quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Diva Princes




(esse texto faz parte de uma novela maior ainda sendo escrita)


Diva Princess, uma estrela em ascensão. Seus belos olhos verdes parecem boiar numa poça de água salobra. Diva, a suprema rainha performática.

Não entendo muita coisa do mundo dos travestis, mas de uma coisa eu entendo. Sempre fui um desses caras que frequenta ambientes predominantemente gays, mas também com sua parcela de héteros que não se arriscam demais, que gostam de dançar Madonna e Lady Gaga, mas nunca admitem que sentem uma suave corrente elétrica erguer a espinha e iluminar os olhos quando veem um corpo masculino. Claro, eu também adoro o corpo das mulheres, e lógico que não tenho medo ou nojo de boceta, como alguns idiotas afirmam, mas há algo de mais apolíneo no meu interesse pela estrutura física dos homens.

Apolíneo
adj.
Relativo a Apolo. Belo. Formoso.

Atualmente existem várias definições de gênero, mais de 56, se não me engano, e é até divertido procurar onde você se encaixa. O que sei é que o apelo erótico de um corpo semelhante ao meu sempre foi mais forte. Nunca tive problemas nesse sentido com o terreno escuro da instabilidade e suas nuances. Se eu penso no corpo de Letícia, bem, claro, me vem uma ereção, mas se penso em algum homem nu, além da ereção, minha boca começa a salivar. Imagine esses homens grandes, rostos marcados, cicatrizes, pele vincada, escamosa.

Genderqueer
adj.
Versão mais radical do termo não-binário, que são pessoas nem 100% homens nem 100% mulheres.

O termo queer, me disse uma amiga, se tornou estigmatizado.

Imagine homens com a voz rouca, fortes, mas não musculosos, algo entre lutador e trabalhador braçal. Homens viris, não afeminados, que curtem outros homens sem frescuras. Homens confiantes, peludos. Estou procurando o que eu sou nessa lista enorme.

Gênero-fluido
adj.
Alguém cujo gênero muda de tempos em tempos.

É desse tipo de caras que eu gosto. Eu penso neles me encontrando em corredores vazios, ou em banheiros públicos, debaixo de alguma ponte escura, me prensando contra as paredes, apalpando meu corpo e eu apalpando os deles, me erguendo em seus fortes braços, me arrastando, e de repente uma dança coreografada, uma complexidade de dominações, me jogando ao chão com força, seus suores brotando em pérolas nos seus rostos e pescoços, caindo em mim. Homens rudes, ogros.

Maverique
adj.
Gênero específico definido por convicção e autonomia em saber que não é masculino, feminino ou neutro, ou qualquer identidade variante destes.

Acho que eu não deveria ter vindo à praia. Eu geralmente venho à praia, ao pôr do sol, para pensar sobre a exclusividade da minha existência, sobre meu protagonismo nesse mundo e a solidão contida nisso tudo. Mas hoje algo me incomoda. É Diva.

Diva e seus cachos volumosos coroando seu rosto perfeito.

Diva e sua boca grossa de boquete.

Começo a pensar em Diva por baixo daquela maquiagem, daquela roupa. Penso em cordas, coleiras, mordaças. Diva e seu pacote completo: dois peitos grandes e um pau. Penso em sufocá-la. Ela na cama e sua sujeição voluntária, sua condição de objeto. Eu e Diva, dedos, línguas e paus sumindo em nossos orifícios. Um corpo sumindo em outro corpo.

Ali, na areia, sentado diante do mar, com esses pensamentos fluindo, meu novo gatilho para excitação, senti um prazer imediato, seguido de uma frustração e uma solidão imediatas. Quando olhei para baixo, para minha sunga vermelha, uma mancha escura se formava em círculo. Eu havia gozado.

Schrodingênero
adj.
Alguém que sente ter e não ter ao mesmo tempo certo gênero, ou ter um gênero que é vários gêneros ao mesmo tempo

Peguei a toalha e cobri o local, quando vinham saindo das águas três caras. Alguns héteros não sabem, mas a camaradagem deles às vezes é confundida com aberturas. Eu já passei por isso e aprendi minha lição. Caralho, se os homens soubessem da massagem de ego que eles fazem uns com os outros. Os três caras, dois magros e um mais forte. Confesso que para o forte eu olhava como um pedaço de carne. Mesmo já tendo gozado, o formato quadrado do rosto desse cara, igual ao formato do rosto de Diva, me causou o início de uma ereção. Senti algo visceral se apossando de mim.

Diva, eu descobri depois de uma rápida pesquisa no Google, fora encontrada justamente naquele bar do vídeo do YouTube. Depois daquela performance ela começou a fazer shows em outros bares, depois boates e sua fama estava crescendo, como meu pau agora, e meu desejo é encontrar ela, conhecer ela. Esse agora é meu objetivo.

Ora, acho que achei meu gênero.

Casgênero
adj.
Alguém que acha que o conceito de gênero não é importante para si.

Meu desejo era levantar e mostrar minha ereção a esses três caras. O mais forte correria para cima de mim e me espancaria. E era isso que eu desejava. Eu em algum momento o imobilizaria, daria uns socos nele, então comeria sua bunda ali mesmo, na areia, ele começaria a gostar, me beijaria... Já estou sonhando demais.

Bem, acho que esse define melhor o meu gênero:

Egogênero
adj.
Gênero pessoal, único para quem o experiencia é que não pode ser descrito de alguma forma

Quando eu tinha 9 anos olhei para um cara entre os 15 e 20 anos e falei para minha mãe "Olha, Mainha, que homem bonito". Ela me deu um forte tapa na cara. Disse que eu era homem e deveria gostar de mulher. Era a minha mãe me dizendo o que eu deveria ser.

Agora estou aqui, na praia, com a cueca melada e uma lista de gêneros aberta no celular esperando que ela ou Diva me digam o que eu devo ser.

Será que a resposta está em outra mulher realmente?



Hemerson Miranda

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