quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

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Cena 1

Me interrompa se você já ouviu essa história.

Estou na ilha dos lançamentos organizando a arremessa que chegou do mais novo livro de Neil Gaiman. Do andar de cima vem o barulho de talheres e porcelana, burburinho de conversas e o cheiro de café, chocolate e pão de queijo. 

Apesar do sucesso dos livros e leitores digitais com preço mais acessível e da pirataria desenfreada que te permite baixar qualquer livro de qualquer época e autor pela internet, não é raro ver uma livraria cheia. E não é só por causa dos saudosistas que apreciam o ritual prazeroso da leitura de um livro físico, mas também dos novos leitores que ficaram animados com a inovação de algumas editoras que decidiram optar por uma encadernação melhor e personalizada. Uma busca rápida pelos exemplares de editoras específicas mostra que algumas capas são verdadeiras obras de arte. Principalmente o gênero de terror, que tem sido muito procurado, já que seu sucesso atual se deve a lançamentos no cinema de clássicos e promessas de lançamentos futuros de best sellers. A união de um bom terror com uma encadernação digna tem trazido muitas pessoas aos corredores de nossa livraria.

Ela surge do meu lado esquerdo e antes mesmo de abrir a boca meu nariz é atingido pelo aroma que vem do copo que ela trouxe do Starbucks. Soy latte, chai com leite de soja extra quente. Ela sorri e fala: 

“Com licença.”

Suas palavras vem até mim acompanhadas do aroma de seu hálito. Por trás do chai latte eu posso sentir o cheiro de uma torta de chocolate com canela. Ainda por trás da torta sinto um sutil odor de chiclete de nicotina. Ela faz bem em querer para de fumar, pois seus dentes ainda não estão amarelando. 

“Você trabalha aqui?”

Tenho que convir que a pergunta é um tanto idiota, pois estou usando um avental escuro com o nome da livraria no peito esquerdo e um crachá com meu nome no direito, mas eu relevo, já que ela pode estar distraída ou simplesmente nervosa. Eu devolvo o seu sorriso. 

“Trabalho sim. Em que posso ajudar?”

Ela usa roupas leves e folgadas, que lhe servem para cair em seu corpo, não para sufocá-lo. Ela as usa como algo para lhe dar liberdade e não como uma camada para separá-la da realidade ao seu redor. Se eu fosse chutar diria que ela gosta de ler Milan Kundera. Os brincos de argola e a tiara que assenta seus cabelos castanhos, curtos até um pouco acima dos ombros, eu diria que nas horas vagas ela está lendo algum livro de Jennifer Egan. 

“Tô procurando a trilogia de Vina Jackson.”

O canto esquerdo tremulante de minha boca deve ter me denunciado, pois ela fala rapidamente em tom de desculpas: 

“Não é pra mim. Uma amiga faz aniversário hoje e ela é doida por esse tipo de literatura.”

Não era minha intenção julgar ninguém pelo estilo que lê, mas nosso corpo nos delata mesmo quando tentamos conter nossas palavras. Eu sorrio junto com ela e peço para me seguir. 

As livrarias atualmente também são o reduto dos melhores exemplares do estereótipo atual. Veja ali na seção de fantasia romântica, onde homens e mulheres se apaixonam por vampiros, lobisomens, feiticeiras ou anjos. Essas três moças que se arrumam para uma selfie são as espécimes perfeitas do que é considerada a beleza moderna. Garotas pálidas e melancólicas com cabelos vermelhos e tatuagens coloridas sutis. A moça do meio, por exemplo, usa um tom 5, porosidade do cabelo normal, tom avermelhado fechado e meio borgonha. Elas ficam de costas para os livros, assim os títulos aparecerão, fazem caras entre o sensual e o ridículo e postarão a foto no instagram com algum filtro esmaecido. 

Quando chegamos no corredor onde fica a seção que muitas mulheres entre a adolescência e a meia idade tem frequentado bastante, a de livros sobre mommy porn, o senhor Gomes passa do nosso lado. 

É o dono da rede de livrarias. Todos os dias ele visita cada uma das filiais para ver como estão as coisas, mas nessa filial em especial ele costuma demorar um pouco mais porque gosta de conversar comigo. Eu não posso culpá-lo, já que tento ser sempre o mais simpático possível, usando esse verniz hipócrita que encobre meu desejo incansável de esganar seu pescoço que mais parece um pergaminho tremulante. 

Ao passar por nós sua cara mumificada apenas me dá um aceno, pois ele, por mais que se anime em conversar comigo, nunca atrapalha meu atendimento. Seus olhos cobertos de catarata se limitam a me olhar e se desviar. Ele engole saliva ao olhar para a moça ao meu lado, sua traqueia flácida sacudindo, e o sorriso de cera é uma linha horizontal que lança para ela, que sequer o nota. 

Mais à frente um homem coloca as costas na estante que mantém escritores mais sombrios. Ele usa um corte fauxhauk, barba usada do mesmo jeito que as mulheres usam maquiagem, óculos redondos que ele não necessita para ler. Na mão um exemplar com a mais perfeita encadernação já feita do poema O Corvo, de Poe. Se eu fosse apostar, diria que esse cara sabe decorado não só os poemas românticos desse escritor, como até os monstros lovecraftianos que não foram criados por Lovecraft. Mais um exemplar do estereótipo atual. 

Antes de o esqueleto vivo que é o senhor Gomes nos deixar ele suspira e seu ar chega até mim. O charuto que ele degustou mais cedo é um blend de quatro folhas e eu posso sentir um aroma terroso e amadeirado. Algo coriáceo, mas a quarta nota eu não consigo decifrar e isso, após eu atender essa moça, vai me atormentar até que eu pergunte a ele. 

Quando chegamos na prateleira onde fica o desejo da minha cliente, no outro lado do corredor, o que dá para a porta de entrada, uma voz se eleva às nossas costas, me fazendo girar nos calcanhares. 

“Bom dia, JotaPê! Tô te esperando lá em cima.”

É Viviane. Ela me entrega um sorriso e um aceno e eu devolvo o sorriso e faço um sinal de positivo com a mão, voltando em seguida a dar atenção à nova cliente. 

“Você parece ser bem requisitado”, ela fala olhando para mim com um novo brilho nos olhos.

A verdade é que eu sou. Viviane é mais um estereótipo atual: uma milf que não é mãe e adora livros. Uma mulher de meia idade que pinta os cabelos nos mesmos tons das garotas pálidas modelos de Instagram. Ela mora em um apartamento a dois quarteirões daqui tendo como companhia apenas um gato da raça ragdoll. A maioria das pessoas aqui se define como inteligente, mas a verdade é que elas não passam de acumuladores de conhecimentos, uma espécie precária de enciclopédia ambulante. Elas acham que ler muitos ou bons livros é a coluna principal para construir uma inteligência invejável. O que me parece é que essas pessoas não leem direito os livros que compram, senão saberiam que quanto mais nós sabemos mais fica visível a nossa ignorância sobre todas as coisas. 

Viviane não é assim. Ela de fato é uma pessoa inteligente. O caso é que existe uma coisa maior que sua inteligência, algo que por vezes nubla ou eclipsa sua inteligência: sua carência afetiva. 

Eu sou 10 anos mais novo que ela, mas ela já deu suas investidas, as quais eu, no âmbito hétero em que me encontro e com os gostos que eu aprecio e fui desenvolvendo com o tempo, me desviei fortemente. Por uma semana ela se sentiu decepcionada, depois alguns dias frustrada, até carregar a fagulha de esperança que ainda havia e, talvez, aos poucos, conseguir que eu caia em sua rede. Eu deixo que ela ainda acredite nisso, pois ela parece se divertir com o flerte. 

Talvez por causa de sua idade ela aprecie a rotina, ou talvez eu esteja errado, pois mesmo sendo mais novo eu gosto bastante de uma rotina que controle todos os meus atos diários, mas ela subiu ao primeiro andar para pedir seu expresso triplo e o adoçar com cinco colheres de açúcar demerara, me aguardando chegar com três ou cinco livros que eu acredite que ela vá gostar. 

Ela faz isso toda semana, ao menos uma vez, vir comprar um novo livro para passar o tempo livre que não consegue preencher com outras companhias. 

Minha nova cliente ainda está olhando para mim com uma expressão de curiosidade. 

“Então seu nome é JotaPê?”

“João Paulo, mas todos me chama de JotaPê”, eu estou deslizando os dedos nas lombadas dos livros em busca do que ela quer.

“Meu nome é Dayse.”

Diante da falta de necessidade que ela mesma percebeu em me dizer seu nome noto que as maçãs de seu rosto ganharam um tom pêssego delicioso. Eu olho para ela com meu melhor sorriso para acalmar. Ela passa a mão em sua nuca, sinal de que o sentimento de vergonha ainda permanece ali, e eu posso sentir o cheiro lácteo de seu hidratante, algo entre rosas e maçã. 

“Aqui está.”

Eu lhe mostro os três livros de capas escuras, uma encadernação não muito boa, mas o suficiente para quem gosta desse tipo de leitura. Vendo que um vácuo se criou entre nós eu retomo um assunto anterior. 

“As pessoas aqui consideram minha profissão antes de imaginar que eu seja um leitor. Para elas eu tenho autoridade para indicar livros, já que eu os vendo, mas nada a ver com meu provável gosto por leitura.”

Eu a faço sorrir. 

Uma mulher sorrindo. Preciso fazer uma nota explicativa aqui, pois há algo entranhado na genética masculina, assim como muitos outros costumes passados de pai para filho e endossado pelo patriarcado, de que se uma mulher sorri para você quer dizer que ela está te dando uma abertura. Eu acho que, por si só, é não só a coisa mais ridícula entre o cânone de coisas ridículas que possui o gênero masculino, mas também muito prepotente. Mesmo sabendo disso, esse gatilho curtido em gerações de homens que me antecederam, é ligado. Em segundos eu analiso tudo isso e então a dúvida brota dentro de mim: será mesmo que ela está me dando uma abertura? Ou será apenas a ideia idiota que eu carrego no DNA? Deveria eu lhe dar o benefício da dúvida? 

Um grito surge das profundezas elétricas de meu cérebro me acordando de meus devaneios o mais rápido possível para prosseguir com a conversa. 

“Por isso sempre tem clientes que chegam já esperando que eu satisfaça sua necessidade de novidade.”

“Entendi. Você é quase um messias. Ou um sacerdote.”

“E aqui está sua penitência”, eu falo entregando a trilogia a ela. “Ou você vai querer mais alguma coisa?”, eu recuo com os livros nas mãos.

“Ora, já que você fez sua propaganda, pode me indicar um livro.”

Meu sorriso se abre de orelha a orelha. 

Eu sempre gostei dessa abertura que as pessoas dão porque isso me dá a oportunidade de saber se eu estou certo em meu julgamento sobre o cliente. Baseado nas roupas que veste, na maquiagem ou falta dela, no estilo ou cor do cabelo, no tom de voz e no uso das palavras, eu faço um compilado rápido para saber que livro eu deveria indicar e na maioria das vezes eu estou certo. 

“Ok, me acompanhe então.” 

Mas dessa vez, no lugar de eu ir na frente aponto com a mão o caminho, deixando que ela siga a indicação, assim eu posso ver suas costas e sua bunda. As roupas folgadas, leves, não deixam ver muito, mas vez ou outra, segundo os movimentos, dá para ver a carne dos glúteos sob a bermuda. Como uma espécie de telepatia eu pergunto com a mente ao corpo dela o que ele quer me dizer. 

Nem sempre tenho uma resposta. 

Outra razão pela qual as pessoas vem até uma livraria é a sensação de segurança. Os livros bem organizados, o designe das escadas, as esculturas que fazemos nas ilhas com os livros mais vendidos. Tudo isso dá a ilusão de ordem, de controle. Ver os livros nas prateleiras, esses mundos silenciosos, desperta o sentimento de resguardo. Mas abra apenas um livro, um único livro desses aqui e você verá que todos eles são agentes fecundantes do caos. 

E, como acontece com toda boa ilusão de segurança, diante delas todas as pessoas baixam a guarda. 

Mas Dayse me intriga, pois não estou conseguindo lê-la como gostaria. 

“Aqui”, eu falo pegando um livro em um lugar alto numa estante.

“Elena Ferrante”, ela fala olhando para a foto na parte de trás do livro.

“Escritora italiana”, eu digo. “Se você gosta de Jennifer Egan vai gostar dela. Esse é um volume único e se gostar pode ler essa quadrilogia”, aponto para os outros livros.

“Como sabe que eu gosto da Egan?”

Viu? Eu estava certo.

“Só um palpite.”

Ela sorri mais uma vez. 

“Ok, eu vou levar. Se gostar com certeza voltarei pra pegar os outros.”

Ótimo. 

“Ótimo”, eu digo ecoando meus próprios pensamentos.

Nos dirigimos até o caixa. É muito cedo para pedir o seu telefone, para convidá-la a sair, para tentar alguma coisa. Eu sei que ela voltará, principalmente se ler o livro que indiquei. Então faço apenas todo o processo corriqueiro no caixa, ainda com toda a simpatia possível. Ela me passa seu cartão de crédito que não necessita de senha. 

“Ah, você gosta de assistir séries?”

“Gosto sim”, ela coloca uma mecha atrás de sua orelha.

“Acabou de sair uma série baseada naquela quadrilogia que te mostrei. L’ amica Geniale. Assista em italiano que a experiência vai ser melhor.”

“Hum, vou procurar sim. Mas não era melhor eu ler os livros antes?”

“Nesse caso termine logo esse e venha pegar os outros.”

Ambos sorrimos. Lhe entrego a sacola com os livros, ela me sorri com os olhos e diz tchau. Eu digo tchau e volte sempre. 

A vida, eu costumo dizer, é como um livro. A gente sempre pode esperar a próxima página. Talvez na próxima página ela e eu estejamos juntos. 

Então percebo que no balcão ficou o seu cartão, que ou eu esqueci de entregar ou ela esqueceu de pegar. 

Corro até a entrada e quando a luz ofuscante do sol bate nos meus olhos eu demoro a focar as imagens. Ela já está do outro lado da rua e eu, ainda com a visão um pouco escurecida, grito seu nome e corro em sua direção. 

Então tudo fica escuro novamente. 


Cena 2

Não me interrompa se você já ouviu essa história.

Talvez não esteja, mas a sensação que eu tenho é de que meu sorriso está travado, congelado. E isso é porque estou nervosa. 

Hoje é meu dia de folga e eu aproveitei para ir ao ginecologista.

Hoje também é aniversário da Ju.

O sol escaldante aumenta minha preguiça e meu nervosismo, consequentemente a minha tristeza. Tenho uma livraria preferida, onde sempre compro meus livros preferidos, mas a minha condição emocional atual me faz olhar para o outro lado da rua, ver uma livraria que nunca entrei e ir ate lá.

A sensação que tenho é de que me perdi em algum lugar e não consigo me achar.

O que aconteceu no ginecologista é algo que eu jamais imaginei acontecer, portanto ainda me sinto anestesiada. Me consulto com o Dr. Álvaro há quase um ano e ele sempre me lembrou meu avô. Não apenas pela aparência, ele tem 59 anos, cabelos brancos como algodão, mas também pelo jeito que seu corpo se movimenta. Eu vejo muito do meu avô nele, com algumas manias como a forma que se senta e se levanta, o jeito único de levantar as sobrancelhas quando sorri. Meu avô, mais que meus pais, foi a pessoa com quem eu mais tive apego na vida. Eu o amava demais e sofri bastante quando ele morreu. Por isso eu sentia essa ligação de neta e avô quando ia ao seu consultório. E justamente por isso e pelo seu profissionalismo eu jamais imaginaria que algo como o que aconteceu hoje poderia vir do Dr. Álvaro.

Comprei uma bebida no Starbucks, mas não tive vontade de beber, foi mais como ter algo a que me segurar. Nunca antes tinha tido tanta vontade de fumar, mas não iria ceder assim tão facilmente, afinal já faziam quase dois meses que eu não colocava um cigarro na boca. O chiclete de nicotina parecia uma borracha nojenta que inchava na minha língua. A torta de chocolate me aliviou um pouco, mas eu sinto ainda um embotamento.

Acredito que entrei na livraria para fugir por alguns momentos da dor, mas a dor sabe nos seguir direitinho, como um cão farejador.

Um homem faz esculturas com livros de Neil Gaiman numa ilha dentro da livraria e parece uma criança construindo um castelo de areia na praia. Sei que ele trabalha aqui. Dá para ver pela sua roupa, mas minha boca se adianta e eu peço licença e pergunto se ele trabalha aqui e minha cabeça já me critica. Ele sorri, mas posso sentir que por dentro está me achando idiota. 

Os homens tem essa mania de olhar para o meu corpo esperando que ele, e não meus lábios, lhes deem alguma informação. Fazem isso como se esperassem uma resposta implícita, como se o que está abaixo de meu pescoço sempre estivesse em contradição com o que diz a minha boca. O meu rosto já começa a formigar de vergonha. As palavras continuam saindo de mim sem que eu me dê conta.

A Ju realmente gosta desse tipo de livro, mas não sei que sentimento é esse que brota dentro de mim e que me faz ter vergonha de falar a esse estranho o que eu estou procurando. E isso se acentua na minha pressa em explicar que não é para mim. Depois do sucesso da saga dos 50 Tons de Cinza vários outros escritores pegaram o bonde da literatura erótica e lançaram suas trilogias. Grande pate das mulheres foi mais uma vez olhada de forma torta por apenas ler esses livros. Não é minha praia, mas não vejo nada demais. E só o fato de sentir vergonha por isso me causa agonia. Isso tudo está tão errado, mas sei que são consequências do que aconteceu. 

No consultório do Dr. Álvaro ele me cumprimenta como sempre, perguntando como anda o trabalho, como estão meus pais, se eu tenho notícias de meu irmão que agora mora na Alemanha. Ele fala isso perto de mim, depois de me dar os tradicionais beijos de boas-vindas e não noto em seu hálito nenhum resquício de álcool. Ainda assim os seus movimentos estão esquisitos, ou é apenas impressão minha, o que sei é que algo nele está errado. Ou sempre esteve ali e eu nunca percebi.

A forma demorada como ele tocou meu ombro e seu olhar sobre mim me causaram certo desconforto que até então eu não tinha sentido. 

Ele me pede para deitar.

Sua voz me parece pastosa. Por alguma razão que eu não compreendi comecei a sentir na língua um gosto metálico. Ele não olha para mim da forma como costuma olhar, respeitoso e profissional. Ele me olha como se eu fosse uma peça de carne em um açougue.

Na livraria eu sigo o homem que caminha em passos lentos, como se os estivesse contando. A sensação onírica ainda me acompanha. Ele está concentrado em me atender ao mesmo tempo que observa tudo ao seu redor. Apesar da forma como me olha, do alto de seu machismo entranhado e da necessidade que tem todos os homens de “ensinar” a uma mulher qualquer coisa, eu noto nele esse tipo de inteligência que acho atraente, mesmo que nesse momento eu não veja nada de atraente em homem algum.

Ele tem um sutil tique nos cantos da boca, algo que demonstra uma inquietude sob o verniz de autocontrole que seu rosto procura demonstrar. Uma voz se eleva de algum lugar e quando olho para onde vem o som eu penso “mãe?”, mas imediatamente, por dentro, eu rio de mim mesma. É uma mulher que lembra muito minha mãe, mas que obviamente não é. Pela forma como ela fala com o cara que está me atendendo e pelo jeito que os dois se cumprimentam, posso ver algum grau de intimidade entre os dois.

Isso faz minha mente voltar algumas horas atrás.

No consultório o Dr. Álvaro tem movimentos lentos, como se estivesse sonolento. Eu diria que seus movimentos são viscosos, como se ele estivesse afundando em areia movediça.

O desconforto que brotou em mim começa a aumentar quando ele se posiciona de frente para minhas pernas abertas. O que ele começa a falar é em um tom bem diferente do que ele costuma usar. Começo a ter a impressão de que ele realmente esteja drogado.

Na livraria o olhar do atendente me desperta e eu sorrio, buscando logo algo para falar.

“Você parece ser bem requisitado”, eu digo sem encontrar outras opções. Em seguida falo sobre o nome dele e, por outro adiantamento da minha boca sobre os meus próprios pensamentos, eu falo meu nome.

Por que diabos eu disse meu nome?

Ele me lança um sorriso como se fosse um adulto lidando com uma criança e isso deveria me irritar, mas eu estou muito anestesiada para isso. Então ele começa a falar de si mesmo, de suas qualidades e de como os clientes não enxergam isso, pegando a deixa da cliente que disse o esperar no andar de cima. Ele parece gostar de se ouvir. No seu momento Narciso eu sou o lago, pois o estou escutando.

Em um movimento ele tenta me entregar os livros, mas recua perguntando se eu quero mais alguma coisa. Quando olho em seus olhos negros eu reconheço algo que já vi no olhar de muitos homens: pretensão. Ele acha que sabe o que eu quero. Na verdade ele tem certeza disso. Para ele, provavelmente, ele acha que eu não faço ideia do que quero e ele precisa me ajudar. Eu entro nessa brincadeira e peço para me indicar um livro. Imagino que ele usará todos os detalhes sobre mim que recolheu para fazer uma espécie de curadoria. Sim, porque o meu corpo deve ter lhe falado algo que nem eu mesma tenho conhecimento.

As pessoas, todas elas, são tão previsíveis que quando se descuidam uma só vez de sua previsibilidade, nós achamos que isso é novidade ou original.

No consultório o homem que me lembra meu avô vem perdendo cada vez mais seu brilho e minha admiração. Sua voz parece escorrer de sua boca, pingar de seus lábios como uma secreção nojenta, fétida e perniciosa.

“Não sei se já lhe disseram, Dayse, mas você possui uma vagina perfeita.”

O gosto metálico na minha boca parece se misturar com cinzas.

“Nós, homens, damos muito valor a proporções de uniformidade e seus labia majora são perfeitamente simétricos.”

Sinto meu corpo começar a suar frio. Ele não fala olhando para mim, digo, para meu rosto, ele fala olhando para o meio de minhas pernas como se estivesse examinando um espécime de fóssil nunca antes encontrado. Não sou uma pessoa nesse momento, eu sou um objeto de estudo, mas um objeto ao qual ele gostaria de experimentar, de tocar em cada centímetro.

“A sua crista perianal é linda...”

Ele pareceu ficar sem palavras, como se estivesse com a garganta entalada. Emocionado? Isso tudo está sendo ridículo. Tento sobrepor as imagens dele e do meu avô e tudo parece uma piada bizarra.

Quando eu completei 17 anos meu avô me deu um forte abraço, se afastou para me ver melhor ainda segurando minhas mãos e disse “você já é uma mulher feita” me olhando da cabeça aos pés. Claro, essa expressão sempre é usada com as mulheres que estão com um corpo “pronto pro abate”, que também é uma expressão muito usada. Eu me pergunto se por trás das suas palavras, meu avô queria dizer mais alguma coisa.

Na livraria JotaPê me indica com a mão o caminho e eu sigo na frente. Posso sentir seus olhos deslizando por minhas costas e bunda. É cansativo viver assim. Tendo que desviar o caminho por causa de um grupo de homens reunidos numa rua, ter sempre que ouvir uma buzina quando um carro passa ao seu lado, não poder usar roupas mais curtas ou folgadas no calor porque os olhares vão te comer viva. 

Tenho sempre que lembrar de pressionar dois dedos no decote se preciso me abaixar, de cuidar para que a saia não mostre muito quando cruzar as pernas, porque cada ato meu pode ser classificado como o de uma piranha. A fragilidade do homem hétero quando quebra estilhaça bem na nossa cara.

Ele me mostra um livro de Elena Ferrante. O que ele não sabe é que eu li todos os livros dela. Inclusive os li em italiano. Mas isso eu não conto a ele. E achar que eu possa ter lido na língua original é uma coisa que nunca passaria por sua cabeça. Eu o deixo pensar que ele está com o poder de me ensinar. No fundo, isso é engraçado. Eu faço isso para aliviar a tensão causada pela consulta. Decido levar o livro porque não o tinha lido em português e porque gosto das traduções feitas por Marcello Lino. Aposto que ele sequer tem conhecimento desse tradutor.

Uma coisa que sempre achei fácil foi enganar os homens, sempre absortos em sua ingenuidade. O que eles não sabem é que não podem dizer a nenhuma de nós nada que já não tenhamos dito a nós mesmas.

“O pH de sua pele é levemente ácido, vou lhe indicar um lubrificante propício para você.”

A voz do Dr. Álvaro continua entrando em meus ouvidos como um verme incômodo, rastejando. O que ele está fazendo agora? Tirando as luvas? Eu ergui a cabeça tão rápido que senti uma vértebra estalar no pescoço.

“O que o senhor vai fazer?”

Imagino se ele acredita que, coroado por sua profissão, sabe mais sobre mim e meu corpo que eu mesma. Será que eu sou tema de suas conversas com amigos numa roda de cervejas? 

Ju me falou uma vez que o Emerson trabalhou um tempo como atendente em um pub onde vários médicos costumavam se reunir. Ele dizia que quando o ginecologista chegava todos ficavam animados, pois as conversas giravam em torno de suas pacientes. Um dia, ele falou, o ginecologista chegou até a mostrar fotos que tinha tirado delas e todos os homens pareciam hienas rodeando uma carcaça.

Um medo frio corre em minhas veias no lugar de sangue.

“Só preciso verificar sua lubrificação”, ele diz já direcionando a mão nua para entre minhas pernas.

Meu coração dispara e eu sento bruscamente na cama, começando a me vestir.

“Desculpe, doutor, eu não estou me sentindo bem. Vou remarcar a consulta.”

“Tem certeza, Dayse? Isso vai ser coisa rápida.” 

Não há surpresa em seu rosto, mas eu posso ver a sugestão de um sorriso irônico no canto de sua boca. Rapidamente me arrumo, pego minha bolsa, me despeço e saio.

Na sala de espera há outras mulheres. Uma delas não deve ter mais que 16 anos. Uma tristeza amorfa entala na minha garganta.

Minha cabeça é um turbilhão. Por que essa sensação de culpa está me atingindo? Por que a imagem de um homem idoso, muito parecido com meu avô, me faz achar que ele não é culpado? Por que a imagem frágil na minha mente é a dele e não a minha, vulnerável numa mesa sendo apalpada por um homem cujas intenções foram claramente lascivas?

É por isso que tantas mulheres que passaram por experiências diferentes demoram a denunciar? Eu imaginava mesmo que a decepção em confiar noutra pessoa só se dava em relacionamentos? Parece que só nos damos conta desse tipo de coisa quando acontece conosco.

Alguém pode dizer “vai ficar tudo bem”, mas não vai. As coisas podem ficar diferentes, mas nada melhora.

JotaPê está falando alguma coisa por trás do balcão quando lhe entrego meu cartão de crédito. Meus lobos cerebrais ainda estão assombrados, como em um pesadelo. As palavras do Dr. Álvaro ainda são um redemoinho na minha cabeça, então só escuto metade do que ele me diz. Algo sobre uma série. Então decido fazer uma denúncia. Decido publicar nas redes sociais o que acabei de passar. Decido tomar uma atitude antes que alguém mais sofra com isso, antes que eu mesma sofra isso mais uma vez. Porque eu acho que isso é ser assombrado. Não são as casas, são nossas cabeças que são assombradas por fantasmas de ações que não temos força de tomar. E esses fantasmas no momento tem a voz do Dr. Álvaro.

Me despeço e saio, sem nem prestar atenção nas prováveis intenções do atendente comigo.

O sol aqui fora continua escaldante. As pessoas continuam sua rotina e dessa forma parece que nada mudou no mundo. Mas no meu sim. No mundo de cada um alguma coisa muda, uma guerra começa, um apocalipse termina. Mas o mundo ao redor continua a girar com sua doce e infinita indiferença.

Quando atravesso a rua ouço meu nome em um grito esganiçado. Quando olho para trás vejo JotaPê com uma mão erguida e gritando meu nome. A outra mão faz sombra sobre os olhos e ele parece um pouco atordoado, espremendo as pálpebras talvez por causa da forte luminosidade do sol. Ele corre para atravessar a rua, mas sua corrida é interrompida bruscamente.

A cena e o barulho me fizeram deixar cair a minha bolsa e a sacola de livros, junto com o copo do Starbucks, para usar as duas mãos e tapar a boca em um grito que entalou na garganta.

Um carro veio com tudo na mesma hora em que JotaPê dava o segundo passo em sua corrida.

Nessa horas alguém sempre “aparece do nada”. Para ele o carro surgiu do nada, para o motorista o pedestre surgiu do nada. Mas nada surge do nada. Não existe essa de ex nihilo aqui. 

O corpo de JotaPê não foi lançado para o lado. Acredito que seu pé prendeu na roda e, apesar do barulho na rua movimentada, apesar dos gritos de choque de algumas pessoas e do frear de outros carros, eu pude ouvir claramente o crack dos ossos de JotaPê quando o carro passou por cima de seu corpo. O carro continuou seu percurso até bater num carrinho de cachorro-quente cujo proprietário pulou rapidamente para sair do caminho. Sangue e catchup se espalharam pela rua, calçada e objetos até o carro bater em um poste e parar, com a buzina gritando a toda.

Meu coração se debate nas costelas e eu olho para o chão. Um dos livros está sendo fustigado pelo vento, que tenta passar as páginas. Então lembro do que meu avô costumava dizer quando estava vivo:

“A vida é como um livro. A diferença é que não temos escolha, somos obrigados a virar a página sempre.”


Nota de Falecimento

O Dr. Álvaro Marinho de Oliveira, 59 anos, ginecologista, faleceu na última quinta-feira (23) vítima de ataque cardíaco fulminante. No momento ele dirigia um carro e, ao que tudo indica, teve o ataque antes de conseguir pisar no freio, atropelando assim o funcionário da Livraria HaShem, João Paulo Nogueira, 32 anos, que veio a óbito imediatamente.

No fim de semana, através das redes sociais e da polícia, várias mulheres denunciaram o Dr. Álvaro por abuso e assédio durante as consultas. O profissional atuava na área há 27 anos e as vítimas de abuso relataram casos há mais ou menos 3 anos. Sua esposa e filhos não quiseram se pronunciar.

Hemerson Miranda

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