quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O Copo


Vou lhe contar uma história. Uma história curta e terrível.

E vou tentar ser o mais breve possível, porque não tenho muito tempo.


A ideia toda foi minha.

Era o ano de 1996 e o tédio me espancava sem dó enquanto meu corpo, devido ao calor, era coberto por uma camada fina de suor. Na minha inquietude procurei algo que envolvesse o grupo da escola numa aventura séria, nada tão fugaz, mas algo que pudesse ser lembrado pelos próximos anos, uma história que nós contaríamos para nossos filhos e eles aos seus.

Éramos um grupo de quatro. Erick era meu amigo desde a quarta série e nessa época ele estava namorando Luana, amiga de Vanessa, a quem eu tinha dado uns amassos no início do ano. De Vanessa, não Luana. Estávamos sempre juntos na escola, no auge de nossos 17 anos, supurando hormônios e, tal eu mesmo, afogados num tédio sem precedentes.

Inspirado nas matérias sobre espiritismo e bruxaria da revista Superinteressante e  nos filmes que passavam na Sessão da Tarde e no Cinema em Casa, os clássicos do terror e do suspense, pensei em nos unir para algo como necromancia, um contato com os mortos, tocar a campainha do inferno. Meu desejo naquele ano era ter um tabuleiro Ouija, mas era caro e difícil de encontrar ali numa capital nordestina. Então, como é próprio dos pobres a criatividade para substituir as coisas, fiquei sabendo de um jogo semelhante chamado O Espírito do Copo ou Jogo do Copo, já usado por outros adolescentes agastados.

Funcionava como o tabuleiro, mas mais arcaico, aquilo que chamávamos de gambiarra. Escrevíamos o alfabeto e o Sim e Não em uma folha de papel, ou numa superfície plana e usávamos um copo de vidro no lugar da peça em formato de coração. O importante é que funcionasse para o mesmo propósito. E, segundo alguns relatos que se tornaram lenda, funcionava

Propus a empreitada aos meus amigos numa sexta-feira e, conseguindo a aprovação de todos, combinamos de nos reunir no sábado para organizar tudo. Chegaram na minha casa sem muito entusiasmo, só a sombra de alguma expectativa passageira. Depois de gordurosas fatias de pizza, muita batata frita e coca-cola, nós soubemos pela Luana que na rua dela havia uma casa para alugar, mas que ninguém se atrevia a locar porque era considerada mal assombrada. Uma mulher, grávida, se matou enforcada num dos caibros da cozinha há 5 meses. Meus olhos brilharam com essa informação e ficou decidido que lá seria o local, não só pelo abandono da casa, mas porque o acontecimento era recente e pensei em uma comunicação fresca com os mortos. No dia seguinte, à noite, bancaríamos os caça-fantasmas. Fizemos uma lista de tudo o que precisávamos, que demandou nova discussão como se fôssemos acampar na Amazônia, e cada um de nós foi dormir com uma nova onda de ansiedade correndo nas veias.

Foi fácil nos esgueirarmos para pular o muro da casa porque do lado há um terreno baldio, então apenas fizemos pezinho para que as meninas primeiro subissem e depois nós, os homens, demos nossos pulos ninjas. Vanessa usava um perfume muito gostoso, que me fez querer cheirar seu pescoço e a blusa de alça, que se esticava por causa de seus seios grandes, me causou uma ereção.

Já dentro do terreno da casa tudo estava escuro lá dentro. Luana, com um batom azul e cabelos curtos acima do ombro, abriu a mochila de Erick para se prontificar a pegar as velas e a lanterna. Sua expressão era séria, uma concentração própria de quem está numa missão sigilosa. Quando ela lançou um cone de luz branca na porta dos fundos vimos um cadeado pequeno o que provocou um desdenhoso estalo de língua em Erick, que se armando do martelo que estava na mochila, em três golpes, o abriu.

O cheiro de mofo úmido invadiu nossos narizes e as meninas espirraram ao mesmo tempo. Odor de amônia, barata e folhas secas flutuava pelos cômodos. Além de uma mesa pequena de madeira no meio da sala e uns objetos de limpeza há muito vencidos e esquecidos num canto da cozinha, a casa estava vazia. Teias de aranha atravessavam o teto de telhas vermelhas com manchas brancas de mofo e algumas baratas vez ou outra passavam pelas paredes que começavam a descascar. Imaginei que em algum momento um rato enorme se esgueirasse junto ao rodapé e tive um breve arrepio na nuca.

“Tô começando a achar que isso não foi uma boa ideia” Vanessa falou perto de mim, seu corpo bem junto ao meu. Seu hálito de enxaguante bucal, talvez para disfarçar o aroma amargo do medo que subia de sua garganta.

“Não vai amarelar agora, né?” Luana já estava retirando umas velas de dentro da mochila.

Numa citação clássica de Star Wars, eu olhei para Erick e Luana com um sorriso e falei:

“Tenho um mau pressentimento quanto a isso.”

Todos riram.

“Espera, não quero ficar em pé”, Erick falou pegando a mesa para verificar como a deixaria no chão. Percebendo que a madeira estava quase apodrecida, apenas fez um pouco de força e conseguiu quebrar as pernas, deixando apenas o retângulo no chão. Luana soprou uma camada espessa de poeira da mesa, passando a mão em seguida para limpar mais e retirou da mochila um giz azul e o copo de vidro, daqueles que antigamente vinham com geleia de mocotó e a gente usava para beber café. Também colocou sobre a madeira velas vermelhas e um isqueiro. Quando as velas foram acessas nossas sombras bruxulearam nas paredes.

“Ótimo” disse Vanessa ao meu lado.”Além de invasão de privacidade agora temos danos à propriedade particular.”

“Cala a boca, Vanessa.”

“As velas precisavam mesmo ser vermelhas?”, fala Erick juntando as sobrancelhas.

“Por que? Queria que fossem rosa?”, ri, descascando uma parede ao meu lado, o que fez soltar uma nuvem pequena de poeira.

Sentamos no chão empoeirado e cheio de fragmentos de pedra e vidros enquanto Luana escrevia as coisas na tábua. Acendemos mais velas para não termos que usar as lanternas. Fora nossos movimentos o silêncio no ambiente, se nos concentrássemos nele, era perturbador. A luz amarelada das chamas deixava nossos rostos com uma aparência adoentada e nossas sombras dançando nas paredes, esticadas a ponto de se romper, por vezes nos causavam pequenos sobressaltos.

Então o céu caiu sobre o telhado. Quando olhamos para cima quando estávamos nos dirigindo para a casa, não havia sequer nuvens cheias demonstrando que uma chuva se aproximava. Então do nada gotas grossas de água martelaram as telhas vermelhas, causando um barulho estrondoso nos obrigando a levantar a voz para que nos ouvíssemos. Filetes de chuva entraram pela janela quebrada da sala, mas não nos atingiam. Goteiras começaram a aparecer em várias partes do teto, mas nenhuma no local em que escolhemos ficar. Tudo parecia ter sido dirigido como um filme, propiciando tanto o ambiente quanto a atmosfera para o que planejávamos fazer.

“A orgia vai ser depois ou antes de fazermos o contato?”

Todos riram com o comentário de Erick e Vanessa olhou para mim colocando uma mecha atrás da orelha, um sorriso malicioso se formando em seus lábios. Tínhamos tido apenas uma noite de diversão quando cabulamos as duas últimas aulas de uma quinta-feira, a matéria era biologia, mas o caso é que eu não me dou bem com relacionamentos. Mesmo assim, sempre que podia, ela dava algumas investidas em mim, que, dependendo de meu humor no dia, até cedia.

Quando Luana terminou, nos aproximamos da mesa. Vanessa ficou com o corpo bem encostado ao meu e eu quase podia ver uma nuvem de feromônios se desprender de sua pele. Suprimi a vontade de passar a mão em sua coxa e esperei todo mundo prestar atenção.

A chuva torrencial deu uma maneirada, mas ainda ouvíamos as gotas batendo no teto e as goteiras agora estavam mais fortes. Mesmo assim não fomos mais obrigados a gritar para conversar. Um frio começava a nos envolver.

“Bem” comecei. “Todos coloquem o dedo indicador no fundo do copo.”

O copo ficara emborcado no centro da tábua. O alfabeto fora escrito na parte de cima e o Sim e Não abaixo dele. Luana pegou o dedo de Erick e o colocou na boca, deixando-o gotejar saliva, dizendo que era para dar sorte. Erick falou que era melhor ela colocar na boca outra coisa. Pedi silêncio e que levassem a sério, abafando as risadas de todos.

Com os dedos postos, o corpo de Vanessa estava na frente do meu, e da mesma forma estavam nossos outros dois companheiros, pedi para todos fecharem os olhos por um momento e desejarem um contato com o além. Todos obedeceram. Podia ouvir suas respirações e a mais afetada era a de Vanessa. Se me esforçasse poderia até ouvir seu coração se debatendo e tentando se libertar das costelas. Quando pedi novamente para abrirem os olhos, respirei fundo e falei, minha voz quase ecoando no silêncio sepulcral apenas entrecortado pelo monótono tilintar da chuva.

“Se existe mais alguém nesta casa além de nós, por favor, nos responda.” Não sei por qual razão eu achava que ser educado fosse fazer alguma diferença.

Algumas cabeças se viraram, esperando que o contato viesse do teto ou de outro cômodo, esperando uma voz vir das paredes. Repeti a pergunta e todos aguardavam apreensivos. Alguém suspirou, não sei se de decepção ou cansaço. Então repeti uma terceira vez. Minha voz morrendo, afogado pelo silêncio. Uma brisa entrou na casa e tremulou as velas. Seguiu-se um clarão ecoado por um trovão que nos assustou.

Senti o copo sob meu dedo ser empurrado. O objeto de vidro deslizou até o Sim e todos nos entreolhamos.

“Quem empurrou?” Luana perguntou, mas ninguém respondeu, pois cada um pensava que o outro o tinha feito. “Sério, alguém mexeu?”

Nós balançamos a cabeça negativamente, mas as meninas ainda olhavam com incerteza para Erick. Limpei a garganta e fiz mais uma pergunta.

“Você está aqui conosco?”

O copo estremeceu, fez um arco curto arranhando a tábua e parou no mesmo lugar em que estava.

“Isso foi um sim?” Vanessa olhou para mim, sua boca quase próxima à minha. Eu assenti com a cabeça. Erick engoliu em seco e um sorriso maroto se aflorou nos lábios de Luana. Vanessa falou “Continue.”

“Você está vivo ou viva?”

O copo se arrastou com nossos dedos até o Não.

“Então tá morto?” Vanessa gritou, mas antes que qualquer um de nós pudesse dizer que essa era uma pergunta idiota, o copo tremeu, fez o curto arco e voltou para o Não. Todos nos entreolhamos. Luana deu de ombros.

“Qual seu nome?”

O copo deslizou de forma vacilante para o M, arrastou-se para o A, desceu para o R e voltou para o A.

“Mara?”

“Vem cá, isso realmente tá acontecendo?” Erick olhava para cada um de nós com as sobrancelhas arqueadas.

“Você é do bem?” Vanessa perguntou enquanto os outros dois sorriram. O copo não se mexeu.

“Você é um demônio?” ante a pergunta de Luana o copo permaneceu imóvel. Eu respirei fundo, limpei a garganta de novo e perguntei:

“O que você quer?”

Nesse momento pareceu que uma corrente elétrica saiu do copo e atingiu nossas mãos. Todos nos jogamos para trás e uma mancha negra como de carvão estava na ponta de nossos indicadores. O copo estava agora no centro da tábua e começou a girar sobre si mesmo. Então se espatifou com um som abafado, lançando cacos de vidro para todos os lados. A chuva recomeçou forte, após um raio e um trovão. As meninas retiravam os fragmentos dos cabelos. Um caco atingiu a sobrancelha de Erick e minha bochecha. Todas as velas se apagaram, a escuridão devorou todas as cores e Luana acendeu rapidamente uma lanterna. Nossas respirações ofegavam. Todos nos colocamos em pé, prontos para correr.

Nos envolvia um cheiro estranho, de algo cru, quente e adocicado. Um odor de sangue fresco saindo de uma ferida polvilhada com açúcar. Aroma de saliva e sêmen. Não sei se todos sentiram isso e depois tive vergonha de perguntar. Nos nossos ouvidos, sussurros incompreensíveis, mas que por algum motivo causaram arrepios.

“Vamos sair daqui” eu gritei, pois a chuva abafava novamente os sons.

Mas aí nós ouvimos antes de vermos. Depois da porta da cozinha, no corredor que dava para a sala, passos, então uma silhueta negra. Luana lançou a luz para o local e o que vimos foi uma sombra. O corpo nu do que parecia ser uma pessoa, extremamente magra, com dedos e braços longos, estava apenas ali, parada na parede, apenas uma sombra, mas que respirava, uma mancha em duas dimensões, mas que parecia arquejar, tinha a essência de uma sombra, mas passava a impressão de algo sólido. Sua cabeça disforme como que virou para nós e não sabemos como, mas seus olhos inexistentes nos encararam lançando um calafrio em nossas espinhas, depois virou para a frente e saiu andando para se mesclar à escuridão.

Nos entreolhamos, nossas vozes entaladas na garganta por onde o coração planejava escapar e corremos. Saímos da casa e fomos afogados pela chuva que caía com violência. Nossas roupas se colaram de imediato a nossos corpos, como uma segunda pele. Pisamos em poças de água barrenta, Erick prendeu um pé num buraco entre a grama, mas logo se desvencilhou. Todos conseguiram pular o muro sem a ajuda de ninguém. Luana torceu o tornozelo quando pulou e foi levada pelos braços por Erick. Ninguém ouvia nossos gritos enquanto a água caía do céu chicoteando o chão e inundando nossas bocas escancaradas. Vanessa caiu em cima de mim, não conseguindo enxergar nada na escuridão. Corremos sem parar e sem direção até que algum de nós decidiu ir para alguma casa. A casa de Luana. Ficamos vários minutos em silêncio, tentando organizar nossos pensamentos, com medo de quem seria o primeiro a dizer alguma coisa e o que diria. Nossos corpos escorriam, como que derretidos. Vanessa com o rosto sujo de lama, minhas pernas negras de barro. Tentamos conversar civilizadamente, mas sempre irrompia alguma discussão inútil. Havia alguma explicação racional, sugeriam Luana e Erick, mas essa mesma explicação eles não conseguiam dar. Vanessa falava algumas coisas que não conseguíamos compreender em voz chorosa. Terminamos sem uma unanimidade e seguimos cada um para nossas casas.  

Não sei eles, mas eu não consegui dormir. O som inumano ainda ecoava em meus ouvidos e o cheiro estranho continuava em meu nariz mesmo após eu ter passado uma linha de cânfora abaixo dele. Ouvi a chuva recomeçar e terminar várias vezes até a luz da manhã entrar na minha janela.

Na segunda-feira, tudo mudou.

Na sala de aula, ao lado da professora, uma moça atraia olhares curiosos e famintos dos garotos e de inveja das garotas. Cabelos loiros flutuavam ao redor de sua cabeça, ainda mais brilhantes por causa do sol que entrava filtrado pelas janelas. Naquela época as camisas do uniforme eram brancas, um tecido vagabundo, que só caia bem em duas ou três garotas naquela escola. Nela, caia perfeitamente bem, valorizando seu belo busto. As calças jeans justam delineavam seus quadris e uma bunda bem feita. Seu olhar não dizia nada, na verdade nada nos movimentos dela dizia, como que se uma apatia recaísse sobre si mesma e não desejasse se afastar.

No meio dos cochichos dos alunos a professora ergueu a voz e falou o nome da garota. Nesse momento o chão abaixo de Erick, Luana, Vanessa e mim se abriu, a ponto de nos engolir. O nome da moça era Mara e seus olhos verdes brilhavam olhando para nós como duas chamas de fogo fátuo.

Os dias que se seguiram foram os mais estranhos da nossa vida e da história daquela escola. Havia alguma coisa em Mara que Vanessa só conseguia definir como sendo o mal. Uma aura sombria e ao mesmo tempo magnética a envolvia e por onde ela passava algo de ruim acontecia, algo que aparentemente as pessoas ao redor dela simplesmente não conseguiam evitar fazer, muito menos entender. Era como se não existisse uma pessoa viva que fosse capaz de dizer Não a Mara.

Quando conversamos sobre o que estava acontecendo nós quatro tentamos formular as mais estranhas teorias sobre aquilo. Mas apenas Vanessa se apegava ao fato de que nós a tínhamos realmente invocado e agora não tinha mais como voltar atrás. Luana, com sua seriedade costumeira, era a que mais conversava comigo sobre algo realmente útil que pudéssemos fazer, ao menos uma explicação lógica para tudo aquilo, mas não tínhamos precedentes em que nos agarrar.

As coisas estranhas que aconteciam ao redor de Mara só aumentavam e um sentimento semelhante a culpa começou a nascer no meu ventre.

Um garoto na aula de matemática cortou dois dedos da própria mão com um estilete, uma expressão de pura insanidade enquanto cortava a carne e, quando os ossos começaram a aparecer, ele simplesmente colocou entre os dentes e arrancou o resto. Testemunhas disseram que minutos antes de ele fazer isso Mara havia sussurrado alguma coisa nos ouvidos dele. No hospital ele disse que não lembrava de nada do que tinha acontecido.

Os próprios professores pareciam hipnotizados com a garota. Não importava o que ela fizesse, sempre era absolvida de seus atos, restando a outros, azarados que estavam próximos, receberem alguma punição. Era como se ela criasse uma realidade própria em que só seus escolhidos podiam enxergar.

Em um dia que fez 30º e a escola distribuiu sorvete para nós uma garota se jogou da janela do primeiro andar depois do almoço. Amigas dela disseram que ela fez isso depois que viu Mara pegar o namorado dela, dar um beijo longo na boca dele e dizer “Ele nunca será seu”. A menina simplesmente começou a chorar diante da imagem do namorado que parecia ter sofrido uma lobotomia, correu para o banheiro, se trancou e só saiu de lá para se lançar para a morte.

Nós quatro começamos a especular um jeito de resolver as coisas, ou ao menos fazer ela voltar de onde quer que tivesse vindo. Luana me trazia artigos de revistas e livros sobre os assuntos que eu pesquisara antes de nossa empreitada. Chegamos a conseguir fitas VHS sobre invocação de demônios, mas a maioria era de evangélicos fazendo mais teatro que qualquer outra coisa.Vanessa insistia que não havia saída, que a porta por onde ela saiu e que nós abrimos, se fechou para sempre. Quando perguntávamos como ela sabia disso apenas dava de ombros.

“Eu só sei que é assim.”

Então Erick começou a agir estranho. Paulatinamente ele começou a se afastar de nós. Diminuiu até mesmo as conversas comigo, o que achei um absurdo, já que isso nunca havia acontecido e temi pelo futuro que nos aguardava. Disse a Luana que estava tudo terminado entre os dois, sem qualquer justificativa, e, depois que ela foi ignorada nas tentativas de conversa com ele, foi até mim:

“Você pode, por favor, perguntar ao seu amigo o que diabos deu nele?”

Erick agora estava andando com Mara. Começara a fazer parte do séquito dela, um bando de zumbis que devorava os próprios cérebros. Era totalmente oposto ao comportamento de Erick aquilo, ele estava perto de pessoas que sequer suportava.  Foi difícil eu conseguir um momento em que não estavam juntos para conversar, pois parecia que os olhos de Mara eram câmeras em todo lugar, sempre observando.

“O que você tem?”

“Não sei do que tá falando.”

Por um momento eu temi que um fio de saliva escapasse da boca de Erick e ele começasse a defecar nas próprias calças. A expressão dele era a de um alienado. Seu olhar se perdia num horizonte que só ele enxergava e a vida foi arrancada de seus olhos, dois pontos negros flutuando em água salobra. Ele apenas me deu as costas e foi embora. Não havia muito o que dizer para Luana.

Foi quando estávamos no pátio que ela se atreveu ir até Mara, que tinha Erick do lado como um cão de guarda e quis tirar satisfações. Todo o séquito acéfalo de Mara a olhava sem expressão. Ela apenas estendeu um pedaço de papel para Erick, que leu e em seguida foi até a cozinha, sob o protesto das cozinheiras, voltou com uma faca não mão em meio a gritos de alunos e funcionários, se postou de frente a Luana e rasgou de orelha a orelha a própria garganta.

No meio de toda a confusão que se seguiu, Vanessa conseguiu pegar o papel que Erick segurava antes. Quando estávamos indo para casa, eu abraçado a Luana tentando consolá-la, sentamos um momento num banco da praça e ela nos mostrou o pedaço de papel. Todos nos entreolhamos com expressões de pura incredulidade.

Não havia nada escrito.

Ninguém sabia onde Mara morava e nada de informação conseguimos ter na diretoria da escola. Luana havia entrado num estado preocupante, triste, sem ser afetada pelos esforços de Vanessa e eu para tentar animá-la. Em um fim de semana Luana nos encontrou na sorveteria e seus olhos ardiam com uma fúria que nunca tínhamos visto.

“Eu sei onde ela está.”

Saiu apressadamente e nós, mesmo sem entender, a seguimos, os sorvetes derretendo sob o calor infernal. Mara estava na praça, um garoto ao lado dela e ambos conversavam em sussurros. Luana avançava furiosamente na direção dela e nós sabíamos que ela ia acabar com a outra garota. Nossa amiga praticava pugilismo e vimos o que ela uma vez fez ao rosto de um rapaz que a chamou de puta.

Só que algo aconteceu. Olhei para Vanessa e percebi que ela também estava sentindo mais que ouvindo.

Vozes.

Sussurros, iguais ao daquele dia na casa, incompreensíveis, inundavam nossos ouvidos, como se viessem de dentro de nossas caixas cranianas e não de fora. Gritos longínquos e choro. Vozes se erguiam em desespero e esse era todo o som ao nosso redor.

“Você tá ouvindo isso?”

Eu assenti. Quando olhamos para a frente Luana estava parada diante de Mara, que permanecia sentada. O garoto tinha saído, mas voltava agora com um pedaço de galho arrancado de alguma árvore próxima, mas que parecia ter sido cortado para ser uma estaca. Ele entregou o galho para Luana e, antes que Vanessa e eu pudéssemos correr e impedir o que ia acontecer, o galho foi cravado por nossa amiga em sua orelha direita com uma força inumana.

Quando eu olhei para Mara, sua expressão que geralmente era neutra, esboçou o que deveria ser um sorriso, mas parecia uma pequena ferida feita por um bisturi. Ela também olhava para mim.

Os psicólogos da escola estavam preocupados com uma onda de suicídio se avizinhando e tentando quebrar em nosso meio.

Vanessa e eu não sabíamos o que fazer. Ela falou que seriam inúteis nossas tentativas de recomeçar um contato, de fechar alguma porta, de fazer ela voltar seja lá de quais profundezas havia vindo. O medo que crescia dentro de mim era que Vanessa fosse a próxima. Apesar de evitarmos qualquer contato com Mara, ainda assim o temor de que Vanessa também fosse afetada pela voz silenciosa de Mara permanecia dentro de mim.

Como se um demônio tivesse ouvido meus pensamentos, Vanessa começou a agir de forma estranha. Em todas as aulas ela olhava para a janela, para nada específico lá fora, numa alienação que me fez lembrar Erick. Um dia fui até a casa dela e fiquei perturbado, sacudindo-a para que ela reagisse, que me falasse alguma coisa, o que estava sentindo, o que poderia eu fazer para ajudá-la.

Minha espinha congelou quando ela virou o rosto lentamente para mim e, abrindo o sorriso mais triste que eu já vi na vida, ela falou mansamente:

“Não há nada que você possa fazer.”

Só sai da casa dela quando ela dormiu.

Em minha própria casa eu relia os livros e artigos que tinha acumulado. Me sentia inútil diante de todos aqueles acontecimentos. As mortes de Luana e Erick me pesavam nos ombros de tal forma que se tornaram uma dor física. Era tarde para refletir sobre o perigo de entrar em contato com forças das trevas, com esses seres maculados pela corrupção.

Quando acordei no dia seguinte minha mãe estava com a cara pálida e me abraçou dizendo que Vanessa tinha sido encontrada no quarto sobre uma poça de sangue junto de vômito e uma garrafa de veneno para rato do lado.

Quando fui visitar seu quarto, depois do funeral e sepultamento, vi o celular dela na sua cômoda, com a capinha em formato de coelhinho rosa. Desbloqueei com a senha que ela havia me mostrado há muito tempo e quando verifiquei sua agenda a última chamada que recebera, às 1:35 da madrugada do dia em que se matou, era de Mara.

Depois disso as coisas ao meu redor se tornaram brumas oníricas e tudo o que eu venho lembrando são fragmentos de memórias que eu sequer sei se posso confiar.

Essa é a história, isso é toda a tragédia que aconteceu. Agora eu preciso ir. Aproveitei esse momento em que ela foi ao supermercado para te contar tudo isso o mais rápido que consegui, pois quando ela está perto de mim eu não consigo me concentrar.

São as vozes.

Quando ela está presente as vozes não param de sussurrar, reverberando em meu corpo, como se arranhassem meus ossos. Só quando ela está longe eu tenho um pouco de paz e lucidez.

Eu já não saio muito de casa, então não sei o que mais ela destruiu por aí. Não sei quantas pessoas mais morreram ante sua ordem silenciosa. Não tente entrar em contato comigo. Apenas se afaste. E se afaste o máximo que conseguir dela. Vou enviar esse e-mail agora e em seguida excluir, mas por favor, não responda. Ela pode encontrar. Tem me deixado sozinho cada vez menos.

Agora preciso ir. Ela já voltou. O carro acabou de estacionar lá na frente e ela está caminhando para a porta.

Ela voltou com uma sacola de compras em uma das mãos e na outra segura a mãozinha de nosso filho.


Hemerson Miranda

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