sábado, 28 de janeiro de 2012

Conto de Gustavo Carmo


O âncora apresenta o telejornal direto da redação da emissora. O cenário é composto por uma tela de plasma, que exibe os selos que ilustram as matérias, e um amplo painel de vidro, com a logomarca da emissora, que desnuda os bastidores da notícia.

O âncora faz a escalada. Para quem não sabe, é a leitura das manchetes de todas as notícias e reportagens que serão exibidas na edição do telejornal.  Ao fundo, o repórter chega da rua com a fita da matéria que acabou de gravar. A editora de imagens recebe a fita e insere no vídeo-tape. O editor de texto digita no computador, provavelmente, o roteiro para alguma reportagem ou alguma pauta. O cinegrafista mexe na câmera. A produtora fala com alguém ao telefone. A repórter passa por ela e é cumprimentada com gestos. Ela ainda faz um sinal, rodando os dedos, que deseja falar depois. Depois de algum tempo, desliga o telefone e chama alguém que já não aparece no vídeo. A repórter que foi cumprimentada reaparece e elas conversam animadamente. Mais ao fundo, dentro de uma sala também transparente, um senhor gordo vocifera e gesticula com um rapaz de camisa social. Deve ser o estagiário levando uma bronca do diretor de jornalismo.

Vinheta de abertura do telejornal. Na volta, o apresentador deseja boa noite. O gerador de caracteres escreve o nome do jornalista. Chama a notícia de um avião que caiu no mar, matando duzentos e trinta passageiros. Ao fundo, o repórter, o editor, o redator, o cinegrafista, a produtora, o diretor de jornalismo, o estagiário e a repórter estão sentados em volta de uma mesa. Bebem cerveja. A produtora começa a cantar e os demais batem palma. O cinegrafista batuca em um tambor.

Entra a matéria sobre o acidente. Quando volta, o apresentador, em close, chama a repórter que está no aeroporto. A câmera abre e ele roda a cadeira virando-se para o monitor.

Terminada a participação ao vivo, o âncora anuncia um acidente rodoviário que aconteceu na madrugada. Na redação o diretor de jornalismo, com a gravata pendurada na cabeça, rebola em cima da mesa.

O apresentador chama o giro de notícias pelo país. A repórter está sobre a mesa dançando e fazendo um strip-tease. Primeiro ela tira o paletó do terninho. Roda e joga para o estagiário que estava na outra mesa.

É a vez do noticiário político. O âncora anuncia o segundo dia da CPI. Ao fundo, a repórter já está de calcinha e sutiã e faz uma dança erótica com o editor, que fica mais abusadinho e tenta agarrá-la. Esta lhe dá um tapa na cara e desce da mesa revoltada, pega as roupas e faz um escândalo enquanto se veste. Vai embora da redação.

Começam as notícias internacionais. Todas apresentadas pelo âncora. A festa da redação dá lugar a uma discussão entre o editor que dançou com a repórter e o repórter que chegou da rua no início do telejornal. Os dois trocam empurrões. Entra a previsão do tempo que anuncia tempo bom com muito sol e calor.

O telejornal entra no intervalo comercial. Na volta, começam as notícias esportivas. O apresentador chama uma matéria sobre o brasileiro que venceu o campeonato de Fórmula 1. Uma briga generalizada já está instalada na redação, atrás do apresentador. Computadores e cadeiras são quebrados. Mesas e aparelhos de vídeo-tape voam.

Agora é anunciada a matéria sobre a estréia de uma peça de teatro, com um veterano ator. Lá atrás, homens encapuzados, fortemente armados, invadem a redação. Apontam os seus fuzis contra os jornalistas. É exibida a matéria. Na volta, corpos de todos estão estendidos no chão ou debruçados sobre as mesas que restaram da briga anterior. O editor de texto ainda agoniza tremendo os braços. O apresentador dá boa noite e encerra o telejornal. Ele arruma várias laudas e tira o microfone da lapela e o ponto do ouvido. Sobem os créditos. 
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

João Paulo surpreende-nos neste livro na forma inédita de abordar o mundo do colecionismo. Não é comum encontrar na ficção o tema abordado com a mestria proporcionada na presente obra. Para além, da parte da ficção do nosso “Teclas”, o herói deste livro, transmite-nos muitas informações, dos caminhos a seguir para quem pretenda encontrar no colecionismo um modo de aprender um pouco mais do mundo que o rodeia. A filatelia é aqui abordada numa vertente cultural, sendo esta, a motivação do verdadeiro colecionador. Esta circunstância do livro valoriza-o significativamente.


Incentivar os jovens e os menos jovens em despertarem o gosto pelo colecionismo é uma atitude nobre. Devo referir, que muitos dos nossos museus tiveram origem de quem se interessa por reunir objetos, de os estudar e ordenar. Este livro vai também neste sentido. Certamente quem tiver a curiosidade de o ler verá de uma forma diferente esta atividade cultural.

A Filatelia é sem dúvida uma forma por excelência de colecionismo. O selo postal, depois de observado com mais atenção transmite-nos quase sempre, uma parte significativa da cultura de um povo, e por isso, o torna uma preciosidade divulgadora da sua cultura. Preparar uma coleção, exige da parte do colecionador um grande esforço de investigação despertando no paciente filatelia o gosto pelo saber. A filatelia proporciona-nos este gosto através do labor de uma coleção.

João Paulo desenvolve neste livro, por vezes, uma linguagem muito próxima da utilizada por alguns dos nossos jovens, o que revela a sua atenção à forma como os jovens utilizam a língua portuguesa. Sabemos, se não a utilizarem no seu grupo, poderão ser afastados dele. Com muita sabedoria, João Paulo, consegue levar-nos igualmente a uma reflexão sobre o valor da filatelia, sendo esta, uma boa opção, que nos leva ao conhecimento. Aconselho vivamente a leitura deste livro.



Rui Pais de Carvalho
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sábado, 21 de janeiro de 2012

Por Gustavo do Carmo




Sonhos
Vendia sonhos. Foi processado porque entregou um pesadelo por engano. 




A Rosa
Sonhava ver a bela mulher por quem era apaixonado entrar na igreja ao som de A Rosa, de Pixinguinha. Casou-se com outra moça, de beleza mais simples, e usou a música para ela.




Faróis
— Desliga os faróis, por favor! Ordenou o guarda rodoviário. A bela moça interrompeu os sonhos eróticos com a autoridade musculosa e desligou o farol do carro. 




Mosca
O cientista realizou o sonho de se tornar uma mosca para saber o que falavam dele. Foi morto por dois palitos de um mestre japonês de Karatê. 




Vou te contar
— Eu tive um sonho. Vou te contar. — Já sei! Você se atirava do oitavo andar. — Não. Eu cortava os meus pulsos. 




Sonho Meu
— Sonho Meu! Vai buscar quem mora longe, Sonho Meu!
— Desculpa, patrão, mas ela não quis sair de São Paulo. 




Um novo dia
Dormiu sonhando que amanhã será um novo dia. Acordou num dia pior que o outro. 




Trabalho
Sonhava acordado e trabalhava dormindo.




Leyde gaga
Leyde sofria com a gagueira mas sonhava ser cantora.



Acabou
— O sonho acabou. Mas tem um delírio sobrando, aceita? — Aceito. Negociaram o vendedor de sonhos e o freguês. 


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sábado, 14 de janeiro de 2012


Gustavo do Carmo



Deveria ser especialista em portas. Conheço as de madeira, de aço, alumínio, vidro...  De todas as formas: lisas, caneladas, frisadas, esculpidas e várias outras. Não sou marceneiro.

Sou jornalista e publicitário. Cursei duas pós-graduações: uma em cultura e outra em telejornalismo. Várias oficinas literárias nas costas. Só não tenho mestrado porque não tive mais paciência para estudar. Quero mostrar o que já sei. Cansei de aprender. E principalmente de ouvir sermões.

Nunca trabalhei na minha vida. Mas tentei. Fiz várias entrevistas. Várias dinâmicas de grupo. Sempre morri na praia. Falava o que não devia. Acho que não tenho qualificação para o cargo. Confesso que tenho medo de enfrentar grandes responsabilidades. Devo ter demonstrado alguma forma de insegurança. O certo é que eu nunca consegui passar em avaliação ou entrevista alguma.

Isso me abateu. Me desestimulou. Me entreguei. Desisti de procurar. Minha mãe fica preocupada. Meu pai e minha irmã me cobram. Para fazer concurso público, para trabalhar em qualquer subemprego ou na loja de autopeças do meu pai - lugar que nunca me agradou. Mereço um trabalho melhor. Condizente com o meu nível de conhecimento. Meu sonho é ser um escritor de sucesso.

Estudo desde os cinco anos de idade. Tenho trinta e cinco. Perdi oito anos na faculdade. Nunca larguei um curso pela metade. Só no final: a pós de telejornalismo. Fui traído por uma colega, que inventou desculpas para não fazer trabalho comigo. Sem condições de fazer sozinho e cansado da desorganização da faculdade e da coordenadora, além da antipatia dos outros colegas, abandonei o curso a apenas duas matérias.

Também rompi com os meus ex-colegas da graduação e da outra pós. Cobrei de alguns, fiz chantagens emocionais com outros, me magoei com todos. Estourei até com quem eu não deveria: entrevistadores de emprego. Fui irônico e até grosseiro. A minha única especialidade é a de desperdiçar networking.

Agora, minhas portas estão fechadas. Fechadas nas empresas e pelos ex-colegas esnobes e amigos falsos. Deveria ser especialista em portas. Aprendi a conhecer as de madeira, de aço, alumínio, vidro, etc. Conheci todas as suas formas: lisas, caneladas, frisadas, esculpidas e várias outras.

Abri uma loja de portas e janelas. Não deu nem tempo de começar a fabricá-las. O negócio faliu no mês seguinte. Não sou portalófilo, se é que existe esse termo.

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Por dudu oliva






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Poema em linha reta


Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


[538]


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.




E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.




Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...




Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,




Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?




Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?




Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.




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