quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Drink




Minhas sobrancelhas estão arqueadas não apenas pelo preço do prato que vejo no cardápio, que é absurdo, eu acho, mas também por existir um prato como esse. O nome é gazpacho e é uma sopa fria feita de pão, azeite, vinagre, alho e cebola. Com o valor desse único prato eu posso ir no mercado e fazer o suficiente dessa ridícula sopa fria para comer por uma semana.

Eu viro para o barman, que parece um folheto publicitário de cuecas, e peço uma vadia e um chope de heineken.

Calma. Antes que você ache que esse não é um estabelecimento respeitável, vadia é um drink que mistura cachaça artesanal com canela. Eu sempre bebo um copinho antes de começar na cerveja. O choque da bebida destilada, adoçada e quente com o gélido lúpulo e a cevada me agradam bastante.

O balcão do clube só não está vazio por causa de mim e de um casal sentado na outra extremidade. As mesas estão lotadas ao longo do lugar, como a pista de dança, onde casais tem seus corpos em exultantes contorções sob uma música eletrônica num loop ad aeternum.

Entorno a cachaça adocicada e sinto a garganta queimar e o estômago se aquecer, o que me lembra de comer algo. Peço ao barman lula frita. Tenho que gritar, já que a música é ensurdecedora.

Nunca aprendi a dançar. Nunca tive desejo de aprender. Continuo sem a vontade. Fico vendo esses casais dançando e penso não tanto no quanto deve ser difícil, mas quanto deve ser cansativo. Dançar sozinho então, deve parecer ridículo. Aí, como se tivesse ouvido meus pensamentos e se materializado de propósito, vejo, no meio dos casais efusivos, uma mulher dançando sozinha.

O vestido de alças negro é o que o Skank chamava de indefectível. Cabelos castanhos e encaracolados flutuam na altura de seu queixo. Segura em uma das mãos uma taça. Se movimenta com as mãos erguidas, mas a cabeça está baixa, coberta pelos cabelos rebeldes, como se estivesse olhando para os pés e vendo se eles estão fazendo o que devem, mas imagino que esteja de olhos fechados.

O que me admira é que ela, com coxas e pernas bem feitas e à mostra e ombros nus atraentes, esteja dançando sozinha. Provavelmente deve ter recusado vários convites de homens e mulheres, pois posso imaginar uma fila esperando para se remexer com ela.

Sorvo um grande gole da cerveja e sinto vir até mim, como uma lufada de vento, o aroma de creme hidratante misturado com suor.

“Oi!”

O hálito quente bate em meu ouvido junto do grito e eu me assusto. Eu literalmente dou um pulo no banco em que estou. Sentiria vergonha se já não tivesse o corpo todo ocupado com medo. Eu tive que rir disso, como a moça que acaba de sentar ao meu lado também ri.

É a moça que estava dançando. Ela deve ter deslizado até aqui camuflada pelo barulho da música e das sombras de todas as pessoas que estão presentes. Ergue a taça para o barman encher novamente. Olha para mim ainda rindo, sem nenhuma intenção de se desculpar por ter me dado um baita susto. Seus lábios se movem em minha direção, mas não consigo ouvir. Ela se levanta e pega o banco para colocar mais perto de mim, extremamente perto de mim, tanto que ela senta basicamente entre minhas pernas. Quando fala é praticamente na minha cara, com um hálito adocicado e frisante.

“Tudo bem?!”

Seus olhos brilham, na verdade tremulam, como seu corpo, em uma leve tentativa de se equilibrar. Deve ter bebido bastante, mas suas palavras ainda não estão se atropelando. Eu respondo que “sim, tudo bem”. Ela fala, dessa vez não no meu rosto, o que poderia ser “por que tá sozinho?” ou “quer um pouquinho?” e eu crio vincos verticais entre as sobrancelhas.

Ela volta a se aproximar de meu rosto, falando na lateral dele, para atingir meu ouvido. Calor emana de seu corpo e a visão do sulco misterioso entre seus seios me faz engolir seco. A mão que segura a taça está com o cotovelo apoiado no balcão e a outra aperta minha coxa suavemente.

“Posso te contar um segredo?”

Tenho que beber mais um gole para desfazer o nó na minha garganta e aceno com a cabeça afirmativamente.
“Você não vai me julgar?”

Eu penso que, por ela estar bêbada, irá falar alguma coisa pornográfica e está apenas criando um caminho inocente para me excitar.

“Promete que vai tentar me entender?”

Sua respiração quente paira no meu pescoço e a mão dela aproxima e recua de minha virilha. A mistura do álcool com a excitação de suas palavras e de sua voz faz minhas veias formigarem. Então eu falo no ouvido dela.

“Pode me contar o que quiser!”

Os cabelos dela recendem a cigarro e óleo cítrico.

“Não vou te julgar!”

O ombro nu dela me convida a enterrar meus dentes em sua carne, a o cobrir com beijos e sua coxa se contrai como se pedisse minha mão.

“Prometo o que você quiser!”

Ela se afasta para me olhar nos olhos, os seus indo de um lado para o outro, como se analisassem todas as linhas em meu rosto a procura de uma confirmação. Sua boca entreaberta brilha com saliva e vinho. Então aproxima o rosto de mim, seus lábios se abrem perto de minha orelha e junto com um suspiro vem suas palavras:

“Eu acabei de matar uma mulher!”

Ela se afasta e eu começo a abrir um sorriso torto. Mas a expressão dela é séria e seus olhos, agora não tremulantes, me encaram com profunda frieza. Meu sorriso vai morrendo, um aborto espontâneo. Novo nó se forma em minha garganta. Ergo o copinho de vadia seco e mais 4 dedos para o barman e ele nos traz os 4 copinhos cheios do líquido âmbar.

Existem olhares que dispensam palavras e o dessa mulher é um deles. Todo o corpo dela emana uma seriedade que chega a me constranger. Então bebo dois copinhos seguidos. Quando vejo que ela nem sequer olha para os outros dois, eu os engulo também e uma onda elétrica percorre meu corpo.

Quando ela se aproxima novamente meu corpo quase instintivamente recua, mas eu o forço a permanecer quieto, inabalável. Sua voz no meu ouvido parece uma lâmina de gelo cortando minha carne.  

“Tô falando sério.”

Essa aproximação, essa intimidade, tanto das pernas dela quanto de seu hálito na minha pele, passa de prazer a incômodo em instantes. Mas volta ao prazer quando ela recomeça a acariciar minha coxa.

“Vou te contar como aconteceu. Você prometeu não me julgar.”

O prato com lulas fritas chega e ela pega uma com os dedos, ergue ao alto colocando a cabeça para traz e a solta na boca aberta. Rega com um gole de vinho e mastiga olhando para mim, voltando a seu sorriso infantil e os olhos tremulantes como uma bandeira de guerra.

Não faço ideia de quem disse “estando no inferno, abraça o diabo”, mas me agarrei a essa frase e senti crescer dentro de mim uma nova excitação. Fiz com um tentáculo de lula o mesmo que ela e pedi ao barman mais um chope.

É minha vez de aproximar a boca do ouvido dela e seu lóbulo faz minha boca salivar.

“Por que você a matou?”

Nossas bochechas estão se encostando, a sugestão de uma barba em meu rosto vez em quando roça a pele dela.

“Ciúme.”
“Você é casada?”
“Não. Ex namorado.”
“Minha nossa, você também o matou?”
“Não. Ele já tinha terminado comigo. Mas logo arranjou a puta que eu matei.”

Sempre ouvi dizerem que toda mulher é louca… agora eu sequer sei o que pensar. Em frações de segundos eu penso em como as ideias que temos sobre as coisas são condicionadas. Acostumado a ver notícias, relatos, histórias sobre homens que mataram, ditadores, serial killers, pervertidos, pensar que uma mulher possa matar é algo que demora a encaixar. Quando você ouve um galope pensa logo em um cavalo, não numa zebra. Pensar em mulher é ver beleza, ver maternidade, ver alguém que cuida e é capaz de dar a própria vida para salvar outra pessoa. Uma mulher dizer “eu matei uma pessoa” é uma informação que não só demora a ser compreendida como a ser aceita.

A mulher na minha frente, eu percebo, é feita de camadas. Há camadas de roupa, de roupa íntima, de pele. Camadas de aromas, como o sabonete a base de leite em seu corpo e o odor ferruginoso do sangue de outra pessoa. Camadas de sabor. Sal de suor e lágrimas. O gosto acre da pele, ácido de suas partes íntimas, áspero de sua língua. Camadas de segredos. Por trás de seus olhos cinzas como o oceano entediado, segredos, vergonhas, arrependimentos e resignação. Desde o segundo que ela se apresentou diante de mim, camadas e mais camadas estão caindo.

Ela bebe como se refletisse sobre as notas do vinho tinto, qual vampira fatigada pelo tempo, mas não sei se está bebendo em comemoração ou para anestesia.

Já em mim há um misto de tesão, de curiosidade e de sadismo. Quero saber o que essa mulher fez, quero saber a razão de ter feito e quero, acima de tudo, saber o que ela sentiu. Quero penetrar em todas as camadas dela porque ela agora possui algo que nenhuma dessas pessoas que estão aqui ao meu redor possui. Ela tem algo que nenhuma dessas mulheres, mesmo com semelhantes estruturas físicas, não tem e talvez nunca terão.

Eu quero dela uma coisa que só ela pode me dar: o cessar de meu tédio.

Seu lábio inferior está úmido, suculento.

“Antes de tudo” ela grita no lado do meu rosto, me dando uma informação que provavelmente será útil logo à frente, “saiba que eu sou enfermeira.”

Me sinto, subitamente e com certo constrangimento, um idiota, pois sou fraco o suficiente para ceder a uma mulher. Eu, um homem, aquilo que a sociedade tem como o símbolo do poder, sucumbindo a um par de belas pernas e uma mente cativante. A mente dessa mulher é uma armadilha e eu agora estou preso em seu alçapão.

“Não sei o que leva um homem a deixar uma mulher como eu. Você me acha feia?”

Eu nego com a cabeça de forma sucinta.

“Eu sabia que ele tava me traindo. Só não sei a razão. Talvez seja só isso que ele é: um homem e como todo homem, um animal predador que não se contenta com a presa que tem diante de si, mas fica olhando e buscando outros pedaços de carne fresca.”

Me olha com um sorriso irônico.

“Enfim, eu já tinha visto umas mensagens suspeitas em seu celular. Claro que ele negava tudo. Eu o infernizei até que ele se cansou, pelo jeito, e marcou comigo numa cafeteria pra me dizer que queria terminar. Já pensou que filho da puta? Me chamar pra um local público pra terminar comigo. O que parece isso? Que eu iria fazer alguma loucura se fosse um lugar privado? Que eu poderia ameaçá-lo?”

O barman volta a encher a taça dela e me traz mais cerveja. Peço mais uma porção de lula frita e um pouco de pimenta. Ela bebe mais um gole de vinho e eu vejo o caminho que ele faz por sua garganta. Há uma gota rubra no canto de sua boca, mas fico calado, pois aquilo me parece muito sexy.

“Então depois que ele falou que queria terminar me dando como justificativa uns motivos completamente idiotas, eu me levantei da mesa, dei um último beijo na boca dele e fui embora.”

Dada outra situação, consideraria isso como sorte minha. O cara perdeu um mulherão e poderia ser a minha vez de ganhar, mas eu precisava de mais informações.

“Então hoje eu vi os dois saindo de um cinema. Fiquei furiosa porque ela é normal. Entende? Não tem nada nela que seja uma vantagem sobre mim. Nada! É que eu não tenho uma foto aqui, senão te mostraria. Dou de 10 a 0 nela. E duvido que ela faça alguma coisa na cama que eu não faça e muito melhor.”

Não sei bem como funciona essa coisa de ciúmes. Nunca tive um relacionamento longo o suficiente para sentir isso e não me acho tão interessante para despertar ciúmes em outra pessoa. Mas conheço histórias escabrosas sobre mulheres ciumentas, quais tigresas protegendo seus rebentos.

Por uma questão de verificação, tendo muitos casais amigos, vi que os relacionamentos costumam passar por 3 momentos críticos: quando eles conversam cada vez menos, brigam cada vez mais até só restar o silêncio. 

“Então os segui até eles se despedirem em frente ao prédio onde ela mora. Não estava interessado para onde ele ia, o que faria. Só tinha agora olhos e mente para a piranha que se intrometeu na minha vida. Não sei qual é a dessas mulheres que vivem desejando homens comprometidos. Tive uma amiga uma vez que me dava nos nervos porque sempre se relacionava com homens casados. Era como um fetiche. Ela chegou uma vez a me dizer que  quando o cara dizia que ia se separar da mulher para ficar com ela, ela ficava numa felicidade que nem uma trepada lhe dava, mas assim que o cara se separava de fato da esposa, ela broxava, entrava num estado de completo nojo do homem, igual a esse que algumas mulheres sentem pelo marido quando estão grávidas.”

Eu tinha conhecido uma mulher assim também. Ela vivia de destruir famílias, assim diziam. Como se abrisse uma filial da desgraça a cada bairro que mudava e seduzia um homem casado.

“Assim que ele saiu de carro eu entrei no prédio e, pra minha sorte, ela tinha se detido nas caixas de correio. Segui ela vendo o andar que pediu ao elevador e corri pelas escadas. Me senti naqueles filmes policiais. Meu coração começava a bater mais rápido. Vi quando ela saiu do elevador e pegou as chaves pra abrir o apartamento. Esperei uns 5 minutos, então fui ficar de frente pra a porta e bati 3 vezes. Passado um tempo ela atendeu, enrolada numa toalha de banho. Não tinha olho mágico e ela sequer perguntou quem era, então já imaginei que essa rapariga costumava receber muitas visitas.”

De repente, sabe-se lá por qual motivo, talvez um cliente nostálgico ou o próprio DJ relembrando uma aventura antiga, começa a sair das caixas de som ocultas e estrondosas um sucesso de 1999: Blue Da Ba Dee, da banda Eiffel 65. Então, sob as batidas frenéticas, ouvimos a história de um cara azul que vive num mundo azul e tudo o que ele vê é azul. Uma banda italiana com um único sucesso.

“Com uma força que por vezes eu desconheço, empurrei a porta e invadi a casa dela, sob os protestos e sua cara de surpresa. Perguntou quem diabos eu era e o que estava fazendo ali. Já eu respondia com perguntas, como o que ela tinha que o fulano lá estava apaixonado a ponto de me deixar por ela. Ela cruzou os braços e me olhou com desprezo (primeiro erro dela). Fui entrando nos cômodos e começamos a gritar, uma tentando falar mais alto que a outra. Xingamentos, justificativas que, pelo jeito, só quem falava é que ouvia. Perguntei se era naquela cama que ela dava pra ele. Me chamava de louca e má perdedora. Quando estávamos na cozinha ela tentou avançar e agarrar meus cabelos (segundo erro). Na minha visão periférica uma lâmina brilhou e eu também vi o brilho refletido nos olhos daquela vaca. Com movimentos rápidos que eu também desconheço, peguei a faca e comecei a ameaçá-la. Incrédula e tentando se manter superior, começou a sorrir de forma debochada (último erro). Então eu avancei.”

Tenho mais medo de facas que de armas de fogo. Desisti de um curso de gastronomia justamente por ter que manusear essas lâminas. As facas são mais sádicas que uma bala. Elas se enterram na carne com um desejo mais lento que um projétil, e continuam em suas estocadas como se fosse uma penetração, tipo um ato sexual mórbido. Não há nada de misericordioso em ser ferido por uma faca. Alguns assassinos acham até mesmo que usar uma lâmina é algo mais íntimo.

Só em pensar no aço frio roçando em meu osso eu já me arrepio todo.

“Peguei ela de surpresa. Enterrei a faca à esquerda do esterno. A lâmina correu reto entre as costelas, perfurando o pulmão e, como era meu objetivo, talhando o pericárdio. Ainda lembro da boca entreaberta dela, de onde jorravam bolhas cor-de-rosa, uma mancha avermelhada começou a ser sugada por sua toalha branca, até ela cair no chão e eu ficar ali, apenas vendo sua vida esvair-se.”

Ela verte todo o restante de vinho da taça e pede que o barman encha mais uma vez.

Me pergunto o que aconteceria se, no exato momento em que ela descrevia essa parte do seu relato, a música silenciasse. Todas as cabeças virando para a nossa direção. Provavelmente seria desacreditada como mais uma bêbada.

Mais uma imagem criada pelo condicionamento se desmorona diante de mim. Ela é enfermeira e pensei que elas jamais seriam capazes de matar alguém, muito menos com tal precisão. A figura de uma mulher com suas roupas imaculadamente brancas, sua disponibilidade em nos ajudar enquanto estamos no leito de um hospital, agora transformada na imagem de uma assassina fria, tendo tirado a vida de uma pessoa por um motivo tão fútil.

Muito tempo depois eu lerei sobre a história dos Anjos da Morte, um grupo de enfermeiras que decidia quais pacientes, em sua maioria idosos, partia desa para uma melhor.

Me sinto uma criança que acaba de descobrir que o Papai Noel não existe.

O barman, agora ele está cada vez mais parecido com um panfleto publicitário de barbeadores, ele aponta para meu copo perguntando sem palavras se quero que encha. Eu faço um gesto com a mão, dedos pinçados, e ele me traz uma vadia.

 “E quanto tempo faz isso?”

Ela olha para o relógio de seu celular, escondido antes entre os seios.

“Faz uma hora. Quando ela finalmente morreu eu tomei um banho lá no apartamento dela mesmo, pra tirar o cheiro de ferrugem das minhas mãos e braços, dei uma olhada no guarda-roupas dela e achei esse vestido que caiu perfeitamente em mim e vim pra cá.”

Imagino ela fazendo isso tudo com um cadáver na cozinha. Ela diante do espelho verificando o vestido, levantando os seios, virando de costas para olhar a bunda e em seguida colocando sua máscara de indiferença.

“Veio pra comemorar?”
“Vim pra aproveitar. Não sei o que será de mim amanhã, então vou aproveitar cada minuto dessa noite.”

Ela aproxima a boca da minha. Não sei se são fantasmas de pensamentos, mas parece que consigo sentir o odor ferruginoso de sangue ainda em sua pele. A sua mão volta a atiçar minha virilha.

“E você bem que poderia aproveitar comigo, o que acha?”

Sorrio e olho para o lado. O barman havia enchido novamente meu copo de cerveja e eu nem percebi. Muito menos percebi que eu mesmo tinha feito o líquido girar e agora as bolhas estão em efusão. Sorvo um gole longo.

Por que não?

Por que não aproveitar a noite com essa mulher?

Não a conheço, não a vi matar ninguém. A única coisa que tenho aqui é a confissão dela que pode, muito bem, ser resultado de delírios alcoólicos. Quem sabe o fato de ser enfermeira tenha dado esse toque especial em sua descrição de como fez. A bem da verdade, qualquer um pode me julgar se quiser, mas sinto até uma excitação que nunca senti por essa mulher e creio que em parte se deve ao fato de ela ter acabado de matar alguém. Essa excitação zune dentro de mim, como um mosquito sedento por sangue. O sangue que jorrou da mulher de toalha, o que se apegou aos braços dessa mulher de vestido preto, a cor do vinho que ela bebe como se fosse água.

Do jeito que ela está, o que talvez seja a última vez que ela transe com alguém, quem sabe o que ela não é capaz de fazer na cama?

No meu ombro esquerdo um diabinho vermelho roça sua cauda pontiaguda no lóbulo da minha orelha e sussurra, sem muito esforço, pois apesar do barulho ao nosso redor sua voz entra diretamente na minha mente. Ele diz:

“Vai perder essa oportunidade?”

Seu minúsculo tridente cutuca minha bochecha e diz:

“Você come ela e depois desaparece.”

Seu hálito é quente como o plástico acima da lasanha depois de sair do micro-ondas.

“Nunca a viu, nunca a verá depois. E tudo isso será passado.”

Sinto que bebi demais. Mas ainda tenho consciência do que quero. Chego até o ouvido dela e digo para sairmos dali e irmos para um lugar mais reservado. Ela pergunta que lugar e eu digo que conheço um motel aqui próximo. Ela sorri com o nariz bem no meu pescoço. Assente, agarra minha nuca e me dá um beijo longo, molhado e fermentado. Faço todo o pagamento ao barman e lhe dou uma gorjeta generosa.

Nos levantamos e eu tenho que me apoiar nos ombros dela. Tendo passado o tempo todo sentado não percebi o quanto estava embriagado. Ela ri, mas me ajuda, me segura com uma força, aquela mesma força que ela disse desconhecer. Saímos para a rua e a brisa noturna bate no meu rosto como farpas de gelo.

O mundo gira, os sons estão se abafando.

Isso não pode estar certo.

Eu não bebi tanto assim.

Meus pés são desobedientes e minha visão duplica. Ela fala muitas coisas, mas só chegam a mim ecos disformes e eu não os entendo.

Quando passamos do lado de um beco eu sinto que estamos parados, apesar do mundo ao redor ainda permanecer em movimento. Não sei o que ela está dizendo, mas me puxa, me agarra e então tudo o que eu vejo em seguida é a escuridão.

Quando acordo minhas narinas são atingidas por um forte cheiro de urina antiga e esgoto. Estou deitado sobre paralelepípedos e minha calça está molhada pela água suja que sai de um cano, proveniente de alguma pia de cozinha dos apartamentos acima de mim. O beco onde estou é de tijolos vermelhos e erodidos. Acima, varais se estendem com algumas roupas para secar ao sol. Minha cabeça está apoiada sobre jornais velhos, revistas de moda e Playboys de folhas coladas. Uma dor aguda atravessa meu cérebro e meu peito e braços parecem ter sido esmagados. Demoro a lembrar de tudo o que aconteceu e quando apalpo meus bolsos percebo que meu celular e minha carteira já não estão comigo.


Hemerson Miranda

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