terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Casa de Bonecas

Por @hemersomn



Era outono e as folhas se arrastavam pelo asfalto. Tarde da noite, mas tudo ainda estava com uma cor acinzentada. O casal e suas duas filhas saíram do carro parado no meio da estrada e começaram a conversar.


- O que vamos fazer William? O carro morreu mesmo?

- É o que parece. Precisamos de um telefone. O celular não tem sinal – ele falou olhando em volta.

- Ali pai. – a filha mais velha, Kamila, apontou para uma tênue luz vinda de uma casa a alguns metros dali.

- Vamos lá. – disse o pai abrindo o porta-malas e retirando algumas coisas.

Eles se aproximaram da casa que não tinha muros. A única casa naquele deserto. Uma casa antiga, mas que se erguia imponente. A luz que provinha dos cômodos da casa parecia dançar.

- Parece que não tem luz, querido. – disse Alicia, a mulher. – E não está muito tarde para incomodarmos?

- Deve ter algum telefone pelo menos. E você não quer ficar dentro do carro a noite toda né?

Elisa, a filha mais nova coçava os olhos com sono.

Eles se aproximaram da porta e William bateu três vezes. Passos foram ouvidos se aproximando até que a porta abriu com um rangido. Uma senhora pequena e de cabelos bastante brancos apareceu e ajeitou seus óculos para ver melhor os visitantes.

- Boa noite – ela disse com um sorriso.

- Boa noite senhora...

- Edith.

- ...senhora Edith. Nosso carro quebrou e precisamos fazer uma ligação.

- Ah querido, eu não tenho telefone. – ela falou sorrindo e acariciando o queixo da pequena Elisa, que retribuiu o sorriso. – O único telefone mais próximo fica a dois quilômetros. Porque não passam a noite aqui e esperam amanhecer? O guarda Daniel passa aqui toda manhã para tomar café comigo. Ele pode lhe levar até o telefone.

- Mas nós não queremos incomodar...- começou Alicia.

- Não é incômodo nenhum, querida. Incômodo seria deixar essas duas princesas caminhando por aí a essa hora da noite para um telefonema. Venham, podem entrar.

Ela abriu a porta e todos começaram a caminhar por um pequeno corredor. As apresentações foram feitas. Todos já se sentiam mais a vontade. E quando chegaram na sala todos sussurraram em uníssono um “Nossa!”

A sala na verdade era um ateliê. Estantes se erguiam repletas de bonecas de todos os tipos, cores e tamanhos. E não só nas prateleiras. Em cadeiras e sofás. A senhora ainda tinha nas mãos agulha e linha. Todos olhavam maravilhados para todas aquelas obras saídas dos dedos dedicados daquela pequena senhora.

- Oh esse é meu ateliê. – disse Edith com olhos brilhantes. – Vocês gostam de bonecas meninas?

A mais velha balançou a cabeça num gesto de dúvida, mas Elisa abriu um sorriso de orelha a orelha. Sua alegria aumentou ainda mais quando recebeu das mãos da senhora uma boneca. Ela correu para os pais, sacudindo-a na frente deles.

- Olha papai! Olha mamãe! Parece comigo! Parece oh!

Alicia pegou a boneca e se surpreendeu com a semelhança dela com a filha. A maioria das bonecas eram rústicas, com olhos de botões, sem dedos, sem boca. Mas essa estava perfeita. O vestido era idêntico. Ela estremeceu quando olhou para os olhos da boneca. Parecia até estar viva.

- É da senhora Edith. Devolva a ela Elisa.

- Pode deixar com ela. É um presente. – sorriu a senhora.

- A senhora mora sozinha aqui? – perguntou William.

 – Desde que meu marido faleceu.

- Oh eu sinto muito. – disse Alicia.

- O tempo passa para todo mundo não é mesmo querida?

A senhora aproximou-se de uma boneca em tamanho real, praticamente do tamanho de Alicia, dentro de uma estante com porta de vidro. Parecia estar viva.

- Essa aqui – disse a velha com um suspiro. – é minha preferida.

Todos se maravilharam com a visão. Os olhos brilharam. O vestido de noiva caia perfeitamente bem na boneca, mas podia-se ver que fora feito para uma mulher de verdade.

- Eu a chamo de Aline.

- A senhora as vende? – perguntou Alicia.

- Não, não. São todas minhas. Eu não teria coragem de vendê-las, assim como você não teria coragem de vender suas filhas, não é mesmo?

Alicia olhou para William com uma ruga na testa. Ele sorriu e, sem que a senhora visse, fez um gesto dizendo que ela devia ser louca.

- Bem, vocês devem estar cansados...

Ela se aproximou da escada que dava para o andar de cima e falou para William:

- A direita tem um quarto com uma cama de casal. Em frente a ele tem outro com uma cama de solteiro que pode usar para as crianças. Se preferir colocar a cama de solteiro no quarto em que vocês dois vão dormir fique à vontade. Assim as crianças não se sentirão sós. Em ambos os quartos tem banheiro.

- Ah muito obrigado, dona Edith. – disse William subindo as escadas com as malas. – Nem sei como agradecer. Tenha uma boa noite.

- Podem ficar tranquilos que eu os chamo quando Daniel aparecer pela manhã.

Todos deram boa noite para a velha senhora e subiram as escadas. Ela sentou-se na poltrona e continuou a costurar. Um sorriso ainda riscava seu rosto envelhecido. Suspirou fundo e olhou para o lugar onde a boneca que dera para Elisa estava. Do lado do lugar vazio estavam mais duas bonecas e um boneco vestidos da mesma forma que seus convidados estavam. Seus olhos de tão realistas pareciam olhar para a velha senhora com curiosidade.
William e Alicia colocaram a cama de solteiro no quarto em que iam dormir. Kamila queixou-se.

- Eu não quero dormir com a Elisa. Ela fica me chutando, mãe.

- Durma com seu pai então. Eu vou dormir com ela.

As camas eram confortáveis. Tudo só parecia estar um pouco empoeirado. Ao sacudir os lençóis, a cama pareceu mais apropriada para dormir. O silêncio fúnebre os incomodava um pouco. Kamila colocou seus fones de ouvido e deitou-se do lado do pai. Alicia abraçou sua pequena filha e ficou um tempo olhando a chama da vela tremular. O sono foi chegando aos poucos.

Sonhos estranhos perturbaram o sono de Alicia. Ouvia vozes e gritos. Parecia a voz de suas filhas pedindo por socorro. Elas estavam encolhidas num canto, chorando e gritando. William não estava por perto. A imagem das meninas desapareceu. Ela continuava ouvindo os gritos e choros. Então tudo ficou em silêncio. Pouco a pouco uma voz foi sendo ouvida; a voz de uma menina cantando uma música que ela não conseguia entender. Era a voz de Elisa. A menina se arrastava no chão, como não podendo andar, cantando a música e olhando para a mãe. Aproximava-se cada vez mais e o som da música aumentava. Quando a menina já estava cara a cara com a mãe, a música cessou. Um frio lhe passou pela espinha ao ver sua filha a encarando em silêncio. Então sangue começou a escorrer dos olhos da criança e o som de porcelana quebrada foi ouvido. O rosto da menina havia rachado.

Alicia acordou ofegante. O coração acelerado. Pôs uma mão no busto e a outra procurou Elisa na cama, mas não encontrou. Sentou-se e pensou que ela poderia ter ido ao banheiro. Kamila também não estava na cama com o pai, que parecia dormir como uma pedra. Levantou-se, pegou a vela e procurou as filhas. Não havia ninguém no banheiro. Correu para chamar o marido, mas quanto mais ela o cutucava mais ele parecia dormir. Puxou ele para perto de si, colocou a chama da vela diante de seu rosto e abafou um grito com a mão. William tinha a garganta cortada, o peito banhado em sangue e sobre as pálpebras estavam costurados dois botões.

Alicia se afastou perturbada. A mão continuava a abafar os gritos em sua boca, mas as lágrimas clamavam escorrendo por seu rosto. Descalça, ela procurou algo para se proteger. Encontrou uma barra de ferro meio solta na cama em que estava dormindo. Fez força até que a barra cedeu. Com vela e a barra em mãos, ela deu uma última olhada em seu marido. A imagem era terrível. Tentou afastar da mente o que poderia ter acontecido com as filhas. Soluçou bastante e enxugou as lágrimas.

Abriu a porta do quarto e iluminou o caminho. Então começou a ouvir uma música vinda do ateliê. Qual não foi sua surpresa ao perceber que era a mesma música que ouvira no sonho, só que agora ela a entendia perfeitamente. A senhora Edith é quem cantava.

“Volta e meia vamos lá,
A boneca quer brincar.
Costurando e cortando,
Todo mundo está brincando.”

A mulher cantava pausadamente, uma voz arrastada e mórbida. Alicia desceu as escadas lentamente e a melodia foi ficando cada vez mais alta. Outra vela tremia perto da poltrona onde a dona da casa estava sentada, costurando alguma coisa. Ela pareceu não ter percebido a presença de Alicia se aproximando. Parou no primeiro degrau e gelou. Quase desmaiou com a visão a sua frente.

O corpo de Kamila estava ali no chão, próximo a escada, mas não era todo o corpo de Kamila. Botões também foram costurados sobre suas pálpebras, mas seus membros... Os braços e pernas haviam sido arrancados e estavam ali do lado, em poças de sangue. No lugar deles foram costurados braços e pernas de boneca de pano, com mãos e pés de porcelana. Era os membros da boneca Aline, que não estava mais dentro da estante, mas jazia sentada e mutilada do lado da poltrona.

- O que... Que a senhora fez com minha filha?!

- Ela não ficou linda, Alicia?

A mãe prostrou-se diante da filha sem vida, banhando-a com suas lágrimas. Gritos de desespero ecoavam na casa antiga.

- Onde está Elisa? O que você fez com ela?!

O coração de Alicia quase saiu pela boca quando a velha levantou-se e mostrou o corpo de Elisa em seus braços, os botões costurados sobre as pálpebras, a pele pálida e já sem vida. A mãe correu enfurecida para cima da velha, que recuou rapidamente deixando o corpo da criança cair no chão de madeira. Ela ficou atrás da poltrona enquanto a mulher abraçava o corpo morto de sua filha entre gritos e choro constantes.
- Não! Não! Como pôde fazer isso?! Meu marido! Minhas filhas!

Toda a bizarrice que ela presenciara a perturbava a ponto de querer rasgar aquela senhora no meio. Levantou-se de um salto e foi para cima da mulher, mas ela já não estava mais lá. Olhou para todos os lados. A mulher parecia ter evaporado. Subiu as escadas e foi até o quarto dela, que ficava no fundo do corredor, mesmo sabendo que a mulher não teria tido tempo suficiente para subir as escadas tão rápido. A porta estava trancada. Ela forçou com o ombro várias vezes e a porta cedeu. Um cheiro forte de poeira lhe entrou nas narinas. Iluminou o quarto com a vela e metade das trevas foram expulsas. Aquilo parecia não ter sido aberto durante séculos. Uma camada grossa de poeira cobria tudo. As janelas estavam fechadas com um pano preto que ela arrancou para que ao menos a luz da lua entrasse.

Não havia ninguém ali. Tudo estava uma bagunça completa. Ergueu a chama da vela para ver o teto e recuou para trás assustada. Havia uma corda amarrada a uma das vigas. Uma corda preparada para um suicídio. Quando foi recuando bateu numa penteadeira. Virou-se e viu a si mesma no espelho. Parecia uma louca. Os cabelos desgrenhados, o rosto oleoso, úmido pelas lágrimas. Acima da penteadeira havia algumas fotos empoeiradas. Ela soprou e passou a mão para ver direito. Numa das fotos a senhora Edith estava de pé com outras mulheres, cada uma com uma boneca no colo. Todas sorriam. Mas a faixa acima delas foi o que chamou a atenção de Alicia. Ela colocou a mão na boca. A faixa dizia: “Concurso de bonecas de 1899”. Pôs a mão na cabeça, não acreditando. A mulher na foto estava há pouco tempo falando com ela. Como isso era possível? Quem poderia ter então...

A revelação lhe caiu na cabeça como uma bigorna. Ela olhou para suas mãos e viu o líquido vermelho e viscoso escorrer por entre seus dedos. Olhou para o espelho e viu a boca manchada de sangue, o vestido de noiva que antes estava em Aline e agora estava tingido de vermelho com o sangue de sua própria família. As cenas passaram diante de seus olhos como em um filme. O momento em que colocou o vestido de noiva e subiu para o quarto cortando o pescoço do marido ao som dos gritos de suas filhas que pediam que parasse. A corrida atrás delas para que mutilasse os membros de uma e costurasse no lugar os membros de pano da boneca. O olhar da pequena antes de ter botões costurados em seus olhos. A visão das bonecas vestidas igualmente a eles na estante. A música. A música que saia de seus lábios como uma cantiga de ninar. A agulha ainda estava em sua mão. Ela não queria mais brincar.

***
Uma semana depois os corpos foram encontrados nos mesmos lugares que haviam ficado. O odor de carne podre já impregnara todos os cômodos da casa. No quarto da senhora Edith o corpo de Alicia foi encontrado pendurado por uma corda, vestida de noiva, mas a pele de seu rosto fora arrancado de forma precisa. Os peritos confirmaram suicídio. A boneca em tamanho real chamada Aline estava de volta na estante com porta de vidro. Os membros de Kamila estavam costurados na boneca e o rosto de Alicia fora colocado na cabeça dela. Os corpos foram levados e a casa fechada.

Algumas pessoas que passam em frente àquela casa a noite dizem ouvir três vozes de mulheres cantando uma melodia.

“Volta e meia vamos lá,
A boneca quer brincar.
Costurando e cortando,
Todo mundo está brincando.”

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