sexta-feira, 30 de julho de 2010

 Por dudu oliva


É um romance que mostra a fragilidade humana e de como somos paradoxais. O protagonista anti-herói está mergulhado em delírios, rebeldia e recalques e não consegue sair deste labirinto;

“ Sou um homem doente... Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro de fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói...”

A racionalidade que nossa sociedade tanto preza, em Notas do Subsolo mostra como ela é quebradiça e que o indivíduo moderno à deriva nas grandes cidades, sem família e identidade. 


“ Não sei, não consegui ainda solucionar isso, e naquele instante ainda menos do que agora eu tinha condições de entender o que se passava comigo. Sem tirania e poder sobre alguém eu não posso viver... Mas... mas, com racionalização, não se pode explicar nada e, conseqüentemente, é inútil racionalizar.” 


Enfim, esquecemos de viver a “vida vivida” e nos perdemos em construções e mecanismos racionais pela busca de superioridade me relação ao outro. O protagonista do livro tenta o tempo todo fazer isto, mas sempre fracassa. 

É um crítico feroz da sociedade em que vive, todavia, ao mesmo tempo, almeja estar inserida nela. Muitas vezes, suas críticas são despeitos e ele assume isso em vários trechos. 

“ Eu sei, vão me dizer que isso é inverossímel- alguém ser assim tão mau e idiota como eu me mostrei.”

Realmente, quem nunca passou por isso? Notas do Subsolo é um ensaio sobre a alma humana. Em muitos trechos, reconheci-me como se tivesse me olhando no espelho. Lê-lo é um aprendizado sobre si mesmo e esta tal de “Humanidade” na qual vivemos. 
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quinta-feira, 29 de julho de 2010

João Paulo Mesquita Simões

Esta é a primeira postagem de algumas quintas-feiras, em que vos vou falar da Proclamação da República Portuguesa.

Começo com este documentário bastante elucidativo, convidando-vos também a visitar o nosso país para que possam ver de perto a dimensão desta exposição.

O intercâmbio de culturas, a História dos Países, é que fazem com que tenhamos um conhecimento da História Mundial, para que possamos dialogar sobre factos.

Para nós portugueses, este Centenário da República, está a ser vivido intensamente a todos os níveis.

Não queria deixar de o partilhar convosco, uma vez que as nossas raízes são comuns.

Espero que apreciem, e que tenham a curiosidade de saber algo mais sobre o 5 de Outubro de 1910.

Deixo aqui um repto.

Podem colocar as vossas questões e dúvidas, que eu estarei ao dispor para vos responder.

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terça-feira, 27 de julho de 2010

 de Miguel Angel


Todos os dias, semelhante a ritual, festejam a excitação de seus corpos expostos, acariciados sem palavras e muitos sorrisos; quando a tensão cresce e ele insiste pedindo o número de seu telefone, depois de breve hesitação, ela corre a esconder-se com medo do poder de concretizar desejos ameaçadores de remotas convicções.

 Todos os dias, o jovem amante platônico insiste, pedindo com sinais para lhe passar o número, símbolo de sua aprovação. É quando ela foge, para voltar no dia seguinte depois de ter-se prometido, mais uma vez, terminar com aquilo, renunciar à provocação.
Desafio refletido em todos os espelhos da casa:
Na sala; nos cristais, o silêncio:
Eu tenho uma espécie de vulcão dentro de mim.
Eu posso entrar em erupção a qualquer instante, é bom você tomar cuidado.

No banheiro e nua, os seios entre as mãos; dialogando com o silêncio:
Se eu deixar de manter você engarrafada e entrasse em erupção total, o que aconteceria?

 Marido de malas prontas, com a mesma pressa de sempre se despede; três dias longe; negócios inadiáveis. Parte, e sem o saber, deixa Anamaria com missão secreta e proibida.
Um verdadeiro cartaz, fragmento de alguma caixa de papelão; com o lápis de sobrancelhas, escreve em bom tamanho o número de seu telefone. Depois dança de rosto colado com ele; aninha-o entre seus seios; esfrega-o entre as pernas; murmura canções de ingênua pornografia para ele; enquanto aguarda a coragem.

 A hora do rito chegando, o momento da provocação se aproxima. Anamaria anda pela casa arrastando o pedaço de cartolina e os grandes números parecem pular e dançar com ela; sete números: um para cada dia desde que tudo começou. Eu sei como usar a cartolina... É útil. Eu posso também ser útil. Eu não estou jogada e abandonada, eu posso facilitar as coisas. Eu quero ser útil para o bem de alguém. Ou para o meu bem. Brinca com os números, deita-os no colo, enquanto as imagens eróticas de sua imaginação vão sendo substituídas por as de um passado remoto, mas agora voltando com a arrogância de saberem ter calado fundo: é religião atormentando sonhos sensuais, decompostos em pecados hediondos; é casamento abalizado por resolução e fuga; é mãe admoestando-a por pecadilhos, transfigurados em passaporte para o inferno; é o tempo perdido marcando seu corpo como tatuagem. Anamaria cercada daqueles fantasmas, vai até a janela. Sem abri-la, tira toda a roupa e nua acaricia os números do telefone, um a um estampados no cartaz.
A janela do vizinho espera a pouco mais de dez metros. Anamaria sem lágrimas vai rasgando lentamente o cartaz, número a número no quarto vazio. Eu preciso ser cuidada, como todas as coisas, eu preciso que tomem conta de mim? Derramando-se no chão, se aconchega nos restos de números que se colam no corpo suado e febril.
Você vai enlouquecer? Pelo amor de Deus, pare de ser tão dramática. Não tem mais idade para alguém vir e levar você embora. Se é que você quer ir embora.

 À maneira de epílogo:
Marido voltando de negócios inadiáveis dias depois‚ com a pressa cansada de sempre, não encontra Anamaria em nenhum aposento. Nem bilhete, nem pista. Horas depois de imaginá-la voltando com diversas justificativas e percebendo que a demora está fora da lógica de seus devaneios, atreve-se a imaginar o impensado. É nas gavetas do guarda-roupa que inicia a pesquisa; nada em particular que lhe chame a atenção. Na ansiedade crescente, não percebe a janela entreaberta, e sai do quarto sem ter visto Anamaria, da janela vizinha à sua, situada a não mais de dez metros de distância, expondo por inteiro um amplo sorriso e seu corpo nu.
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Janela 1: http://tudocultural.blogspot.com/2010/07/janelas-1.html
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Janela 2: http://tudocultural.blogspot.com/2010/07/janelas2.html
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segunda-feira, 26 de julho de 2010

Texto e foto: Divulgação


Série de 9 encontros mensais no CCBB/RJ (Centro Cultural Banco do Brasil) que possibilitará o relato da memória artística-cultural de nossas artes cênicas através deste genuíno produto brasileiro: as novelas.

No primeiro encontro teremos um dos maiores ídolos de toda a história da telenovela: Regina Duarte. Ao mesmo tempo em que relata sua carreira, Regina revisa autores, diretores e todo o processo que envolve uma telenovela. Também prestamos uma homenagem aos 45 anos de carreira de uma atriz que encantou e magnetizou o público brasileiro.



PROGRAMAÇÃO

Dia 27 de julho | Os Grandes Ídolos | Regina Duarte


SERVIÇO

Data:
27 de julho de 2010 a 29 de março de 2011
Horário: Terças, às 18h30
Local: CCBB/RJ - Teatro I | Rua Primeiro de Março, 66 - Centro
Senhas distribuídas 1 hora antes do evento
Recepção/Informações: Terça a domingo, das 10h às 21h | Telefone: (21) 3808-2007
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domingo, 25 de julho de 2010

Por Ed Santos







Quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez quase não vi nada, era noite e vinha de um trabalho em Campos dos Goitacazes. Parei prum chope. À noite. Coisa de paulista. Depois estive também de passagem indo de férias pro nordeste por duas vezes, mas nunca havia me hospedado. Desta vez fiquei e fiz questão de me encontrar com o "patrão" aqui do TC. Enfim nos conhecemos pessoalmente, jantamos, conversamos, trocamos livros e demos algumas risadas. Ele até me isentou de não postar nenhum texto no TC naquele final de semana. Mas agora cá estou e resolvi homenagear aos colaboradores do TC lembrando um poema de Carlos Drummond de Andrade, conhecido por seu amor pelo Rio de Janeiro, cidade pela qual também (sem nenhuma novidade!) me apaixonei. Sendo assim, este poema é uma homenagem ao Rio, aos cariocas e aos escritores, que hoje comemoram seu dia. PAZ!


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Retrato de uma cidade

                     I
Tem nome de rio esta cidade
onde brincam os rios de esconder.
Cidade feita de montanha
em casamento indissolúvel
com o mar.

Aqui
amanhece como em qualquer parte do mundo
mas vibra o sentimento
de que as coisas se amaram durante a noite.

As coisas se amaram. E despertam
mais jovens, com apetite de viver
os jogos de luz na espuma,
o topázio do sol na folhagem,
a irisação da hora
na areia desdobrada até o limite do olhar.

Formas adolescentes ou maduras
recortam-se em escultura de água borrifada.
Um riso claro, que vem de antes da Grécia
(vem do instinto)
coroa a sarabanda a beira-mar.
Repara, repara neste corpo
que é flor no ato de florir
entre barraca e prancha de surf,
luxuosamente flor, gratuitamente flor
ofertada à vista de quem passa
no ato de ver e não colher.

                         II
Eis que um frenesi ganha este povo,
risca o asfalto da avenida, fere o ar.
O Rio toma forma de sambista.
É puro carnaval, loucura mansa,
a reboar no canto de mil bocas,
de dez mil, de trinta mil, de cem mil bocas,
no ritual de entrega a um deus amigo,
deus veloz que passa e deixa
rastro de música no espaço
para o resto do ano.

E não se esgota o impulso da cidade
na festa colorida. Outra festa se estende
por todo o corpo ardente dos subúrbios
até o mármore e o fumé
de sofisticados, burgueses edifícios:
uma paixão:
a bola
                o drible
                               o chute
                                             o gol
no estádio-templo que celebra
os nervosos ofícios anuais
do Campeonato.

Cristo, uma estátua? Uma presença,
do alto, não dos astros,
mas do Corcovado, bem mais perto
da humana contingência,
preside ao viver geral, sem muito esforço,
pois é lei carioca
(ou destino carioca, tanto faz)
misturar tristeza, amor e som,
trabalho, piada, loteria
a mesma concha do momento
que é preciso lamber até a última
gota de mel e nervos, plenamente.
A sensualidade esvoaçante
em caminhos de sombra e ao dia claro
de colinas e angras,
no ar tropical infunde a essência
de redondas volúpias repartidas.

Em torno de mulher
o sistema de gesto e de vozes
vai-se tecendo. E vai-se definindo
a alma do Rio: vê mulher em tudo.
Na curva dos jardins, no talhe esbelto
do coqueiro, na torre circular,
no perfil do morto e no fluir da água,
mulher mulher mulher mulher mulher.

                                      III

Cada cidade tem sua linguagem
nas dobras da linguagem transparente.
Pula
do cofre da gíria uma riqueza,
do Rio apenas, de mais nenhum Brasil.
Diamantes-minuto, palavras
cintilam por toda parte, num relâmpago,
e se apagam. Morre na rua a ondulação
do signo irônico.
Já outros vêm saltando em profusão.
Este Rio...
Este fingir que nada é sério, nada, nada,
e no fundo guardar o religioso
terror, sacro fervor
que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga,
e no altar barroco ou no terreiro
consagra a mesma vela acesa,
a mesma rosa branca, a mesma palma
à Divindade longe.

Este Rio peralta!
Rio dengoso, erótico, fraterno,
aberto ao mundo, laranja
de cinqüenta sabores diferentes
(alguns amargos, por que não?),
laranja toda em chama, sumarenta
de amor.
Repara, repara nas nuvens; vão desatando
bandeiras de púrpura e violeta
sobre os montes e o mar.
Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando.




 
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond
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sábado, 24 de julho de 2010

Gustavo do Carmo




PADRE

A doce senhora ensinou a rezar o Pai Nosso ao vigário. Ele estava se recuperando de uma amnésia provocada por uma batida na cabeça após um tombo.


PEDRA NA CRUZ
Jogou uma pedra para acertar a cabeça do pivete que lhe roubou a bolsa no cemitério. Mas o que ela acertou foi a cruz de um túmulo distante.


LEITE
Deixou cair o leite no chão quando soube da notícia que o irmão foi atropelado e morreu.


DICÇÃO
Tinha um problema grave de dicção. Cuspia muito toda a vez que falava. Inclusive no prato depois do almoço.


VELA
Ia passear com a irmã e o cunhado no shopping quando sua mãe lhe pediu: _ Filho, se você passar pela C&C ou na Leroy traz uma vela para o filtro? Atendeu o pedido materno e veio segurando a vela.


VIDA
Confessou para o amigo: - Depois de resistir tanto, vou deixar a Vida me levar. E Vida o levou ao proctologista para fazer exame de próstata. Vida era o nome de sua esposa.


MÚSICA
Destruiu o CD de funk que estava tocando na festa. Se recusava a dançar conforme a música.


MUNDO
— Meu mundo caiu! Disse o estudante quando o seu globo terrestre caiu na caixa de esgoto.


MICO
Foi preso por crime ambiental depois que comprou um mico-leão dourado numa feira. Pagou ainda uma multa no valor do animal.


DEVAGAR
Devagar se vai ao longe! Disse o idoso dirigindo o seu Romi-Isetta. Encerrou a volta ao mundo no Rio de Janeiro com o carro que comprou 0 km em 1958.
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

João Paulo Mesquita Simões

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terça-feira, 20 de julho de 2010

de Miguel Angel


Preparando caprichado jantar, Anamaria se espanta com a audácia de sua imaginação, mostrando-a participando em cenas de ardente sexualidade, tendo de parceiro o sedutor voyeur, seu novo vizinho.

Anamaria, coquete, se embeleza com maquiagens e realça propositadamente as formas de seu corpo com lingeries esquecidos de pouco usar. Excitada, afasta imagens que teimam surgir em sua mente com a velocidade de um piscar de olho e com a força erótica de uma compulsão.
Impaciente espera a chegada do marido.
Distrai-se com os últimos retoques de requintado jantar.
Evita cuidadosamente chegar perto do quarto e sua janela, ainda que escondendo miradas fugazes para ela.
Cantarola, acompanhando a música do rádio.
Baila, bebe, espera, para não pensar.
Finalmente se aquieta, cansada do marido demorar demais.
Pula quando o telefone toca: o marido vai se atrasar; negócios inadiáveis; desculpas; noite perdida.
Um minuto depois, enrubesce à mercê de sua excitação.
Parecendo uma ladra, vai até o quarto.
Como uma bisbilhoteira, abre a fresta da janela e espia: lá está a do vizinho, escancarada, parecendo um convite: mas o quarto iluminado mostra seu vazio. Vai desistir e se recolher, quando a chegada do jovem vizinho a imobiliza: molhado e nu, esfregando as costas com uma toalha, se comporta com a naturalidade de quem se sabe só. Como ela de horas antes, também cantarola - ela adivinha ou gostaria - a mesma música que está escutando em seu próprio rádio.
Se agita, no entanto, fascinada com a visão proibida, não consegue afastar-se. Observa os movimentos do vizinho por minutos largos; subitamente, como a pressentindo, ele se vira na sua direção: já sorrindo malandro, parece saber de sua presença. Impossível, a escuridão é total no seu quarto, mesmo com essa certeza ela corre fugindo da visão e especialmente do que sente.

O dia seguinte de noite mal dormida traz para Anamaria a rotina de sempre, começando com a despedida nervosa do marido indo para o serviço, atrasado, sempre, o tempo todo, em tudo.
Sozinha de novo, mas de outra maneira; agora tem o estímulo de exercer um jogo desconhecido para ela, o da sedução: fingindo indiferença, abre a janela do quarto de par em par evitando olhar para a do vizinho; minutos depois de fingir concentração nas tarefas de arrumação, se atreve a olhar e com desconforto a descobre fechada.
Como a janela dele, também Anamaria fecha a cara.
Será dia tedioso, com intervalos tensos só quando vai até o quarto e constatar que a vizinha janela permanece fechada e silenciosa.

 Anamaria inquieta, tomando banho, de repente acredita ter ouvido ruídos; a voz de um chamado? Hesita 5 segundos para sair do banheiro; centelha molhada em direção à janela do quarto; ofegante e cuidando para não ser vista, espia e: é ele! Guardião vigiando sua janela. Só nesse instante percebe que, molhando o chão, está com sabão no corpo e que está feliz! Ri de sua criancice e corre de volta ao banho.

 Vestida com minúsculo e apertado short, blusa de profundo decote, Anamaria refaz a cama pela terceira vez; tem certeza que ele está lá, observando-a, esperando ela se virar na sua direção. Nervosamente ela o evita; mas, consciente do jogo sedutor se exibe ostensivamente ao desejo que sabe estar estimulando; até que aparentando casualidade o encara: ele lá, torso sempre nu, sorriso largo, braços fortes e mãos! Uma delas faz sinais que ela não entende imediatamente. Estática não atina a nada, apenas olhar, assustada com ela e com a nova situação; já não é mais fantasia, a nova realidade exige uma atitude, chocante em sua simplicidade: ele faz sinais lhe pedindo o número do telefone! Pouco a pouco enquanto espera a resposta, como gato mimado ele se afasta da janela lentamente; anda de costas sem tirar os olhos dela, expondo devagar o corpo antes oculto pelo peitoril, até mostrar-se por inteiro para ela o constatar nu, oferecendo-lhe sua excitação; o convite no mirar e nos gestos não deixa dúvidas: ele lhe pede para fazer o mesmo. Maquinal, obedece tirando toda a roupa, e também ela afasta-se da janela para também ser vista por inteiro.
Aquele momento é longo, ambos se desfrutando como num feitiço. Distância pequena os separa, contudo, larga demais...

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segue na 3ª feira
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sábado, 17 de julho de 2010

Conto de Gustavo do Carmo

Uma semana depois, o caça-talentos ligou de sua corretora avisando que agendou o teste na terça-feira seguinte, no início da tarde. Ambos pediram folga extra aos seus respectivos superiores prometendo compensação. Breno trabalharia duas madrugadas seguidas, algo que não faz. Agostino abriria mão de um dia de férias.

Foram ao clube. O mesmo onde levou Michelle, filha de Eliélton, para fazer o teste do vôlei. Breno e Agostino encontraram com o primo deste segundo: Severino. Este trabalha no clube e também ajudou a agendar o teste com a menina, mas não havia ido trabalhar naquele dia.

Desta vez, apareceu e fez questão de conhecer a nova promessa do primo. Queria conferir de perto se o primo desta vez conseguiria emplacar algum talento. Apresentou as instalações de futebol a Agostino e seu, digamos, pupilo. Os dois também conheceram o treinador responsável pela peneira.

Jamílson era um ex-jogador que encerrou a carreira precocemente e formou-se em educação física. Era mais negro e tinha uma barriga de chope que o aspirante não tinha. A única coisa em que combinavam era a cabeça praticamente nua de cabelos.

O técnico convida Breno para ir ao vestiário trocar de roupa e iniciar o teste. Antes de se afastar do seu (quem sabe?) provável descobridor, ele lhe agradece pela oportunidade e recebe em troca um boa sorte.

Acompanhando a cena, Severino, seu primo, o leva para um canto da entrada do campo e adverte:

— Vem cá? Tem certeza que esse cara aí é bom, né?
— Claro que é.
— É bom ser mesmo. Pois se ele sair mal no teste eu nunca mais te deixo trazer gente para descobrir talento, hein? Levei um baita esporro do coordenador do clube quando te deixei trazer aquela menina pro vôlei. Se esse Breno não der certo eu poderei ser demitido.
— Pode ficar tranqüilo que o Breno vai emplacar. Não precisa se preocupar.

E Severino realmente nem precisou se preocupar. Breno se saiu muito bem no teste. Das vinte bolas que recebeu de Jamilson dominou todas e acertou quinze na rede, das cinco que errou, quatro bateram na trave e isolou apenas uma.

Houve uma alegria coletiva naquele clube. Sorrisos por todos os lados, mas cada um com um significado diferente. Expectativa da parte de Jamílson, que teve a esperança de descobrir mais um reforço para o time do qual é auxiliar técnico. Felicidade de Breno, que estava realizando, sim, o sonho de ser jogador profissional, que tinha desde menino, ao contrário do que havia dito antes, mas as dificuldades da vida o levaram para ser motorista de ônibus. Alívio para Severino que vê finalmente o primo emplacar algum talento e não sujar o seu nome como funcionário do clube. E Agostino, claro, ia conseguir o que tanto queria desde que chegou ao Rio: revelar um talento.

Depois do teste técnico, Breno foi convidado para participar do coletivo com o elenco profissional, atuando no time dos reservas. Agostino queria assistir mas precisou ir para o trabalho, deixando o clube, prometendo voltar no dia seguinte para confirmar se ele foi ou não aprovado e, talvez, ver o primeiro talento que conseguiu indicar assinar contrato e ganhar uma comissão. Severino também precisou voltar para a sua função de contínuo.

Depois do trabalho, Agostino ligou para Breno, perguntando se ele foi aprovado.

— E aí cara? Como foi no coletivo? Foi contratado?
— Passei no teste. Joguei no time profissional reserva. Ganhamos o coletivo, fiz três gols de cabeça. Mas ainda vou fazer os exames médicos para assinar o contrato.
— Então você já está contratado. Com certeza vai passar.
— Quem sabe? Mas estou um pouco pessimista. Eu tive um problema cardíaco quando criança. Não sei se vão me aprovar.
— Claro que vão. Você vai tirar isso de letra. Vamos sair para comemorar?
— Olha, não dá. Além de não querer comemorar antes da hora eu vou fazer plantão hoje na empresa.
— Tudo bem. A gente combina outro dia então.
— Ok. É até bom a gente discutir isso. A comissão que você quer, entre outras coisas. De qualquer forma quero te agradecer por tudo que está fazendo por mim.
— Não precisa agradecer. Eu estou aqui neste mundo para isso. Para descobrir talentos. Não tive muita sorte com algumas pessoas, mas você será o verdadeiro talento.

Depois de outras futilidades os dois se despediram do telefone. Não imaginavam que seria a última conversa entre os dois. Horas depois, Breno embarcava para o que acreditava ser mais uma viagem de trabalho de muitas.

Dirigia seu ônibus semivazio, lotado apenas por ele e mais três passageiros: um estudante moreno claro, uma senhora gorda e negra e uma mulata de cabelos louros num vestido justo, segurando uma bolsa. Não havia trocador. Era ele mesmo quem recebia o dinheiro pelas passagens.

Passava por uma rua erma próxima a uma favela. Alguém lhe deu sinal para parar fora do ponto. Mesmo desconfiado com a aparência dos passageiros, parou por puro profissionalismo.

Eram dois negros como ele, com roupas largadas e rasgadas, cheiro de bebida e dentes branquíssimos. Um deles com os cabelos pintados de louro. Ambos têm voz carregada de gírias, mas o outro, um careca, xingou, depois de ver o ônibus vazio:

— Caralho! A porra desse ônibus tá vazio, muleque! Num dá pra assaltá ninguém hoji.
— Aí! Vamu assaltá assim mermo. Vai dar pra tirá alguma coisa! Insiste o “louro”.
— Dá nada! Muita poca gente!
— Mas tem um playboy ali cheio de rôpa de marca.

Os meliantes pulam sobre a roleta. O “louro” tira a sua arma da cintura da bermuda e rouba a mochila de marca do estudante, jogando seus livros pela janela aberta. O careca rouba o relógio da moça, a bolsinha de trocados da idosa e o mp3 do estudante. Antes de sair, faz questão de dar um tiro certeiro na cabeça de Breno, que cai morto sobre o volante. O estudante assaltado corre para o volante, pula a catraca e pisa no freio.

Ansioso para oficializar a revelação do primeiro talento que descobriu Agostino madruga no clube. Vai direto ao campo de futebol, sem sequer procurar pelo primo Severino. Mas este logo o encontra e diz, com semblante fúnebre:

— Você ia passar direto por mim, né? Mas preciso te dizer uma coisa.

Achando que Breno teria se saído mal em outro teste ou mesmo tendo descoberto que o problema de coração que tinha o impediria de iniciar uma carreira profissional de jogador de futebol, Agostino resignou-se:

— O Breno não serviu, né?
— Vem cá que eu vou te levar pra falar com o Jamílson.
— Cara, o que houve?

Agostino não teve resposta do primo enquanto não o colocou em contato próximo do responsável por treinar os novos talentos. Encontrou Jamílson também com fisionomia mortuária, tendo o acréscimo do brilho das lágrimas em seus olhos.

O pernambucano que tentava descobrir talentos desde que chegou ao Rio apavarou-se com o clima de tristeza no clube. Não era só do primo e do treinador. Apreensivo perguntou:

— O que houve, Jamílson? O Breno não foi aprovado.
— Aprovado foi. E era uma das melhores promessas do clube.
— Já sei. Alguém foi mais esperto do que a gente e contratou o cara?
— Não! Respondeu Jamílson impaciente.
— O que houve, então?
— O Breno morreu!
— Quê isso, cara???? Não brinca!!!!
— Não estou brincando. O Breno morreu ontem de madrugada.

Arrasado, Agostino tenta suspirar fundo e pergunta:

— Foi coração? Ele teve um problema cardíaco quando criança.
— Não. Foi assassinado. Levou um tiro na cabeça de um assaltante no seu turno de motorista de ônibus.

A ficha caiu e Agostino deu um grito que ecoou por todos os departamentos do clube:

— NÃÃÃÃÃÃO!!!!!!!!!!!!!!!

Saiu esbaforido e atravessou todo o corredor do clube. Do campo à portaria. Ganhou a rua. Não viu o táxi que passava em alta velocidade. Voou alto.

Agostino teve alta do hospital após seis meses de coma. Recebeu a visita de Eliélton e sua filha Michelle Silva, que acharam melhor não contar para ele que o pedreiro ia gravar um CD e que a menina fora contratada por um grande time de vôlei para atuar na equipe juvenil.

Desistiu de caçar talentos. Decidiu desenvolver o próprio. Dedicou-se a fundo ao trabalho, estudou e foi aprovado no vestibular de arquitetura.

Dez anos depois já estava formado e realizado na profissão. Agostino tornou-se um homem de negócios, sem tempo de ler o caderno de esportes do jornal, que anunciava Michelle como a melhor jogadora das olimpíadas, após ajudar a seleção brasileira a conquistar uma medalha de ouro. No caderno de cultura um anúncio de um DVD com o dueto de Martina Reis e Eliélton da Silva. O arquiteto só lia os cadernos de economia e de imóveis.

FIM

4a Parte
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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Por dudu oliva

Não quero mais pensar que a grama do vizinho é mais bonita

Não quero mais pensar em ser tão inteligente como fulano de tal

Não quero mais pensar no "se" tivesse nascido em outro país, seria mais feliz

Não quero mais pensar em ser outro 

Não quero mais pensar em ser aprovado por alguém

Não quero mais pensar em ser colonizado

Liguei o botão do “ DANA-SE”

Quero ser eu
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Quero abrir a porta

Quero abrir a porta...
E ver o que tem...
Lá dentro!
Provavelmente ele está lá!
Mas não sabe disto
Está batendo a máquina
Esta fazendo barulho
Provavelmente vai acordar a todos
Não quero abrir a porta!
Para não ver...
...o que está lá dentro!
Provavelmente
Ela está por lá
Digitando algum texto!
E vai fazer barulho!
Vai acordar a todos
Pois todos estão dormindo!
Já faz tempo!
Pois eu sei!
Mas ela não sabe...
Mas está viva!
Bem viva pôr sinal
Mas eles sabem disto...
Quero fechar a porta!
E esquecer...
O que tem lá dentro
Pois ela estava morta!
Não queria viver...
Quer ir para bem
Para bem longe
Daquilo tudo!
Pois ela não sabe
Mas eu estou vivo!
Embora combalido
Estou vivo
E bem vivo
Apesar toda ausência...
Dela em minha vida
Quero fechar a porta
As janelas
E me esconder
De toda a ausência
De toda a dor
Não quero ver o sol
As estrelas
Os astros
Só quero fechar
A porta
E esquecer
Que um dia
Amei-te!
Mas que a mim mesmo
Hoje
Só quero fechar a porta
E ir embora...
De toda a tua ausência!
De toda a dor!
Samuel Congo da Costa é poeta em Itajaí SC
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terça-feira, 13 de julho de 2010

de Miguel Angel

 Anamaria está tomando banho dentro de amplo boxe; aparenta pouco mais de trinta e cinco anos, num corpo atraente. Ao principio seu comportamento mostra-se natural; mas aos poucos, a mão que ensaboa o corpo mecanicamente, vai sofrendo mudanças: seus movimentos se tornam mais lentos até explicitar, para sua surpresa, carícias sensuais que a excitam; ela enrubesce, fecha os olhos com força, afasta a mão como se esta não lhe pertencesse, disfarça esfregando com fúria o rosto; em segundos, lá está aquela mão inconveniente provocando-a novamente. Em rápidos flashes lembra as frustradas tentativas de manter relações sexuais com o marido; o cansaço que o derruba no sonho profundo em meio de uma relação; quando conseguida até o fim, o resultado insatisfatório a relegando ao desamparo; depois, as justificativas moralistas para evitar conversas em torno do assunto.
Agora se enxuga com raiva, olhos vermelhos de auto-piedade; sai nua do banheiro; no quarto bate ruidosamente as gavetas à procura de roupas que não encontra. Anamaria tentando esquecer as palpitações de seu corpo independente e preterido não pode perceber que está sendo observada da janela vizinha à sua, situada a não mais de dez metros de distância no mesmo nível horizontal da sua: é um homem apoiado no peitoril, mostrando seu torso nu, sólido de juventude; ostenta branco sorriso indiscreto e um mirar que não esconde sua excitação; imóvel e silencioso, olha para ela.
Ela no pode vê-lo, ocupada demais em tentar esquecer a raiva; escolhida a roupa com apatia e ainda nua, evita o espelho virando-se em direção à janela aberta: a surpresa a imobiliza por segundos ao descobrir o curioso, instantes que ele aproveita para simular sorriso maroto de menino pego em flagrante, mas sem esconder a perturbação que a visão de sua nudez lhe provoca. Reagindo impulsivamente, ela corre até a janela e a fecha prontamente, enrubescida de timidez e indignação com a impertinência. Depois de o fazer, não consegue evitar um sorriso furtivo que a assusta.
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Segue
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domingo, 11 de julho de 2010

Por Ed Santos


Se em ano de Copa do Mundo os feriados quase passam despercebidos, imagine as outras datas comemorativas, aquelas que ninguém lembra? No reveillon o Brito conheceu a Mirian na casa de uns amigos em comum e depois de trocarem telefones e marcarem de sair, começaram a namorar. O dia da oficialização foi 29 de Janeiro, no aniversário do sobrinho da Mirian, que também serviu para a família conhecer o namorado.
Na primeira viagem juntos, no carnaval, tiveram a primeira briga. Os olhos do Brito deram uma pequena desviada em direção de uma bunda exposta ao sol, e logo foi decretado o dia internacional da insatisfação feminina.
No mês de março a Mirian começou a pegar pesado. Fez questão de dizer ao pai que o namorado, iria fazer um churrasco em homenagem ao sogro. Ela só não sabia se o namorado iria comemorar o Dia do Sogro ou o dia do Vendedor de Livros, profissão do sogro antes da aposentadoria. “Prefiro que seja no sábado dia 19, que á dia do artesão. Depois posso descansar no domingo”, disse o pai desconversando.
O namoro transcorria dentro da normalidade, até que o Brito percebeu essa coisa da Mirian com as datas. Dia desses ele ficou sabendo pela mãe da moça, que ela ficou assim fissurada com as datas comemorativas, que sempre teve problema com empregos. Tudo começou quando num dia de finados, ela e uns amigos iam viajar e um deles morreu caindo do trem ao sair do serviço e indo encontrar com os amigos. Depois daquele dia, a Mirian deixou de viajar em feriados e ficava pensando na fatalidade da morte do amigo toda vez que uma data comemorativa se aproximava. Natal e Reveillon, pra ela não existiam. Esse mais recente foi o que fez ela sair de casa, porque o pessoal todo tinha combinado de que ninguém iria de branco, e quando desse meia noite, ninguém iria parar de dançar pra brindar nada. A intenção era parecer uma festa normal. E foi. Depois daí Mirian ficou mais amena com as datas comemorativas, apesar de saber todas, ou quase todas de cor.
A pensativa Mirian começou a ficar preocupada. Sexta-feira, o namorado deu de ombros e fingiu que não ouviu quando a moça disse que estava pensando em trocarem alianças no dia 15 de agosto, que é o dia do solteiro. Apenas pra contradizer a data. Mas o Brito resolveu mudar de assunto e disse que iriam primeiro curtir a vida e aproveitar o momento. Disse que pediria uma pizza no sábado, que por acaso é o dia da pizza, e que na terça, iriam curtir um som pra comemorar o dia do rock.
Mirian triste e descompassada foi correndo ver no calendário qual era a data do fim de seu namoro. Ao que tudo indicava, Brito também havia se apegado às datas e passou a vivê-las como a namorada. Ficou feliz ao ver que o Dia Internacional do Homem é só no dia 19 de novembro e acalmou-se um pouco.
Na quinta-feira ela se surpreendeu com as palavras do noivo: “Mirian, não dá mais pra ficarmos juntos”, avisou e foi-se. Ela correu na folhinha e foi conferir que dia era aquele: no Brasil, no dia 15 de julho, é “celebrado” o dia do homem.
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sábado, 10 de julho de 2010

Por Gustavo do Carmo
Agostino conseguiu o emprego e conseguiu convencer Martina a fazer um teste como cantora. Por telefone marcou com ela uma audição em um dia de folga na mesma rádio Nacional onde levou o ex-colega pedreiro e foi atendido pelo mesmo diretor mal-humorado que reprovou (merecidamente) Elielton.
— Eu não acredito! Você de novo??? Espantou-se o diretor que ironizou:
— Veio trazer quem? Uma nova Madonna?
— Uma nova Elis Regina!
Mantendo o deboche o diretor caiu literalmente na gargalhada. Parecia a primeira vez que ria na sua vida. Mas era um riso de sarcasmo, lógico. Depois de enxugar as primeiras lágrimas, ele autoriza:
— Cadê ela, então? Pode mandar entrar.
— É... que ela ainda não chegou. Respondeu um constrangido Agostino.
— Você só pode estar de sacanagem comigo! Faz o seguinte: quando a sua Elis Regina chegar você me avisa, tá? Tenho mais coisas pra fazer.
O diretor mal-humorado sequer foi avisado, pois Martina não apareceu na rádio. Agostino esperou por três horas. No primeiro minuto da quarta hora, desceu de elevador para o térreo, deixou o prédio do edifício A Noite em direção ao primeiro orelhão que avistou.
Ligou para a casa da amiga alcóolatra. E foi embriagada que ela atendeu o telefone após cinco toques. Sua voz estava irreconhecível.
— Alô! Atendeu, com a língua enrolada.
— É a Martina?
— É sim! Por quê?
— Martina, é o Agostino. Nós marcamos de nos encontrar aqui na Rádio Nacional para você fazer um teste. Você não vem?
— Aaaaah, não! Tô passando mal! Acabei de vomitar agora de tão bêbada que eu estou.
— Dá pra imaginar pela sua voz.
— Canta aí por mim!
— Você não me disse que queria ser uma cantora famosa? Vai jogar uma oportunidade pela janela assim por causa da bebida? Perguntou Agostino impaciente.
— Eu não falei nada! Você que cismou com esse negócio de eu cantar.
— Então tá. Você não vem mesmo, né? Eu tentei te ajudar. Então, passe muito bem!
— Obrigada! Passe bem você também! Mas já disse que não quero ser cantora. Vai me obrigar? Tu é muito chato, tchau!
A linha de Martina caiu e Agostino ficou novamente sozinho na Praça Mauá.

***
Voltando do seu trabalho, na corretora, Agostino resolveu dar uma caminhada até o Aterro do Flamengo antes de pegar o ônibus para o subúrbio. Parou na frente de um dos campos de futebol society e ficou observando um jogo.
Pensava em mais quatro frustrações que teve no período: uma atriz muda na hora do teste, uma bailarina desajeitada que torceu o pé e um ator que faltou no estúdio porque foi preso por tráfico de drogas.
Um jovem forte, careca e de pele mulata lhe chamava atenção na pelada. Dominava a bola com facilidade, marcou seis gols, metade deles de cabeça. Era alto e, por isso, especialista em jogadas aéreas.
Assim que acabou o jogo, Agostino entrou pela porta de ferro da grade e aproximou-se do atleta. Teve que erguer o seu braço curtinho sobre os ombros altos e largos do futebolista.
— Com licença?
— O que foi? Quem é você? Apesar de estar empapado de suor, o jogador, que se chama Breno, perguntou seco e ofegante:
— O que foi? O que você quer?
— Eu vi você jogando. Se saiu muito bem. Parabéns!
— Obrigado. Mas você não respondeu à minha pergunta. Qual o seu nome?
— Oh! Perdão. Meu nome é Agostino. Sou caçador de talentos.
— Tá! Sei! Você é um daqueles empresários caras-de-paus que ficam rondando os jovens aspirantes que sonham em brilhar pela seleção mas vivem sendo iludidos! Ironizou, desconfiado, Breno.
— Não! Fica tranquilo que eu sou de confiança!
— Mas todo empresário picareta diz que é de confiança.
— Mas pode confiar em mim.
— Você é credenciado na FIFA pelo menos?
— Ainda não. Mas se você...
Agostino é cortado por Breno:
— Então cai fora, meu amigo! Eu não vou arriscar a minha carreira com gente irregular não. Quero gente séria! Aliás, você nem falou pra onde você vai me levar pra fazer esse tal teste.
— Calma, calma! Eu tenho um primo que trabalha num clube em Botafogo. Eu vou falar com ele pra ver quando tem uma peneira e eu ligo pra você.
— Mas eu não estou interessado, não. Jogo bola apenas para me distrair do trabalho de motorista de ônibus. Não tenho interesse nenhum em me profissionalizar.
— É uma pena. Os grandes clubes do Brasil e a seleção vão perder um grande artilheiro.
— Eu sou bom aqui na pelada no time da empresa de ônibus. Mas não vou me dar bem atuando no profissional. Agora, me dá licença que eu preciso ir para a garagem tomar banho e fazer o turno da noite. Disse o agora motorista de folga Breno, secando o rosto e guardando a toalha na mochila.
— Pensa bem, meu amigo.
A frase de Agostino derrubou a segurança do aspirante a atleta trabalhador, que ficou em silêncio por quase um minuto. Deixou a quadra sem se despedir dos colegas que imediatamente ficaram preocupados. Pensaram até que ele estivesse sendo assaltado, pois Agostino é um desconhecido para eles. Um deles chegou a perguntar a Breno se estava acontecendo alguma coisa.
— Não, nada. Esse rapaz só veio me dar um recado.
Em seguida, voltou-se para Agostino e aceitou a proposta, mas exigindo:
— Está bem. Vou confiar em você. Mas quero todos os seus dados pessoais como telefone, endereço e até número de documentos. Se eu descobrir que estou sendo enganado coloco a polícia atrás de você.
— Tudo bem. Eu entendo a sua preocupação.
Resignado, Agostino deu todos os seus dados: nome completo, endereço, telefone da corretora porque não tem em casa, endereço da corretora, identidade e CPF. Ganhou também quase os mesmos dados de Breno, com exceção dos registros civis.

Continua...


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