quarta-feira, 4 de julho de 2018

Funeral




A senhora Carvalho saiu da funerária depois de assinar todos os papéis necessários para velório e sepultamento de sua filha drogada de 25 anos e pagar todos os serviços com o cartão de crédito que lhe dá milhagem.


Aconteceu pela manhã, quando ela decidiu ir ao mercado fazer umas compras e preparar para o almoço costelas de porco. Ontem havia sido bisteca suína e anteontem pernil. Porco é a comida preferida da sua filha. Ou ao menos era, antes de ela parar de comer. Era o terceiro dia que ela não aparecia em casa e nem atendia o telefone, mas a senhora Carvalho continuava preparando o almoço na esperança de que ela voltasse ou, mais precisamente, na esperança de que alguma notícia chegasse bem na hora em que ela estivesse destrinchando nos dentes a macia e suculenta carne suína. Já é 1 ano suportando isso. Esses desaparecimentos que culminam em seu frágil e mirrado corpo jovem encontrado em alguma rua ou no chão da casa de algum "amigo", desacordada, à beira de uma overdose. As tentativas fracassadas de internamento somadas à perca crescente de paciência da senhora Carvalho a levaram à uma resignação onde a notícia que mais lhe traria alívio atualmente seria encontrá-la morta.

No mercado ela empurra o carrinho sob as luzes brancas cegantes de corredores cheios de gente desprezível, cercada pelas caixas de som que vomitam algum sucesso incompreensível do momento. Depois de passar pela seção de limpeza (precisava de amoníaco para limpar o fogão) e de legumes (a couve-flor estava na promoção) era a vez de ir ao açougue. Encontrou um belo pedaço de costela suína embalada à vácuo e decidiu levar. No caminho para o caixa seu telefone toca. É o número de sua filha. Ela espera, calada, que alguém emita som do outro lado, então por uns segundos só ouve uma respiração entrecortada, o fungar de um nariz.

"Senhora Carvalho?", não é a voz de sua filha. "Senhora, aqui é a amiga da..."

Ante a palavra "amiga" a boca da senhora Carvalho se torce, seus olhos reviram, ela estaciona o carrinho ao lado de latas de extrato de tomate empilhadas. Isso já é comum faz muito tempo. Sempre alguém ligando para que ela vá buscar sua filha idiota desacordada, com hálito podre e roupas fedendo a urina. No mês passado ela estava num corredor que cheirava a incenso, na casa de um colega da faculdade, com uma blusa vomitada e uma calcinha manchada, lembrete de que sua menstruação havia chegado.

"A sua filha... Acho que ela não tá bem..."

"Ela morreu?"

Do outro lado da linha a voz engole seco, o nariz funga, o tilintar de alguma coisa de metal é ouvido.

"Eu acho que sim... Vou lhe passar o endereço por mensagem e..."

A senhora Carvalho desliga. O som de notificação de nova mensagem é interrompido quando ela clica nela e abre uma localização. Ela suspira e guarda o celular na bolsa. Se dirige ao caixa, o caixa preferencial. A moça do caixa a cumprimenta com um sorriso mórbido e uma fala decorada, passa tediosamente os produtos ao som irritante do bip, ajuda a embalar as compras e pede para que passe o cartão. Essa moça, ela está no automático, há horas. Sua vida se reduziu a um papel em que a mínima inovação pode mudar todo o dia, mas que logo se tornaria outra rotina permeada por uma angústia sem tamanho. Depois de tudo pronto a senhora Carvalho leva o carrinho com as compras até o estacionamento. Um grande relógio próximo à saída marca 10 horas, ela ignora uma mulher sentada no chão com um bebê no colo pedindo esmola, ignora o bêbado deitado sobre caixas abertas de papelão roncando, ignora as outras coisas que sua visão alcança ao redor. Depois de colocar tudo no carro, sai do estacionamento com um suspiro profundo, como que expulsando um fardo de suas veias.

Enquanto dirige vê uma cafeteria e decide parar. Está quase cheia. Predomina o cheiro de café fresco e canela. Veja todas essas pessoas, as sementes fecundantes do caos. Ela pede à atendente um cappuccino italiano com chantilly e em seguida pega o celular. Após alguns cliques e uma breve ligação sua bebida chega. Entre as colheradas ela observa as pessoas ao seu redor, todas animadas conversando, tanto pessoalmente quanto em seus smartphones e tablets. Bocas e dedos se mexem alegremente em diálogos diversos. A senhora Carvalho pensa no que dizem sobre a comunicação atual. Dizem que ela tem se tornado difícil, complicada, que as pessoas não estão mais sabendo se comunicar. Mas a verdade é que as pessoas nunca foram muito boas mesmo em se comunicar. Por mais claro que você seja em suas palavras, acompanhadas de expressões no rosto ou gestos, a própria linguagem corporal, suas mensagens sempre estarão sujeitas ao filtro subjetivo da outra pessoa. A comunicação não se tornou mais incompreensível devido à tecnologia. Isso é bobagem. Ela sempre foi difícil.

A maioria ali é jovem. Cabelos coloridos, piercings e tatuagens, camisas escuras ou xadrez. Alguns deles, pensa ela, são assim como forma de protesto, de rebeldia. Pobres crianças, não entendem sequer o cerne do protesto. Veem suas rebeliões por trás de câmeras de 13,18, 40 megapixels. Erguem bandeiras adornadas de emojis, memes, filtros grunge ou vintage. O café parece ser seu martelo com um gatinho como foice. A senhora Carvalho pensa em como poderia lhes mostrar uma verdadeira rebelião. Lhes dar o que é transgredir de verdade, subverter suas crenças e não apenas se achar diferente porque segue a modinha depressiva e monocromática de uma geração moldada por redes sociais.

Há uma placa universal da proibição de fumar perto da entrada. A senhora Carvalho termina o resto de seu cappuccino e retira da bolsa um cigarro, o acendendo em seguida, causando olhares incomodados, murmúrios de repreensão e a atenção de uma atendente. Outra coisa que faz parte dessa geração são as dietas vindas das cavernas. Militantes ferrenhos da dieta paleo tem se proliferado como os vegetarianos e se tornado tão irritantes quanto. As pessoas parecem nunca cansar de buscar algo ao qual cultuar. A senhora Carvalho respira profundamente pelo cigarro e em seguida solta a fumaça como se estivesse expirando sua alma. A atendente chega perto dela com uma expressão entre um sorriso breve e uma nota de incredulidade.

"Desculpe, senhora, mas é proibido fumar nesse local."

A senhora Carvalho faz cair as cinzas na xícara onde antes estava seu cappuccino.

Os lábios da atendente se tornam uma linha fina de impaciência e desagrado, mas ainda contida, esperando que sua cliente apague o cigarro ou se retire. A atendente tem um visual moderno. Foi passada uma máquina no zero pela lateral de sua cabeça, as mechas pendem para um lado, pretas e vermelhas. Piercings brilham nos lábios, sobrancelhas e orelhas. Seus braços estão fechados com tatuagens coloridas. Ela é o modelo da modernidade e antigamente jamais seria contratada por qualquer estabelecimento.

A senhora Carvalho fuma com a mesma vontade de quando se toma fôlego. A fumaça sai de sua boca lentamente, serpenteando, tornando seu rosto sombrio e onírico. Ela então apaga o cigarro dentro da xícara e diz:

"Eu sei."

Se levanta e segue até o caixa, ainda sob os olhares de reprovação. Ela caminha com o queixo erguido, como se tivesse mostrado realmente a uma juventude tola e padronizada, o que realmente é rebeldia. Desliza em sua marcha da vitória. Depois de pagar ela vai embora.

Segue a espiral da angústia.

Às 21 horas começou o funeral. A senhora Carvalho negou os calmantes que sua irmã lhe ofereceu, não queria ficar dopada, o cigarro já seria o suficiente. Então ela apertou mãos e recebeu abraços e condolências de pessoas que tiveram que suportar o odor de tabaco que a envolvia numa espiral. Sua filha, que estava deitada, embalsamada e coberta de flores no caixão, passava pela indignidade da morte sem ofender a sensibilidade dos vivos presentes. Os vivos sempre se acham superiores aos mortos. Eles colocam os mortos não só embaixo da terra, mas embaixo de seus pés, embaixo de sua arrogância.

Para a maioria das pessoas essa é a parte onde começa uma nova vida. Perder o único filho que se tem e ainda mais para um vício do qual você tentou livrá-lo. Mas para a senhora Carvalho isso é uma ilusão. Quando se começa uma nova vida, pensa ela, não se deixa a antiga para trás. Descartando mais um cigarro ela ignora novas pessoas que chegam e vai até o caixão. Ali está sua filha. Seus olhos estão fechados, não abertos e vazios, pois isso incomodaria os presentes. Maquiagem cobre a cor que abandonou seu rosto. O que está por baixo é a morte natural, mas não é isso que a família e os amigos querem ver. Ela está morta, mas depois de terem ajeitado suas feições ela parece tranquila, naturalmente em repouso. A mentira que precisam contar para nós segue até a morte. É como um grande teatro, onde a funerária é o diretor e o protagonista, a grande estrela do show, é o morto. A plateia precisa ser enganada, nada pode estragar a magia da ilusão. A senhora Carvalho se demora em olhar para o rosto de sua filha, mas ela não consegue sentir muita coisa, nem mesmo um entalo na garganta. Suspira profundamente e se afasta para acender outro cigarro.

Outra coisa que a senhora Carvalho observa com desgosto são as pessoas que vieram dar seu último adeus. Todas essas pessoas, as sementes fecundantes da hipocrisia. Há dois anos a maioria dessas pessoas também estava aqui, também para dar o último adeus a seu marido, morto pelo vício inescapável do álcool. Sua família se desmoronou em vícios e agora essas pessoas estavam aqui para mentir e verem mentira. Suas palavras de crítica e repulsa pela sua filha agora se transformando em "era uma moça tão jovem" ou "tinha toda uma vida pela frente" e ainda "era uma garota tão boa". Corvos, aves de rapina pairando sobre um cadáver. Essas pessoas, elas agem como se houvesse uma arma apontada para cada cabeça.

Sua filha, o corpo dela, está morta, já entrou em estado de decomposição e não há nada que se possa fazer. Mas sua morte ainda não está completa, pois demora anos para que a morte de alguém chegue até seu final. Ainda há lembranças, todas as memórias guardadas na cabeça de amigos e parentes, todas fragmentadas, difusas, interpretadas pela subjetividade de cada um. Essa morte é longa, é mais demorada. Mas antes mesmo dessa vem a morte dos seus sonhos, dos seus projetos, de sua própria personalidade. A morte, como a vida, é um processo lento, microscópico, uma detonação de pequenas explosões, um holocausto de detalhes. A senhora Carvalho se pergunta se nossas cabeças não seriam cemitérios de mortes ainda por finalizar, assombradas por fantasmas de lembranças que podem causar saudades. A vida é só uma breve construção de castelos de ar que ruirão com o tempo, acumulando escombros de tantas existências fadadas a terminar.

No portão de entrada estava havendo alguma confusão. A senhora Carvalho descartou mais um cigarro e seguiu em direção às pessoas que se aglomeravam. Do lado de fora, aparentemente querendo entrar, estava um rapaz beirando os 25 anos, cabelos cacheados, olhar líquido, rosto brilhante banhado em lágrimas, camisa branca puída, calças jeans negra surrada e de chinelo. As pessoas estavam com a voz alterada, mas ele só sussurrava pedindo para entrar. Na expressão do garoto havia um sentimento de dor quase palpável, seu corpo emanava uma angústia desoladora. Essa então foi a primeira vez em todo aquele dia que a senhora Carvalho sentiu alguma coisa.

"O que está acontecendo?"

"Ele diz ser o namorado dela. Queria entrar de qualquer forma, mas se vê que tipo de pessoa é e sequer é da família, então estamos tentando que ele vá embora sem criar mais confusão."

Quem responde é o irmão da senhora Carvalho. Suas palavras saíram com repugnância de seus lábios anfíbios e seu rosto oleoso, parecendo doce de leite supurando em fervura, se crispava diante da situação.

" Deixem ele entrar. "

A voz da senhora Carvalho se colocou acima das outras vozes, as quais se sobressaltaram e a olharam incrédula, mas obedeceram. O rapaz tinha as mãos trêmulas e pelos seus olhos vermelhos ele havia chorado demais. Ele abaixou a cabeça envergonhado e agradeceu de forma dramática à senhora Carvalho, que pegou seu braço carinhosamente e o levou até o caixão. O odor que provinha dele era uma solução de suor, perfume barato e alguma bebida alcoólica. As lágrimas e soluços daquele garoto eram as mais sinceras e verdadeiras que de qualquer um ali presente e isso trouxe uma enxurrada de compaixão à senhora Carvalho. Ela envolveu seus ombros com um braço. Não queria saber se ele estava embriagado ou drogado. Nem queria saber as horas que ele e sua filha passaram juntos se injetando, fumando, cheirando, se matando lentamente. Ali estava uma pessoa que não julgava sua filha, que não destilava hipocrisia. E ali, diante do caixão, se desfazendo em lágrimas, soluçando descontroladamente, a senhora Carvalho o olhou e o amou.

Aumentando ainda mais a surpresa e a aversão dos presentes, a senhora Carvalho, num impulso, pegou o rosto do rapaz e o beijou na boca. Os lábios estavam salgados, a língua tinha um amargor podre, mas ela o beijou como se tivesse 18 anos novamente, como se fosse seu primeiro beijo, fechando os olhos e se entregando àquele momento. O rapaz não recuou, mas a abraçou pela cintura e a beijou fervorosamente. Murmúrios de reprovação se erguiam ao redor deles, expressos de nojo e desaprovação. Mas ali, naquele momento único, a senhora Carvalho sorriu enquanto seus lábios estavam colados aos do rapaz. Sorriu e ficou em paz.


Hemerson Miranda

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