sábado, 10 de julho de 2010

DIFÍCIL TALENTO - 4a Parte

Por Gustavo do Carmo
Agostino conseguiu o emprego e conseguiu convencer Martina a fazer um teste como cantora. Por telefone marcou com ela uma audição em um dia de folga na mesma rádio Nacional onde levou o ex-colega pedreiro e foi atendido pelo mesmo diretor mal-humorado que reprovou (merecidamente) Elielton.
— Eu não acredito! Você de novo??? Espantou-se o diretor que ironizou:
— Veio trazer quem? Uma nova Madonna?
— Uma nova Elis Regina!
Mantendo o deboche o diretor caiu literalmente na gargalhada. Parecia a primeira vez que ria na sua vida. Mas era um riso de sarcasmo, lógico. Depois de enxugar as primeiras lágrimas, ele autoriza:
— Cadê ela, então? Pode mandar entrar.
— É... que ela ainda não chegou. Respondeu um constrangido Agostino.
— Você só pode estar de sacanagem comigo! Faz o seguinte: quando a sua Elis Regina chegar você me avisa, tá? Tenho mais coisas pra fazer.
O diretor mal-humorado sequer foi avisado, pois Martina não apareceu na rádio. Agostino esperou por três horas. No primeiro minuto da quarta hora, desceu de elevador para o térreo, deixou o prédio do edifício A Noite em direção ao primeiro orelhão que avistou.
Ligou para a casa da amiga alcóolatra. E foi embriagada que ela atendeu o telefone após cinco toques. Sua voz estava irreconhecível.
— Alô! Atendeu, com a língua enrolada.
— É a Martina?
— É sim! Por quê?
— Martina, é o Agostino. Nós marcamos de nos encontrar aqui na Rádio Nacional para você fazer um teste. Você não vem?
— Aaaaah, não! Tô passando mal! Acabei de vomitar agora de tão bêbada que eu estou.
— Dá pra imaginar pela sua voz.
— Canta aí por mim!
— Você não me disse que queria ser uma cantora famosa? Vai jogar uma oportunidade pela janela assim por causa da bebida? Perguntou Agostino impaciente.
— Eu não falei nada! Você que cismou com esse negócio de eu cantar.
— Então tá. Você não vem mesmo, né? Eu tentei te ajudar. Então, passe muito bem!
— Obrigada! Passe bem você também! Mas já disse que não quero ser cantora. Vai me obrigar? Tu é muito chato, tchau!
A linha de Martina caiu e Agostino ficou novamente sozinho na Praça Mauá.

***
Voltando do seu trabalho, na corretora, Agostino resolveu dar uma caminhada até o Aterro do Flamengo antes de pegar o ônibus para o subúrbio. Parou na frente de um dos campos de futebol society e ficou observando um jogo.
Pensava em mais quatro frustrações que teve no período: uma atriz muda na hora do teste, uma bailarina desajeitada que torceu o pé e um ator que faltou no estúdio porque foi preso por tráfico de drogas.
Um jovem forte, careca e de pele mulata lhe chamava atenção na pelada. Dominava a bola com facilidade, marcou seis gols, metade deles de cabeça. Era alto e, por isso, especialista em jogadas aéreas.
Assim que acabou o jogo, Agostino entrou pela porta de ferro da grade e aproximou-se do atleta. Teve que erguer o seu braço curtinho sobre os ombros altos e largos do futebolista.
— Com licença?
— O que foi? Quem é você? Apesar de estar empapado de suor, o jogador, que se chama Breno, perguntou seco e ofegante:
— O que foi? O que você quer?
— Eu vi você jogando. Se saiu muito bem. Parabéns!
— Obrigado. Mas você não respondeu à minha pergunta. Qual o seu nome?
— Oh! Perdão. Meu nome é Agostino. Sou caçador de talentos.
— Tá! Sei! Você é um daqueles empresários caras-de-paus que ficam rondando os jovens aspirantes que sonham em brilhar pela seleção mas vivem sendo iludidos! Ironizou, desconfiado, Breno.
— Não! Fica tranquilo que eu sou de confiança!
— Mas todo empresário picareta diz que é de confiança.
— Mas pode confiar em mim.
— Você é credenciado na FIFA pelo menos?
— Ainda não. Mas se você...
Agostino é cortado por Breno:
— Então cai fora, meu amigo! Eu não vou arriscar a minha carreira com gente irregular não. Quero gente séria! Aliás, você nem falou pra onde você vai me levar pra fazer esse tal teste.
— Calma, calma! Eu tenho um primo que trabalha num clube em Botafogo. Eu vou falar com ele pra ver quando tem uma peneira e eu ligo pra você.
— Mas eu não estou interessado, não. Jogo bola apenas para me distrair do trabalho de motorista de ônibus. Não tenho interesse nenhum em me profissionalizar.
— É uma pena. Os grandes clubes do Brasil e a seleção vão perder um grande artilheiro.
— Eu sou bom aqui na pelada no time da empresa de ônibus. Mas não vou me dar bem atuando no profissional. Agora, me dá licença que eu preciso ir para a garagem tomar banho e fazer o turno da noite. Disse o agora motorista de folga Breno, secando o rosto e guardando a toalha na mochila.
— Pensa bem, meu amigo.
A frase de Agostino derrubou a segurança do aspirante a atleta trabalhador, que ficou em silêncio por quase um minuto. Deixou a quadra sem se despedir dos colegas que imediatamente ficaram preocupados. Pensaram até que ele estivesse sendo assaltado, pois Agostino é um desconhecido para eles. Um deles chegou a perguntar a Breno se estava acontecendo alguma coisa.
— Não, nada. Esse rapaz só veio me dar um recado.
Em seguida, voltou-se para Agostino e aceitou a proposta, mas exigindo:
— Está bem. Vou confiar em você. Mas quero todos os seus dados pessoais como telefone, endereço e até número de documentos. Se eu descobrir que estou sendo enganado coloco a polícia atrás de você.
— Tudo bem. Eu entendo a sua preocupação.
Resignado, Agostino deu todos os seus dados: nome completo, endereço, telefone da corretora porque não tem em casa, endereço da corretora, identidade e CPF. Ganhou também quase os mesmos dados de Breno, com exceção dos registros civis.

Continua...


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