segunda-feira, 30 de julho de 2018

O PRECONCEITO DO JORNALISTA



Crônica de Gustavo do Carmo

Na pós-graduação em telejornalismo que eu não terminei, uma colega, ao se apresentar para o professor, disse que precisou se despir de preconceitos para trabalhar como repórter de rua numa certa emissora. Um conselho indireto. 


Pela vivência que eu tenho, este conselho só vale para o horário de trabalho, pois o jornalista – salvo algumas raríssimas exceções - é o profissional mais preconceituoso e hipócrita que existe (e pode me incluir também, se quiser!). 

Durante o expediente ele é obrigado a viver os dois lados: entrevistar humildes trabalhadores honestos e comer bolo com eles, mas também enfrentar tiroteio em favela, entrevistar assaltantes detidos pela polícia, procurar prefeitos corruptos e mostrar o sofrimento dos pacientes nos hospitais públicos sucateados. Mas acabou o trabalho e ele volta para o seu mundinho esnobe e hipócrita: só faz amizade com gente bem-sucedida, com bom nível cultural, pessoas ricas, influentes e, principalmente, comunicativas.

Usa as eternas e convincentes desculpas do tipo “estou muito ocupado”, “não tenho tempo nem para comer” e “não gosto de redes sociais” para não ligar, não responder e-mails, não se reunir para fazer trabalho em grupo, não seguir no Twitter, não adicionar no Facebook. Mas, volta e meia, posta, no Instagram, fotos de seus momentos íntimos, às vezes brindados com champanhe e posados perto da banheira de hidromassagem, com amigos, parentes, maridos (ricos), esposas (bonitas) e filhos. 

O jornalista não se interessa pelos mais tímidos, anônimos e até ansiosos, mas os amigos e influentes ele faz questão de procurar. Jornalista mulher só quer se casar com homens ricos que conhece nas baladas da vida.


Sou vítima desse tipo de gente e de suas “desculpas” há mais de dez anos. Deveria ter me acostumado, mas não consigo. A cada ano fico mais amargo e desconfiado. Por causa desses hipócritas eu crio ainda mais preconceitos contra os jornalistas preconceituosos.

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