eu estou começando a achar que deveria abrir um canal no Youtube. Ainda não sei exatamente o que faria nesse canal, mas vou estudar isso mais profundamente.

Mas o sucesso mesmo é no grupo do Whatsapp. Tem só os caras do meu antigo trabalho, tudo um bando de tarado e bêbado. Só tem vídeo e fotos das mulheres que todo mundo comeu e quem está no top atualmente sou eu mesmo com a ideia de gravar um vídeo com um amigo meu comendo uma garota de 17 anos.

Eu abro a câmera do celular e tiro uma foto de Kátia, que está de costas para mim. Envio para o grupo e todo mundo começa a falar da bunda dela.

Isso aqui vai me colocar entre os 10 mais desse grupo, graças ao Breno e sua mágica com o vídeo e a edição e dessa garota que eu nem lembrava mais que existia. Os caras no grupo estão me enchendo de perguntas enquanto eu tento responder todas.

A garota está dançando, não sei que diabos deu nela, enquanto Breno ainda mexe na câmera. Ele realmente é focado nisso e eu não me importo de ele demorar porque sei que ele faz tudo certinho e o trabalho dele é bom.

Fui eu que escolhi esse lugar. Em 2001 um cara aqui da cidade ganhou na loteria e recebeu a dica de um amigo para construir uma galeria, onde poderia alugar lojas por preços exorbitantes e assim fazer render o dinheiro que foi investido. Ele topou. Só que meteu os pés pelas mãos. Não entendia muito de investimento, sem falar que começou a esbanjar dinheiro comprado coisas caras, impressionando umas vadias e bebendo para cacete. Isso fez com que o dinheiro dele fosse rapidamente para o ralo, deixando a construção pela metade, em seguida em ruínas, completamente abandonada. Sequer conseguiu vender o terreno. Hoje está internado numa clínica. Azar dele. Sorte nossa.

Ménage.

Desde que aprendi essa palavra não paro mais de falar nela.

Ménage á trois significa literalmente “família de três”, segundo a Wikipédia. Parece mesmo uma coisa usada nessa época aí por franceses. Mesmo que também possua um significado de afetividade hoje em dia quando se ouve ou lê essa palavra só se pensa em sexo, como não poderia deixar de ser.

As paredes em erosão, o lixo espalhado pelo chão, os caras gostam disso, então vai dar para vender esse vídeo para o grupo facinho. A garota é gostosa, o que ajuda mais ainda, e ela topa tudo, segundo me disse, então está tudo perfeito e perfeitamente no seu lugar aqui.

Saindo tudo do jeito que eu espero, posso até entrar em sociedade com Breno para vendermos esse tipo de conteúdo, pois gente interessada em comprar eu conheço demais.

Eu só não sabia que o dia de hoje seria tão quente. Eu me livro da camisa que começa a se encharcar debaixo do braço e a jogo na lona, junto das camisinhas. Kátia continua dançando e eu aproveito para fazer um vídeo curto e colocar no grupo. Ela é muito sensual. Mesmo descobrindo que ela fuma, hábito que eu acho nojento, ainda assim ela poderia ser modelo, uma atriz pornô, sei lá. 

O sol bate nas paredes de rebocos erodidos e minha visão periférica nota uma sombra se movimentando em outro cômodo. Digito freneticamente sobre os comentários dos caras e a garota acende um cigarro. Passo a mão na testa e ela volta brilhosa de suor.

Em um outro cômodo está acontecendo alguma coisa. Tem um buraco do tamanho de um punho na parede e eu posso ver uma movimentação. Imagino se é algum casal trepando, pois existe muito disso por aqui, mas geralmente durante a semana. Abro a câmera do celular, pronto para capturar os dois de surpresa e vou caminhando bem devagar até o outro cômodo.

Percebo que a música do celular de Kátia acabou.

O barulho de algo sendo esmagado e o cheiro ferroso vem até mim antes da imagem ser capturada pela minha retina.

A imagem filtrada pela câmera do celular parece uma mentira e minha mão treme. Eu não desligo a câmera, mas ela agora captura o chão e meus pés, pois a verdade invade meus olhos com uma sensação aterradora.

Sobre a grama seca e o lixo espalhado, a primeira coisa que eu vejo é uma coxa branca que possui a tatuagem de uma borboleta azul. Ela pertence a uma mulher que está deitada e inerte. Um homem com macacão de mecânico está em pé sobre ela, sua respiração ofegante e úmida, ele dá golpes violentos na cabeça da mulher com um martelo. Acerta sua cabeça quebrando o crânio acima da têmpora. Dá marteladas como se quisesse apagar qualquer memória que ainda restasse na massa cinzenta da mulher, afundando a carne, os ossos, o cérebro. Então o martelo fica preso no crânio e o homem sente dificuldade de retirar.

O que quebra a tensão desse acontecimento é o grito de Kátia, que surge logo atrás de mim com Breno ao lado.

O que era o rosto da mulher agora não passa de um bolo de carne disforme, a viscosidade do sangue misturada com fragmentos de osso e cérebro, o cabo de madeira do martelo para cima, como uma estaca.

O homem nos olha com olhos injetados de fúria e insanidade, a pele de seu rosto salpicada de sangue, o mesmo escorrendo da sua barba cheia de falhas. Ele tem um aspecto sujo, dentes quebrados e apodrecidos, olhos com salientes veias vermelhas, seu cabelo castanho fica em volta de uma mancha vermelha, que é resquício de uma queimadura. Poderia muito bem ter saído do filme Rejeitados pelo Demônio.

Um deslocamento de ar ao meu lado me faz virar o rosto e ver um vulto. É Breno, que instintivamente corre para atacar o homem. Como se fosse um gatilho, eu faço o mesmo e pulamos no cara, que deve ter o dobro da nossa idade e a constituição física só um pouco melhor que a nossa, mas somos dois, eu penso.

Só que esquecemos que aquilo não é mais um homem, é um animal. Com uma facilidade que surpreende ele nos joga para o chão, dando um chute na virilha de Breno e um nas minhas costelas. Eu vejo fogos de artifício estourando diante de meus olhos. Breno está em posição fetal, gemendo.

Quando a imagem volta a se focar diante de mim o homem está se aproximando da histérica Kátia, que apesar de encontrar forças para rasgar a garganta com seus gritos, não as encontra para mover os pés. O homem a pega pelo pescoço e a ergue acima de seus ombros, empurrando ela duas vezes contra a parede, fazendo com que a parte de trás de seu crânio quebre, deixando uma mancha de sangue no reboco, o corpo mole de nossa amiga caindo no chão sujo.

O homem apenas cospe uma gosma negra no chão e vai embora. 

Eu ainda não encontro forças sequer para respirar direito.

Os olhos de Kátia, aqueles olhos verdes e brilhantes, agora me olham, mas sem vida. Duas chamas de fogo fátuo se apagando.


No interior foi a vez de Raquel visitar Míriam. Ela veio justamente deixar uma ajuda em dinheiro para alguns remédios para sua recente diabetes e confirmar com ela sua viagem no próximo domingo para a festa.

Durante a viagem de ônibus ela abriu a bolsa e enquanto pensava nos medicamentos da irmã vasculhava na própria bolsa os seus. Vitamina K1, Propranolol e Espironolactona. Foram-se os tempos em que as duas eram jovens e transbordavam saúde. Agora uma não podia dar-se ao prazer de uma sobremesa gostosa e a outra precisava de um fígado novo.

“Então você vai fazer um festão?”
“Ela merece, né? Não é todo dia que se faz 18 anos.”

A frase é um clichê gasto, mas ainda assim faz as duas lembrarem de seu passado, das aventuras, das desventuras e principalmente de suas decepções. Uma tristeza teima em se aproximar das duas, mas Míriam tenta afastá-la perguntando:

“E o bolo, quem vai fazer?”
“Ah, eu conheci uma moça que faz. Você tem que ver o trabalho dela, tudo muito bem feito. Um pouco mais caro que os outros, mas o resultado é ótimo. Kátia vai adorar. Seria até bom ela conhecer a moça. Ela também gosta de tatuagem. Tem uma borboleta azul na coxa direita.”
“Ela vai ficar feliz com uma festa surpresa. Parecia tão animada quando veio aqui domingo passado. Sinto falta dessa alegria da juventude. Principalmente quando eu não precisava me preocupar com a quantidade de açúcar que poderia comer...”

As irmãs sorriem.

“E o que aconteceu mesmo na casa de Raul? Kátia quando veio me falou que a mulher tinha largado ele.”
“Ah, ela soube que ele tava tendo um caso com uma mocinha. Jogou todas as coisas dele na rua. Foi um cabaré danado. Todo mundo na rua saiu pra ver a briga dos dois.”
“Kátia me falou que ele tá desaparecido.”
“Sim. Quando ele viu todas as suas coisas na rua, roupas e tudo, ele gritou com ela e quase quebrou a porta tentando abrir. Quando ela saiu ele avançou em cima dela. Todo mundo viu, mas ninguém teve tempo de fazer nada. Ele colocou as mãos nos pescoço dela e quebrou, assim” e ela estalou os dedos.

Míriam coloca uma mão na boca e passa as mãos nos seus braços, tentando amenizar um arrepio.

“Que medo desse tipo de morte que dá pra descrever com um estalar de dedos.”  



Hemerson Miranda
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terça-feira, 25 de setembro de 2018



As várias ideias que teve deram origem a várias outras.


Uma música conseguia mudar seu dia.


No mundo a desgraça. Nos detalhes, alguns sorrisos esparsos.


O quadro do seu time na parede de seu quarto o fazia lembrar das memórias boas, apesar do hoje.


O relógio o desperta, mesmo com as poucas horas de descanso.


Por Lucas Beça
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segunda-feira, 24 de setembro de 2018


Por Gustavo do Carmo


As moscas já tomaram conta do barraco. O estrume virou adubo, mas já se esfarelou. O pai morreu há muito tempo e o deixou cheio de dívidas. A mãe foi morar com o irmão em Paris. E Viriato tenta o suicídio pela quinta vez. Já não acredita mais no pônei que esperou por vinte anos, desde que ganhou uma caixa de estrume do seu pai.

Seu irmão, que ganhou uma bicicleta no mesmo dia, nunca se machucou como acreditava. Tornou-se ciclista profissional, ficou rico e famoso, mudou-se para Paris e nunca mais procurou o irmão.
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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Imagem ctt.pt


João Paulo Mesquita Simões



Quem não se lembra do famoso rato que aparecia nas nossas televisões, uma criação de Walt Disney?


Depois, mais tarde, as tiras de quadradrinos, que apareciam nos jornais.

Mais tarde, as BD, revistas brasileiras com o rato Mickey, pato Donald, Pateta, entre outros, e que passaram a ser editadas também em Portugal quer em Português do Brasil, quer em Português de Portugal.

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Por Dudu Oliva


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quarta-feira, 19 de setembro de 2018


Vou lhe contar uma história. Uma história curta e terrível.

E vou tentar ser o mais breve possível, porque não tenho muito tempo.
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terça-feira, 18 de setembro de 2018



Estou entrando naquela fase da vida em que as novas bandas não me agradam mais. Não me impressionam mais. Parecem todas iguais.

E volto pra aquelas velhas da adolescência. AC/DC, Foo Fighters, The Police, Guns, Dave Matthews, etc.

E quando uma dessas lança algo novo… sei lá. Parece estranho. Não é tão legal quanto era antes.

A minha relação com a música anda diferente. E não sei de quem é a culpa.

Se antes eu colocava um CD pra tocar e o escutava até o fim, depois colocava outro e às vezes voltava naquele primeiro, agora fico pulando de faixa em faixa.

A moda são as playlists.

Mas aí você coloca uma pra tocar e fica pulando de faixa em faixa até achar uma música legal.

Vivo adicionando álbuns na minha biblioteca que nunca escuto.

Às vezes chego a pensar: chega! Para com isso. Pega umas cem músicas e passa os próximos seis meses só escutando elas. Depois pega mais cem e faz a mesma coisa.

São muitas opções.

O acesso a tudo tira um pouco da intimidade com as músicas que você tinha em CDs ou no mp3 ou mp4 (tive uns três desses durante a adolescência). E você realmente escutava.

Mas também tem o fato de que toda essa “multi-tarefa milenial” trouxe a música para um patamar de plano de fundo.

Você põe a música lá e vai fazer outra coisa.

Lava a louça


Corre

Faz caminhada

Malha

Trabalha

Sei lá.

Lembro de simplesmente deitar na cama, colocar o fone e ouvir álbuns inteiros no meu mp4 velho.

Lembro dos recortes de jornal do meu time favorito quando ele jogava e ganhava. Punha todos dentro de uma pasta catálogo.

De rebobinar as fitas VHS

Gravar o filme do homem-aranha na globo, com dois anos de atraso do cinema

Da locadora e do ódio que sentia quando tinha que pagar pelo atraso.

De ligar pra alguém no celular.


Texto de Lucas Beça
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segunda-feira, 17 de setembro de 2018



Crônica de Gustavo do Carmo

Dizem que eu não corro atrás. Que eu não procuro ninguém para fazer contato.
“Ain, nada cai do céu pra você. Tem que correr atrás!” Jogam na minha cara.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2018





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quinta-feira, 13 de setembro de 2018


João Paulo Mesquita Simões

Os chocalhos de Alcáçovas, o processo de confeção de louça preta de Bisalhães, e a produção de Figurado em Barro de Estremoz, homenageiam as últimas nomeações que integram o Património Cultural Imaterial da Humanidade.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2018




Não é à toa que a palavra seduzir deriva do latim "se-ducere", literalmente "conduzir a si mesmo". Pois é exatamente isso que ela faz comigo.


Estamos deitados sob a sombra de uma frondosa árvore no campus, fumando. Um silêncio se instalou entre nós, mas não uma pausa incômoda. Quando o silêncio for quebrado não será uma tentativa de reiniciar a conversa, mas será um prosseguimento. Esse silêncio poderia perdurar por anos e quando fosse desfeito permaneceria a mesma conversa, os mesmos sentimentos. Esse é o tipo de intimidade que nós temos e que está, como todas as coisas boas e importantes da vida, fadado a terminar.


Cena 1


Ele fuma, mas parece não ter nenhum prazer nisso. Expele a fumaça tão vagarosamente quanto faz o cigarro, envolto em brumas, uma espiral preguiçosa. Ele fuma apenas por fumar. Não sente prazer nisso, nem necessidade. Ele fuma apenas para me acompanhar.

A presença dele causa alguma coisa em mim. Há algo em toda a composição dele que me atrai e não é algo sexual, se bem que poderia ser. Eu poderia resumir o que é estar em sua companhia dizendo que é como se sentir em casa. Compartilhamos tanto conhecimentos quanto silêncios e essa é uma das coisas que eu temo perder. Eu e minha mania de antecipar o final de todas as coisas.

Ele é cheio de informações, sempre me surpreendendo com alguma novidade. Estar com ele é a ausência do tédio da vida, pois ele sempre tem algo para falar e mesmo quando não fala, alguma coisa, é como se o envolvesse uma aura de mistério. Ele parece sempre esconder alguma coisa, mesmo que não esteja escondendo. Na presença dele sempre paira algum suspense.

"Não é engraçado? Quando uma pessoa morre num incêndio ela acaba com uma pose de boxeador. Isso porque os músculos se encolhem, os braços se contraem, os punhos se fecham como se estivessem protegendo sua cabeça. Os joelhos se dobram diante do calor. Diante da morte ainda tomamos uma posição de defesa, como se fôssemos atacar."

Ele fala e eu sinto que meus olhos brilham. Claro, sua voz grave ajuda e seu sotaque, a forma como ele termina as palavras com ...de ou ...te, tão diferente de mim. Além disso ele sempre demonstra uma sintonia com meus pensamentos, o que me agrada bastante. Mas também me desafia, discordando de alguns de meus pontos de vista, me criticando, por vezes. E aquilo que deveria me irritar, que é o que acontece num primeiro momento, me faz querer desafiar ele também.

Ele fala como se estivesse lendo. Suas palavras são como um texto corrigido várias vezes, até ele achar que está perfeito.

Um dia estávamos falando sobre as sombras de Platão, a caverna etc. Fui eu que comecei o assunto. Uma das coisas que me deixam envaidecida é a forma como ele me escuta. Ele realmente demonstra interesse, ele inclina seu corpo para mais perto de mim como se não quisesse perder nenhuma palavra, como se também quisesse ler meu rosto. Depois que eu falei sobre a caverna e as sombras ele ficou um tempo pensativo. Então ele, como se acordasse de um sonho, se aproximou mais de mim.

O corpo dele tem cheiro de terra molhada.

Afastou as mechas de cabelo que caiam no meu rosto e começou a falar. Ele nunca me chamava pelo nome.

"Tava pensando numa coisa, Folhinha. Não, eu não vou falar das suas olheiras, sei que você continua com problemas pra dormir. Mas essa história que você falou do Platão e tal. Veja isso."

Seus dedos contornam os lados de minha testa e meus olhos. Seu hálito é de café forte.

"Sua cabeça é a caverna. Seus olhos são a entrada da caverna. Tu vive dentro da tua cabeça e só vê o que quer. E só vê as sombras, inventando um significado pra cada uma delas."

Minha boca, entreaberta por causa desse maravilhoso pensamento, solta um suspiro.

"Fecha essa boca. Senão eu vou te beijar."

Ele sorri. Até onde eu lembro ele sempre está sorrindo. Ou me fazendo sorrir. E isso tudo parece uma história romântica. Mas não é.

Um dia ele me chama para beber. Estamos num bar. Depois de duas garrafas de cerveja ele pede uma dose de whisky e eu peço uma taça de vinho. Há uma cumplicidade entre nós dois que, por alguma razão ainda desconhecida, nós não permitimos que se tornasse amor. É uma coisa só nossa, que já levou muitas pessoas a pensarem em nós como um casal. Eu até, de certa forma, gostaria que fosse. Mas eu tenho medo de que isso tudo, exatamente isso que nós temos, acabe, morra sob o próprio peso.

Até aí estávamos conversando animadamente, como sempre é. Um assunto se seguindo a outro, entremeado por brincadeiras. Quem ouvisse acharia que somos dois filósofos pessimistas, mas que riem bastante. Quando o whisky e o vinho chegam, ele bebe um gole e com toda naturalidade olha para mim e diz:


"Ah, tenho uma notícia pra te dar. Eu tô com câncer."




Cena 2


Os seus olhos negros fazem tudo aquilo que eu sempre desejei: esquecer.

Ela pega a taça de vinho, mas sua mão treme. Seu rosto, que belo rosto, eu sempre tive vontade de o macular de alguma forma. Não com violência. Ele é tão lindo que chega a ser um insulto. Seu rosto está pálido quando olha para mim.

O único arrependimentos que eu carrego comigo é de nunca confessar a ela que a amava. Ela morde o lábio inferior, o que sempre faz quando está nervosa. Seu peito arfando sob a blusa verde.

Quando ela fala, sua voz é tão doce que chega a ser infantil. Mas ela destila uma inteligência que eu invejo. Seu corpo emana ondas de compreensão da realidade. Seu cérebro, se eu pudesse, o colocaria em minhas mãos apenas para contemplar. E isso foi sempre tudo o que me atraiu nela. Havia, claro, uma atração física. Seus atos, até os mais fúteis, exalavam uma atração natural. Mas era sua mente a coisa que mais me atraia. Eu poderia passar horas conversando com ela e mesmo assim os assuntos não terminavam. Mesmo o silêncio era algo a ser compartilhado.

Mas não o de agora.

Esse é um silêncio novo, alienígena. Claro que não foi minha intenção. Eu tentei ser o mais casual possível e, apesar de comungamos um sutil humor negro, claramente ela estava abalada. Seu corpo agora é uma sinfonia de suspiros exaustos.

Sou tomado por um sentimento de que passei a vida toda tentando expressar bem alguma coisa quando na verdade eu nunca tive nada a dizer.

Esse silêncio é uma aniquilação por si só. Uma compreensão mútua de um final inalcançável. O que me deixa mais triste é que eu não a fiz sorrir.

A gente deseja que a vida tenha algum brilho cinematográfico, algum filtro com paleta de cores em tons celestiais. Mas a verdade é que a vida é uma merda.

A comida é granulosa, o café é amargo, o banho é sempre diferente do que a gente quer. O sexo é só o atrito de corpos que exsudam líquidos fétidos, membros assimétricos que lembram dois macacos pelados se roçando. Esse whisky é só um líquido amarelado que arranha minha garganta. Essa mulher à minha frente é só uma primata que a cada dia que passa apodrece e tenta abafar esse fato sob camadas e mais camadas de maquiagem, tintura, batom, esmalte e perfume. E mesmo assim, eu gosto dela. Ela expõe uma realidade que outros não conseguem.

Ela fuma e parece que há todo um prazer nisso. Um prazer que eu nunca vou sentir. A fumaça à sua volta forma uma espiral de tédio com ela no meio, o olho enfastiado do furacão.


Sua boca, esses lábios vermelhos que contém um poder atrativo tão grande sobre mim, está fechada, mas eu sinto que detrás deles há um grito que eu nunca ouvirei e nunca poderei consolar.


A Árvore


Debaixo da sombra da árvore eu me ergo e pego da mochila a garrafa térmica. Eu Fiz café para nós dois. Ela adora que eu faça café. Esse silêncio de agora é um silêncio que retorna à normalidade. Um silêncio resignado. Bebemos olhando um para o outro. Eu esboçando um sorriso condenado.

No dia seguinte eu estou no hospital. É a segunda vez hoje. A primeira foi para a quimioterapia. A segunda foi para ver metade de mim morrer.

Ela foi atropelada por um carro guiado por um homem embriagado. Eu ouvi o médico falar "hora da morte". E eu pensei em como a morte costuma ser pontual. A gente pode se suicidar de várias formas antes de morrer de verdade.


Hemerson Miranda

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