segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

NUDES


Conto de Gustavo do Carmo

Por obra do acaso e com muita sorte, Felício conseguiu ter uma noite de amor com a jornalista mais bonita da televisão. Ela já beirava os quarenta e tinha um filho de seis anos. Deyse Sacramento  apresentava o telejornal da tarde da segunda emissora de maior audiência do país. Era mais popular pela sua beleza morena clara e de olhos verdes.



Conheceram-se no Twitter, onde ele passou a segui-la e foi retribuído, pois, segundo ela, seus microcontos a divertiam. Começaram a conversar e se tornaram amigos. Felício vivia outra realidade: jornalista e escritor frustrado aos trinta e dois anos, dependia do pai e morava no subúrbio. Tinha transtorno de ansiedade e déficit de atenção e, por isso, nunca conseguiu trabalhar na sua profissão, mas mantinha dois blogs: um de carros e outro de contos, que Deyse também adorava.

A noite de amor aconteceu no apartamento dela, na zona sul da cidade, um bairro chique. Antes, os dois foram a uma cantina italiana na mesma região. Era um restaurante caro, mas Felício tinha crédito do pai e ofereceu pagar a conta. Ciente da realidade social do amigo, Deyse recusou e ela mesma pagou a conta.
Em seguida, foram para o apartamento onde ela morava com o filho, que passava as suas férias escolares com a avó em Minas. Arteiro, deixou a casa tranquila para os dois, embora não soubesse o que a mãe iria fazer.

Antes da noite de amor conversaram amenidades. Ela contou-lhe os bastidores do telejornal. Falaram sobre as suas famílias. Sobre as suas manias também. Era o prolongamento de uma conversa que começou no restaurante. Começaram a se beijar. Felício foi despido suavemente de suas roupas por Deyse. E ele retribuiu o ato, revelando os seus seios fartos naturais e os pelos pubianos aparados nos cantos da virilha. Ambos foram beijados avidamente por Felício.

Depois do sexo, realizado em todas as posições possíveis, Deyse, muito constrangida, propôs que a amizade continuasse pela internet, mas que o romance não poderia ser levado adiante. Tomando cuidado com as palavras para não magoá-lo, ela argumentou que tinha uma vida bem diferente do jovem amante de uma noite só. Sua vida social era muito intensa e ele poderia sentir-se rejeitado e isso estragaria a amizade.

Felício sentiu que ela chamou-lhe de pobre e imaturo, mas aceitou. Por outro lado, pediu um favor, já ciente de que seria negado, por causa da profissão dela.

— Posso te fotografar nua? Quero guardar este momento para sempre e fico com medo de esquecer os detalhes do seu cor...

Antes de terminar a palavra foi interrompido por um sonoro “tsc-tsc-tsc” de negação, completado pela sua justificativa:

— Desculpa, mas não vai dar. Sou uma jornalista séria e apresento um telejornal de audiência nacional. Se essas fotos vazarem a minha carreira estará arruinada. E isso é muito fácil de acontecer. Você pode mostrar para os seus amigos e um deles vai distribuir as fotos para todo mundo. E os vírus no seu computador? E se você imprimir as fotos, colocar dentro de uma revista e elas ficarem esquecidas até serem descobertas por alguém? Acabei de te dispensar do romance. Você pode fazer uma pornografia de vingança contra mim. Pode me chantagear.
— Poxa, mas eu jamais faria isso. Eu nem tenho amigos. Quanto às outras justificativas eu entendo.
— Você me parece honesto, mas no mundo de hoje não dá para confiar em ninguém, meu querido!
— Tudo bem. Tudo bem. Não precisa ficar com raiva da mim. Eu preciso ir, então. Não tenho mais nada pra fazer aqui.
— Não, senhor. Eu não estou te expulsando da minha casa. Só não quero que me fotografe pelada. Preciso preservar a minha carreira. Só vou te expulsar se me fotografar nua quando eu estiver dormindo.
— Ok. Ok. Mas vou embora mesmo. Não fiquei magoado com você. A gente conversa pela internet.
— Não e não. Você vai ficar.
— Eu vou dormir na sala, então.
— Não, pode dormir comigo.
— Ok. Encerrou Felício, envergonhado pelo seu pedido indecente. 

Ele dormiu rapidamente. Deyse ficou sem sono. Revirou na cama. Levantou-se, vestiu o roupão e foi para o banheiro da suíte. Pensou diante do espelho. Voltou para o quarto. Observou o fã roncando. Foi até a cabeceira próxima a ele e pegou seu celular. Retornou para o banheiro e trancou a porta. Fotografou-se nua. Deixou uma surpresa no celular do frustrado escritor de trinta anos.

***

Sem retomar o contato com Felício, Deyse Sacramento casou-se com um fazendeiro goiano rico e teve um segundo filho. Mudou-se para a maior emissora do país, em São Paulo, e assumiu a apresentação do principal telejornal da noite.

Estava em um ótimo momento profissional e pessoal quando as fotos nuas que tirou para Felício vazaram na internet. Sua vida virou de cabeça pra baixo. Foi afastada do telejornal e depois demitida da emissora. O filho mais velho sofreu bullying na escola. Mesmo assim, não processou o imaturo amante, que ajudou nas investigações. Desde aquela noite ela já pensava em mudar de carreira. Abandonou o estressante jornalismo e virou atriz.

Inocente pelo vazamento das fotos, causado pelo hackeamento da sua nuvem, Felício continuou desempregado e sem sucesso como escritor. Reencontrou uma antiga colega de faculdade, agora funcionária pública.  

Traumatizado pelo vexame com Dayse, se recusou a tirar fotos da sua nova namorada nua. Ela tirou. Ele deletou. Prometeu a si mesmo que iria guardar na sua lembrança. Sofreu um acidente, bateu com a cabeça e ficou com amnésia. Jamais recordou-se da imagem nua de Leonora, que também o abandonou. E nem de Dayse.



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