segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

PARTIU PRO ATAQUE


Conto de Gustavo do Carmo

Não aguentava mais ouvir coisas do tipo “Meu namorado me deu um presentão”, “Vou me casar na semana que vem” ou “Meu marido disse que eu não devo me estressar tanto no trânsito”. Saber que uma mulher interessante para ele, seja conhecida próxima ou famosa, tem namorado ou era casada o desanimava bastante. Saber que ela engravidou era o fim. O fim das esperanças para Apolo.

Não que ele odiasse crianças. Mas não tinha paciência para lidar com elas. Achava muito desagradável ter responsabilidades de pai com o filho dos outros. E se gostasse do menino ou da menina teria que disputar o coração dela com o verdadeiro pai. De vez em quando pensava em aceitar um enteado. Mas se desanimava quando a mulher engravidava de novo. E se fosse de um segundo marido pior ainda. Teria que concorrer com dois pais verdadeiros. E as crianças ainda poderiam formar panelinha contra ele.

Apolo era virgem. Nunca teve namorada. Era muito tímido e imaturo. Não que ele fosse feio, mas não se cuidava. Tinha o rosto marcado por espinhas e já estava entrando na faixa da obesidade e não mais um barrigudo. Sonhador demais, fantasiava uma relação com uma mulher próxima ou famosa. Mas tudo murchava quando descobria que sua mulher desejada já tinha namorado, marido ou filho.

Já era cobrado pelos pais para ter uma namorada e lhes dar um neto. Ficou ainda mais desanimado quando soube que homens mais velhos são mais propensos a gerar filhos com deficiência intelectual. E Apolo já estava se aproximando dos quarenta.

Quando era adolescente só se interessava por mulheres mais velhas. Só que agora as mulheres mais velhas que sempre desejou já estão na faixa dos sessenta. Na terceira idade. Passou a se interessar por mulheres na faixa dos trinta. Só que muitas destas já têm filhos. E ainda pequenos. Restava a Apolo as mulheres de vinte. Só que aí ele já se sentia um tio ou um pedófilo.

Com a sua idade, ficava muito deprimido quando sabia que um primo ou prima que viu nascer já era pai/mãe ou simplesmente se casava. Já boicotava os casamentos da sua família. O mesmo com os colegas da faculdade, que tinham ideias imaturas como ele e hoje são pais responsáveis, maduros e jornalistas esnobes.

Quando Apolo descobriu que uma bela ex-colega da pós-graduação - que se dizia sua amiga mas o boicotou nos trabalhos de grupo - se casou e teve mesmo dois filhos com outro colega feioso da mesma turma dele e que também se fazia de amigo, resolveu partir pro ataque.

Não pense você, leitor (baixou o Machado de Assis em mim), que ele decidiu cuidar mais de si, emagrecer e sair à caça nas boates. Ele saiu para caçar, sim, mas nas ruas. Correu atrás. De uma mulher para estuprar. Estava cansado de ser bonzinho e educado. Jurou que não morreria virgem.

Realmente, Apolo se arrumou, se perfumou e fez a barba. Saiu de casa por volta de meia-noite. Esperou no portão do prédio até que passasse uma morena clara de cabelos pretos ou uma ruiva, suas preferências sexuais. Passou uma ruiva praticando running com o namorado (como sempre). Mesmo se estivesse sozinha ele não teria chance, de tão fora de forma que estava.

Quando viu uma morena clara sozinha começou a agir. Disfarçou. Sem tirar os olhos dela, saiu da portaria e a seguiu. Teve a sorte de não perdê-la de vista, pois o porteiro tentou puxar assunto com ele. Seguiu a moça. Fez de tudo para não percebido por ela. Mas a futura vítima sequer percebeu que estava sendo seguida. E nem ia perceber, pois estava cabisbaixa, vagando sem rumo pela cidade onde Apolo morava.

A mulher caminhou até a praia mal iluminada. Ou vagou até ela. Aparentava estar triste. Como se tivesse acabado de ver o noivo se agarrando com a sua melhor amiga. Se estava sozinha na rua deserta, correndo perigo de ser assaltada ou estuprada, era o que ela mais queria e nem ia tentar escapar. Apolo se aproximou. Tapou a sua boca com a mão direita e a arrastou até a areia, para onde a jogou violentamente. Rasgou o seu vestido e as roupas de baixo. Cumpriu o seu objetivo. O instinto de sobrevivência fez a vítima gritar, mas depois gemer de prazer.

Apolo foi preso na manhã seguinte, enquanto dava a sua caminhada matinal. Foi facilmente identificado pela câmera do Canal da Praia da TV a cabo. Cometeu o erro de sair com o mesmo estilo de roupa que usou no estupro. Sabia das consequências.

Seus pais e sua irmã se afastaram dele. Apolo apodreceu na prisão, mas pelo menos não morreu virgem. Sim. Apolo morreu. De AIDS. A garota que ele estuprou tinha acabado de descobrir que o namorado a contaminara com o vírus HIV.

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com personagens é mera coincidência.

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