sábado, 19 de junho de 2010

DIFÍCIL TALENTO - 1a Parte

Conto de Gustavo do Carmo

A partir desta semana e nas próximas vou postar somente este conto Difícil Talento aqui no Tudo Cultural. Eu já havia iniciado a série, mas caí no equívoco de alternar com crônicas e outras histórias, inéditas ou não. Vieram as férias, o reinício do ano e acabei não terminando a história, que foi republicada em dez capítulos no blog Literário - www.pbondaczuk.blogspot.com .






Recomeço, então, da primeira parte, continuando, nas próximas quatro semanas (estimadas).






Agostino já estava acostumado a ouvir um “não”. Mas nunca desistia. Já procurava outro coitado para revelar o seu talento para qualquer coisa: cantor, cantora, ator, atriz, jogador de futebol, jogadora de vôlei, artista plástico, bailarina, etc.

Ele mesmo sonhava em ser escritor. Nunca escreveu nada. Pelo menos que alguém soubesse. Rabiscava algumas letras em um papel de pão. Depois guardava tudo na gaveta e voltava para a realidade.

Agostino nasceu em Tacaimbó, agreste de Pernambuco, em uma família pobre. Apesar da condição econômica era um menino inteligente e extrovertido. Aos dezoito anos veio para o Rio de Janeiro com os pais e o irmão. Começou trabalhando como peão de obra.

Meses depois, no serviço, viu um colega cantar uma música do Luiz Gonzaga e adorou. Precisou insistir com o cantor amador para que ele gravasse uma fita com os seus sucessos. Depois de muita resistência, Elielton aceitou gravar cinco músicas. Agostino correu para a uma gravadora em um dia de folga. Imaginava-se ganhando uma polpuda comissão de 10% do novo talento que descobriu.

Esperou cinco horas para mostrar a fita ao diretor. Pensou em desistir quando imaginou que o sucesso do seu novo talento poderia enfraquecer a sua amizade, pois Elielton ficaria famoso e o trocaria por um empresário mais influente e menos honesto. Agostino decidiu entregar a fita.

— Você está de gozação comigo? Bufou o mal-humorado diretor. — Isso aqui é um desrespeito à memória do Rei do Baião. Ele nunca desafinou e maltratou tanto o acordeão assim! Esse cara é muito ruim!

Os aspirantes a cantor e empresário deixaram o prédio da gravadora humilhados. Nem a fome que passaram no Nordeste os humilhou de maneira tão assaz. O medo de Agostino perder a amizade de Elielton tornou-se real. Não por causa do sucesso, mas motivado pela vergonha. Agostino ficou sozinho na Praça Mauá.

Na obra onde trabalhava, passou a ser ignorado por Elielton, que começou a desviar o olhar para Agostino. Ficaram uma semana sem se falar. Até que na segunda-feira seguinte, o ex-aspirante a Rei do Baião procurou o aspirante a caça-talentos para lhe pedir que buscasse sua filha na escola ao final do expediente, pois sua sogra havia morrido e ele precisava viajar a Campina Grande para acompanhar o enterro.

— Agostino, tu quer me ajudar mesmo? Então busca a minha filha na escola pra mim, por favor? Já tá tudo combinado com ela, que não quer ir ao enterro.
— Quando eu te ofereci ajuda não gostou. Depois ficou me virando a cara. Agora precisa de mim? Eu não deveria te ajudar não, mas como tenho muito carinho pela sua filha, eu vou te ajudar.
— Ah! Obrigado! Você caiu do céu. Mas vá lá o que você vai fazer com a minha filha, hein? É a minha menina preferida.
— Vai desconfiar de mim, eu não vou! Tá achando que eu vou abusar da sua filha? Ofendeu-se Agostino.
— Não. Está bem. Desculpa. Mas busca ela na escola para mim. Por favor?
— Está bem. Eu busco.

No final da tarde, Agostino foi buscar Michelle no colégio onde ela estudava, no Méier. A menina de doze anos estava na aula de Educação Física e Agostino acomodou-se na primeira fila da arquibancada do ginásio escolar.

A turma de Michelle jogava vôlei. Agostino chegou no exato momento em que a filha do amigo salvava um ponto adversário. O aspirante a empresário encantou-se com o desempenho da menina. Viu nela uma nova jogadora da Seleção Brasileira. Imaginou-a em Olimpíada, Mundial e Grand Prix. Sempre ganhando medalha de ouro.

Foi despertado da sua utopia pelo apito do professor, que naquela partida também era juiz e treinador. O time de Michelle perdeu por três sets a zero e as colegas olhavam de cara amarrada para a menina. O professor a consolava por ter deixado a bola cair no chão e confirmar o matchpoint.

Agostino levantou-se da arquibancada, desceu à quadra e anunciou:

— Seu pai me pediu para vir te buscar hoje.
— É. Ele falou.
— Sinto muito pela morte da sua avó. Você não quis ir ao enterro dela?
— Obrigada. Não. Não gosto dessas coisas fúnebres. Podemos mudar de assunto?
— Sim, claro. Eu te vi jogando na aula. Você joga muito bem.
— Fala sério, né? Você não viu a besteira que eu acabei de fazer? Deixei cair uma bola fácil no chão. As meninas do meu time quase me bateram.
— Isso acontece. Todo mundo erra. Você gosta de jogar vôlei?
— Gosto. Tenho sonho de ser jogadora profissional. Mas acho que jogo tão mal que eu estou quase desistindo.
— Deixa de bobagem, menina. Você não pode dar valor aos seus críticos. Eu estou querendo te levar amanhã no clube para fazer um teste.

Michelle se aborreceu com a proposta e falou rispidamente:

— Olha só, apesar do senhor ser amigo do meu pai, eu não te conheço bem e não posso ficar saindo com você. Eu quero ir direto pra casa hoje, amanhã e sempre. Se está usando isso para me seduzir eu vou te denunciar por pedofilia, tá?
— Não, fique tranquila. A minha intenção é a melhor possível. Confia em mim que eu vou te ajudar a realizar o seu sonho. Por favor. Eu sei que essa proposta é digna de desconfiança. Eu quero apenas te levar para fazer um teste em um grande clube. Tenho a certeza de que será aprovada.
— Está bem. Vou pensar. Vou tomar um banho no vestiário e depois o senhor me leva pra casa. Uma colega minha vai com a gente, tá? Ela vai dormir comigo lá em casa.
— Claro, sem problemas.

Apesar de muito madura para os seus doze anos, Michelle ainda tinha a ilusão infantil de se tornar jogadora de vôlei profissional. Mesmo não sendo uma boa jogadora. Aceitou o convite do colega de trabalho de seu pai, que ia passar o final de semana viajando.

Agostino tinha a fisionomia típica de um nordestino: cabeça quadrada, cabelo preto repartido ao meio jogado para trás. Não era bonito, mas tinha boa aparência. Enfim, não tinha cara de um maníaco sexual. Já Michelle, no frescor dos seus 12 anos, começava a apresentar os seios em crescimento e tinha uma beleza mestiça de um nordestino de olhos verdes com uma índia de cabelos lisos e olhos puxados. Não despertava nenhuma fantasia em Agostino, que queria apenas descobrir um novo talento no vôlei.

Continua...

Um comentário:

Ed Santos disse...

Muito bom patrão!!!! Esperamos os próximos!!! PAZ!

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