quarta-feira, 27 de junho de 2018





As lembranças trazem, em seus veios de rios oníricos, contrastes bizarros de acontecimentos não cronológicos que se formam como fumaça e revivem aqueles momentos, ressuscitando mortos e os matando de novo e de novo e de novo.

Naquela época, quando eu ainda aprendia a pronunciar as palavras, e lembro que não sabia falar "água", a casa da minha avó era enorme e silenciosa. Depois da área pequena, onde cabiam apenas duas cadeiras de balanço, se abria uma sala grande, com um sofá cinza desbotado, uma estante cor de vinho envelhecido e uma TV de madeira ignorada, que terminava num corredor com portas de quartos dos lados, uma rotina mansa e pastosa se apegando às paredes. Palavras morriam em ecos e nas cortinas do esquecimento. Só a cozinha, algumas horas do dia, ousava em falar através de talheres, pratos, panelas, a água em fervura, o liquidificador, rasgando o silêncio costumeiro. O mesmo faziam teus passos, arrastados, lentos, deslizando no vazio daquela casa. Teus passos diziam "eu estou aqui".

O cheiro de cachimbo visitava todos os cômodos e, na cadeira de balanço, minha vó reinava em seu império decadente e solitário, sempre preenchendo o fumo e lançando com destreza uma seta negra e viscosa no cuspidouro ao seu lado. Do outro lado sua irmã, minha tia-avó, curvada sob o tempo e o cansaço que esculpiram sua corcunda, imitava os movimentos da minha avó, com um pouco mais de lentidão, como uma sombra crepuscular.

Quando a noite caia e as luzes artificiais eram ligadas nos cômodos cheios de ausências, minha avó abria o portão que dava para a calçada, observando as poucas estrelas que se avistava e a lua, qual ferida aberta no negrume do céu, ouvindo os parcos passos arrastados na rua de paralelepípedos. Ela sentava no degrau e eu me unia ao seu lado, então deitava a cabeça em seu colo. Uma mão sempre segurando o cachimbo, a outra na minha cabeça, fazendo cafunés e eu, cabelos lisos e loiros, fartos, olhos inquietos fechados esperando o momento único em minha existência em que ela (e até hoje eu não sei como) fazia um barulho de estalo com a unha no meu couro cabeludo, um som alto e que puxava minhas bochechas pros lados para dar espaço a um sorriso satisfeito.

Pensar que naqueles cômodos agora só cheios de fantasmas de lembranças, correram várias crianças, irmãos, numa época que eu nunca alcançarei. Minha mãe, meus tios, meus primos, irreconhecíveis por eles mesmos hoje, alheios aos sofrimentos vindouros e suas dores. O tempo vai calando as alegrias do passado e causando ranhuras e cicatrizes dos momentos tristes, como tatuando as paredes que, por mais demãos que se deem, ainda as guardam. Agora eram netos tentando quebrar o silêncio instalado naquela casa, pairando entre o sfumatto daquele lar, mas por tão pouco tempo, tão ocupados, os pais fazendo o que os pais têm que fazer. Menos eu, demasiado quieto, passos de gato, olhos cheios de timidez, só abrindo a boca para o necessário, sem sequer saber falar algumas palavras. Com vergonha de que outros soubessem que eu não sabia falar "água", a palavra que a substituía só era conhecida por duas pessoas além de mim. Eu tinha que chegar à minha mãe ou avó e pedir que se abaixassem, para que eu pudesse sussurrar a palavra em seus ouvidos e saberem que eu estava com sede. Nunca riram de mim. Esse vínculo íntimo que me unia à minha avó, além daquele cafuné misterioso, eram coisas que depois, num futuro com o qual eu nunca havia sonhado, feririam meu coração.

Nesse futuro ela estava deitada numa cama. Seu corpo extremamente magro e mirrado, corpo que eu herdei, mesmo se comer muito, estava embalado numa camisola branca com flores em cores frias, sutis. Seus olhos vítreos divisavam o teto, o nada, talvez a página em branco do próprio futuro. Sua boca aberta num suspiro que não tinha fim. Aquela imagem ficou gravada na minha memória como o momento em que eu entendi que ela ia morrer. Eu já não era mais uma criança. Já sabia falar "água" e, graças à minha paixão pelos livros, palavras bem mais difíceis. Mas ali, diante daquela cena, entendi que eu nunca mais sussurraria nada em seus ouvidos e sequer seus dedos teriam mais forças para estalar suas unhas na cabeça de um neto cujos pelos no corpo já se pronunciara, cuja voz já engrossara, mas não era adulto o suficiente para não chorar diante da vó que a vida estava prestes a tirar.

Claro que eu estava distraído quando aconteceu. Todas as coisas tristes acontecem quando a gente não está prestando atenção. A notícia chegou arrancando lágrimas dos olhos de minha mãe, sua face como os ocasos todos, e então eu soube e um outro mar desejou desaguar dentro de mim. Desde aquele momento só o que existiria era a tua lembrança, que também começaria a agonizar.

Naquele dia no cemitério era a primeira peça do efeito dominó de meu futuro repleto de perdas. Eu caminhava atrás do caixão ouvindo o choro de tias e primas enquanto pássaros cantavam ou se lamentavam, eu não sei. De uma forma solene os passos de todos eram lentos, como querendo atrasar o inevitável. Eu olhava as árvores e os túmulos, lápides que não li, ruas que eu não notei. Não seria a primeira vez num cemitério, nem daquele sentimento de deslumbramento diante da efemeridade da vida. Era fim de semana e enquanto lamentos se erguiam nas alamedas do cemitério dentro de seus muros, do lado de fora, ali perto, pessoas riam e cantavam bêbadas em um bar. Era a vida, a realidade zombando da morte com sua indiferença infinita. Quando os homens importantes da família começaram a jogar pás de terra acima do teu caixão eu lembrei novamente que nunca mais te veria. Sei que jamais você desejaria isso ao seu neto, mas aquilo doeu, doeu com um impacto silencioso, dessas dores que aprendi a guardar comigo mesmo e que se repetiria no futuro.

O que te levou, vó, bem perto dos 100 anos, foi uma queda, apenas uma queda e o que eu sempre lembro é que a senhora nasceu no mesmo ano em que o Titanic afundou. Não havia doença, na verdade eu nunca te vi doente, era teu corpo desafiando o tempo. E eu, que já levei tantas quedas e outras tantas ainda aguardam o momento de me derrubar, ainda estou aqui. Não tenho a pretensão de te eternizar com o que eu escrevo, pois para mim sempre estarás acima de toda eternidade.

Vários anos se passaram, vó, e hoje estou aqui novamente nesse cemitério. Estou aqui sepultando tua neta, minha irmã. Dessa vez eu não estou atrás do caixão enquanto os passos lentos se dirigem novamente ao inevitável, dessa vez estou levando o caixão. Eu sempre a chamei de Ninha, mas tu a chamava de Lua e eu nunca perguntei a razão, porque aprendi logo cedo que a senhora, vó, era vó e não precisava se explicar a ninguém. Ela será sepultada no mesmo lugar que a senhora, no mesmo túmulo, pois a vida tem levado em sua maioria as mulheres dessa família. Estou aqui, vó, com a mesma feição que teu sepultamento me ensinou. Estou tranquilo, estou resignado. Em meio às vozes que se calam sou eu quem digo algo antes de tua neta ser submersa não só pela terra, mas por todas as pessoas que aqui estão, pelo silêncio que as afoga.

Não sei se preciso pedir desculpas, mas olha, não se passaram tantos anos como antes, mas estou aqui novamente. Eu juro que pensei que o próximo seria eu, mas parece que ainda tenho algo a fazer neste mundo antes de ir de vez, como sofrer. Hoje eu estou aqui, infelizmente, por causa de tua filha. Ela, que estava aqui, mais forte que qualquer um, quando tua neta se foi, agora foi a vez dela. Tua filha, minha mãe. Escuta vó, desde que me conheço por gente, todas as mulheres da minha vida estão indo embora. Tanto da família quanto das que eu me apaixonei.

Eu namorei, vó, e fui deixado. Também namorei e deixei. Casei também, e descasei. Queria que a senhora as tivesse conhecido. Todas lindas, donas de si, talvez loucas, por gostarem de mim, enfim, a senhora se orgulharia de seu neto. Mesmo que haja vezes em que a gente prefere a lembrança de uma pessoa que a pessoa em si. Eu e meus olhos, tão cheios de mágoa, cheios de tristeza, cheios de saudade.

Mas então, vó, hoje é tua caçula aqui. Ao que me lembro, ninguém dessa família deixa essa vida em paz então sim, como tua neta, como tuas outras filhas e filho, ela sofreu. A senhora teve sorte (desculpe, eu tendo a ser assim) de ir sem muita dor. Foi o funeral no mesmo lugar, inclusive, por causa disso tudo, a gente começou a pagar faz tempo um plano funerário. Sabe, vó, o dinheiro tende a nos manter mais duros sobre a morte. E a vida.

Mãe se foi, minha Ninha se foi. Restou eu aqui. Creia-me, eu desejaria ter ido no lugar delas, seria até melhor para o mundo, mas é a vida que rege essa sinfonia eu nem sei dançar essa música. Por tantas vezes estavam meus olhos cheios de lágrimas, cheios de perdas, cheios de ausências.

E aqui, nesse buraco entre as lembranças que eu tenho de ti e as que não se formam mais, penso em tudo que as pessoas me ensinam ou ensinaram. Minha irmã me ensinou, em sua breve passagem por esse mundo, que se você deseja alguma coisa, com esforço você pode conseguir e isso fica ainda mais fácil se você ama o que quer fazer. Minha mãe me ensinou a respeitar as mulheres, mesmo que ela mesma não se respeitasse às vezes. Já a senhora, bem, a senhora nunca foi de falar muito, então a lição mais importante que eu aprendi da senhora foi o silêncio.

Os meus olhos, vó, continuam os mesmos. Eu e meus olhos cheios de noite.


Hemerson Miranda

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