segunda-feira, 3 de setembro de 2018

PORTA GIRATÓRIA


Conto de Gustavo do Carmo

O banco estava movimentado. Era o primeiro dia útil depois do carnaval, quando o ano realmente começa. Prudêncio encaminhou-se normalmente para a porta giratória. E normalmente ficou preso nela, ativada pelo detector de metais.

Andou de costas, parou atrás da faixa amarela - como o vigilante sempre orienta - e tirou moedas, chaves e o seu celular do bolso. Voltou para a porta. Novamente ela travou. O vigilante o interpelou:

— Tem alguma coisa dentro da sua bolsa? Chave? Guarda-chuva?
— Não, senhor. Olha aqui.

E Prudêncio mostrou a sua bolsa para o guarda, que só tinha alguns boletos e um maço de dinheiro.  

— Coloca naquela caixa ali, por favor.

O sofrido cliente obedeceu ao vigilante e colocou a bolsa. Voltou para atrás da faixa amarela, tentou ultrapassar a porta, mas ela novamente travou. Perdeu a paciência.

— Porra! Assim não dá! Eu sou um cidadão querendo pagar as minhas contas e ainda sou barrado? É porque eu sou negro, né? Isso é racismo! Eu vou processar esse banco!
— Fica calmo que não é nada disso!

Atrás dele, a fila de clientes já começava a vazar para a rua. O povo impaciente reclamava:

— Entra logo aí, porra!
— Libera ele logo! Eu estou com pressa!
— O ladrão deve ter entrada especial!

E Prudêncio repetiu essa última frase com outras palavras:

— O ladrão passa rapidinho, né? É só apontar uma arma que vocês liberam.
— Não passa, não!

Depois de mais um bloqueio ele decidiu, já levantando a barra da camisa e tirando o cinto:

— Eu vou tirar a minha roupa, então!
— Não faça isso!

A multidão que já se formava no hall dos caixas eletrônicos, ao ver o cliente se preparando para se despir, começou a gritar:

— TIRA! TIRA! TIRA!

Ele continuou:

— Vou fazer, sim! Porque vestido eu não consigo passar.

Prudêncio tirou quase toda a roupa e ficou só de cueca, para delírio dos outros clientes, que começaram a aplaudir. Uma senhorinha ainda lhe sugeriu:

— Processa esse banco, mesmo! Eles estão ricos, cobram juros e taxas altíssimas e ainda humilham a gente.

Além da multidão de clientes também aplaudindo que também se formou no interior da agência, uma junta de funcionários, formada por caixas e gerentes se reuniu e resolveu autorizar a entrada de Prudêncio sem nenhuma retaliação. O vigilante desativou o detector de metais e avisou:

— Pode entrar, senhor. Mas vista-se, por favor.

Enquanto recolhia as suas roupas e voltava a se vestir, resmungava, indiferente aos aplausos dos frequentadores do banco:

— Eu vou processar esse banco. Pelo constrangimento e por racismo. Pois só fui bloqueado porque sou negro.

Já vestido, finalmente, passou pela porta giratória e recolheu os seus pertences na caixa de acrílico. Colocou a alça da bolsa sobre o ombro, atravessando o peito.

O gerente tentava lhe acalmar:

— Calma, calma. Desculpe-nos. São os procedimentos de segurança do banco. Você precisa respeitar.
— Isso é preconceito!
— Não é não. Somos rígidos com todos.

Entrou na fila. Esperou a sua vez, quase pacientemente. Já estava se estressando de novo ao ver que só havia um caixa atendendo. Depois de uma hora, chegou a sua vez. Rasgou uma costura falsa da bolsa, tirou uma arma, apontou para o caixa e anunciou o assalto.  O pavor tomou conta dos funcionários do banco e dos mesmos clientes que o aplaudiram na entrada.


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