sábado, 1 de agosto de 2009

OS CINCO DESEJOS

Gustavo do Carmo

Crédito da Foto: j.DavidF. : http://br.olhares.com/garrafa_na_areia_foto525744.html



Caminhava pela orla de Copacabana. Tinha acabado de encontrar a mulher na cama com o seu melhor amigo. Foi espairecer a decepção na praia. Não sabia o que iria fazer sem a esposa que tanto amava.

Caminhava pela areia vazia em direção ao mar. Fazia frio e ninguém se arriscava a curtir uma praia. Tropeçou em uma garrafa. Não uma garrafa comum. De cerveja ou de refrigerante. Uma garrafa de licor. Um licor bem chique, pela aparência. De vidro verde. Cravejada de figuras em alto relevo e alguns brilhantes. Gorda em sua base, que se afinava até o gargalo. Uma rolha de couro a tampava.

Não acreditava mais em contos de fada e muito menos em gênio da garrafa. Só queria pensar em recomeçar a vida após a traição. Largou o recipiente e continuou o seu caminho para o mar. Quem o observasse acharia até que ele tentaria se afogar. Não pensava nisso. Só pensava na traição da mulher com o seu melhor amigo.

E se a garrafa fosse uma peça rara do século XVI? E se nessa garrafa, Estácio de Sá tomou algum licor? Correu para a areia novamente e pegou de volta a garrafa verde. Pensou em procurar um antiquário e vendê-la. Poderia ganhar muito dinheiro com isso. Dinheiro suficiente para ficar muito rico. Comprar todas as mulheres que desejasse. Montar um harém.

Estava sonhando demais. Foi mais realista e achou que a garrafa poderia valer, ao menos, um dinheiro para pagar um apart-hotel onde passaria a morar.

Saiu da areia. Subiu ao calçadão. Parou. Olhou para a garrafa. Viu que estava embaçada. Poderiam ser cinzas de alguém. A garrafa, na verdade, seria uma urna mortuária. Quase jogou a garrafa longe. Desistiu quando imaginou que poderia ser um gás raro. Também poderia ser um vírus que se espalharia pelo ar e contaminaria toda a cidade com uma doença mortal. Ia jogar fora novamente. Mudou de idéia mais uma vez. Poderia vender a garrafa com a recomendação ao dono do antiquário de que não abrisse nunca.

A curiosidade foi mais forte e num gesto movido pela ambição, ansiedade e desejo de reencontrar outra mulher, puxou a rolha de couro da garrafa. O céu azul ficou roxo. Os sons dos carros passando pela Avenida Atlântica, das pessoas conversando e das ondas do mar foram substituídos por uma explosão seguida por um zumbido constante que parecia nunca terminar. Uma fumaça verde tomou conta da praia por uns cinco minutos. Depois disso, se dissipou, o zumbido sumiu, o céu voltou a ficar azul e o som ambiente voltou.

Assustado, procurou pela rolha de couro e não a achou. Levantou do banco e decidiu ir embora. Uma voz feminina lhe perguntou:

— O que deseja?

Voltou e viu uma bela loura vestida de odalisca, seios grandes e naturais, quase pulando do sutiã minúsculo.

— Quem é você?

— Sou o que você está pensando.

— Sem brincadeiras, tá? Já sou grande demais para acreditar em gênio da garrafa.

— Pois sou isso mesmo.

— Fala sério. Acabei ver a minha esposa na cama com o meu melhor amigo. Já disse que não tenho mais vontade para brincadeiras. Diga quem você é ou suma da minha frente!

— Sou o gênio da garrafa.

— Está bem. Vou fingir que acredito. Você vai me dizer agora que eu te salvei de uma maldição de uns dez séculos e, como prêmio, tenho direito a três desejos. Ironiza.

— Você é um bom adivinhador. Poderia ganhar muito dinheiro na loteria. Só errou na quantidade de desejos. Posso realizar cinco.

— Então tá. O meu desejo é mais simples. Posso te levar pra cama? Mas tem que ser em um hotel porque eu não tenho para onde ir.

— Não. Este desejo eu não posso te conceder. Agora só tem quatro.

— Posso ficar bem rico? Eu trabalho em um banco aqui no bairro, aturo um gerente muito chato, que não está satisfeito com nada que eu faço e me humilha na frente dos clientes. Quero me livrar dele.

— Desejos concedidos.

— Como estão concedidos? Não senti nada.

— Daqui a pouco você dá uma passadinha no banco e confere o seu extrato. Próximo desejo?

— Eu sou apaixonado por uma atriz da novela das oito. Tenho sonhos eróticos com ela o tempo todo. Transava com a minha ex-mulher pensando nela. Ela tem o mesmo corpo que o seu. Acho até que os seios são maiores do que os seus. Só que ela é morena. E nunca mostrou o seu corpo. Quero vê-la nua na minha frente.

— Concedido.

A bela atriz aparece como veio ao mundo. Como foi imaginada pelo homem que achou a garrafa. Seios maiores que os do gênio, auréolas grandes e rosadas. Farta vegetação na virilha.

— Posso transar com ela agora?

— Claro. Como já realizei todos os seus desejos, preciso ir embora. Adeus.

A moça da garrafa sumiu. A garrafa verde também sumiu. Um ano depois, o homem foi condenado por vários crimes de uma só vez. Mandante do assassinato do gerente do banco e do assalto a um carro forte, além de desvio de dinheiro, seqüestro, estupro, atentado ao pudor e constrangimento ilegal.

No presídio superlotado, arrependeu-se de ter feito todos esses pedidos e de ter desperdiçado o que poderia ter lhe salvado das acusações. O de realizar todos os seus desejos proibidos e sair impune.

2 comentários:

Clayton José de F. Mendonça disse...

Gostei! Muito interesante,, li e até achei graça do final,, uma história bem emlaborada !
Abraços e
Sucesso!

Ed Santos disse...

Gostei do conto. Fantasia com final real.

Muito bom!!!

PAZ
ES!

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