quarta-feira, 20 de junho de 2018

Nome




Proprietária de novas olheiras profundas, eu fechei a porta atrás de mim e desci mais uma ladeira da vida.

Até enquanto eu lembro meu nome era Dalila, dado por Mainha e Painho por ser um nome bíblico, mesmo eles não conhecendo a história trágica de minha homônima. Sim, eu sei o que significa a palavra homônima. Sou pobre, não acéfala. Pois é, tá surpreso? Também conheço a palavra acéfala. Vai ser um pouco vergonhoso você ter que ir ver no dicionário. O que acontece é que desde cedo eu fui perdendo meu nome. Lila, foi como começaram a me chamar. Eu sempre me faço essa reflexão, pois se o nome é a primeira coisa que nos confere a individualidade, o que é de nós quando o tiram? Lila era o novo título ao qual eu deveria responder. E durante muito tempo era a esse nome que eu respondia, era por esse nome que me chamavam, até esse nome se amalgamar tanto à minha pessoa que antes de ser mulher eu era Lila.



Antes poderia ser "Lila descendo a ladeira com uma trouxa de roupas equilibrada na cabeça", mas hoje não. Hoje meu nome é outro. Antes poderia ser "Lila descendo a ladeira requebrando os quadris, seu corpo jovem e gostoso dançando uma música que não se ouve. Lila e seus peitos balançando e arrancando olhares dos homens na rua. Lila e sua sedução descendo a ladeira despreocupada da existência". Mas não. Agora é outro nome, os seios estão caídos, o rebolado se perdeu lá atrás entre nascimentos e mortes, a música nunca mais tocou, hoje eu só caminho no silêncio que antecede meu último suspiro.

O tempo nomeia tudo e nada escapa disso. Aos 17 anos eu recebia outro nome, que me acompanharia pelo resto da vida. Dalila, ao mesmo tempo que nascia, morria diante de Lila e agora morria diante de Mãe. Mãe e suas variações: mamãe, mama, mainha. Meu novo título dava novo significado à minha vida. Um título dado entre lágrimas, tanto minhas quanto de meus pais quando souberam da notícia da gravidez. E de silêncio. Meu pai só voltaria a falar normalmente comigo anos depois.

Quando era Lila, sem peitos, ainda sob a sombra frondosa da inocência, era deitar na cama e dormir. Dormir e esquecer. Deixar de existir por umas horas. Reiniciar o sistema. Talvez fazer um breve upgrade. Sim, eu sei que que significa upgrade. Sou pobre e negra, mas sei ler e leio muito bem. Agora, sem mais a alcunha de Lila, com peitos grandes, mas caídos, debaixo da árvore morta que não faz mais sombra do que um dia foi a inocência, eu deito, mas não durmo. Só sonho. Ou tenho pesadelos, sem fechar os olhos, sem descanso. Fico em posição fetal, tal a menina Lila, mas de desespero, não de despreocupação e conforto. As olheiras profundas são como os poços negros onde meus olhos caíram, pois antes do corpo todo morrer, quem morre primeiro são os olhos.

Antes de eu nascer a minha mãe era minha mãe, ela não tinha nome, não para mim. Depois de eu nascer ela se tornou um túmulo. A impressão que eu tinha era de que eu tinha cavado o túmulo. Depois de mim meus dois irmãos morreram. O primeiro era um menino, meu irmão que nunca vi morreu no ventre de Mainha enforcado no próprio cordão umbilical. Antes de vir a esse mundo miserável Maninho já cometera suicídio. E ele se tornou meu primeiro herói. Anos depois foi a vez da minha irmã. Nunca a vi, sempre a amei. Mainha era o Mar Vermelho. Com tanta perda de sangue Maninha não sobreviveu. Mainha era um cemitério, o limbo de almas não formadas. Mainha que nunca teve um nome, nunca teve vida e nem mais vida dava.

Nunca pensei em ser chamada de tia, pois irmãos não tinha, até que aos quase 30 anos aconteceu. Em casa eu era Mãe e Mainha, agora de dois pimpolhos, na rua eu era a Tia desconhecida de vários sobrinhos de outras mães. Era eu na boca de meus dois filhos de um jeito, na boca dos filhos de outros de outro. Chega um tempo que você esquece seu nome, esquecendo seu nome você poderia até esquecer quem é, mas os outros nomes que te dão te lembram quem sois, porque tu nunca te nomeia a ti mesmo, és dependente dos outros, tua própria individualidade depende de alheios, tua roupa é uma outragem. A nossa vida é uma discrepância bizarra. Até nós esquecermos mais uma vez quem somos, enterrados pelo que os outros dizem e nos ordenam ser.

Repete a espiral do esquecimento.

Sim, eu sei o que significa discrepância. Não me olhe com esses olhos de estranheza, nem me leia com essa sua falsa arrogância. Posso ser pobre, negra e mulher, mas sei usar minha cabeça para o que importa.

Quando nasci não sabia que era mulher, nem o que significava isso. Soube de soslaio o que era ser mulher quando tomava banho com meu pai. Ele tinha uma coisa engraçada entre as pernas, que ficava pendurada ridiculamente e era mole, como uma pele frouxa e eu me perguntava se dava para arrancar, porque quem gostaria de ficar com uma coisa daquelas pendendo do corpo? Soube por completo o que era ser mulher quando meu corpo me traiu e cresceu, me delatou para o mundo, soube que era mulher pelo olhar dos homens.

Eu e meus tantos nomes descendo a ladeira, a rua de paralelepípedos, o chinelo arranhando as pedras assimétricas, uma trouxa de roupas na cabeça. Ora vejam: a pobre, negra e mulher sabe usar a palavra assimétrica. Graças a Painho, que enquanto viveu me encheu de livros. Livros que ele comprava para eu ler para ele as histórias que outros antes tinham escrito para si mesmos. Painho, analfabeto, sabendo escrever só seu nome em garranchos sôfregos, foi um exímio escritor de sua própria vida e rascunhou a minha própria.

Pensei em não mencionar isso, mas decidi fazê-lo. Na época em que meu nome passou a ser Mãe eu também recebi outros nomes vindos de bocas não muito amistosas. Os nomes saíam de suas bocas julgadoras com a viscosidade dos vômitos. Eu era Puta. O nome não era falado em alto e bom som, era sussurrado, murmurado, o que dava mais peçonha àquilo. Eu era Vagabunda, até mesmo para as mulheres, reverberando o machismo que resvalava das bocas e dos olhos dos homens, até mesmo do silêncio magoado de meu pai. Isso foi mais uma das aulas duras da vida me ensinando o que é ser mulher.

Nunca recebi o nome Esposa ou Mulher. Eu diria que por medo, talvez, por tensão, por não saber o que se passa na cabeça de outra pessoa. O pai de minha filhinha sumiu com todas as minhas esperanças, deixando comigo apenas o entendimento da covardia dos homens. O pai do segundo nunca acreditou ser seu filho. Eu nunca estive pronta para formar e fazer durar uma relação em que eu não soubesse o que a outra pessoa está pensando. E permaneci solteira porque eu nunca saberia. Ninguém sabe. A gente nunca pode saber o que uma pessoa realmente é. As pessoas veem as estatísticas mostrando que os casamentos não duram e essas mesmas pessoas continuam casando. Enfim, talvez seja só amargura minha.

Negra. Preta. Esses nomes nunca me abandonaram. Esses estão tatuados na minha pele, como Mulher está tatuado na minha carne. Na escola a impressão que eu tinha é de que era suja, pois a forma como me olhavam, a forma como me evitavam, eu parecia mesmo possuir a marca de Caim. As meninas brancas sempre tinham seus cabelos elogiados, eu nunca soube o que é isso. A visão que eu tinha era de que jamais poderia esperar ser uma princesa que casaria com um belo príncipe, pois os personagens negros dos contos de fada eram fadados a outros fins. Nenhum feliz para sempre.

O lado bom da vida muito ensinar é que você percebe o quanto tem a aprender. E isso torna mais fácil você passar adiante tudo aquilo que absorveu em suas andanças, em suas experiências. Desço os fins de semana com uma trouxa na cabeça, o passo vacilante, cantarolando para lavar roupa. Desço a ladeira enquanto o sol sobe. Subo a ladeira enquanto o sol desce, num reflexo do que sempre foi minha vida, andando na contramão do mundo.

Amanhã descerei bem cedinho essa lareira, mas com uma pasta de arquivos debaixo do braço, toda maquiada e cheirosa, nos pés uma sandália rasteira, mas na bolsa o salto alto. Enquanto descer vou sendo cumprimentada por meu novo nome, ao qual meu pai, se estivesse vivo, morreria de orgulho. Levo esse nome do mesmo jeito que levo a trouxa de roupa, com equilíbrio e com a sensação de trabalho cumprido quando subir a ladeira novamente. Desço a ladeira, eu, pobre, negra e mulher, para dar oportunidade através da minha própria experiência de vida a outras pessoas e ouvir, das crianças que se acumulam no fim da Ladeira, com seus sorrisos de dentes faltando, seus olhos curiosos, suas mentes prontas para ser lapidadas, dizerem:

"Bom dia, Professora."


Hemerson Miranda

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