terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Por @hemersomn



Meu nome é Priscila. Tenho 35 anos, sou gerente numa loja de roupas e faço faculdade de publicidade. Sou casada a 5 anos com um homem 5 anos mais novo, mas que aparenta ser mais velho que eu, o que me deixa muito feliz. Eu tenho uma vida feliz. Um casamento feliz. Eu sou feliz. Mas não hoje.

É que eu acordei "naqueles dias". Sim, naqueles dias em que meu marido me define como "a encarnação da inconstância." É óbvio que ele exagera nessa definição. Admito que fico um pouco chata, mas não transformo qualquer detalhe em "uma catástrofe de proporções bíblicas", como ele costuma dizer. 

Quando eu chego da faculdade ele já está em casa e hoje não foi diferente. Lá estava ele, só de bermuda, cabelo ainda molhado e despenteado, sentado no sofá jogando vídeo game. Eu sempre sorria quando chegava e o via assim. Mas não hoje. Aquilo me irritou profundamente. Os cabelos molhados estavam respingando no sofá. E aquele jogo! Maldito jogo! Não sabia o que ele via de divertido ou interessante num jogo onde você corre atrás de zumbis pra matar.

- Oi, amor. - ele falou sem sequer tirar os olhos da tv.
- Oi.
- Tudo bem?
- Tudo.

Não, não estava tudo bem. Acho que deu pra perceber, pois coloquei meus livros na mesa de centro com certa força. E ele ao menos poderia ter olhado para mim. se eu tivesse chegado com outro homem, com certeza ele nem ia perceber.

- Aconteceu alguma coisa, meu bem?
- Não. nada.

Ele colocou o jogo em pausa e olhou pra mim. Eu fingi ignorar tudo que estava acontecendo. Coloquei minha bolsa no sofá e já ia saindo, quando ele falou.

- Nada mesmo ou é daqueles "nada" que encerra um monte de coisas?
- Já disse que nada.

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Conto de Gustavo do Carmo 



Já tentei psicólogo, psiquiatra, acupunturista, cultura indígena, confissão ao padre, descarrego e até macumba para tentar acabar com a minha imaturidade e insegurança pessoal. Como eu sou brasileiro e não desisto nunca, por enquanto, vou apelar para mais uma consulta. Agora num templo budista. 

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Dudu Oliva



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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


Por Gustavo do Carmo





A mão velha e cansada tecla o moderno, mas modesto, telefone sem fio e o leva tremendo para o ouvido. Ouve cinco toques com a sua audição já abatida pelos seus 78 anos. Antes do sexto, uma voz jovem e feminina atende.

— Alô?!

— Alô. É o celular do Miguel Souza? Pergunta, com a voz igualmente trêmula e cansada.

— É sim! Quem está falando?


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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Por dudu oliva



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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Por @hemersomn


Hoje eu cometi meu primeiro erro muito cedo: acordei. E acordei antes mesmo do despertador alarmar, o que me deu uma grande vontade de dar um soco na minha cara pra eu deixar de ser tão idiota. Quase fiquei cego com a luz que vinha da janela. Uni todas as minhas forças pra sentar na cama e me preparar pra unir mais forças ainda pra levantar. Fui me arrastando, nu, pro banheiro. Se eu tinha esperanças de que a preguiça fosse embora com o banho? Claro que não. Isso tá tão impregnado em mim que eu já a trato com carinho e sentiria saudades se ela me deixasse.

Então...escovei meus dentes, olhei-me no espelho tentando ver, por algum ângulo, que eu estava bonito acordando pela manhã. Óbvio que isso foi frustrado. Antes de ligar o chuveiro eu olhei pra baixo e resolvi bater uma, lembrando do vídeo que tinha visto na noite anterior. Uma tal de Gemma não-sei-o-quê. O nome dela já era bastante sugestivo. Foi bom. Mesmo tendo sido muito rápido. Mas logo eu já estava debaixo do chuveiro, sendo massageado pela água e a mente discutindo com meus demônios sobre a efemeridade da vida.

Tomei café. Torrada e ovo frito. Não tinha coragem pra fazer mais que isso. Tecnicamente não tinha mais do que isso pra se fazer. Então fui pra a parada esperar meu ônibus e ir até o trabalho. O que eu faço? Sinceramente? Não vale a pena saber. Só digo que é tão monótono como uma pessoa chamada Agenor.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


Microcontos de Gustavo do Carmo


Pais

— Eu não trabalhei para sustentar vagabundo! Disse o pai.
— Dê graças a Deus que eu não virei drogado como o seu neto! Respondeu o filho desempregado de 40 anos.



Aquarela
Numa folha qualquer desenhou um sol amarelo. Ficou de castigo por fazer uma aquarela nos documentos oficiais do seu pai procurador de justiça. 


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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Por dudu oliva





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terça-feira, 8 de janeiro de 2013


(D)escrever é uma maldição.

Tenho uma péssima memória. Lembro de tudo detalhadamente. Lembro da minha última ida ao centro da cidade. Lembro do cheiro de misto quente, milho verde, do vestido da idosa que caminhava lentamente à minha frente. Lembro da menininha gordinha com suas perninhas (sim, no diminutivo pra fixar) tortas e a dificuldade em andar ao lado da mãe, que parecia arrastá-la. O vestido branco e rosa e as maria-chiquinhas no cabelo sacolejando pelos passos e tocando suas grandes bochechas. Lembro dos sorrisos e dos olhares indiferentes. Eu lembro.

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Conto de Gustavo do Carmo





Era chamado de criança. Aos 50 anos. Renan ainda morava com a mãe e dependia financeiramente do dinheiro do pai e da irmã mais velha. Limpava todo mês a sua coleção de carrinhos em miniatura, com ajuda da mãe. Não tinha vergonha da coleção. Mas tinha vergonha da sua vida.

Estudou jornalismo. Estudou publicidade. Pós-graduou-se em Gestão da Cultura. Fez vários cursos e oficinas literárias. Não guardou aprendizado e nem amizades de nenhuma de suas escolas ao longo da sua vida.

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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Texto: Gustavo do Carmo


O Tudo Cultural estreia em 2012, junto com a retrospectiva, a seção Melhores do Ano, com os textos mais lidos nos doze meses entre todos os publicados e também por seção e colaborador. O texto mais lido do ano no geral não será nomeado duas vezes. Dentro da sua categoria será escolhido o segundo mais lido. 

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