quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Frieza




Estou suando frio.

A temperatura normal do corpo humano é de 35º a 37º C. Por sermos homeotérmicos, nossa temperatura corporal tende a ser constante, havendo apenas pequenas variações em torno de 0,2º a 0,4º C. Esse controle preciso é mantido pelo sistema termorregulador

Então eu estou no caixa do supermercado com vários sacos de gelo e um pack com seis garrafas de cerveja. E quando digo vários, são vários mesmo. Mais de 15. Eu desvio os olhos da moça no caixa que masca um chiclete e já demonstra surpresa. Eu torço para que ela nem pergunte nem comente. Depois de bipar os sacos ela pega o pack e meus medos tomam forma. Ela pergunta se não é gelo demais para pouca cerveja. Eu sorrio apenas. Um sorriso rápido. Rapidamente passo o cartão e saio com o carrinho abarrotado de gelo em direção ao carro.

Entre 33º e 35º C o corpo sofre com a chamada hipotermia leve. A sensação de frio vem acompanhada de tremores, letargia, espasmos musculares e, além das extremidades do corpo ficarem meio acinzentadas, surge uma confusão mental no indivíduo.

Claro que é gelo demais para pouca cerveja. Na verdade, nem é para a cerveja. A cerveja é só meu pagamento. Pagamento pela compra do gelo. Pagamento para ficar calado. É a terceira vez que faço esse tipo de compra. As duas anteriores foram em outros supermercados. Por alguma razão que eu mesmo não compreendo, quis variar dessa forma mais por divertimento que preocupação em me questionarem. Eu gosto quando o coração acelera, pois me faz lembrar que tenho um.

Gostaria de saber se suor frio causa hipotermia.

O gelo é para meu vizinho. Amigo de tempos. E é a terceira vez que ele me pede esse favor. É a terceira vez que ganho um pack de cervejas. É a terceira vez que ele me pede para ficar só entre nós. Da primeira vez ele me chamou para conversar seriamente. Era para falar sobre sua esposa. Nós três nos conhecemos desde a universidade. Sua esposa é uma ótima pessoa. Simpática e educada. Ele me chamou para conversar sobre alguns desejos que tinham. As pessoas tem suas vontades, suas perversões. Chamou para saber se poderia me contar uma coisa, se ele poderia confiar em mim. Eu disse que sim. Nunca fui uma pessoa dada a preconceitos. Minha filosofia de vida é que a vida pode acabar a qualquer momento. A desgraça da minha vida é que esse momento nunca chega.

Entre 30º e 33º C os tremores no corpo desaparecem, um sono recai sobre você, sua consciência começa a nublar, a memória falha, os músculos ficam rígidos e sua fala embolada. Essa é a hipotermia moderada.

Eu ouvi atentamente. Pouca coisa nesse mundo ainda me surpreende e o que ele me falou não me surpreendeu nem um pouco. Eles estão casados há dez anos e são apaixonados. Cada vez que acham que estão caindo na rotina tratam de fazer algo que mude isso. A mudança da vez, ele disse, é a mais estranha de todas as anteriores. Ele falou estranha mais para mim que para ele, mas nem precisava fazer essa distinção. Pelo que percebi, estranhas sim seriam as mudanças posteriores. Eu espero que eles sejam bastante criativos.

Então no meu porta-malas tem vários sacos de gelo. Eu levo o carro até a casa do meu vizinho. Eu o ajudo a levar os sacos para dentro da casa. Ele está usando um roupão. A mulher dele me cumprimenta. Ela está só de toalha. Suas mãos estão trêmulas e dá para ver seus mamilos túrgidos sob a fina toalha. Sorri para mim, mas não com malícia. Ambos sabem que minha fruta é outra. Ele pede para eu o acompanhar até o banheiro e ajudar a abrir os sacos e jogar alguns na banheira.

Pegue uma cerveja para ele, amor, ele diz para a mulher. Eu tento negar, afinal meu pagamento está no carro, mas ele insiste e, antes que eu decline mais uma vez, a mulher dele já está do meu lado com uma garrafa. Ela não está usando maquiagem. Seu cabelo se prende num coque e seus olhos demonstram que não dormiu muito bem. Mesmo assim mantém o sorriso. Parece ao mesmo tempo cansada, mas disposta a fazer sempre algo mais.

Aos 30º C você fica imóvel e inconsciente. Suas pupilas se dilatam e o batimento cardíaco diminui, ficando quase imperceptível. Se não for tratado correta e urgentemente, sua morte é iminente. Essa é a hipotermia grave.

Então deixamos a banheira com gelo suficiente para que uma pessoa possa deitar-se nela. Ele abre o chuveiro e deixa a água ocupar o espaço suficiente e me acompanha com uma garrafa de cerveja trazida também pela mulher.

Isso parece estar dando certo, eu digo antes de bebericar mais um pouco. Sim, eles respondem juntos. Mas acho que essa será a última vez, ele me diz, já que pode prejudicar ela, mas eu estou gostando muito. O sorriso dela também parece ser de aprovação. Ele desliga o chuveiro e levanta-se me convidando a fazer o mesmo. Ele a beija na boca e me segue até a cozinha. Há um espelho ali próximo e eu posso ver rapidamente, enquanto caminho, a mulher despir-se da toalha e entrar cautelosamente naquela banheira com água e gelo.

A casa está com o ar condicionado ligado, então o choque térmico na banheira não será tão grande. A pele dela vai se arrepiar já avisando ao resto do corpo pra tentar mantê-la aquecida, inutilmente, claro. Ela começará a ter taquicardia e tremores.

Ele tira mais duas garrafas do freezer e me oferece uma. Abro e dou um gole grande. Ele parece feliz. Ela não dormiu essa noite para as olheiras ficarem mais aparentes, ele me disse. E eu já estou excitado, ele me disse.

A temperatura da água precisa estar abaixo de 15° C. O objetivo deles é que ela consiga atingir a hipotermia grave.

Conversamos sobre um novo cortador de grama que ele comprou e sobre algumas dicas de jardinagem. Depois de um tempo ele vai até o banheiro e de lá grita meu nome. A hora chegou.

A aparência dela é de um cadáver encontrado há alguns dias.

A aparência dela é como uma folha de papel esquecida e manchada pelo tempo.

Sua pele pálida e os olhos fundos no meio das olheiras lembram algum filme de terror em preto e branco. Seu olhar divisa o nada. Rapidamente eu o ajudo a tirá-la da banheira. A pele dela estava queimada em alguns pontos. Tocar nela era como tocar em um membro dormente.

A colocamos na cama e ele foi tirando o roupão. Eu desliguei o ar condicionado, coloquei uma cadeira perto da porta e sentei. Esse era meu posto. Enquanto isso ele pegava uma bisnaga e passava o conteúdo no pau. Era anestésico tópico.

Dava para ver o quanto ele estava excitado. Então ele subiu na cama e começaram a foder. Digo, ele começou. Ela não mexia um músculo. Seus olhos vítreos fixavam-se na porta. Enquanto isso ele dava fortes estocadas nela junto a baixos uivos de prazer que acompanhavam os movimentos.

Não demorou nem podia demorar muito. Me pareceu ver ela piscar. Foi ai que ele soltou um suspiro longo. Ele gozou e rapidamente saiu de cima dela. Eu corri com alguns cobertores. Ele trouxe mais e a cobrimos. Fizemos os procedimentos para ela melhorar da hipotermia enquanto o café borbulhava na cafeteira.

Enquanto eu e ele bebericávamos o café depois de pronto perguntei qual seria a próxima quebra de rotina. Ele disse que não tinha pensado ainda. E então abriu um sorriso e disse para mim:

Tem que ser algo maior que isso” e apontou com a cabeça para a esposa na cama. “Algo mais perverso. Tipo ter um filho.”



Hemerson Miranda

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