sábado, 26 de junho de 2010

DIFÍCIL TALENTO - 2a Parte

Conto de Gustavo do Carmo

No dia seguinte, um sábado de sol convidativo para a praia, os dois foram muito cedo a um clube em Botafogo para ela fazer o tão sonhado teste. Era quase meio-dia quando foram chamados pelo treinador: um senhor louro forte e de gênio mal-humorado. Não que ele fosse de fato. Era apenas um técnico exigente.


— Você quer mesmo ser jogadora de vôlei?


— Sim, quero muito. Respondeu uma ansiosa Michelle.


— O senhor é pai dela? Perguntou a Agostino.


— Não. Sou amigo do pai dela.


— Então, o senhor é o descobridor dela? Seria um empresário dela?


— Bem, é o que eu pretendo ser.


— Então vamos lá.


O treinador louro foi para o fundo da quadra, carregando quatro bolas: duas na mão e duas embaixo do braço. Envolvendo o seu pescoço, um cordão com o apito prateado. Antes de deixar a menina no outro lado da rede e pedir gentilmente que Agostino se sentasse na arquibancada, avisou que mandaria quatro bolas fortes para a menina devolver.


Lançou a primeira. A bola passou rente à menina, que ficou parada em posição de recepção. Gritou lá do fundo:


— PRESTA ATENÇÃO, MENINA!


Jogou a segunda e Michelle quase pegou. Na terceira ela nem se mexeu. A quarta ela acertou. A cesta de basquete no alto. Compreensivo, ao mesmo tempo irritado, o técnico aproximou-se da menina e recomendou:


— Você está muito tensa, minha filha. Vai descansar na arquibancada que mais tarde eu te chamo. Você como jogadora de vôlei joga muito bem basquete, mas se estivesse jogando basquete não ia acertar a cesta. Vai relaxar que eu preciso treinar o meu time.


Quando voltou frustrada para reencontrar Agostino, Michelle pediu para voltar pra casa. O amigo de seu pai fez questão que ela esperasse pela segunda chance, já que o treinador havia anunciado isso.


— Então não me dirija a palavra quando eu estiver concentrada. Disparou de forma ríspida e com voz embargada.


Depois de uma hora de silenciosa espera, na qual Michelle sequer olhou nos olhos do amigo de seu pai, a menina foi chamada pelo treinador a voltar para a quadra. Paternalmente, o profissional perguntou:


— Está mais calminha agora, minha filha?


— Acho que estou.


— Então segura. É a sua última chance. Vou te jogar mais bolas para te dar mais chances.


E o técnico jogou. Foram seis. As quatro primeiras caíram no chão sem que Michelle fizesse um único movimento. Na penúltima ela se jogou na bola, mas não conseguiu salvá-la. A última bateu em seu nariz. Não quebrou por pouco.


Impaciente, o técnico gritou:


— Não dá, minha filha! Não dá! Você tinha tudo para ser uma menina talentosa! Cadê o seu empresário?


Cabisbaixa e já enxugando as primeiras lágrimas, o treinador aproximou-se de Agostino e disse, com um pouco de dó:


— Olha, me desculpa. Você viu que eu dei duas chances para ela, mas ela não salvou uma bola! Lamento dizer isso, mas sua pupila é MUITO RUIM! Mande ela treinar mais! Tenham boa sorte e me deixem trabalhar!


Michelle deixou a quadra e o clube furiosa e aos prantos. Agostino a seguia tentando consolá-la. Chamou o técnico de grosseiro, de estressado e de sem visão. Incentivou a não acreditar nas palavras negativas. Quando convidou a menina para tentar mais uma vez, em outro clube, levou o fora definitivo:


— ME DEIXA EM PAZ! NUNCA MAIS ME DIRIJA A PALAVRA E NEM ME PROCURE NA SUA VIDA!


— Deixa eu te levar para casa então. Não posso deixar você ir sozinha. Prometo que eu não troco uma palavra com você.


Quase uma semana depois Agostino acabava de despejar areia do carrinho para o mestre de obra quando ouviu um “Desgraçado! Eu vou te matar, filho da puta!”. Achou que era na rua, mas quando virou-se para ver atrás de si, levou uma bofetada.


Enquanto um assustado Agostino se recompunha do soco que levou, Elielton gritava:


— SEU PILANTRA! EU TE DISSE PARA NÃO MEXER COM A MINHA FILHA!!!


— Mas o que eu fiz?


O pai de Michelle começa a cobrir o ex-amigo de pescoções enquanto dizia:


— E ainda é cínico! Filho da puta!


Quando Agostino se preparava para reagir, tentando devolver o soco, Elielton sacou da cintura da calça uma peixeira e, com ela em riste, ameaçou, entre os dentes:


— Eu vou te matar, seu desgraçado. Mexeu com a minha filha, mexeu comigo!


Os outros peões largaram a obra e correram para assistirem à briga. Agostino tentou se defender:


— Eu não fiz nada com a Michelle! Eu juro pela minha mãe!


— Mentiroso! Você fez sim! Mas eu te ajudo a se lembrar: Você humilhou a minha filha e a deixou chorando!


Um outro pedreiro interveio na discussão e perguntou:


— Que isso, Agostino? Você andou molestando a filha do Elielton?


— Eu não molestei nunguém!


— Eu não falei que você a molestou! Eu falei que você a humilhou! Levou ela para fazer teste de vôlei sem estar preparada e ela foi reprovada. Agora não quer mais jogar vôlei. Está morrendo de vergonha! Chora o dia inteiro!


— Eu só queria ajudá-la! Não fiz por mal!


— Não fez por mal, mas fez errado! Eu e minha família não temos dom para sermos artistas. Se eu que sou pai não gostei de ser humilhado, imagina a minha filha, que só tem doze anos! Você vai me pagar pela humilhação que fez a minha menina passar! Eu fiquei chateado com você quando foi comigo, mas perdoei. Mas com a minha filha eu não perdoo. Finalizou com um golpe da peixeira que acertou apenas o ar, por pouco não feriu Agostino.


Este se cansou das ofensas do companheiro de trabalho mal-agradecido e reagiu desabafando:


— Ah! Quer saber? Vocês são dois ingratos! Realmente eu errei, sim! Errei ao ver um talento que vocês dois não tinham! Passem bem!


Agostino pediu demissão.

Continua...

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