segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O DESANIMADO


Conto de Gustavo do Carmo

Teve uma noite inesquecível. Perdeu a virgindade com a mulher dos seus sonhos: uma linda morena clara de seios fartos, chamada Joyce, uma escritora famosa com quem fez amizade na internet. Mesmo assim, Depreciano encerrou a deliciosa relação e se levantou enfadonho, desanimado. Isso chateou a moça, que perguntou:


— Você não gostou da transa, amor?
— Adorei. Foi inesquecível. Respondeu, quase murmurando.
— Mas você está tão desanimado. Parece até que não gostou.
— Eu amei. Já disse.  Retrucou, mais firme.
— Então vamos fazer mais. Pediu, puxando-o de volta para a cama.
— Agora não. Estou preocupado com a minha mãe. Mas vamos nos encontrar de novo.
 — Está bem. Concordou Joyce, resignada e frustrada.

Mesmo com o gostinho de “não quero mais”, Depreciano e Joyce voltaram a se encontrar. Foram a um restaurante australiano, no qual ele pediu um enorme e suculento hambúrguer. Ele não se importou. Não esboçou nenhum sorriso. E ainda amarrou a cara.

Joyce percebeu e brincou:

— Que hamburgão, hein? Aguenta comer isso tudo?
— Claro. Mas se quiser me ajudar, agradeço. Disse seco, entre a gentileza e a ironia, que ela percebeu e virou os olhos constrangida.

Namoravam no restaurante (ela amável e ele frio, beijando de olhos abertos) enquanto tocou o celular dele. Atendeu desanimado ao ex-colega de faculdade, que virou o seu agente literário.

— Depreciano? Aqui é o Marcos.
— Fala.
— Credo. Que desânimo, Deprê. Não é à toa que o seu nome é Depreciano. Você já foi mais alegre, rapaz!
— Fala logo, Marcos! O que é?
— O diretor Arthur Lages quer produzir um filme baseado no seu conto.
— Legal. Isso está certo ou é blefe?
— Não sei. Ele está te esperando para vocês conversarem.
— Eu não estou a fim de conversar com ninguém, não. Veja quais são as condições e acerta com ele.
— Ah, Deprê! Deixa de onda, vai! Vai perder essa? O Arthur quer falar com você.
— Está bem, está bem. Eu vou falar com ele. Encerrou Depreciano.
Joyce, que tinha ouvido a conversa do amigo do outro lado da linha, repreendeu o namorado pela sua falta de vontade.
— Pôxa, amor. O cara quer encenar o seu conto e você nem se animou.
— Ah, é porque estou com medo de não dar em nada. Cansei de ter expectativas.
— Mas você com esse mau humor não vai dar em nada mesmo. O cineasta não vai querer produzir nada de um autor que não confia nem em si mesmo.
— Está agourando é?
— Não. Só estou tentando te ajudar.
— Quando eu penso positivo as coisas sempre dão errado. Só dão certo quando eu sou pessimista. Agora vamos acabar de comer.

Joyce, que estava sentada ao seu lado, abraçou Depreciano e o beijou, convidando-o para mais uma noite de amor. Que ele aceitou.
Novamente, foram para a cama. Desta vez ele broxou. E  ela estourou.

— Porra, Depreciano! O que está acontecendo com você, hein? Não dá um sorriso! Está sempre desanimado quando está comigo. O problema sou eu???
— Claro que não, amor. Eu te amo.
— Então trate de procurar um psicólogo para resolver essa depressão ou eu vou te largar!
— Então me indique um!
— Pode deixar.

O desânimo de Depreciano não era só com o Joyce, como ela mesma ouviu Marcos falar. Ele também agiu assim com Arthur Lages. Mesmo adorando o seu conto, o cineasta quase desistiu de produzir o filme por causa da cara amarrada do escritor. Só se convenceu depois que ele mentiu dizendo que estava passando por problemas familiares. E conseguiu que o seu primeiro conto fosse filmado por uma quantia de 20 mil reais, mais 5% de direitos conexos.

O filme foi um sucesso. Só não foi premiado no Oscar. Depreciano ganhou muito dinheiro. Mas não sorriu nenhuma vez. Desde o lançamento aparecia na frente dos flashes com a cara amarrada.

Antes de ir à psicóloga indicada por Joyce, apresentou a namorada aos pais e foi apresentado aos pais dela, que o acharam bem desanimado e tentaram convencê-la a acabar com o namoro.

— Desanimadinho esse seu namorado, hein? Perguntou a mãe enquanto ele foi ao banheiro.
— Se continuar assim, não vai dar certo, não. Apostou o pai.
— Eu vou dar mais uma chance a ele. Respondeu, resignada.

Na casa dos pais dele, Joyce perguntou à sua mãe:

— Ele sempre foi mal-humorado assim?
— Não. Ele sempre sorria. De uns anos pra cá que ele tem andado deprimido. Mas vai melhorar.
— E por que o nome dele é Depreciano?
— Ah, é porque eu tive depressão pós-parto quando ele nasceu. Meu marido ficou com tanta raiva que o batizou assim.

E Seu Januário condenou o filho pelo resto da vida.


Em todas as consultas na psicóloga, Depreciano falou de sua vida. Acabou reconhecendo que vivia preocupado com os pais e com a irmã. Tanto com a saúde deles quanto com a situação financeira do seu pai. Tinha medo de perdê-los. Tinha medo do seu futuro. Sentia culpa por nunca ter trabalhado na vida. E jogavam isso na cara dele.

O fracasso do lançamento do seu primeiro livro de contos, um dos quais foi produzido por Arthur, foi o trauma que o deixou desanimado de vez. Não apareceu ninguém na noite de autógrafos.

Acerto da psicóloga? Sucesso no tratamento? De fato, Depreciano teve alta da terapia. Mas não adiantou nada. Ele continuou desanimado. Joyce só não o abandonou porque engravidou dele. Não queria afastar o filho do pai.

Antes, saiu do altar casado, mas com a cara amarrada, se limitando a cumprimentar os convidados. Quando nasceu Feliciano, Depreciano não esboçou nenhuma emoção. Nem boa. Nem ruim. Também não se animou com a segunda filha, Happy, com o sucesso dos outros livros que escreveu e das adaptações audiovisuais deles, com o prêmio sozinho e acumulado na Mega Sena que ganhou, com a formatura dos filhos, o casamento deles e os netos.


Depreciano só voltou a sorrir aos 70 anos. Quando foi encontrado enforcado por Joyce. A força da corda em seu pescoço puxou os seus lábios para cima. Até o fim da sua vida continuava desanimado. 

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