terça-feira, 29 de junho de 2010

Até dormir na poltrona, meia hora depois.

de Miguel Angel

Quando Elvira lhe mostrou os sapatos novos, Osvaldo Gonçalves percebeu que deviam ser caros, mas não fez nenhum comentário.

Semana seguinte, estreou uma fina blusa que parecia de seda, mas ela disse que não era. Que ele não entendia dessas coisas e se já tinha encontrado algum serviço para ele.

Três dias depois, sentiu um perfume diferente quando ela o beijou ao sair para o serviço. Perfume novo. O outro tinha acabado. Ainda bem, perfume de pobre é horrível e ela estava farta dele.

À noite, quando ela chegou um pouco mais tarde que de costume, com o cabelo ainda úmido, não comentou nada.

Serviu a janta por ele mesmo esquentada, mas ela se recusou a comer. Disse que já tinha comido qualquer coisa por aí e lhe perguntou se já tinha encontrado serviço.

Numa noite, enquanto assistiam à TV, ela comentou que a tela era pequena demais.

No dia seguinte, Osvaldo acordou bem cedo, como vinha fazendo durante os seis meses na condição de desempregado. Preparou o café da manhã, cuidando não fazer muito barulho, para não acordar Elvira.

Desde uma semana atrás, os horários dela tinham mudados; agora não mais precisava trabalhar de manhã. Dormia até o meio-dia. Ao levantar, vestia-se rapidamente, comia alguma fruta e saia. Depois do início desse novo horário, passara a perceber, misturado com o cheiro do chiclete, bafo de bebida quando o beijava de leve ao chegar. Morta. A patroa exigindo demais dela. Mas pelo menos aumentara seu salário. Daria até para comprar um televisor maior. Que achava?

Ele respondeu com um “Hi, tem coisa queimando na cozinha”.

Quando, dias depois, chegou a entrega do televisor enorme, deduziu que devia ter custado bastante, até demais, mesmo com salário aumentado por causa do novo horário.

Ao chegar às duas da manhã e ver o aparelho na sala, Elvira deu um gritinho e sentou-se na sua frente, trocando de canais e divertindo-se como uma criança. Até dormir na poltrona, meia hora depois.

Morta.

E nada perguntara a respeito dele ter achado algum serviço.

Fazia já algum tempo parecia ter esquecido disso.

Naquele domingo, Osvaldo acordou bem mais cedo que de costume, para vê-la chegando, cambaleante, e pé ante pé, fazer “psiú!” para o chaveiro do carro que a patroa agora lhe emprestava e escorregara ruidosamente de sua mão.

Depois, quando foi até o quarto, a viu jogada sobre a cama, nua, dormindo profundamente. Morta.

Jogadas sobre a cadeira, viu as roupas íntimas que acabara de usar e notou mais uma vez, que, além de parecerem sempre novas, eram elegantes e deviam ter custado muito caro.

Como as tantas que agora tinha guardadas no guarda-roupa.

Murmurando uma alegre canção de ninar, foi à cozinha preparar o café da manhã, sem barulho, para não acordá-la.

Coitada.

3 comentários:

bernadete disse...

Ai, meu deus, não é à toa que dizem que o amor é cego... Excelente o texto, trazendo por trás da narrativa o seu humor sarcástico e às vezes cruel! Mas, fica aqui a pergunta: será que o Oswaldo não percebeu tudo e resolver aproveitar a situação???? Esperto bancando o bobo!!!
Beijocas. Sinhá enfaixada

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

Esperto ou corno?

Abraços des lado do Atlântico!

Anônimo disse...

Pois é, "em terra de cego quem tem um olho é rei"... este aí é imperador, esperto como ele só!
Ser "corno" assim, mole, mole!
Beijos.
da Condessa Descalça.

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