sábado, 3 de setembro de 2011

SUPER-ANTI-HERÓI


Por Gustavo do Carmo

Honório tinha seis anos quando começou a acreditar que o pai era o seu super-herói preferido. Desenhava-o, muito bem, com corpo musculoso e com armadura do Super-Homem. Servílio não tinha físico nenhum de super-homem.

Desempregado, batalhava com bicos para oferecer conforto à mulher e os filhos. Honório também tinha uma irmã mais velha, chamada Soraia.

Um dia, Servílio pegou uma carrocinha de alumínio no ferro-velho, a reformou, comprou os ingredientes com as últimas economias da poupança e começou a vender pipocas para sustentar a família.

Morando no Estácio, fazia ponto na Avenida Rio Branco. Na primeira semana de trabalho, ia e voltava a pé, empurrando o carrinho hérculeamente até o centro da cidade. Depois, conseguiu um sobrado próximo ao ponto para guardar a carroça.

Vendia bem. Tirava, em média, 200 reais por dia, com pico de 600 nas noites de fim de semana. O faturamento crescia. Ganhou fregueses como aposentados, empresários, estudantes, professores, militantes de esquerda, motoristas de táxi e vereadores, que trabalhavam por perto. Vendeu até para um homem que falava sozinho e queria comprar um saquinho de pipocas para o amigo imaginário.

Com a influência dos políticos, que se tornaram amigos, Servílio mudou o seu ponto para a Cinelândia. Em frente ao prédio da câmara municipal. Ganhou muito dinheiro, para orgullho do menino Honório, que já tinha oito anos, continuava idolatrando o pai como o seu super-herói e pregou uma foto dele na cabeça de um boneco do Super-Homem.

A família mudou-se para a Tijuca, num prédio maior que o conjugado onde morava no Estácio. Honório mudou de escola e apresentou o pai como o seu super-herói para os novos colegas. Alguns o humilhavam dizendo que ele era filho de pipoqueiro. O menino não se importava. Tinha orgulho do pai, seu herói.

Quando Honório completou dez anos, Servílio decidiu candidatar-se a vereador. Aliás, ele já nem era mais pipoqueiro. Trabalhava como assessor de um político. Mesmo assim, fez campanha política se anunciando como vendedor de pipocas. Foi eleito por coeficiente eleitoral. Pronto. Para Honório, o seu super-herói finalmente ia defender a cidade dos mais perigosos vilões.

A decepção veio antes de Honório deixar a infância. O super-herói que o menino acreditava que o pai fosse se transformou num vilão. Descobriu que Servílio enriqueceu ilicitamente como pipoqueiro, às custas de muita chantagem. E já como vereador, envolveu-se em diversos casos de propina em apenas um ano de mandato. Foi cassado.

O Super-Homem com a máscara de Servílio foi o primeiro brinquedo que Honório descartou para chegar à adolescência. Sem dó nem piedade. Aliás, piedade teve. Rasgou a máscara do vilão e deu o boneco para um menino de rua.

Aos quinze anos, Honório descobriu que o pai sustentava outras duas mulheres. A mãe pediu o divórcio.

Honório nunca mais acreditou em super-heróis. Nem em Papai Noel no Natal. Até se tornar um desenhista famoso de histórias em quadrinhos nos Estados Unidos. Fez sucesso com um super-anti-herói que roubava a nação como deputado, mas salvava o planeta de monstros alienígenas.

Casou-se e teve um filho, chamado Brian. Quando o menino completou seis anos foi abandonado pelo pai. Honório não queria ser super-herói de ninguém.

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