domingo, 17 de agosto de 2008

Peça íntima

Por Ed Santos


Finzinho de tarde. Aqueles prédios residenciais à direita da linha nunca entraram no detalhe do meu olhar. Hoje, vi que lá existe vida. Não saberia precisar qual o andar correto, mas vi alguém estendendo roupas no varal. Acho que era uma mulher, mas não posso afirmar. A única coisa que tive certeza era que uma calcinha estava sendo posta a secar. Como sabia? Sei lá! Apenas tinha certeza.

Homem tem dessas coisas, sempre tem certeza do que não vê, e aí, dimensiona o fato em proporções que lhe sejam favoráveis sempre.

- Você viu aquilo?

- O que?

- Aquela calcinha.

- Onde?

- No varal.

- Que???

- No varal! Tinha uma pessoa estendendo uma calcinha no varal de um apartamento ali atrás!

- Ali onde cara?

- Num daqueles prédios que a gente vê logo quando sai da estação.

- Sei.

- Então, cê viu?

- Vi nada. Aliás, como você conseguiu ver que era uma calcinha. Naquela distância toda!

- Tenho certeza!

- E a mulher, ao menos era bonita?

- Isso eu não vi não.

- Então cê tá querendo me dizer que viu que era uma calcinha, mas não viu quem tava pondo ela no varal?

- É!

- Cê tá maluco!

- Tô nada. Olha, posso dar os detalhes. Era uma calcinha branca com babados vermelhos na cintura e nas pernas. De algodão. Ainda bem, não gosto de lycra. Não parecia ser daquelas muito extravagantes e cavadas. Era do time das discretas. A calcinha. A dona... bom a dona eu acho que era uma mulher madura, mas que usava aquele tipo de calcinha pra provocar os homens, mostrando-lhes que tinha sentimento adolescente. Mas não vi sequer a sombra dela, apenas vi a calcinha. Foi o que me chamou a atenção.

- Cê viaja!

- Com certeza. Todo dia nesse trem! E nunca tinha visto uma calcinha tão bela.

Um comentário:

Rachel Souza disse...

Bom poder mudar o ângulo de visão, bom sonhar. Talvez o cara nem tivesse visto a tal calcinha, talvez fosse só o desejo de fugir do tédio das certezas.

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