sábado, 31 de dezembro de 2011


Gustavo do Carmo



Toca o telefone.

— Alô?!

— Selton?

— Sim. Quem fala?

— Aqui é o Leôncio.

— Diga. Selton usa um tom seco.

— Estou te ligando para desejar um Feliz Ano Novo e pedir desculpas pelo que eu fiz com você no início do ano.  

Selton fica calado. Leôncio continua.

— Somente agora, perto do ano novo, caiu a ficha e eu decidi te pedir perdão por ter te proibido de divulgar o meu filme no seu blog. E também por ter colocado vírus na sua página de internet e ainda ter feito a sua caveira em um convite que iam te fazer para ser colunista de um jornal. Sabe como é, amigo! Eu tenho muita influência no meio.

— Eu já estava desconfiado destas duas coisas.

— Agora eu entendi o recado daquela sua crônica sutil contra mim. Mas você também pisou na bola, né, companheiro? Eu senti logo de cara que você andou me chamando de velho para os outros naquela mensagem que você mandou por engano no bate-papo. E nem me pediu desculpas.

— Eu não te pedi desculpas para não ficar bancando o inocente arrependido. Um professor meu uma vez me disse que ficar pedindo desculpas toda a hora é hipocrisia, pois a pessoa nunca vai se redimir dos seus pecados. Mas saiba o quanto fiquei envergonhado do que eu fiz. E entendi porque você mudou o seu tratamento comigo e parou de me telefonar todos os dias.

— Pois é. Agora quem te pede desculpas sou eu. Em que eu posso ajudar para corrigir o meu erro? Vou te indicar para escrever naquela revista famosa, onde trabalha um amigo meu. Ela paga muito bem. Vai gostar dos seus contos. E vou te chamar para você ser assistente de direção do meu próximo filme. E desta vez é pra valer. Não vou te barrar como da outra ocasião.

— Não precisa fazer nada, não. Deixa pra lá, eu te perdôo.

— Deixa de ser orgulhoso, rapaz! Eu sei muito bem que você está precisando de emprego. Agora deixa eu ir lá que os meus netos estão chegando para passar o ano novo comigo. Um Feliz Ano Novo pra você.

Leôncio desliga o telefone. Logo o seu celular toca.

— Selton, é a Keylane.

— Até que enfim você me ligou, hein? Ironiza Selton, que continua:  — Você sempre falou comigo pelo bate-papo. Mas eu não te bloqueei não, viu?

— Eu sei. Eu ainda te vejo online. Mas preferi te ligar para dizer que você estava certo ao me chamar de insensível. Somente agora eu me toquei que você queria apenas desabafar os seus problemas e brincar comigo. Eu te julguei e ainda me achei no direito de me sentir ofendida com as suas brincadeiras. E ainda te chamei de egoísta. Isto você ainda é, mas entenda essa afirmação como algo positivo. A única coisa que eu ainda fico chateada é pela sua desconfiança ao conferir se eu fiz o depósito para comprar o seu livro. Mas eu também entendo a sua ansiedade.

— Pois é. Tudo que eu falava pra você eu estava errado.

— Ah, mas amigo não é obrigado a concordar sempre com o outro. Precisa censurar de vez em quando.

— Tudo bem, você está certa. Mas você não concordava com NADA do que eu falava. Pra você eu estava SEMPRE errado. Eu já estava com medo e vergonha de desabafar os meus problemas com você. Eu estava sempre errado, né? Por isso que eu me afastei.

— Está bem, Você está certo. Pode desabafar o que quiser comigo que eu concordo.

— Pode deixar que agora eu já tenho a minha psicanalista.

— Pois é. Você também falou dos meus problemas para a sua analista. Fiquei magoada com isso também. Tinha perdido a confiança em você. Mas agora eu te entendo.  Me desculpa? Vamos voltar a ser amigos? Vamos conversar pelo bate-papo como sempre fazíamos?

— Pode ser.

— Então tá. Um Feliz Ano Novo pra você. Agora vou desligar porque a minha mãe está me chamando para ajudá-la. Tudo de bom pra você. Muita paz, muita alegria e quero voltar a ser sua amiga.

— O mesmo pra você, tchau.

Mal acabou de desligar, o celular de Selton toca de novo.

— Oi, Selton. Aqui é a Taviane. Estou te ligando para te desejar um feliz ano novo e dizer que eu esqueci todas aquelas coisas horríveis que você me disse há alguns anos. Somente agora eu entendo o momento pelo qual você estava passando naquela época. Agora estou ligando em missão de paz.

—Você não sabe o quanto fiquei arrependido de ter feito o que fiz. Você se tornou um fantasma na minha vida nesses anos todos.

— Eu sei. Quero voltar a ser sua amiga. Você aceita?

— Não.

— Tudo bem. Eu compreendo a sua resistência. Agora me deixa desligar que eu estou saindo para encontrar o meu namorado para a gente passar o réveillon juntos.

Selton já tinha desligado antes. Ele recebe mais um telefonema. Era o seu maior amigo e companheiro da faculdade.

— Selton, sou eu Renan. Estou te ligando para te avisar que somente agora eu percebi o grande sentimento de amizade que você tinha por mim. Amizade não. Fraternidade. Eu estou arrependido de evitar conversar com você e de te tratar com frieza quando você me procurava pelo bate-papo. Agora deixa eu ir que meus filhos estão me chamando para brincar com eles. Feliz Ano Novo!

Mais duas mulheres ligaram para Selton. Ambas desejando feliz ano novo e pedindo desculpas. Uma jornalista do interior pelo bolo que dera ao ter agendado uma entrevista e não comparecido. A outra, uma ex-colega de faculdade pela grosseria com a qual respondeu a um e-mail. Ela estava estressada com o trabalho e terminando com o namorado depois de dez anos de relacionamento. Esclareceu que o rapaz havia lido a mensagem e ficado com ciúme doentio. Nervosa respondeu daquela forma. Mas deixou claro não ter gostado da crítica com uma colega da turma que não tinha nada a ver.

Quando esta última encerrou a ligação, Selton foi abrir a caixa de e-mails. Quase todos os colegas da pós-graduação desejaram boas festas. O antigo coordenador mandou um convite pessoal para a exposição de arte da sua esposa. Uma outra mensagem se destacava. Era de uma outra jornalista, esta da capital:

Caro Selton,

Por acaso comprei um livro de contos que você publicou. Acabei achando aquele seu conto que o seu amigo virtual me recomendou. Somente agora eu revi os meus conceitos e mudei de opinião. Percebi o quanto as suas histórias são primorosas, apesar de alguns errinhos de gramática. Não são infantis como eu havia achado no início. Reli aquele outro e entendi o enredo da história e a sua intenção, que foi colocar sarcasmo em uma história realmente infantil.

Feliz Ano Novo!!
Mareliz Dantas

Um editor com o qual Selton havia feito contato pedindo uma oportunidade também mandou e-mail desejando boas festas e pedindo desculpas por ter achado todos os seus textos inverossímeis.
Propôs editar um novo livro com um segundo volume de contos que Selton havia enviado. Desde que fizesse uma boa revisão que o rapaz iria ajudar. Por coincidência uma ex-professora de oficina literária se ofereceu para revisar os textos e diminuir as inverossimilhanças e incoerências que achou.

Animado com tantas mensagens de ano novo, pedidos de desculpa e propostas que recebeu por telefone ou por e-mail, Selton criou coragem. Ligou para a irmã mais nova para pedir desculpas por um grande erro que cometeu com a família.

— Liliane, sou eu, Selton. Feliz Ano Novo! Somente agora eu...  A moça já tinha desligado quando ouviu que era o irmão. As outras três irmãs mais velhas fizeram o mesmo.  

O Tudo Cultural deseja um 2012 repleto de amizades verdadeiras, o que   o Selton não conseguiu. Volto no dia 14 de janeiro. 

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sábado, 24 de dezembro de 2011


Gustavo do Carmo


Estava falido. Aliás, sua família faliu. Seus pais morreram e ele não soube administrar a loja do pai, que quebrou. Sua irmã rompeu com ele por causa da sua falta de atitude.  Nunca teve maturidade para conseguir um emprego pelos próprios méritos. E nem pelo mérito dos outros. Seus amigos o abandonaram. Ninguém dos ex-colegas das duas faculdades e duas pós-graduações que cursou o procurava.

Eustáquio já estava na miséria. O apartamento de veraneio em Cabo Frio já tinha sido vendido quando surgiram as primeiras dificuldades financeiras. Agora perdeu o apartamento no subúrbio, onde foi criado, leiloado por causa das dívidas trabalhistas com os empregados da loja.

Estava sem teto. E incomunicável. A linha do celular foi cortada e ele não tinha dinheiro nem para pagar uma hora na lan-house da esquina. Se recusava a pedir esmola, mas aproveitou-se da caridade de alguns passantes na rua, que lhe jogavam moedas e notas de 2 reais. Até que alguém lhe estendeu uma mão.

Não conseguiu identificar de imediato, ofuscado pelo forte brilho do sol. Só depois de alguns segundos, por mais um gesto de solidariedade, a mão se aproximou e revelou um antigo colega da primeira faculdade.

Eduardo hospedou Eustáquio em sua casa. Era véspera de Natal. Em troca, o amigo sem teto ajudou a família do amigo solidário na preparação para a ceia. Depois de tomar um bom banho e fazer a barba, claro.

No descanso do trabalho pesado para a noite de Natal, Eustáquio acessou a internet depois de quase um ano.  E viu 400 mensagens acumuladas na sua caixa de entrada. Quarenta delas era de ex-colegas da segunda pós-graduação pedindo desculpas por tê-lo magoado. 

À meia-noite, a família de Eduardo - mulher, filhos, pais, sogros, irmãos, cunhados e sobrinhos - saudou a chegada do Natal. Eustáquio participou da festa. E ainda ganhou presente. Um celular pré-pago, com a sua linha reativada.

Logo, Eustáquio recebeu as primeiras ligações. A primeira delas de Geiza, uma sumida colega da primeira pós-graduação, lhe oferecendo emprego em sua agência de publicidade. O que ele mais precisava. As outras vinte foram de antigos colegas da faculdade de publicidade e oficinas literárias se desculpando por tê-lo desprezado.

No dia 25, Eustáquio abraçou Eduardo e a esposa, agradecido pela generosidade. Disse que, no dia seguinte, ia a uma entrevista de emprego na agência de Geiza. Eduardo ficou feliz.

Eustáquio conseguiu o emprego, se estabeleceu e retomou sua vida de classe média. Em fevereiro deixou a casa de Eduardo para alugar a sua própria. Em abril já morava em apartamento próprio. Em maio casou-se com Taís, colega de uma oficina de roteiro que havia feito antes da sua família falir.

Construiu uma nova família. Em dezembro, recebeu Eduardo, esposa e filhos para uma tarde de véspera de Natal em sua cobertura na Barra da Tijuca. Ostentou a barriga de sete meses da esposa Taís. No início da noite recebeu o casal de amigos recém-perdoados, Fábio e Adriana, que estudaram com ele na segunda pós-graduação.

Mas os amigos não viraram a noite de Natal com ele. Eduardo, Fábio e Adriana foram passar com as suas famílias. Já Eustáquio recebeu a irmã e o cunhado, também reconciliados, em sua residência. Comemoraram, além do nascimento do menino Jesus, o primeiro ano do milagre de Natal que recebeu, quando saiu da miséria sem futuro para uma vida feliz e bem-sucedida.

Um sonho que Eustáquio viveu e acordou. Seus pais, felizmente, ainda estavam vivos, saudáveis, apesar de idosos, e ainda na classe média. Tinha dormido o sono da tarde antes de sair para o apartamento da irmã na Barra da Tijuca, onde iam passar o Natal.  Mas ele ainda não tinha emprego e nem o perdão dos antigos colegas. Muito menos de Eduardo. 

Aos leitores do Tudo Cultural um Feliz Natal e próspero 2012! Volto no dia 14 de janeiro. 
  

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

por dudu oliva


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sábado, 10 de dezembro de 2011

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011




Palavras esquisitas.


Você pode vir comigo.
Você sabe que eu dirijo.
Sou um alguém natural.
Não chego tarde a casa.

Se você quiser, eu posso,
posso deixá-lo esquivar-se
pelas ruas antigas, chamando
por mim, palavras esquisitas...

Nossas folgas da vida estão próximas.
Mas é impossível sem aquele carro
e nem possível sem o que é você.

Venha, vamos navegar pelas estradas
com estas nossas mãos ajustadas.
Venha, vamos devagar pela manhã.

Você concorda comigo.
Precisamos de algum lugar.
Serve-nos qualquer abrigo.

Vamos sozinhos pela primeira vez.
Repetindo mentiras engraçadas.
Você me ensina as facilidades.
E as dificuldades, esquecidas.

Poderíamos ir, pois sabemos ir.
Você me encontraria bem ali.
Ou eu poderia ir à sua casa.
Eu prometo não me demorar.

Se você quiser, eu posso,
posso ficar e deixá-lo
esperando, mais um pouco,
por mim, para novamente
sem medos de dúvidas,
dizer aquelas eloqüentes
para mim, palavras esquisitas...

                                                    Rogerleo.
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sábado, 3 de dezembro de 2011


Por Gustavo do Carmo



Moça bonita parada no ponto de ônibus em Copacabana. Estava de vestido de alcinha florido. Branca, magra, cabelos curtos, mas femininos. Cortado à altura dos ombros. Do jeito que eu gosto. 

Tive o receio de que ela fosse do tipo Raimunda, feia de cara e boa de... você sabe! Mas não era. Era bonita de rosto, sim! Aliás, sou mais chegado aos seios do que ao traseiro. Não consegui reparar no seu peito. Precisava ser discreto, não olhar muito. Então, não lembro direito se eram grandes ou não. Acho que eram médios.

Voltei a ficar atrás dela. Ela de costas para mim. Costas brancas e lindas. Não vi nenhuma falta de educação ou elegância da parte dela. Só uma alça azul do sutiã.

Ela esperava pelo ônibus, impaciente. Eu também. Ficou um tempão. Eu também. Segurava impaciente uma bolsa de butique. Deve ter comprado outro vestido florido. Teve um momento em que ela colocou a bolsa de butique no chão da calçada.

Foi aí que eu comecei a ter fantasias. Não as sexuais (por enquanto), mas as sentimentais. Pensei em lembrá-la da bolsa no chão. Pensei nela agradecendo e depois nós nos conhecendo, conversando, trocando e-mails e telefones... A gente saindo. Indo ao teatro ou ao cinema. Indo ao motel. Transando, finalmente.

Fantasiei, também, com ela conhecendo a minha família e eu conhecendo a dela. O nosso noivado. O nosso casamento. Os nossos filhos. Até as nossas brigas.

Como será o seu gênio? Pelo que eu vi dela no ponto, parecia ser enfezada, nervosinha. Requer cuidado. Mas esperando um ônibus em Copacabana por um tempão, correndo risco de voar pelos ares na explosão de um bueiro, qualquer um vira uma pessoa enfezada e nervosa. Vai que ela seja um doce.

Será que ela tem TPM com freqüência? Será que ela gosta de ajudar os outros? Será que os pais dela são ricos? Será que ela já trabalha? Onde será que ela estuda? O que ela estuda? Jornalismo? Arquitetura? Engenharia?

Ao mesmo tempo, pensei no pior: ela poderia estar falando com o namorado ao celular quando deixou a bolsa no chão. E se eu a lembrasse da bolsa no chão, poderia estar passando por idiota. Afinal, ela sabia e não era cega.

Pela demora do nosso ônibus imaginei que ela estivesse esperando a mesma linha do meu. Imaginei ela indo para Bonsucesso também. Ou até para a Penha. Repeti todas as minhas fantasias sentimentais, românticas e sexuais. Todas as minhas ilusões.

O ônibus chegou. O meu. Subi no meio da multidão. A moça bonita do vestido florido não entrou. Meu ônibus não serviu para ela. Ela ficou parada no ponto. Nunca falei com ela. Não sou sedutor barato. Sou mesmo um bobo. Nunca mais a vi.
E com este conto eu entro de férias. Mas o Tudo Cultural vai continuar neste final de 2011 com o Dudu, o João e a Sheila. Eu espero. 

Infelizmente, este ano não foi muito bom para o blog. Foram poucas visitas. Assim, nem vou comemorar os seis anos do blog, completados no último dia 29/11. Deixo apenas os meus agradecimentos aos colaboradores Dudu Oliva, João Paulo Simões, Sheila Fonseca, Ed Santos, Miguel Angel, Rosilene Câmara e Igor Gomes, o Rogerleo. 

Se der tudo certo, postarei um conto inédito no Natal e outro no ano novo. Ou então, farei uma reprise de anos anteriores. Volto definitivamente no dia 14 de janeiro. Até lá. 

Se eu não voltar, feliz Natal e ótimo 2012!
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011






“Eu te amo agora
porque escreveste para mim.

Eu te amo agora
porque de mim tu estás afim.

Eu te amo agora
porque me compraste um presente.

Eu te amo agora
porque tu me ouves sempre, sempre.

Eu te amo agora
porque tu aceitas o que eu faço.

Eu te amo agora
porque tu fazes o que eu quero.

Eu te amo agora
porque tu nunca reclamas.

Eu te amo agora
apesar de nesta hora
ou em qualquer outra
nunca teres dito que me amas.

Eu te amo agora
e para sempre irei te amar
e enquanto não houver outro
a quem eu possa explorar.

Eu te amo agora.
Graças a Deus que te amo,
se não eu jamais teria
meu sonhado 'carro do ano'.

Eu te amo agora
porque eu quero
não te amar
e isto não é causa
e nem é conseqüência
dos reais objetivos
do meu, meu querer.

Eu te amo agora
não porque eu quero te amar;
sim porque tu atendes
aos meus, meus interesses.

Eu te amo agora
e para sempre vou te querer
e enquanto houver de ti
coisas boas a mim, oferecer.”


                                                 Rogerleo.


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sábado, 26 de novembro de 2011

Por Gustavo do Carmo


Dia desses estava na sala de espera para fazer um exame de função respiratória e peguei uma revista Quem para ler. A publicação de celebridades tinha uma matéria sobre a briga da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. Lendo os detalhes da discussão, li que o Zezé disse para o irmão, que ameaçava se separar:  

- Faça o que você quiser! 

Imediatamente lembrei da discussão que tive com uma ex-colega de pós-graduação, quando ela fazia corpo mole para fazer os trabalhos em grupo comigo. Eu me cansei e disse que ia fazer sozinho. D., vamos chamá-la assim, disse: 

- Faça o que você quiser!

Expressão de gente que tira o corpo fora. Antes, eu já tinha reclamado quando D., que já fazia corpo mole junto com outro ex-colega, B. para realizar um trabalho anterior, combinou com um terceiro ex-colega (N.) sobre o trabalho que eu queria fazer. Detalhe: depois que eu saí cedo de um dia de faculdade. Enquanto eu estava na aula, D. se dizia indecisa. Ou seja: ela não queria era fazer comigo. 

Assim, eu reclamei com D., ameacei sair do grupo e fazer sozinho. Ela disse: 

- Faça o que você quiser.  

Como era esse corpo mole? D. sempre dava um jeito de adiar e até nem combinar o que fazer nos grupos dos trabalhos. Logo D., que dizia que éramos um grupo. Acho que quis dizer que o grupo era ela e B., que estou cismado que estão tendo um relacionamento amoroso. 

Bem, quando eu dizia "Vamos fazer o trabalho?", D. gaguejava e prometia combinar durante a quinzena de folga. Nesse período, eu mandava e-mails organizando o grupo e ninguém respondia. Na aula seguinte, D. faltava. Na outra, o rapaz "namorado" dela. Na terceira, D. de novo. Na quarta, ela chegou atrasada. 

Foi nesta quarta aula que eu saí cedo e D. combinou o grupo pelas minhas costas. Eu não ia assistir à aula do professor A. porque estava envergonhado com a bronca que ele tinha me dado na quinzena anterior. Somente na sexta-feira seguinte que D. mandou um e-mail coletivo falando do trabalho e materiais que tinham combinado pelas minhas costas. Me senti traído. 

Reclamei, mas, como sou uma pessoa insegura, fiquei com medo de ser desprezado na faculdade por eles. Acabei pedindo desculpas. Grande erro. 

Fiz o trabalho sozinho. Tanto eu quanto eles o entregamos para dois professores. Me saí melhor do que eles. Eu acho. 

Veio o meu aniversário. Ninguém me deu parabéns. Estava esperando isso para fazer uma limpa no meu facebook. Esperei até a manhã do dia seguinte. Nada. Somente à noite que D. me desejou feliz aniversário. Ainda assim, porque eu tinha perguntado se ela ia fazer o trabalho da professora G. comigo ou não. Ela disse a famosa frase. 

- Faça o que você quiser. 

Respondi dizendo que eu cansei de fazer com eles. D. repetiu a frase. 

No sábado da aula da professora G., D. me vem com uma camisa de malha de presente. Só que o presente não foi pelo meu aniversário. Ela deu também para o "namorado" B.. Minutos depois, quando G. perguntou como seria o grupo, D. disse que eu ia fazer sozinho porque eu queria produzir um programa cultural (era o trabalho prático final) e ela disse que odiava falar de cultura, com direto a tom de nojo. Me deu uma raiva! 

Fui educado e tentei me juntar a D. e B.. Mas como não entendo nada de política, tema sobre o qual D. queria produzir, me senti deslocado. Me senti num grupo falando sânscrito. Resolvi rascunhar sozinho um espelho de um programa cultural. Só que G. exigiu uma pauta mais completa. 

Ora! Como vou fazer um trabalho de produção, sem a garantia de equipamentos da desorganizada faculdade e sem saber como solicitar sozinho? Na aula da tarde, uma prática de apresentação em TV, outra professora, L., mandou formar um grupo para relembrar o 11 de setembro. 

D. mais uma vez não confiou em mim. E fez com uma outra moça, T.. Eu fiquei com B. e mais um outro rapaz, U., que ficou inseguro e não conseguiu fazer o papel de repórter que entrevistaria um dos sobreviventes dos atentados ao World Trade Center, interpretado pelo "namoradão" de D.. Eu fui o apresentador do telejornal. Acabei gaguejando. E cuspindo. A professora L. me criticou bastante e me botou lá em baixo. Disse até que a minha dicção era péssima. Ela tinha razão. Ah, se eu tivesse aproveitado a oportunidade de mandar tudo pro espaço e a turma para a merda! E jogar a camisa na cara de D. Semanas depois, dei a camisa para um jornaleiro de confiança em Copacabana. 

Somente na terça-feira depois desta aula, D. me manda um e-mail me pedindo o endereço eletrônico da professora L. Desabafei. Ou melhor, explodi. Sem xingamentos, acusei-a de ter me barrado do grupo da matéria da manhã e que ia largar o curso. D. respondeu que eu dissera com todas as letras que não ia levar ninguém para a vida, inclusive ela, que tinha lido um post no meu Twitter, que ela dizia que nem usava. Mentirosa! Então falou a célebre frase: 

- Faça o que você quiser. 

Mais uma vez errei e pedi desculpas. Insegurança, burrice e infantilidade minha. Em vez de dizer que aceitava as minhas desculpas, D. respondeu com um frio e-mail, quase anunciando o namoro com B., falando mil maravilhas dele. Foi mais calorosa pra isso. Sobre eu anunciar que ia sair definitivamente da pós-graduação, mesmo faltando apenas uma matéria, o que eu fiz mesmo, D. disse pela última vez: 

- Faça o que você quiser. E tirou o corpo fora para sempre. Nunca mais falou comigo.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

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sábado, 19 de novembro de 2011

Por Gustavo do Carmo




Bonde
Pegou o bonde andando. Levou um grande tombo. Só não passou vexame porque estava vazio. 


Ponto
Dormiu no ponto. Perdeu o ônibus.


Ônibus
Sua Inspiração foi embora no ônibus da noite. Era o nome de sua primeira namorada que lhe abandonou. 


A pé
Estava indo a pé do Rio a Salvador quando soube que sua amada iria se casar com outro. Na altura de Saquarema pegou um ônibus para continuar a viagem. Não precisava provar mais nada. 


Trem
Seu Seguro não morreu de velho. Foi atropelado por um trem aos 40 anos. 


Trem 2
Morava no Maracanã, mas nem se importou com a sua mãe. Ignorou o trem das onze para ficar com a sua amada e só voltará para casa amanhã de manhã. 


Táxi
Ficou pra lá de Marrakech. O motorista de táxi marroquino, que levava o turista brasileiro, errou o caminho. 


Avião
Queria muito esticar as pernas naquele avião. Acabou esticando as canelas. 


Maionese
Viajou na maionese. O avião fretado pela Hellmann’s era a única forma do imigrante ilegal chegar a outro país sem ser percebido. 


Acaso
Andava distraído no trânsito, mas não foi protegido pelo acaso e, sim, pelos freios ABS do carro que quase o atropelou. 
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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Por dudu oliva



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Crônica sobre o livro: http://cronicas-ideias.blogspot.com/2011/11/espelhos.html

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sábado, 12 de novembro de 2011

Conto de Gustavo do Carmo



O jornal do fim de noite de um famoso canal de televisão exibia uma matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

Um dos entrevistados, freqüentador de um supermercado que funcionava durante 24 horas, era Dionísio, um jovem rapaz, na faixa dos vinte e cinco anos. Ele disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. No final da matéria voltou para acrescentar que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo.

De fato, Dionísio só tinha tempo para resolver os seus problemas de madrugada. Mas não trabalhava exatamente o dia inteiro. Jornalista formado, fazia clipagem, ou seja, buscava o que saía na imprensa sobre o cliente da produtora e criava um álbum com as matérias publicadas. Seu turno era das quatro às dez da manhã. Deixava o escritório na Tijuca, andava uns dez minutos e pegava o ônibus. Chegava ao apartamento, em Copacabana, em pouco menos de uma hora, dependendo do trânsito. Por volta do meio-dia ia almoçar (ou jantar) e, depois, finalmente dormia. Acordava às oito da noite. Fazia o seu desjejum enquanto muita gente jantava. Começava o seu dia quando os vizinhos chegavam do trabalho, exaustos, o que era percebido pelo movimento de entrada na garagem do prédio.

Fazia os trabalhos que levava para casa. Duas horas depois saía à rua. Passava no caixa eletrônico do banco e em seguida no jornaleiro, onde comprava as primeiras edições dos cinco principais informativos e também das duas publicações esportivas. Era mais pelo trabalho, ao qual se dedicava muito, do que para o lazer. Após algumas voltas no calçadão da praia, entrava na loja de conveniência e fazia um lanche que servia de almoço para não mexer na cozinha de madrugada e acordar os vizinhos do apartamento em frente. Finalmente ia ao supermercado e fazia as compras da semana.

Não eram todos os dias que Dionísio visitava o supermercado. Somente às quintas-feiras. As segundas eram reservadas para a academia, as terças para o dentista ou o tratamento de pele, na quarta tinha novamente a academia e às sextas ele ficava em casa por causa do movimento noturno no bairro. No sábado à noite, viajava para Conceição de Macabu, onde nasceu, foi criado e ainda mora os pais. Voltava para o Rio segunda-feira de manhã.

Acostumado com a rotina na capital, dormia o dia inteiro e só acordava à noite na cidade pequena, onde tudo fechava cedo. Os bares e restaurantes funcionavam até, no máximo, às duas horas da manhã. Dionísio não gostava de beber e os restaurantes eram muito fracos. Ficava perambulando pela casa durante cerca de quinze horas. Angustiava-se. Morria de saudades dos pais, mas não via a hora de voltar ao apartamento alugado no Rio de Janeiro, ao seu trabalho de clipping e às atividades comerciais da madrugada.

Dionísio achou o emprego na internet. Tinha o sonho de morar e fazer sua vida no Rio, mas precisava trabalhar. Chamado para a entrevista, passou e foi aprovado. Fizeram uma festa em casa. No entanto, os pais ficaram tristes porque o filho precisou se mudar e eles não podiam ir. A mãe, costureira, tinha os seus clientes e o pai tinha um bazar que não podia ficar abandonado. Ainda assim, seria bom para Dionísio morar sozinho e ganhar experiência de vida. O pai ainda ajudou o filho a alugar um apartamento de dois quartos na Tijuca, perto do trabalho. 

Na empresa, o primeiro material que reuniu foi muito elogiado por um cliente, ex-participante de reality-show. Depois outra aprovação de uma petrolífera multinacional. A mesma opinião teve uma ONG de educação. Dionísio passou a ser mais procurado. Com isso, a sua responsabilidade aumentou. Pediu e ganhou um aumento. Com ele, depois de alguns meses, entregou o apartamento na Tijuca e alugou outro na Rua Constante Ramos, em Copacabana, também de dois quartos, realizando outro antigo sonho: morar perto da praia.  

Nos primeiros dias de trabalho, Dionísio tentou manter uma vida normal. Mas chegava em casa tão cansado que acabava dormindo e só acordando às oito da noite. Aí notou que precisava fazer o trabalho que trouxera e se viu sem tempo para sair na rua e fazer atividades básicas como ir ao supermercado, à banca de jornal, ao dentista, além de aproveitar a cidade do Rio de Janeiro.

Um dia, viu no jornal da televisão uma primeira matéria sobre os serviços dia e noite. Se interessou tanto que decidiu procurá-los. Começou freqüentando uma loja de conveniência, ainda na Tijuca. Depois procurou um dentista. Marcou a primeira consulta para uma da manhã. Já na terceira, o profissional desistiu porque foi assaltado ao voltar pra casa e parou de trabalhar de madrugada. Dionísio teve que procurar outro para o seu horário incomum. Só achou em Copacabana. Quando o supermercado que freqüentava na zona norte também deixou de atender à noite, Dionísio decidiu se mudar. Já estava viciado em resolver seus problemas urbanos de madrugada. Tanto que recusou a oferta da dona da empresa de transferir o seu expediente para o horário comercial.

Um dia ele foi dispensado. Não soube se foi por corte no pessoal ou a diretora percebeu alguma coisa errada nele. Apesar de dedicado, Dionísio teria deixado de incluir uma matéria importante sobre um cliente. Uns disseram que Dionísio já começara a trabalhar demais. Estaria tão ansioso para aproveitar as atividades noturnas do comércio que já não dormia mais. Uma moça teria visto seus olhos vermelhos e logo achou que era por causa de drogas. Um colega o encontrou em uma drogaria de plantão, às três da madrugada, na Tijuca, perto do escritório. Houve várias versões sobre a demissão de Dionísio. O fato é que o rapaz não se importou. Nem quis voltar para Macabu. Preferiu continuar em Copacabana, mesmo.

Por três meses cumpriu o ritual ao qual estava acostumado a fazer. Aparentemente estava tudo normal. Era como se Dionísio ainda trabalhasse na produtora de clipping. A partir do quarto mês, o pai não quis mais pagar o aluguel. Era uma forma de pressioná-lo a voltar para o interior. Depois de alguma resistência, acabou cedendo. Entregou o apartamento no Rio de Janeiro e voltou para a cidade natal.

Tentou manter a mesma rotina de quando era clipista na Tijuca. Queria comprar os sete jornais, as duas revistas, ir à academia, ao supermercado, ao dentista e à esteticista. Não conseguiu porque tudo isso só funcionava durante o dia, sob a luz do sol, que Dionísio já rejeitava. Parecia um vampiro que temia virar pó com a claridade. Já andava de óculos escuros pela casa fechada com cortinas, assustando os pais e as freguesas da mãe. Ficava o dia inteiro sem dormir e só saía na rua à noite, na cidade já deserta. Vivia na farmácia de plantão, comprando estimulantes sem necessidade, virando assunto na cidade, envergonhando os pais.

O pai perdeu a paciência e tentou impor um limite. Ou Dionísio voltava a trabalhar ou seria expulso de casa porque não ia sustentar vagabundo. Logo se apiedou e ofereceu o bazar para ele trabalhar. Dionísio não tinha vergonha da fonte de sustento da família, mas quando adolescente só queria trabalhar como jornalista. Agora, já maduro, até aceitou ajudar o pai. Desde que trabalhasse de madrugada.

Como um empresário visionário, propôs que o bazar funcionasse 24 horas e ele tomaria conta. Seu Osmar, pai de Dionísio, recusou imediatamente. Disse que não ia dar lucro e que era perigoso, pois a farmácia já fora assaltada. Dionísio, então, pediu à mãe que lhe ensinasse a costurar (algo que ele odiava quando criança) e propôs adiantar as encomendas enquanto ela dormia. Dona Maria Lúcia estranhou, mas acabou aceitando.

Dionísio costurou por algumas semanas. Estava indo bem. Ganhava até elogios das freguesas da mãe. Eis que o pai voltou a procurá-lo para dizer que lhe tinha arranjado um emprego de vigia noturno. O rapaz aceitou na hora, antes de Seu Osmar perguntar se ele tinha certeza, pois era um emprego perigoso.

 E lá foi Dionísio trabalhar como vigia da farmácia. Ganhou até uma arma, sem bala, pois servia apenas para assustar os ladrões. O turno de Dionísio era de meia-noite às seis da manhã. A farmácia ficava ao lado da sua casa.  

Quando chegava, tomava banho antes do café da manhã que preparava para ele e a mãe. Já de óculos escuros, assistia à televisão e ajudava a mãe a fazer o almoço e também a costurar. Às quatro da tarde começava a fazer seu clipping... imaginário.

Não comprava os sete jornais faz tempo. Inventava tudo. Os pais começaram a ficar preocupados. Principalmente quando Dionísio começou a atender telefonemas inexistentes de clientes virtuais. Não os da internet, que ele tentava conseguir realmente, mas não tinha sucesso. Eram clientes criados por ele mesmo. Já começava a falar sozinho, organizando reuniões fantasiosas.

Uma noite, o dono da farmácia foi procurar o pai de Dionísio em sua casa. Ele não havia comparecido ao trabalho. Os pais e o patrão, amigo da família, o procuraram pela casa toda. Dona Maria Lúcia começou a se desesperar. Ainda mais quando o pai achou um bilhete curto e seco deixado pelo filho: “Fui para o Rio de Janeiro.” A primeira coisa que Seu Osmar fez foi procurar o revólver do dono da farmácia. Não estava lá. A sua pistola particular também não.

Dionísio chegou a Copacabana por volta das dez da noite. Entrou no supermercado que freqüentava quando morava no Rio. Ouviu pelo alto-falante o locutor anunciar que o estabelecimento estava encerrando as atividades do dia. O ex-clipista estranhou.

Perguntou a um segurança porque eles estavam fechando se o supermercado funcionava 24 horas por dia. O vigilante, um moreno forte e alto, disse que eles pararam de atender dia e noite depois de um assalto que sofreram. Dionísio se indignou. Sacou as duas armas que trouxe do interior e o rendeu.

Mesmo em desvantagem física, Dionísio obrigou o segurança a fechar as portas do supermercado e manteve todos os funcionários e fregueses como reféns. Gritando muito, completamente alterado, exigiu a presença de repórteres da mais famosa emissora de televisão. Ameaçou explodir o supermercado se alguém chamasse a polícia antes dele terminar o seu plano. Alguns fregueses cochichavam que Dionísio estava drogado, por causa dos seus olhos vermelhos. Mas ele não estava. Nem tinha tomado o estimulante. O que o entorpecia era a loucura mesmo.     

Duas horas depois apareceu a equipe da imprensa. Uma repórter morena e bonita, de terninho amarelo, acompanhada do cinegrafista, um homem forte e moreno como o segurança rendido por Dionísio. Este autorizou a entrada apenas dos dois jornalistas e impôs as condições para liberar os fregueses e os funcionários do supermercado: produzir uma matéria sobre os serviços 24 horas na cidade do Rio de Janeiro. Assustados, os repórteres concordaram imediatamente. E começaram a entrevistar os freqüentadores, deveriam mostrar que estava tudo bem. Que era apenas uma pauta de rotina.

Dionísio atuou como o produtor da matéria desejada. Selecionou algumas pessoas. Escolheu um casal, um homem de cabelos grisalhos, o gerente e uma das caixas do supermercado para serem entrevistados. Ele mesmo também fez parte da matéria. Exigiu uma maquiagem para disfarçar os olhos vermelhos.

Dionísio disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. Depois de uma pausa na gravação, acrescentou que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo. Recomendou que este depoimento encerraria a matéria.

Satisfeito, Dionísio libertou os funcionários e os freqüentadores do supermercado. Todos estavam livres após quatro horas de tensão. Com exceção dos dois jornalistas, que continuaram com as duas pistolas apontadas por Dionísio. O clipista exigiu continuar a matéria na academia e, depois, nos consultórios noturnos do dentista e da esteticista. 

Não deu tempo. No caminho para o carro da reportagem, Dionísio vacilou ao espirrar. Foi dominado pelo cinegrafista e surpreendido pela polícia, que o prendeu e o levou para a casa de custódia, sob a acusação de seqüestro, porte ilegal de armas e perturbação da ordem pública.

Condenado, foi cumprir a pena no manicômio judiciário. Lá, assistiu ao telejornal do fim de noite com a matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

 Dionísio era a estrela principal. Depois, começou a fazer o seu próprio clipping com as matérias verdadeiras sobre o seqüestro no supermercado publicadas na imprensa.


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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

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quinta-feira, 10 de novembro de 2011




João Paulo Mesquita Simões




As máquinas automáticas dos CTT que encontramos aí pelas ruas das nossas cidades e nos próprios Correios, vendem-nos selos autocolantes.

Aos balcões dos CTT, também nos são vendidos este tipo de selos.

Como tratá-los nas nossas colecções?

Dos poucos estudos feitos e daquilo que também já li, podem ser descolados como o tradicional selo - em água. Simplesmente a água não remove a cola que este selo trás no verso.

Uma das soluções apontadas por pessoas que já a utilizaram, é passar com benzina ou acetona, para remover por completo a cola existente no selo.

Estes produtos são abrasivos e, se não tivermos cuidado, poderão afectar o carimbo do selo danificando-o.

Até que se se chegue a novas conclusões, o melhor é recortarmos com muito jeito o papel em volta do selo e guardá-lo nas nossas colecções com a área do papel do envelope que lhe ficou colada. Mas atenção! Também não é o melhor processo, pois a conservação do selo estará em risco devido aos efeitos da cola.

Como sabemos, esta vai-se deteriorando com o passar do tempo, e esse processo pode estragar o selo. Mas até lá, é o melhor processo até se descobrir como descolar realmente um selo auto adesivo.

A imagem do selo acima, é da colecção Festas Tradicionais Portuguesas de 2011, com o valor de 0,32 cêntimos, ou seja, correio até vinte gramas.
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sábado, 5 de novembro de 2011

Gustavo do Carmo



“Você ainda é muito verde para a função.” Amarildo sempre ouvia isso. Desde procurar emprego até conquistar mulheres. O problema é que Amarildo já tinha 35 anos. Idade mais do que madura. Mas estava sempre verde. Sempre amarelava nas horas mais importantes.

Cursou jornalismo. Não fez estágio porque seu currículo ainda era muito verde para ter chances de uma vaga. No final do curso, estava verde porque não tinha experiência. Formou-se verde e branco. Branco de virgem no mercado e também no sexo.

Exigente, paquerava as mulheres mais bonitas que conhecia. Ainda era muito verde para conquistá-las. Uma vez, quase conseguiu. Marcou encontro com uma amiga. Mas amarelou quando descobriu que ela tinha um filho pequeno.

Fez cursos de informática, jornalismo online e assessoria de imprensa. Amadureceu (somente um pouco) o seu currículo. Mesmo assim, ainda foi considerado verde para entrar no mercado de trabalho.

Brasileiro nacionalista, Amarildo se recusava a aprender outras línguas e não retomou o curso de inglês que tinha largado aos quinze anos. Por isso, seu inglês ainda era verde.

Desde os vinte anos, Amarildo tentou ocupar o seu lugar no mercado de trabalho. Aos vinte e três, já com os certificados dos cursos que fez, tentou mais uma vez. Não conseguiu. Ainda estava verde para a função.

Chegou a fazer um teste de vídeo. Além de desarrumado, gaguejou e falou com a língua presa. Sua voz também era horrível. Fez nova faculdade (agora de publicidade) e batalhou para conseguir estágio. Continuava verde.  

Tentou ser vendedor de carros, sua paixão. Verde. Atendente de telemarketing. Verde. Plantonista de clipagem. Verde também. Tentou ser escritor. Mandou originais de um romance para várias editoras. Todas recusaram. O aspirante a escritor ainda tinha um texto muito verde.

Amarildo amarelava nas poucas entrevistas de estágio em que era chamado. Amarelou em uma oferta de estágio porque estava viajando. Amarelou até na avaliação de desempenho do Banco do Brasil. Ele tinha sido aprovado no concurso público que seu pai lhe obrigara a fazer. Mas amarelou no período de experiência. Resolveu pagar para publicar o seu primeiro livro. Ainda muito verde. Amarelou na hora de divulgar.

Tentou tirar carteira de motorista. Fez todas as aulas obrigatórias. Passou na prova escrita com louvor. Também se saiu bem no exame psicotécnico. Na hora da prática, ainda se sentia verde para fazer o exame final de direção. No dia da prova, quando achou que estava maduro, amarelou.

E por que Amarildo chegou aos 35 anos verde e amarelando sempre? Deprimido com tantas amareladas e de ser considerado verde, ele procurou um psicólogo. Descobriu que tinha transtorno de ansiedade e déficit de atenção. Além de uma grande resistência em amarelar. Amarelar no sentido de amadurecer.

Um dia, Amarildo amanheceu verde de enjoo. Foi ao médico e descobriu que os seus olhos estavam amarelos. A pele, com manchas azuladas. Meses depois, morreu de hepatite. Branco de virgem e de medo. Ficou cinza. Apodreceu em vez de amadurecer. 

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