segunda-feira, 1 de outubro de 2018

PRECISAVA ME HUMILHAR?


Conto de Gustavo do Carmo

— Você está linda, minha filha! Mas tem certeza de que quer fazer isso? Não adianta voltar atrás, hein? Perguntou Arnaldo.

Regiane respondeu ao pai, dentro do carro que a levaria à igreja, apenas balançando afirmativamente a cabeça com um semblante triste. Um semblante de culpa. Havia lágrimas em seus olhos.

Na modesta igreja de subúrbio, escolhida por Gabriel, que ali foi batizado, fez a sua primeira comunhão e leva a mãe à missa todos os domingos, ele e toda a sua família aguardam ansiosos a noiva para o tão esperado casamento relâmpago, com apenas um mês de namoro e mais dois de preparativos para o casamento. Gabriel e Regiane conheceram-se na pós-graduação em gestão de cultura, foram amigos por dois anos até ficarem afastados por cinco.  Reencontraram-se e começaram a namorar.

Os bancos da igreja só estavam ocupados no lado do noivo, por parentes de Gabriel. No outro, só alguns gatos pingados mais à frente. Eram a mãe, o casal de irmãos da noiva, com respectivos cônjugues, a empregada e dois únicos colegas de faculdade, amigos em comum, além de Charles, o ex-namorado lindo, atlético e rico de Regiane. Os padrinhos, um primo de Gabriel com a sua esposa e a melhor amiga de Regiane com o marido, estavam no altar. O pai estava com ela no seu Jaguar, dirigido pelo motorista a caminho da igreja.

Finalmente, com meia hora de atraso, as portas de madeira nobre talhada e vidro decorado com imagens sacras se abriram para a entrada triunfal  de Regiane e seu vestido branco reluzente, com detalhes de pérola e renda, com um véu de cinco metros, segurado pelas suas sobrinhas, de oito e dez anos, que eram as damas de honra. O pajem, que levaria as alianças, seria o sobrinho de quatro anos de Gabriel.

Ao som de uma versão instrumental de A Rosa, de Pixinguinha, escolhida a dedo pelo emocionado Gabriel, Regiane, também aos prantos, entrou quase que em câmera lenta ao lado do pai, que não aprovou o futuro genro, mas respeitou a decisão da filha do meio.

Após cinco minutos, o padre Clementino um septuagenário que batizou Gabriel, deu início à cerimônia com a saudação: “O senhor esteja convosco”. Em seguida, os convidados responderem: “Ele está no meio de nós”. Continuou:

— Viemos aqui celebrar o casamento de Gabriel de Oliveira Souza e Regiane Assunção de Medeiros”.

Em seguida, ministros da eucaristia leram passagens do Antigo Testamento e o padre completou com o salmo responsarial, a homilia e finalmente o sacramento matrimonial, ordenando os noivos a unirem suas mãos. Cada noivo falaria, começando por Gabriel.

— Eu, Gabriel, recebo-te por minha mulher a ti, Regiane, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os dias da nossa vida.
— Eu, Regiane... ela fez uma pausa e mudou o roteiro do sacramento: eu não te recebo como meu marido.

Os convidados exclamaram com um sonoro oh! Ela continuou, pegando o microfone do padre.

— Me desculpa, Gabriel, mas nos últimos meses tenho recebido muitos conselhos para não me casar com você. Muita gente tentando me convencer. Meus pais, meus irmãos, meus amigos... você não trabalha, é muito imaturo, não tem conhecimento de nada, não sabe falar outra língua, tem uns descontroles emocionais, umas manias estranhas, não cuida direito da sua aparência... E você também tem origem humilde. Eu tentei terminar o namoro antes, mas os seus pais já tinham pago os preparativos, o salão de festas e fiquei com pena da sua mãe, que estava ansiosa pelo casamento. E fiquei com pena de você também. Sabia que você precisava se casar. Mas eu não poderia levar isso adiante. Algum dia, o nosso casamento iria terminar. Por isso, decidi que fosse logo. Eu te amo muito. Mas como um irmão. Por isso, escolhi esse momento pra tentar fazer com que você amadureça. 

Gabriel desferiu um soco em Regiane e disse aos gritos:

— Precisava dizer tudo isso aqui no altar? Precisava me humilhar na frente da minha família? O que eu te fiz? Vagabunda! Hipócrita! Cadela! Eu vou processar você e o prepotente do seu pai! E se acontecer alguma coisa com a minha mãe, você me paga!

A mãe de Gabriel passou mal. Teve um aumento súbito de pressão. Iniciou-se uma confusão, que o padre tentou, em vão, evitar.  Cenas de pugilato na igreja, entre os primos de Gabriel, o cunhado e o irmão de Regiane, alguns amigos e Charles, o ex-namorado lindo, atlético e rico da ex-noiva. As mulheres trocaram puxões de cabelo.

Gabriel, sua irmã e seus primos foram à delegacia prestar queixa contra a família de Regiane. Na segunda-feira seguinte, entraram com um processo por danos materiais e morais contra Regiane e sua família.

Arnaldo reembolsou a família de Gabriel por todas as despesas com o casamento que não aconteceu. E também o prejuízo pela destruição da decoração e sujeira na igreja. Já o processo por danos morais... ganhou em todas as instâncias. Arnaldo era um advogado muito influente. Na última instância, no STF, o noivo abandonado foi representado pela irmã. Gabriel suicidou-se meses depois da pior humilhação que sofreu.

Já Regiane casou-se com Charles, o ex-namorado lindo, atlético e rico, em uma linda cerimônia num Castelo em Champagne, na França. Foram passar a lua de mel em Abu Dhabi e tiveram três lindos filhos. Viveram felizes para sempre, sem nenhuma culpa pela humilhação, o suicídio de Gabriel e o aborto que fez de um filho que esperava do ex-noivo.

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