domingo, 20 de abril de 2008

Salto alto

No domingo de manhã, quando entrava em campo, ele se transformava. Ronaldo esquecia de tudo e de todos, e era futebol carne e osso. E sangue.

Dava a vida por uma partida. A diretoria do time sempre apostava nele, pois sabia que ele era pau pra toda obra, mesmo não jogando tão bem às vezes. Era daqueles que unia a raça e a determinação para alcançar a vitória. Os outros o viam como um líder. Mas como todo líder, com o tempo foi substituído. E o Roberval, se encarregou disso.

O Roberval não era arrogante, mas muito diferente do amigo, ele se achava o máximo. Suas entradas duras intimidavam qualquer adversário e a postura de guerreiro, saltava-lhe os poros. Mas tinha um defeito: se achava. E não percebia. Que pena.

Contava vantagem de tudo, principalmente no que diz respeito ao seu desempenho nos gramados (se é que podemos chamar os campos de várzea de gramados). “Você pensa que carregar um time nas costas é fácil?”. Essa sempre era a resposta quando lhe perguntavam algo sobre as partidas. Ele se achava! Era ele e mais dez, desde o dia em que o Ronaldo o levou pra estear no time.

Na estréia o Roberval até que jogou bem. Foi até elogiado pelo goleiro, que só não tomou um gol por intervenção do estreante. No vestiário ele diz ao técnico: “Acho que pra uma estréia, joguei muito bem, aliás, mantive o nível. Pena que o resto do time não tenha dado o mesmo sangue que eu.”.

O Ronaldo escutou, os outros não. Se tivessem escutado, com certeza iriam questionar. Onde já se viu, um cara que se acha a última bolacha do pacote, soltar as suas logo na estréia.

O técnico do time, sempre polido, disse ao Roberval que ele fora trazido pelo amigo num momento tranqüilo, de jogos amistosos, e pediu pra ele manter a forma e procurar se entrosar com o grupo antes do campeonato do bairro começar, mas o cara continuou em cima dos tamancos: “Pode deixar que até lá eles acertam a jogar do meu lado!”.

A cada domingo o resultado das partidas se alternavam entre derrotas, empates e algumas vitórias, e o Ronaldo já ia se arrependendo de ter apresentado o “amigo” (assim mesmo entre aspas, porque com um amigo desses, quem precisa de inimigos) pra jogar no time. O Ronaldo não se sentia mais à vontade, e também percebeu que os colegas estavam estranhos com ele.

Foi difícil, mas ele percebeu que o Roberval era o responsável pelo mal estar geral, tanto que numa conversa com o colega, o Roberval lhe disse pra não se importar não que ia ser difícil, mas com o tempo o resto do time ia se acostumar a jogar no seu estilo. Vê se pode!

Olha, eu tenho uma enorme inveja das mulheres porque conseguem andar sobre um calçado com aquele baita salto. Na maioria das vezes fininho, fininho. Mas não consigo ver nenhuma qualidade numa pessoa que não desce do salto.

Então, vamos tomar cuidado, porque quanto mais alto estamos, maior é o tombo! O Roberval, não demorou muito foi limado do time... Pelo próprio amigo que o levou. E o salto nem era tão grande assim, eram apenas as travas de uma chuteira.

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