terça-feira, 20 de março de 2012

O Escritor


           Por Hemerson Miranda




              A casa de campo era o local perfeito. Quieto, ameno e propício para a inspiração. Apenas o caseiro e a empregada moravam ali. Sua mulher ligaria toda tarde e ele gostava de ouvir sua voz. Ela era bastante compreensiva quando ele precisava se distanciar da cidade para escrever e ainda mais quando o estavam pressionando. Sete meses se passaram desde que fora publicado seu último livro e já o estavam questionando quando sairia o próximo. E ele tinha de dar o seu jeito, afinal seus leitores até poderiam esperar, mas não seus patrões. Mesmo que não gostasse de forçar inspiração ele foi até aquela casa consciente de que ela mais cedo ou mais tarde viria.


            Seu horário preferido para escrever era a noite. Passava o dia remoendo em sua cabeça a história, os personagens e depois que o sol se punha ele colocava em palavras tudo o que tinha imaginado.

            No primeiro dia foi até o escritório preparar o ambiente. O computador estava lá, um bloco para anotações, os CDs que costumava ouvir quando estava escrevendo. A empregada lhe perguntou se ele queria café e ela foi preparar. Olhou ao redor e viu seu lugar de criação. Respirou fundo já imaginando o tempo longo que ele passaria ali.

            O relógio da sala bateu vinte horas. Ele se ajeitou na cadeira, bebericou o café, estalou os dedos e começou. Bem, na verdade não começou nada, pois ele não sabia por onde começar. Riu colocando a mão na cabeça. Tinha imaginado a história durante o dia, mas na verdade não estava gostando do tema, do enredo e nem dos personagens. Levantou-se e escolheu o CD de Bach para ouvir. Voltou ao computador e ficou tamborilando os dedos no teclado. Aquilo o deixava louco. A primeira frase faria toda a diferença, mas ele não sabia o que escrever. Ficou girando na cadeira esperando que um sopro de inspiração aparecesse. De repente teve uma ideia. Começou a digitar uma frase, mas parou no meio dela e apagou o restante. Não era isso. Continuou pensando e voltou a digitar. Conseguira terminar a frase, mas a próxima não ficou em harmonia com a primeira e por isso ele apagou as duas. Passou a mão nos cabelos grisalhos.

            Levantou-se e foi até a janela. Poucas luzes iluminavam o jardim da casa. Uma brisa suave bateu em seu rosto. As folhas das árvores pareciam dançar conforme a música compassada pelo vento. Morcegos sobrevoavam as copas atrás de frutas. A lua parecia maior de onde ele podia observar. Em sua mente as formas dos personagens de sua história se moldavam; as personalidades, o som de suas falas, o cheiro de seus corpos. Os nomes iam surgindo conforme ele imaginava seus rostos. Viu uma cena que poderia muito bem ser a do primeiro capítulo e aproveitou isso para voltar ao computador.

            Os dedos ágeis pressionavam as teclas rapidamente para não perder o fio da meada, a inspiração que lhe ocorrera. Terminou um parágrafo e recuou um pouco como que para ver de outra perspectiva. Fez uma cara feia. Não estava bom. Selecionou todo o texto e excluiu. Voltou a escrever de outra forma agora, procurando em sua mente palavras que encaixassem, mas o resultado foi o mesmo. E isso durou toda a madrugada.

            No dia seguinte ele viu que tinha escrito apenas um parágrafo. Não estava do jeito que ele queria, mas provavelmente o restante do texto o deixaria melhor. A segunda noite na verdade não foi tão diferente da primeira. Várias frases continuavam sendo excluídas, várias palavras substituídas e terminar o primeiro capítulo parecia ser mais difícil que qualquer outra coisa.

            Três dias se passaram e ele havia escrito apenas uma página. Não estava nada satisfeito com isso. Passava as madrugadas em claro tentando escrever algo que primeiro o agradasse e agradasse aos leitores e dormia durante todo o dia. Na quarta noite apagou tudo e começou de novo. Nesta madrugada conseguira escrever três páginas, mas mesmo assim ele não se sentia muito satisfeito. Não dormiu e ficou puxando assunto com o caseiro quando ele cuidava da horta. Conseguiu tirar algumas ideias da conversa que teve com aquele homem que aparentava tão iletrado. Na cozinha também conversou com a empregada sobre sua família e mais inspiração foi tirada daquele diálogo. Essas pessoas tão simples lhe mostraram porções de suas experiências de vida que iluminaram a sua mente. Sem ter dormido, mas não se sentindo cansado, ele estava já no computador assim que anoiteceu. Apagou as três páginas que escrevera e começou uma nova história baseada nas experiências tidas naquele dia.

            Conseguira terminar um capítulo. Ajeitou-se na cadeira para ler e sua cara foi mudando conforme ele analisava o texto. Realmente não havia gostado. Não entendia o que estava acontecendo. Os seus primeiros livros fluíram com uma facilidade tão grande. Talvez fosse a pressão que estava causando isso. Talvez precisasse de mais alguma coisa. Ele realmente gostaria de saber o que faltava. Quando sua mulher ligava perguntando se tudo estava indo bem ele dizia que sim para não a deixar preocupada.

            Também não dormira nessa noite. Logo cedo chamou o caseiro para ir pescar. Quem sabe essa atividade tão reflexiva lhe trouxesse inspiração para uma história. A conversa com aquele homem também poderia ser proveitosa. Quando voltaram na hora do almoço só haviam pegado dois peixes e o seu era infimamente menor do que o do caseiro. Ele quis almoçar com os empregados nesse dia. A conversa continuava proveitosa e prazerosa. E o peixe também estava muito bom. Detalhes da vida daquelas duas pessoas o faziam viajar e as vezes voltar a mente para sua própria infância.

            Durante a noite recomeçou o seu martírio. Colocou mais Bach para ouvir. Pediu mais café. Releu o capítulo que havia escrito e decidiu, mais uma vez, apagar tudo aquilo. Quando a empregada veio deixar o café disse que ela poderia tomar. Dessa vez ele preferiu algo mais forte e abriu uma de suas garrafas de uísque. Foi até a janela com o copo na mão. O líquido descia em sua garganta como se limpasse várias impurezas em seu caminho. E parece que a limpeza fora tão completa que atingira até seu cérebro. Naquele momento ele tivera um estalo. Uma luz parecia ter sido acesa em sua cabeça. Um sorriso enorme abriu-se em sua boca, como um louco antes de aprontar alguma loucura. Correu para o computador.

            Não estava acreditando. Finalmente as musas tinham soprado seu hálito sobre ele. Bruscamente batia nas teclas formando palavras rápidas. Um desejo voraz de escrever e não parar mais tomou conta dele. Mordia o lábio inferior como se estivesse prestes a devorar a carne fresca de uma presa. Tomava goles e mais goles do uísque e não parou para descansar nenhum só minuto. A madrugada toda ouviu o som das teclas fortemente pressionadas. Os suspiros de alegria, as risadas que ele começou a dar com uma alegria invejável. Sua ânsia de terminar aquilo foi tamanha que ele, de alguma maneira que ele mesmo não podia explicar, escreveu o livro todo naquela mesma madrugada. Seus dedos doíam ao extremo. Seus braços pareciam ter sido esmagados. Encostado na cadeira olhou para a sua obra. Um sorriso macabro aflorou-lhe nos lábios. Um olhar louco podia ser visto no seu rosto. Ele estava ofegante e feliz. Extremamente contente com sua criação. Olhava-a como a um filho recém-nascido. Lágrimas começaram a brotar de seus olhos como se toda a sua vida tivesse como único propósito o de escrever aquela história. E ele estava certo disso. Era com certeza a melhor história que ele já havia escrito. Mudaria a vida de muitas pessoas. Mudaria até mesmo a sua própria vida. Viu os exemplares se esgotarem das livrarias, da internet e transformarem-se em dinheiro e fama para ele. Imaginou a cara dos seus patrões e dos leitores ávidos de algo épico. Sim, pois aquele livro seria um épico da criação humana. Ele não conseguia sentir modéstia ao contemplar a sua criação. Tudo o que ele sentia era o seu coração bater forte. Infelizmente bateu forte demais.

            Os tímidos primeiros raios solares da aurora entravam pela janela do seu escritório quando ele sentiu uma dor profunda no peito e caiu sobre o teclado. Um grito abafado foi seu último som. O copo ainda cheio caiu molhando o carpete. Seus olhos já sem vida miravam apenas o sol nascendo. O criador havia morrido.

            O caseiro já estava de pé mexendo na fiação desencapada num dos quartos da casa. A empregada estava tomando banho, preparando-se para fazer o desjejum. Um barulho foi ouvido de longe. A água quente do chuveiro de repente tinha ficado gelada. Num dos quartos o caseiro estava de pé, ofegante, com um alicate na mão, olhando para o lugar onde há pouco um fogo vindo dos fios quase o deixara cego. Toda a energia da casa sumiu.

            O corpo do escritor foi encontrado quando a empregada entrou no escritório para convidá-lo a tomar um café. Seu grito agudo invocou o caseiro. A polícia e sua mulher foram chamadas. O ataque cardíaco fora fulminante. O HD do computador havia queimado na hora da explosão na fiação. O criador e a criatura se perderam para sempre.

            O propósito de sua vida fora escrever aquele livro. Aquele épico, como ele mesmo o batizou. Um livro que jamais seria esquecido, pois teria sido um clássico, uma das grandes obras da criação humana. Um livro que mudaria a vida de muitas pessoas, sua forma de enxergar as coisas, sua forma de lidar com elas. Um livro que marcaria uma era, mas que jamais seria lido por alguém.

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