quarta-feira, 18 de julho de 2018

OBRIGADO, MIGUEL! - JANELAS 2


de Miguel Angel (in memoriam)



Preparando caprichado jantar, Anamaria se espanta com a audácia de sua imaginação, mostrando-a participando em cenas de ardente sexualidade, tendo de parceiro o sedutor voyeur, seu novo vizinho. 



Anamaria, coquete, se embeleza com maquiagens e realça propositadamente as formas de seu corpo com lingeries esquecidos de pouco usar. Excitada, afasta imagens que teimam surgir em sua mente com a velocidade de um piscar de olho e com a força erótica de uma compulsão.


Impaciente espera a chegada do marido.

Distrai-se com os últimos retoques de requintado jantar.

Evita cuidadosamente chegar perto do quarto e sua janela, ainda que escondendo miradas fugazes para ela.

Cantarola, acompanhando a música do rádio.

Baila, bebe, espera, para não pensar.

Finalmente se aquieta, cansada do marido demorar demais.

Pula quando o telefone toca: o marido vai se atrasar; negócios inadiáveis; desculpas; noite perdida.

Um minuto depois, enrubesce à mercê de sua excitação.

Parecendo uma ladra, vai até o quarto.

Como uma bisbilhoteira, abre a fresta da janela e espia: lá está a do vizinho, escancarada, parecendo um convite: mas o quarto iluminado mostra seu vazio. Vai desistir e se recolher, quando a chegada do jovem vizinho a imobiliza: molhado e nu, esfregando as costas com uma toalha, se comporta com a naturalidade de quem se sabe só. Como ela de horas antes, também cantarola - ela adivinha ou gostaria - a mesma música que está escutando em seu próprio rádio.

Se agita, no entanto, fascinada com a visão proibida, não consegue afastar-se. Observa os movimentos do vizinho por minutos largos; subitamente, como a pressentindo, ele se vira na sua direção: já sorrindo malandro, parece saber de sua presença. Impossível, a escuridão é total no seu quarto, mesmo com essa certeza ela corre fugindo da visão e especialmente do que sente. 

O dia seguinte de noite mal dormida traz para Anamaria a rotina de sempre, começando com a despedida nervosa do marido indo para o serviço, atrasado, sempre, o tempo todo, em tudo. 

Sozinha de novo, mas de outra maneira; agora tem o estímulo de exercer um jogo desconhecido para ela, o da sedução: fingindo indiferença, abre a janela do quarto de par em par evitando olhar para a do vizinho; minutos depois de fingir concentração nas tarefas de arrumação, se atreve a olhar e com desconforto a descobre fechada. 

Como a janela dele, também Anamaria fecha a cara. 

Será dia tedioso, com intervalos tensos só quando vai até o quarto e constatar que a vizinha janela permanece fechada e silenciosa. 

 Anamaria inquieta, tomando banho, de repente acredita ter ouvido ruídos; a voz de um chamado? Hesita 5 segundos para sair do banheiro; centelha molhada em direção à janela do quarto; ofegante e cuidando para não ser vista, espia e: é ele! Guardião vigiando sua janela. Só nesse instante percebe que, molhando o chão, está com sabão no corpo e que está feliz! Ri de sua criancice e corre de volta ao banho. 

 Vestida com minúsculo e apertado short, blusa de profundo decote, Anamaria refaz a cama pela terceira vez; tem certeza que ele está lá, observando-a, esperando ela se virar na sua direção. Nervosamente ela o evita; mas, consciente do jogo sedutor se exibe ostensivamente ao desejo que sabe estar estimulando; até que aparentando casualidade o encara: ele lá, torso sempre nu, sorriso largo, braços fortes e mãos! Uma delas faz sinais que ela não entende imediatamente. Estática não atina a nada, apenas olhar, assustada com ela e com a nova situação; já não é mais fantasia, a nova realidade exige uma atitude, chocante em sua simplicidade: ele faz sinais lhe pedindo o número do telefone! Pouco a pouco enquanto espera a resposta, como gato mimado ele se afasta da janela lentamente; anda de costas sem tirar os olhos dela, expondo devagar o corpo antes oculto pelo peitoril, até mostrar-se por inteiro para ela o constatar nu, oferecendo-lhe sua excitação; o convite no mirar e nos gestos não deixa dúvidas: ele lhe pede para fazer o mesmo. Maquinal, obedece tirando toda a roupa, e também ela afasta-se da janela para também ser vista por inteiro. 
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Aquele momento é longo, ambos se desfrutando como num feitiço. Distância pequena os separa, contudo, larga demais...

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segue na 4ª feira

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