terça-feira, 4 de abril de 2017

Depois daquela manhã


Matheus acordou com raiva. Mais uma vez. Havia despertando desse jeito fazia já umas três semanas. No sofá. Naquele sofá de três lugares desgraçado e desconfortável. Hoje ele se arrepende por ter escolhido o mais barato.


Ele se levantou e calçou logo seu par de tênis. Ficou com a calça cinza de moletom e a camiseta branca com uma estampa do Coliseu e a palavra Itália no ombro esquerdo. Vestiu a blusa com capuz e foi para o banheiro. Depois que saiu de lá foi até a cozinha, pegou duas fatias de pão-de-forma, presunto e maionese. Fez um sanduíche e colocou o resto do café do dia anterior em uma caneca. Programou o microondas para um minuto e após colocar a caneca lá, esperou. Sentou-se à mesa de jantar. Cruzou as pernas e olhou para o relógio de parede. Eram seis e quarenta e sete. Lá fora o sol já iluminava as ruas.

Ele se assustou com o apito do microondas. Fechou o saco do pão, tampou o pote de maionese e colocou-a de volta na geladeira, junto com as fatias de presunto. Tirou a caneca de café do microondas. Ao fechar a portinha, ouviu o forte barulho que fez. Da cozinha ele ouviu a porta do quarto se abrir. Tomou o café em um só gole, mesmo escaldante e saiu correndo com o sanduíche de presunto na mão. Ao sair da casa tratou de bater a porta da cozinha com força.

Sua esposa chegou à janela da sala a tempo de ver o marido começar sua corrida matinal. Cada dia mais cedo.


Matheus dobrou a esquina da sua casa e começou a subir por uma longa rua, que dava no outro lado do morro. Moravam em um bairro residencial. Havia terrenos com casas bonitas, cercas baixas, árvores e muitas possuíam até jardins.

Ele diminuiu um pouco o ritmo ao chegar à metade da subida. Ali morava uma senhora simpática que acordava cedo para cuidar de sua criação de coelhos e porquinhos-da-índia. Ao passar por ela acenou. Ela retribuiu com um sorriso e um balançar de cabeça.

Lá em cima, viu uma paisagem maravilhosa que não se cansava de ver. O sol nascia atrás do morro, em meio às casas de até dois andares e pomares. A luz batia em seu rosto. Ele passou a mão pela barba por fazer. Deu uma risada alta e se preparou para se aquecer quando ouviu uma voz.

“Ei, tem gente querendo dormir aqui.”

Ao se virar viu um mendigo que dormia sob um pé de mangueira. As frutas estavam vermelhas e prontas para serem consumidas.

“Você me acorda cada dia mais cedo, sabia?”

Matheus olhou para ele. Estava coberto com uma manta colorida suja. Sentou-se. O cachorro que estava atrás dele também acordou e começou a se espreguiçar.

O mendigo devia ter a mesma idade de Matheus, mas aparentava bem mais. Uns quarenta talvez. E sua situação não ajudava em nada. Matheus coçou a cabeça. Colocou as mãos na cintura. Depois, ao colocá-las nos bolsos da frente do moletom, atravessou a rua. Ficou a uns dois metros de distância do homem.

“Me desculpe. Não quis te acordar.”

“Mas acordou com aquela risada...”

“É”, disse isso de um jeito triste. Abaixou-se e chamou o cãozinho estalando os dedos. “Ele morde?”

“Não, é mansinho.”

“Vem aqui, garoto.”

“O nome dele é Rex.”

“Rex?”

“É.”

O mendigo ergueu a mão e pegou uma garrafa pet sem rótulo com água pela metade. Tomou alguns goles. Observou o outro brincando com o cachorro por um tempo antes de perguntar seriamente:

“Problemas com a mulher?”

Matheus olhou para o mendigo assustado.

“Como você...?”

“Eu já vi isso acontecer.”

Matheus deu um sorriso triste.

“Estou certo?”

“Infelizmente”, Matheus olhou para o chão. Deixou a tristeza transparecer mais uma vez. O cachorro voltou para seu dono. “Você e sua...”

“Ex-mulher. Éramos novos. Eu traí ela e depois as coisas não voltaram a ser as mesmas... Depois que a gente se separou eu perdi tudo e vim parar nas ruas.”

Matheus não sabia o que dizer.

“Sabe o que faltou...? Depois que a gente se casou?”

Hã... Não, o que?”

“Comunicação. Às vezes é melhor a verdade na lata do que meias palavras.”

Eles ficam em silêncio por um tempo.

“Qual o seu nome?”

“João.”

“Prazer”, os dois se cumprimentam. “Matheus.”

“Certo... Só por favor, não faça barulho, tá bom? Essa rua é bem calma e...”

“Vou tentar me lembrar.” Ele começou a andar. “Espere aqui que eu já volto”, e desapareceu da vista de João, descendo a rua.


“João!”, sussurrou Matheus. “Acorda!”

O mendigo despertou com o cheiro do pão-de-queijo.

“Aqui, trouxe pra você.”

Ainda com os olhos sonolentos, João sorriu ao ver o delicioso café da manhã que via em sua frente. Matheus entregou o pão-de-queijo. Em sua outra mão havia dois copos plásticos com café. Ele sentou-se ao lado de João.

“Tem café também.”

“Nossa! Muito obrigado. Não sei o que dizer.”

“Está tudo bem.”

Tomaram o café da manhã juntos.

“Sabe o que pode fazer bem? Perguntar, sem rodeios.”

“Perguntar o quê?”

“O que ela quer. De verdade.” Ele parou por um momento. “É claro que a resposta pode não ser tão boa, mas acho que é melhor, sabe...”

“Assim não tem mais meias palavras.”

“Exato.”

João riu e depois de acabar a refeição Matheus foi embora. Ele agradeceu. Matheus fez o mesmo.


Ele chegou do trabalho aquele dia e sentou-se no sofá. Sua esposa já fez cara feia e levantou-se para sair da sala.

“Espere. Acho que a gente precisa conversar.”

“O que foi?” Havia irritação em seu tom de voz.

“Pode se sentar?”

Ela se sentou e fitou o marido. Ergueu as sobrancelhas em busca de respostas.

“O que você quer?”, disse Matheus firme. “Sabe, do jeito que a gente está indo...”

Ela hesitou por um momento. Mexeu com as mãos e depois de um longo tempo de silêncio olhou nos olhos de Matheus e disse:

“Eu quero o divórcio.”


Conto de Lucas Beça

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