sexta-feira, 30 de março de 2012

0

terça-feira, 27 de março de 2012


Por Hemerson Miranda


Sob o sol triunfa uma primavera de cadáveres.
Emil Cioran



O primeiro passo que demos para fora da caverna desencadeou tudo o que conhecemos hoje. Deu origem a evolução de nossos atos, ao progresso de nossa raça. E tudo aquilo que era cinza de repente ficou colorido. O progresso. Unimo-nos com outros iguais a nós; amigos, companheiros, amantes. Organizamo-nos em grupos e aqueles que nasceram com o espírito de liderança nos encabeçaram, mas também haviam nascido aqueles com espírito de inveja dos líderes e assim veio prontamente uma luta de ideias e ideais. Houve cismas, discórdias, fofocas e desses grupos saíram outros grupos que também possuíam um líder, do qual outros invejaram e formaram mais grupos. A concorrência, a rivalidade, tudo o que nos dividia foi formando uniões. A história nunca deixa de mostrar um rastro de ironia.
0

sábado, 24 de março de 2012

Por Gustavo do Carmo




Recebeu um telegrama do Office-boy:

VOCÊ ESTÁ SENDO CONVOCADO PARA O CARGO DE CARTEIRO. VAGA OBTIDA ATRAVÉS DE CONCURSO PÚBLICO NO QUAL FOI APROVADO. COMPAREÇA À SEDE DOS CORREIOS MUNIDO DOS SEGUINTES DOCUMENTOS (...)

Jogou fora o pequeno e agora inútil pedaço de papel, junto com o envelope pardo. Levantou-se da cadeira giratória de sua sala na agência de publicidade da qual é diretor com apenas 30 anos. Lembrou-se do concurso que foi obrigado, pelo pai, a prestar sete anos antes, num momento de dificuldade da família.

 Admirou a vista da Praça XV e do Cais do Porto e gritou orgulhoso:

—EU NÃO PRECISO MAIS DISSO! 
0

sexta-feira, 23 de março de 2012

0

terça-feira, 20 de março de 2012


           Por Hemerson Miranda




              A casa de campo era o local perfeito. Quieto, ameno e propício para a inspiração. Apenas o caseiro e a empregada moravam ali. Sua mulher ligaria toda tarde e ele gostava de ouvir sua voz. Ela era bastante compreensiva quando ele precisava se distanciar da cidade para escrever e ainda mais quando o estavam pressionando. Sete meses se passaram desde que fora publicado seu último livro e já o estavam questionando quando sairia o próximo. E ele tinha de dar o seu jeito, afinal seus leitores até poderiam esperar, mas não seus patrões. Mesmo que não gostasse de forçar inspiração ele foi até aquela casa consciente de que ela mais cedo ou mais tarde viria.

0

sábado, 17 de março de 2012


Por Gustavo do Carmo


Crédito da Foto: Karl Tacheron - Dicionário Fotográfico (The Photographic Dictionary - www.thephotographicdictionary.org



Uma festa de quinze anos em uma casa de festas no subúrbio está no final. O DJ toca a última música. How Deep is your Love, grande sucesso dos Bee Gees, rola na caixa de som em um volume moderado ao ritmo do globo de vidro que gira no teto para fazer reflexo no único casal de meia-idade que dança na pista vazia, pois a última metade dos convidados começa a deixar o local se despedindo, praticamente em grupo, da aniversariante, morena clara, de olhos verdes, bonita, mas que se acha gorda por causa das suas pernas grossas e do busto grande, e da sua mãe, uma senhora de cabelos curtos tingidos de vermelho, recém-entrada na menopausa dos seus cinqüenta e quatro anos.

0

quinta-feira, 15 de março de 2012

João Paulo Mesquita Simões

A Filatelia é, a meu ver, um meio de comunicação e de informação.

Comunicação, porque o selo é colocado na carta e segue o seu destino.

Informação, porque a imagem que nos transmite, é História, é Cultura.

0

terça-feira, 13 de março de 2012


Por Hemerson Miranda



Ela já sabia que sua hora havia chegado, mas obviamente não poderia explicar como sabia disso. Desligou a tv, pegou sua bengala e começou a andar lentamente, conforme seu frágil corpo permitia, até o seu quarto.

A filha de uma de suas amigas passaria ali daqui à uma hora para lhe deixar uma encomenda, mas não adiantaria mais. Ela já não poderia receber. Depois de algum tempo conseguiu chegar a seu quarto. Parou na porta e olhou para a sua cama. Uma cama. Ela sorriu.

Há exatos 97 anos sua primeira cama fora o frio chão que precedia a porta de um orfanato. Seus pais a haviam deixado lá a noite toda, só sendo encontrada pela responsável do lugar na manhã seguinte logo cedo. Passou toda a sua infância e adolescência naquele lugar. Ninguém nunca a adotara e ela na verdade até se sentiu feliz por isso. Talvez fossem as manchas brancas em seu braço, talvez fosse sua postura de pobre que nunca dera jeito de mudar; não sabia. Não poderia lembrar-se de todos os momentos felizes que passou lá, mesmo sendo poucos, pois a memória já não lhe ajudava tanto. Mas lembrava-se claramente do dia em que de lá saiu. Depois que fizera dezoito anos ela decidiu enfrentar sua vida. Foi neste momento que sua vida realmente começou a mudar.
0

sábado, 10 de março de 2012

Por Gustavo do Carmo 






Churrasco
Vasco bota fogo no carvão para o churrasco que vai comemorar o novo apartamento da família fluminense no Flamengo. São convidados o primo que veio da América e o cunhado indultado de Bangu I. 




Suicida
Depois de ler a carta de São Paulo aos coríntios, observou as palmeiras. Escolheu uma delas para se enforcar. Esperava que os santos lhe buscassem.



0

sexta-feira, 9 de março de 2012

0

quinta-feira, 8 de março de 2012

João Paulo Mesquita Simões

                                                                         II



Quando o Teclas e a sua Mãe entraram com o carro no alpendre lá de casa, deram-se conta de um gato bebé que mal miava. Estava cheio de fome.

Como o Teclas adorava animais, saiu do carro e foi a correr agarrar o gato, fazendo-lhe festas.

- Coitadinho! Está cheio de fome! – Lamentou-se o Teclas – Podemos ficar com ele, Mãe?

0

terça-feira, 6 de março de 2012


Por Hemerson Miranda



            Ele detestava o sol. Para ele aquilo não tinha serventia alguma. Trazia apenas calor e queimaduras a sua pele. Além do clarão que lhe dava dor nos olhos; uma dor parecida com a que lhe causavam as cores das flores nos jardins onde ele passava caminhando. Preferia a chuva. Menos quando ela batia na sua janela. E também não gostava quando pingos caiam na sua cabeça, nem quando formava poças de água que o faziam molhar os pés. Pensando bem, ele também não gostava da chuva. Na verdade preferia o tempo nublado. Sem sol, sem chuva. Apenas aquele tom cinza que preenchia de melancolia todo o mundo. Ele gostava disso. Bem, pelo menos até agora.

0

sábado, 3 de março de 2012

Gustavo do Carmo



Era um vampiro e todos sabiam. Só entrava quando convidado. Por isso, seus colegas de faculdade resolveram destruí-lo. Jogaram-lhe água benta. Agradeceu-os pelo refresco. Tentaram queimá-lo com um crucifixo. Nada aconteceu. Acenderam um refletor de câmera na sua cara. Seus olhos doeram muito.

0

Arquivo do blog