terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A ESPERA DE NATAL



Conto de Gustavo do Carmo

A mesa já estava posta desde a manhã da véspera. Foi quando Edith começou a preparar a casa para a visita do ex-marido e dos dois filhos adolescentes, que ficaram sob a guarda do pai.

Madrugou na feira para comprar frutas frescas, especialmente as ameixas, as uvas verdes e o abacaxi. O peru ela começou a temperar assim que chegou da feira. Passou a manhã inteira na cozinha para isso. O resto da tarde levou para assar a ave no forno do seu velho fogão de quatro bocas.

Enquanto o peru assava, estendeu a toalha (a mais nova e limpa da casa) sobre a mesa para logo colocar os descansos também novos, as louças, talheres e copos de cristal que ela sempre guardava na cristaleira empoeirada para ocasiões especiais, assim como os castiçais e as velas vermelhas.

As castanhas e as rabanadas ficaram prontas pouco antes do peru chegar triunfante e esfumaçado à mesa retangular grande, onde esfriaria em algumas horas.

Os presentes já descansavam sob o pinheiro de 1,60m, feito de grama artificial. Comprara uma moderna furadeira para o ex-marido. Um tablet para a filha mais velha e uma prancha de surf para o caçula, que segundo lhe falaram, já se interessava pelo esporte.

A prancha era mais alta que a árvore e, embalada em um papel alumínio verde, confundia-se com o ornamento natalício, repleto de bolas de plástico brilhante e colorido. O tablet ficou dentro de uma caixa com embrulho rosa, que mais parecia um estojo. A filha estava crescendo, mas continuava uma menina para Edith. A furadeira do ex-marido repousava no chão da sala, embrulhada em um papel cinza. A árvore também abrigava o presente do porteiro do edifício, Severino: uma garrafa de vinho chileno.

Faltavam duas horas para os filhos chegarem. Edith pensou ansiosa. Foi tomar um banho rápido, mas revigorante para esperá-los.  Ficou receosa de tocar o interfone ou o telefone e não poder atender porque estava no chuveiro. Lembrou-se de levar o telefone e o celular para o banheiro. Nenhum deles tocou. 

Saiu do banho e colocou o seu melhor vestido: um azul marinho que comprara quando assinou o divórcio. Perfumou-se com Madame Cabochard, com o qual conheceu o ex-marido e os filhos adoravam.

Enfim tocou o telefone. Era engano. Sentou-se no sofá. Ligou a televisão para conter a ansiedade. Já passava a novela das seis. O telefone voltou a tocar. Além de esperar os filhos, Edith também esperava uma ligação da única irmã ainda viva. Era apenas uma operadora de telemarketing com o seu sotaque paulistano querendo vender um curso de inglês. “Raios! Até no Natal essa praga perturba! Quando a gente precisa estão fora do expediente” Pensou, indignada.  

O interfone tocou. Tensão. “São eles! São eles!” Recompôs-se rapidamente. Colocou o brinco e o sapato de salto antes de atender. Ficou decepcionada quando soube que era o porteiro anunciando o entregador do jornal pedindo caixinha. Ficou tão revoltada que se recusou a dar.

Aproveitou para chamar o porteiro e lhe dar o presente. Severino agradeceu, se desculpou e disse que estava sozinho na portaria e não podia ser visto com garrafa de bebida pelo síndico. Mas iria buscar o presente e lhe dar um Feliz Natal depois, assim que acabasse o seu expediente, pois não estaria de plantão.

A televisão já passava a novela das sete. Ninguém aparecia. Começou a roer as unhas. Queria mesmo era fumar, mas estava tentando largar o vício. O telefone tocou mais uma vez. Parou após o terceiro toque. Resolveu se concentrar no jornal das oito, que já começava. Adormeceu.

Acordou com a campainha da porta. “São os meus tesouros, que subiram direto!” Correu para atender, mas voltou a ficar frustrada quando ouviu a voz nordestina do porteiro Severino. Já estava começando a ficar triste. Fingiu alegria.

Pegou o embrulho com a garrafa na árvore, que já piscava há uma hora, e enfim lhe deu o presente. Não sem antes tentar convidá-lo para ceiar com ela. Severino recusou novamente o convite com carinho. Ia passar o Natal com a família no subúrbio. O porteiro retribuiu e lhe chamou para passar com ele e a família. Agora foi a vez de Edith recusar, pois estava esperando o ex-marido e os dois filhos.

Se despediu do porteiro e olhou para a mesa farta, mas inútil. O peru já estava mais frio do que cadáver de indigente no IML. Pensou em esquentar. Para quê? Ninguém ia aparecer mesmo. Já ia dar dez horas da noite. A televisão já exibia a Missa do Galo. Perdeu as esperanças.

Começou a chorar. Caiu em prantos e na realidade. Foi abandonada pelo marido porque era alcoólatra e viciada em jogos de azar. Os filhos preferiram morar com o pai. Os pais e tios já eram falecidos. A única irmã viva estava sem falar com ela porque perdeu a casa própria por causa Edith, de quem foi fiadora por causa de um empréstimo para saldar as dívidas de jogo. Claro que Edith não pagou e o banco exigiu a casa da irmã. Os amigos também a abandonaram porque souberam da história e tinham medo de lhes acontecesse o mesmo.

O apartamento de três quartos em Ipanema foi deixado pelo marido por gentileza e pena. Era o ex quem pagava o condomínio e as contas de luz e telefone, porque se dependesse de Edith, tudo seria gasto com jogo. Ele até conseguiu impedir a ex-mulher de vender o apartamento. Por sorte, Edith fez tratamento contra o jogo. Mas já estava em depressão.

A expectativa da vinda do ex e dos filhos era uma tentativa de se manter otimista. O peru, de gelado, estragou com o calor carioca. Assim como as frutas, as castanhas e as rabanadas, todas cobertas por panos para não pegar poeira e nem moscas. As nozes, protegidas pela dura casca que o seu filho caçula adorava quebrar com o soquete de feijão, nem chegaram a tanto.

A furadeira continuou silenciosa no chão. Nem saiu da caixa. O tablet ficaria eternamente offline. A prancha só estava surfando a sua sombra na parede. O único presente dado foi o vinho do porteiro e era o último da sua adega. Os outros presentes foram comprados com o dinheiro que ela ganhou do bicho. Ainda estava voltando a jogar.

Já era alta madrugada do dia 25 de dezembro quando se olhou no espelho do buffet e se viu esquelética, loura e acabada aos 50 anos. Deu uma última olhada nos presentes abandonados, na televisão velha já desligada, nos copos e pratos empoeirados, nos móveis velhos e nas paredes descascadas.

Abriu o janelão da sala do apartamento, enquanto ouvia famílias rindo e trocando votos de Feliz Natal, além de gargalhadas de amigos ocultos. Se jogou.


Seu corpo teve a queda do décimo-primeiro andar amortecida por um ar condicionado e uma árvore. Sobreviveu. Foi socorrida lúcida pelo porteiro plantonista, vizinhos, curiosos, imprensa e a polícia. Pediu um cigarro. 

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