terça-feira, 17 de abril de 2012

Microcontos.

Por Hemerson Miranda



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Na despedida começou a chover. Seus corpos molhados se colaram. Ela não viu ele chorar, pois as lágrimas se misturaram com a chuva.

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Ele era palhaço e gostava de cozinhar. Casou com uma mulher que o achava perfeito, pois adorava rir e não sabia cozinhar.


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Depois de uma noite de bebedeira ele acordou com alguém do seu lado. Sorriu e afagou os cabelos. Os fios caíram em suas mãos. Um cadáver.

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Ele escreveu "eu te amo" nas paredes descascadas. Ela nunca viu, pois ele a deixara estendida na poça de sangue.

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A terapia estava funcionando até eu perceber que era o paciente e não o médico. Tudo piorou quando percebi que eu era a cadeira.

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Ela olhou pela janela do quarto a chuva que caia. Viu a porta de seu quarto abrir-se e a solidão arrastar-se em sua direção.

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Ela sentou-se com uma pizza no colo. Escreveu seus problemas em cada fatia da pizza. Foi comendo e vendo seus problemas desaparecerem.

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Vi você construir uma ponte sobre o fosso que protegia meu coração. Quando a cruzou, eu deixei as flechas voarem. Seu corpo caiu no vazio.

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Ela arrancava cada unha sua na tentativa de que a dor a fizesse esquecer ele, mas os próprios dedos o faziam lembrar. Tentou a corda.

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Seu pai o espancava toda vez que o via escrevendo. Dizia que seu futuro não estava nos escritos, mas não havia cura. Ele seria escritor.

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Ela carregava uma mala sempre consigo. Dentro estavam pênis dos que a haviam traído. Sentou do lado de um homem com quem começou a flertar.

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Cansada de tanta indiferença ela preparou seu jantar com cuidado. Mil agulhas colocou na sopa e o fez beber após o amarrar na cadeira.

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Ele tentou usar a borracha para a apagar de sua mente, mas foi longe demais. Terminou apagando até a si mesmo.

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Ao encontrar enquanto limpava a casa uma foto antiga de nós dois juntos e felizes bateu uma saudade. Desenterrei você para pedir perdão.

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Ela ainda estava deitada na mesma cama que ele. Fria, pálida. O corpo sem vida o acompanhava em todas as noites de sono.

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Ele arrancou os dedos da mão de sua falecida esposa um por um com o alicate. Ela não podia sentir mais dor, mas ele desejava sentir.

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Ele sonhou em ter uma vida fracassada. Acordou e viu que tinha uma vida fracassada. Assim que os sonhos se tornam realidade.

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Minha mente me falava mentiras sobre ti, mas eu resisti acreditando em você até te ver segurar o travesseiro apertado em meu rosto.

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