sábado, 4 de fevereiro de 2012

O DESTRUIDOR DE ALEGRIAS


Gustavo do Carmo




— Sinto muito, ele não vem.

A noiva, com seu vestido decotado de renda branca, se pôs a chorar em uma tsunami de lágrimas. Ivan seguiu o seu caminho. Não a conhecia, mas sentiu-se vingado pelo que fez, sem nenhum remorso.

 Afastou-se tranquilamente da multidão de convidados que a cercaram para consolá-la na porta da igreja. Não era uma situação inverossímil porque ele tinha falado a mesma coisa para o noivo, que encontrara meia hora antes, na rua dos fundos da matriz. Aliás, mesma coisa, não! A crueldade foi mais requintada.
— Eu vi a sua noiva beijando outro quando passei por ela.

Estava voltando de uma corretora de valores em Botafogo, onde provocara a demissão de um ex-colega da faculdade de economia. Foi lá especialmente para dizer os podres do operador que o ignorava desde a formatura. Mostrou para o diretor um vídeo, no qual seu então amigo criticava a empresa onde trabalhava, e uma foto recente dele, tirada de uma rede social, em que o profissional aparecia com olhos virados de embriaguez e entornando duas tulipas de cerveja. Completou a vingança com uma acusação de cleptomania.

***

Depois de frustrar o casamento, Ivan foi abordado por uma mulher grávida. Mais do que uma simples mulher, aliás. Era uma ex-amiga sua. Ex-colega de ensino médio. Ele era apaixonado por ela. Agora a moça estava lá, barriguda de seis meses e esperando um filho de outro homem.

Trabalhando como repórter em um canal de televisão, ela o chamara para lhe dar uma opinião sobre uma matéria que fazia. Ivan ficou tão nervoso e frustrado pelo estado da conhecida, que a empurrou para espantá-la e não dar a entrevista. Ela caiu e perdeu o bebê. Foi socorrida pelo cinegrafista e a produtora, enquanto Ivan embarcava no ônibus que o levaria para o bairro do subúrbio onde morava.

Dentro do veículo, uma criança de uns dois anos brincava e o irritava. Falava alto e dava gritinhos quando ria. Ivan foi engolindo a raiva. Ouvia a mãe mandar o filho parar de gritar. No quinto grito, ele estourou.

— Dá pra calar a boca?!
— Quem é você para dar ordens no meu filho?! Indignou-se a mãe, enquanto o filho chorava.
— Alguém que está cansado de ouvir essa criança chata piando como uma maritaca.
— Quem cuida do meu filho sou eu. E só por causa disso vou deixá-lo gritar quando quiser! Mal-educado! Grosso! Esúpido! Os incomodados que se mudem. Se quiser, pega outro ônibus.

E foi isso mesmo que Ivan fez. Sob vaias dos outros passageiros. Pegou outro veículo dez minutos depois. Neste intervalo, viu, no ponto, um jovem casal de namorados. A moça era loura, cabelos curtos. O rapaz era negro, forte. Disparou para ele:

— Ela te contou que é casada?
— Não! Sério? Estranhou o rapaz assustado.
— Seríssimo.
— Vagabunda! Está tudo acabado! Gritou, esbofeteando a moça.
— Você vai acreditar nesse louco que nunca viu a gente na vida? Quem está acabando o noivado sou eu! Você confia mais nos outros do que em mim!

E enquanto o casal discutia, chegou o segundo ônibus de Ivan, mais vazio do que o primeiro. Sacou o celular e fez uma ligação.

— Aqui quem fala é um amigo. Presta atenção na sua mulher que ela está te traindo com o seu melhor amigo.

E desligou o telefone. Ajudou um cadeirante a entrar no ônibus pelo elevador. E na saída, ajudou um idoso a descer. 

Nenhum comentário:

Arquivo do blog