sábado, 2 de maio de 2009

SÓ PARA AGRADAR

Por Gustavo do Carmo


Crédito da foto: Camila Fontes - http://br.olhares.com/era_para_ser_um_dia_normal_foto438898.html

(I)

Na escola, Olímpio só tirava nota dez. Sempre passava de ano sem precisar fazer prova final. Ficava satisfeito e orgulhoso. Para a alegria dos pais e inveja da irmã mais velha.

Apesar de tanto sucesso na educação, Olímpio cresceu e se tornou um rapaz tímido, ingênuo e infeliz. Mas ainda conservava um pouco da inteligência que tinha. Ou achava que tinha.

Um dia, decidiu vasculhar o seu armário totalmente bagunçado atrás das provas que guardava desde a primeira série do primário. Mexe aqui, remexe ali, encontrou uma pasta preta e empoeirada, repleta de antigas provas. Ao conferir as questões, que hoje lhe parecem ridículas de tão fáceis, mas cabeludas na época, percebeu que errou a maioria delas. Se fossem corrigidas por professores mais rigorosos ou por ele mesmo, tiraria 5,0 ou menos em todas elas. Nas provas em que tirou nota sete, mereceria um zero. Por ter sido um bondoso e comportado aluno, concluiu que os professores lhe davam dez só para agradar.


(II)

Aos quinze anos, Olímpio quis ser cozinheiro. Inventou umas receitas malucas de pratos, sobremesas, sucos e coquetéis. Deu para os pais, a irmã e as primas provarem. Todos achavam uma delícia. Mas não terminavam de comer. O jovem sentiu que as pessoas lhe elogiavam só para agradar.


(III)

Aos vinte anos decidiu ser escritor. Já não confiava mais na irmã que ia criticar do mesmo jeito. Então, mostrou o rascunho de um romance para os pais, que adoraram. Dois anos depois conseguiu publicar o romance, pagando pela edição. Os amigos compareceram ao lançamento. Depois de lerem, todos disseram ter adorado.

Mas o livro ficou encalhado. Um jornal fez uma crítica humilhante. Chamando o livro de descrição da imbecilidade e o autor de imaturo para baixo. Olímpio chegou à conclusão de que os elogios da família e dos amigos foram só para agradar.


(IV)


Um dia, Olímpio se estressou no trabalho. Brigou com um colega que foi promovido em seu lugar. Empurrou o homem que se desequilibrou e caiu de costas na janela aberta. Morreu na hora. Olímpio foi preso e condenado por homicídio doloso. Ninguém apareceu no presídio para lhe visitar. Nem para agradar.

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