domingo, 5 de abril de 2009

BAR

Por Ed Santos

Ele acordou com aquele gosto de noite mal dormida na boca. Olhos sujos como sua mente fétida, que na noite anterior passeou pela mais suja esquina da cidade. Tinha uma enorme ferida na testa devido a um tombo que tomou na sexta-feira passada. Bêbado, ele escorregou e bateu com a cabeça na guia. Voltou pra casa sabe-se lá como, e até hoje a ferida não fechou.

Por volta das nove horas ele levantou, repetindo o mesmo padrão de todo sábado e encarou de frente do espelho a sua verdade.

- Você chegou tarde e bêbado de novo ontem.

- Sei.

- Dá pra ir comprar pão, pelo menos?

- Me dá umas gotas aí. com uma dor de cabeça do caralho.

- Já traz também um quilo de peito de frango pra eu fazer aquele estrogonofe no almoço.

- Nem escovei os dentes ainda e você já tá pensando em almoço?

Na padaria encontrou os amigos com quem havia estado na noite anterior e já “entornou uma branquinha” logo antes do café.

- Já volto. Só vou levar esse pão pra patroa.

A rotina não havia sido alterada. A psicanálise não poderia explicar porque ele não sentia nojo de próprio por ter este comportamento auto-sabotador. Não havia dor nenhuma, nem sequer uma culpazinha por agir daquela forma. Pela psicanálise, a exploração das vivências na infância talvez, eu disse talvez, pudesse pelo menos ajudar nos primeiros passos para uma provável explicação: porquê bebo?

Largou o pão sobre a mesa e aproveitando que a companheira estava no quintal estendendo as peças de roupas sujas de vômito com as quais ele havia chegado na noite anterior, voltou para o balcão companheiro e solidário. Lá permaneceu até quase às três da tarde. Isso não chegava a ser nenhum delito grave, mas sua reputação ficaria inflamada, cheia de pus. Como o buraco em sua testa.

Já não havia mais nenhum interesse partindo da companheira submissa. Ela apenas convivia com a situação. Preparou o almoço com os dois ovos que sobraram na porta da geladeira. Fizera uma omelete. Ele adorava omelete. Ficou esperando, mas almoçou sozinha. Deixou as panelas no fogão sabendo que elas só seriam abertas novamente lá pelas seis da tarde quando ele acordaria, mantendo a sua rotina de xingá-la dos piores palavrões assim como fazia todo sábado à tarde antes de pedir mais umas gotas daquele remédio pra dor de cabeça.

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