terça-feira, 30 de março de 2010

de Miguel Angel


(...)E quando contara do assédio daquele enfermeiro, quando chegara a tombá-la numa cama, botando praticamente tudo para fora das calças e só não a estuprara porque alguém aparecera? (Na verdade nem chegara a tanto, e o enfermeiro não era enfermeiro e tinha nome, Lívio. Tinha-a ajudado a se deitar em cama provisoriamente vazia, sensibilizado com seu cansaço. Sentara na cadeira ao lado, alisara seus cabelos, brincara de canção de ninar em seu ouvido, intercalada com palavras amorosas que aos poucos foram se tornando confissão: gostava muito dela, o excitava desde o principio. E os lábios dele encostaram-se aos seus; abriu a boca permitindo a língua brincar com a dela. Mais por lassidão deixou a mão dele abrir a blusa, apartar o sutiã, afagar os mamilos. Era doce descansar assim, relaxar após tanto sangue e estrondo, dona de certos direitos que podia exercer. Gratificante e deleitoso sentir aquela língua quente roçando nos mamilos, a boca sugando-os. De repente veio à lembrança outra boca babenta fazendo o mesmo num domingo qualquer, há muito tempo, fazendo-a reagir, levantar e sair quase correndo... Claro, não contou a Lauro, preferiu omitir detalhes e nomes, assim, no anonimato, parecia mais perigoso, mais dramático... e ela menos puta!) "A atriz deve trabalhar a vida inteira, cultivar seu espírito, treinar sistematicamente os seus dons.” Lauro comentara pouco ou nada. Quão lacônico era aquele amor. Por onde andava Lauro? Sabia onde fisicamente, pelo menos por enquanto - ninguém podia saber com exatidão o que aconteceria naquela guerra no dia seguinte -, mas onde em espírito? Com quem? Uma outra mulher? Seria bom se fosse, uma coisa real, com cabelos sedosos com certeza -, voz e corpo, enfim. Saberia como agir, falar. Não. Não era outra mulher. Nada muito concreto. No inicio, toda vez que tocava no assunto, ele escapulia, mudando de conversa. Isso também a aborrecia! Mentia se lhe perguntavam, dizendo seu noivo se encontrar lutando no front. Qual front? O único front conhecido era o bar, a Livraria Teixeira, o cinema. E Fausto. Estaria perdendo Lauro ou era ele o perdido? Não via o povo nas ruas gritando, lutando e até morrendo? Só se falava nisso:
a Revolução Constitucionalista Paulista! A traição de Miguel Costa, Vargas, Góis, o salvador Euclides Figueiredo... Isso não era mais importante que as lições de interpretação? ("Não, a arte fica e as revoluções passam, emporcalhando de sangue inocente a História, sem nunca conseguirem justificar ou alcançar o ideal que as motivou.”) Ou, então o que? Talvez por causa do aborto? Fora de comum acordo. Quando o médico amigo de Lívio terminara o serviço, Lauro nem parecera muito preocupado. Bem, sim. Foi carinhoso e atencioso. No entanto, Lívio foi mais.(...)
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Fragmento do romance "A Cena Muda" de Miguel Angel Fernandez
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domingo, 28 de março de 2010

Por Ed Santos


Numa dessas viagens de trem que faço freqüentemente, sempre levo comigo um livro, papel e caneta. O livro tem sua utilidade óbvia e papel e caneta servem pra registrar muitas das idéias que tenho durante o percurso e que tento traduzir nos meus escritos. Diferente do que sempre faço, hoje transcrevo uma anotação registrada num dia em que não levava nada comigo, nenhum dos meus objetos. Apenas observei os acontecimentos ao meu redor. Será que conseguirei?
“Ele brigava incansavelmente, dedos suados, com as folhas sujas de um jornal que noticiava nada muito diferente do que a sua estrutura escrota. A escrita nesse caso nem fazia sentido. A pele oleosa refletia a carência de cuidados, carinho, sorte, enquanto o outro ao lado, descansava com os olhos abertos e a boca fechada.
Do lado oposto ao que dormia, um livro sagrado era folheado despretensiosamente por uma jovem com um decote que ia ate o pouso do livro, e que favorecia aos olhares alheios. Aparelhos MP3 MP4, MP10, celulares, óculos escuros e tatuagens conviviam tranquilamente com a demora da composição. Tênis sem meias, gente dormindo, pacotes e sacolas se esbarrando e se amontoando no momento do embarque/desembarque e um outro tentava descobrir em pensamentos, o que havia acontecido com a moça de bermuda jeans por ela estar tentando esconder atrás dos óculos, o roxo no olho esquerdo.
Antes de descer ele ainda teve que ouvir um artista de rua dar seu show. O cantador de coco tratou de tirar seu pandeiro da sacola de mercado, botou uns cds no chão ao lado de uma garrafa de água que dentro tinha um filhote de cobra morta que ele chamava de Teresa, e começou o repente falando da vida do rico e da vida do pobre.
Tenho certeza que aquele homem ao ver o cantador falando da vida do pobre pensou em todo sofrimento que já havia passado até ali. O olho suado revelava que a vida não tinha sido fácil. Vida de pobre que às vezes tem que vender a janta, e que nem sempre tinha  dinheiro para pagar a passagem do trem. 
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sábado, 27 de março de 2010

Por Gustavo do Carmo

Já fui fã. Fã ardoroso de uma jornalista. Criei uma comunidade no orkut para ela. Hoje não sou mais. Dei a comunidade para outra pessoa. A jornalista de quem eu era fã não se importou com a minha idolatria. Me tratou apenas como mais um fã. Como se na sua posição tivesse o direito de ter vários. Não era conhecida nacionalmente até semana passada e, até então, peregrinava por emissoras com contratos temporários. Se for para ser visto de cima do salto, prefiro idolatrar a Fátima Bernardes, que tem muito mais talento e experiência. Agora ela foi transferida para São Paulo, capital informal do país e do salto alto.

Eu achava que essa jornalista de quem eu fui fã seria mais simpática. Quando a convidei para o lançamento do meu primeiro livro, ela ignorou. Não foi (o que era esperado), mas não mandou nem uma mensagem me cumprimentando ou mesmo avisar que não poderia ir. Tudo bem. Só fiquei magoado quando ela não me aceitou no MSN.

Aí vai aparecer um espírito-de-porco para dizer: “Ah! Tá querendo o quê? Casar com ela? Cai na real, cara! Ela é casada! E além do mais, ela nem te conhece pra te aceitar no MSN”. Eu sei que ela é casada! E muito bem casada! No entanto, uma amizade não faz mal a ninguém. E eu não sou um Zé Ninguém. Sou jornalista e escritor. E ela também não é estrela para se achar superior aos outros. Pois, como jornalista, ela também tem a obrigação de procurar contatos com desconhecidos. Bem, não posso mais me imaginar casado com ela. Seu estilo de vida é muito superior ao meu.

Aliás, se eu disser que a minha idolatria nunca teve nenhum interesse estaria mentindo. Claro que eu tinha um pequeno interesse sentimental e profissional, sim. Se eu conseguisse o que queria seria lucro, mas não foi o fim do mundo quando eu descobri que ela não era nada daquilo do que eu imaginava sobre ela: aquela jornalista de interior, solteira, humilde e simpática como parecia nos tempos em que trabalhava na afiliada de uma grande emissora. Ela já se achava a diva que tenta ser até hoje. O que poderia ser uma amizade se transformou num amor platônico, mas deixa pra lá.

Da mesma afiliada tive uma rusga com outra jornalista, que havia marcado uma entrevista comigo para eu homenagear a emissora, mas deu o bolo. Não deu nenhuma satisfação. E ainda achou ruim quando eu liguei insistentemente para cobrar uma explicação. Fiquei sabendo que ela me chamou de estrela, se fez de vítima ao se sentir ameaçada e se mudou para outra cidade.

A vaidade dos jornalistas não é exclusiva das mulheres, não. Tive um colega na faculdade que se tornou muito meu amigo. Ele começou a estagiar em uma rádio, mas manteve a humildade. Poucos anos depois, mais para o fim do curso, entrou numa extinta agência de notícias. Continuou solícito e acessível, mas mudou da água para o vinho (caro e inacessível) no último período da faculdade. Tudo bem que metade da sua arrogância foi influência de uma namorada igualmente arrogante e totalmente antipática. Porém, foi só a tal agência ser vendida para um famoso jornal, que ele vestiu a camisa do estrelismo e passou a só me procurar quando lhe conviesse ou eu lhe procurava. Como era sempre eu quem procurava, desisti e já não considero esse cara como meu amigo. A não ser que calce as sandálias da humildade e me procure.

Já vi conselhos de que é preciso evitar gente pobre e sem cultura para crescer na vida. Também fiquei sabendo que vencedores devem evitar perdedores. Será que é por isso que as pessoas que sobem de posto e ficam famosas calçam aquele salto plataforma de um metro para esnobar os mais simples? Não sei.

Não escrevi esta crônica para responder ou procurar resposta sobre como a fama, o poder e o sucesso mudam o caráter do ser humano que vira jornalista. Isso cabe aos psicólogos, filósofos e demais estudiosos. Queria mesmo era desabafar algumas verdades e tentar vestir a carapuça em algumas pessoas.
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sexta-feira, 26 de março de 2010

Por dudu oliva

Para mim esta citação retirado do livro Sertões Veredas de Guimarães Rosa ilustra o que a vida, com suas inúmeras veredas, faz com a gente todos os dias. Desde o nascimento vivemos numa travessia e sempre estamos a escolher caminhos a seguir. Outro dia, na combi lotada, observei várias ruelas que levam a outras realidades. Cabe a gente escolher qual caminho seguir na imensidão cortada por vários vasos. " Existe é o homem humano. Travessia.". Esta outra citação do livro, mostra que o homem escolhe seu destino e percorre sua odisséia particular. Não há seres mitológicos que nos manipulam como peças de um jogo, temos o livre arbítrio para escolher.

Depois de ler Sertões Veredas, tive a impressão de que o livro capta a essência do universo. Pois, mostra como somos efêmeros em relação ao todo. As várias veredas e fragmentos formam o infinito e que supera o ser humano, muitas vezes pretensioso.

Como diz o protagonista, “ viver é perigoso”. Realmente, inclusive, quando nos perdemos na imensidão da vida e não sabemos o caminho de volta.
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quinta-feira, 25 de março de 2010

João Paulo Mesquita Simões

Este artigo foi retirado do site http://www.marcuzzifilatelia.com/info014.htm que achei interessante, uma vez que fala da Filatelia Brasileira e também da Filatelia de outros países.
Podem ver neste artigo a importância e o valor que a Filatelia tem na nossa Sociedade

FONTE: Gazeta Mercantil


Em Janeiro último, o Jornal Gazeta Mercantil publicou uma extensa reportagem sobre filatelia e seu mercado. Aproveitamos aqui para reproduzir parte desta matéria. Aos interessados pelo material completo, solicitamos que acessem nosso website na seção artigos de opinião. Qualquer segmento econômico que tenha uma base de clientes estimada em 30 milhões de pessoas e movimente aproximadamente US$16 bilhões por ano não pode ser considerado insignificante. Apesar disso, ainda tem muita gente que considera o ato de colecionar selos, um simples passatempo fora de moda. Ledo engano. A filatelia sofreu uma tremenda valorização em 2005 e continua sendo o hobby mais popular do planeta graças, pasme, à internet.

Na última semana de novembro, a casa de leilões Sotheby's de Londres pôs a venda o quinto dos 10 lotes da coleção de selos ingleses e do império britânico de Sir Gawaine Baillie, Segundo o especialista em filatelia da Sotheby's, Richard Ashton ,"a coleção Baillie, que tem ao todo cerca de 100 mil selos da mais alta qualidade, é a mais significativa do gênero, em mãos particulares e a mais importante a ser oferecida ao mercado nos últimos 50 anos". A expectativa da Sotheby's era chegar no final de 2006, após a venda do último lote, a um valor total de £ 11 milhões. Já rendeu até agora £ 9,4 milhões.

Ainda em 2005, outros recordes do mercado foram quebrados: a única quadra (quatro selos juntos) conhecida do "Jenny", que traz a imagem desse avião invertida, foi vendida recentemente por mais de US$ 3 milhões tornando-se o selo mais caro da filatelia norte-americana. Outro valor expressivo foi obtido pelo selo alemão com a imagem da atriz Audrey Hepburn - € 135 mil , um recorde para um selo com menos de 10 anos de circulação. O mimo, que mostra a atriz de "My Fair Lady" ,"Bonequinha de Luxo" com um chapéu e uma piteira nos lábios, fazia parte de uma série impressa há quatro anos pelo Correio alemão. Foram feitos 14 milhões de exemplares, mas um dos filhos de Audrey entrou com um processo, alegando que o selo passava uma imagem negativa de sua mãe (falecida em 1993). A série foi destruída por ordem judicial, mas três unidades escaparam. Em junho, um dos selos foi vendido por € 58 mil. Cinco meses depois, o segundo alcançou quase o triplo.

Já em 1856, surgia o primeiro empreendimento comercial relacionado ao selo, fora da esfera dos Correios: a casa filatélica londrina Stanley Gibbons. Em 1865, saía a primeira edição de seu catálogo. A empresa é responsável também pelo Stanley Gibbons 100 index, uma espécie de "Índice Dow Jones" dos selos utilizado por comerciantes e colecionadores para avaliar o mercado.O índice se baseia nos preços atualizados dos 100 selos comercializados pelos maiores valores em todo o mundo e, segundo o diretor da Stanley Gibbons, Mike Hill, "em cada um dos últimos seis anos, o índice aumentou 9,5%".

Para ajudar seus clientes a investir nesse mercado, a empresa criou um departamento especializado em construir ou administrar uma "carteira de selos". Com as informações sobre os investimentos, assim como todos os produtos e serviços oferecidos pela Stanley Gibbons estão no site da empresa na internet, que chega a receber 30 milhões de visitas por mês. E este é outro fator que tem mudado o mercado dos selos: o advento da web. A mesma rede que trouxe uma nova forma de comunicação entre as pessoas, com e-mails substituindo cartas e, por conseguinte, reduzindo a necessidade de selos, deu um impulso incalculável à filatelia. Faça um teste: entre no serviço de buscas do Google e digite filatelia. Aparecem mais de 2,6 milhões de páginas. Se digitar philately, surgem mais 2,1 milhões de entradas. Se a busca for só em páginas do Brasil, o número também é expressivo: 205 mil. Além disso, selo já é a terceira commodity mais negociada no leilão eletrônico do e-bay. "A internet está agindo como um catalizador, permitindo que pessoas dos mais distantes pontos do planeta possam trocar, comprar ou vender selos", destaca o comerciante de selos José Luiz Fevereiro. O material é perfeito para ser colocado na internet. Pode ser escaneado e visualizado sem problemas e, após a transação, pode ser facilmente enviado pelos Correios, com porte barato! Quanto à segurança, Fevereiro lembra que os cuidados são os mesmos de qualquer outra negociação via rede e destaca que, embora existam falsificações de selos, "ninguém se dá ao luxo de falsificar selo barato. E o melhor: se for um selo caro, e a falsificação for boa, é capaz de ser um ótimo negócio, já que uma feita por um falsário famoso, como o italiano Jean de Sperati, vale mais do que o selo original".

No selo o valor também é determinado pelas leis de oferta e procura: quanto mais raro, mais caro. Não obstante, nenhum outro objeto colecionável permite tantas opções e combinações. Há a coleção clássica, composta pelos selos emitidos por um país, em ordem cronológica, há as coleções temáticas com um universo infinito de escolhas: de animais pré-históricos a escritores, de pinturas famosas a motivos religiosos e eróticos. Além do conteúdo, existe a forma: usados, novos, com carimbo, sem carimbo e as chamadas variedades, que são selos que foram impressos com erros e que podem chegar a valores inacreditáveis, como a quadra do avião Jenny.

Quer saber quanto vale um selo, qual é sua história, quando foi emitido, se faz parte de uma série? É muito fácil: além de livros e publicações especializadas, impressas e on-line, todo país tem um catálogo nacional, cuja periodicidade depende do dinamismo do mercado e existem alguns mundiais, como o norte-americano Scott, o Michel da Alemanha e o francês Ivert et Tellier. "Nenhum catálogo é uma bíblia, mas uma referência, a partir do qual se negocia o preço de compra e venda, que tanto pode acabar sendo X vezes o valor sugerido pelo catálogo, ou 10 a 20% disso", ensina Peter Meyer, comerciante de selos responsável pela edição do catálogo brasileiro.

O mais importante, destaca, é a qualidade do selo:"O primeiro selo brasileiro, o 'Olho-de-Boi', teve uma tiragem muito grande. Devem ter sobrado uns 6 mil no mercado, dos quais 90% não valem nada, estão estragados", acrescenta. Segundo os especialistas, para conferir a qualidade de um selo é preciso examiná-lo bem com lupa e, às vezes, usar luz ultravioleta para verificar possíveis imperfeições. Para manter uma coleção de valor em bom estado, é preciso ter os instrumentos apropriados para manipular os selos, montá-los em álbuns e mantê-los em lugares livres de umidade.

Embora seja um hobby cujo grau de sofisticação e, portanto, de gasto, aumenta à medida que se coleciona mais a sério, a filatelia pode ser iniciada quando se é ainda muito jovem e ser levada pela vida afora, sem contra-indicação.Um dos mais famosos filatelistas norte-americanos, o presidente Franklin Roosevelt, chegou inclusive a idealizar alguns dos selos emitidos durante seus mandatos, entre eles um em homenagem ao Dia das Mães. É dele, a frase: "Eu realmente acredito que colecionar selos torna uma pessoa um cidadão melhor".

O amor pelos selos mudou a vida do médico Luiz Scocca . No final da década de 80, o então estudante de medicina da USP começou a colecionar. A paixão foi tanta que Luiz trancou a faculdade no final do terceiro ano e arranjou um estágio na filatelia de Peter Meyer. Ficou por lá um ano. "Foi um dos períodos mais importantes da minha vida. Até então, eu pretendia ser um cirurgião. Depois daquele mergulho no mundo da história, filosofia, comportamento, arqueologia, enfim tudo que o selo pode abranger, eu percebi que para ser um médico realizado, eu teria que ter um contato maior com as Ciências Humanas. Daí ter me decidido pela Psiquiatria: eu queria conhecer a história das pessoas e ajudá-las a valorizar essa história", afirma . O doutor Scocca e sua coleção de selos do Brasil Império, estão em ótima companhia.

O chamado "rei dos passatempos", também é conhecido como o "passatempo dos reis". Entre seus adeptos estão a família real inglesa, dona da Royal Collection, considerada a mais valiosa do mundo, e várias outras cabeças coroadas, como a rainha da Holanda. Entre os já falecidos, destacavam-se o Príncipe de Mônaco, o rei Faruk do Egito e o Czar Nicolau, da Rússia. Outro "rei", o beatle John Lennon, passou a infância colecionando selos. Seu álbum está no National Postal Museum dos Estados Unidos e é objeto de uma exposição, que ficará em cartaz até abril de 2006. Este grande "clube", que reúne príncipes e plebeus, tem, no entanto, uma característica curiosa: 95% (índice mundial) de seus membros são do sexo masculino.

Com uma base de clientes estimada em 30 milhões de pessoas e movimentando cerca de US$$ 16 bilhões por ano, a filatelia continua em alta. Neste cenário, o Brasil, terra do valioso e cobiçado "Olho-de-boi", impresso em 1843, desponta como uma das filatelias mais ricas do mundo, estando nas mãos de Everaldo Nigro dos Santos o Grande Prêmio de Honra da Exposição Filatélica Mundial, que ocorre em Londres a cada dez anos. A exposição acontece a cada 10 anos e Everaldo, (66 anos) é colecionador desde criança, ganhou com uma apresentação dos quatro primeiros selos brasileiros - "Olhos-de-Boi" inclinados e coloridos. Além de Everaldo, vários colecionadores locais costumam ganhar medalhas em exposições internacionais.

O Brasil tem uma longa tradição filatélica, uma série de clubes e organizações ligada a este colecionismo e uma associação que reúne os principais comerciantes do mercado, a ABCF (Associação Brasileira de Comerciantes Filatélicos), que promoveu em São Paulo, uma exposição internacional no final do ano de 2005. Terceiro país do mundo a emitir selos, o Brasil possui uma filatelia riquíssima, com temática abrangente, raridades e variedades. A peça brasileira mais famosa é uma tira vertical impressa em 1843 com dois selos "Olho-de-Boi" de 30 réis ligados a um de 60 réis com dois carimbos pretos do Correio geral da Corte.

Considerada uma das 10 maiores raridades da filatelia mundial, foi descoberta em 1897 e em mais de 100 anos já fez parte de várias coleções internacionais. Recebeu o nome internacional de Pack's Strip (Tira de Pack) em homenagem ao filatelista norte-americano Charles Lathrop Pack, que foi seu pro-prietário por 30 anos. Atualmente a Tira Pack é propriedade de outro americano, Norman Hubbart, que já tinha sido seu dono e voltou a adquiri-la num leilão por US$ 770 mil. Outra peça valorizada (estimativa também em torno de US$ 700 mil) é uma folha do Olho-de-Boi, possivelmente a folha de selos mais antiga do mundo. Seu atual proprietário também é estrangeiro: o espanhol Indarte Allemany. A única peça de valor semelhante e que está no País é uma carta selada com uma série completa de "Olho-de-Boi". Seu proprietário é o colecionador Rolf Harald Meyer. "Nós temos selos, comparativamente muito mais raros do que os americanos, mas que valem uma centésima parte dos seus equivalentes daquele mercado", diz o comerciante José Luiz Fevereiro, para quem o problema está na fragilidade da economia brasileira. "A pessoa geralmente coleciona selos de seu próprio país. O que determina a cotação de selos de um país é o tamanho do mercado interno e seu potencial de compra. A China viveu um boom nos anos 90. O preço dos selos chineses foi multiplicado por 20 e isso se deveu à afirmação da China como um mercado emergente, com uma classe média de mais de 100 milhões de pessoas e, portanto, um público consumidor que não existia antes. Este mesmo fenômeno começa a acontecer na Índia e na Rússia", explica. No Brasil, acrescenta Fevereiro, este boom acontecerá no dia em que a situação permitir um crescimento sustentado e a classe média puder recuperar seu poder aquisitivo. Quem tiver comprado bons selos terá um excelente retorno, diz o especialista.

O mercado já vem mostrando sinais de aquecimento. Segundo o presidente da ABCF, Alberto Junges, houve um grande momento de expansão na década de 70 até meados de 80. A crise econômica levou a uma queda, a década de 90 permaneceu estável e, nos últimos anos, houve um crescimento de 15%. Para 2006, é esperado um aumento de pelo menos 20%, número bem acima das taxas de crescimento da economia como um todo. O quanto isso significa em termos monetários é um segredo guardado a sete chaves. Nenhum comerciante do setor revela números, mas, conta-se que uma carta do império com selos de 600 réis inclinados, editados em 1844 e muito raros, foi comprada numa exposição em Belo Horizonte, em 1985, pelo equivalente, na época, a US$ 5 mil. Hoje, vale US$ 50 mil. Já uma coleção de selos da Varig, está avaliada em US$ 20 mil. Este aquecimento está sendo sentido de várias maneiras. Nas casas filatélicas espalhadas basicamente por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Curitiba, o movimento ainda é basicamente do colecionador habitual."As pessoas estão querendo comprar mais e algumas vezes até pedem para parcelar", conta o presidente da ABCF. O novo mercado é a internet. "Fiquei muito surpreso quando comecei a mexer com a internet recentemente. Com 30 anos de mercado, eu acreditava que conhecia todos os colecionadores grandes e médios e bons do País. Descobri que esse universo é bem maior do que eu imaginava", disse Junges.

Todavia, é com a renovação do público consumidor. “O boom da década de 70 deveu-se não só a um momento econômico mais favorável, mas muito, ao investimento na divulgação da filatelia feito na época pelos Correios. Os colecionadores de hoje, são os meninos, os jovens que começaram naquela época. De lá para cá, as máquinas de franquia substituíram a venda dos selos na grande maioria das 22 mil agências espalhadas pelo País. Os Correios continuam emitindo vários selos comemorativos, alguns belíssimos, mas a possibilidade de que eles sejam colocados em uma carta é cada vez menor, já que são difíceis de encontrar. E é este selo que chega nos envelopes, uma das sementes para que a filatelia germine", lamenta o presidente da ABCF. Segundo Junges, hoje, "os Correios preferem patrocinar esportistas, eventos de natação. E esquecem que a filatelia é a grande atleta dos correios, fonte de renda em todos os países do mundo".
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segunda-feira, 22 de março de 2010


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domingo, 21 de março de 2010


Texto: Gustavo do Carmo
Foto: Divulgação


Ayrton Senna da Silva nasceu em São Paulo no dia 21 de março de 1960. Criado pelos pais, Milton e Neyde, no bairro paulistano de Santana, era o irmão do meio da primogênita Vivianne e do caçula Leonardo.

Um dia, seu Milton construiu um kart com motor de cortador de grama e deu para a filha. Mas a menina recusou e quem acabou ganhando o brinquedo foi o travesso Ayrton, que na época tinha três anos. Claro que o garoto adorou o presente e dirigia tão bem que a família ficou impressionada.

Aos nove anos, disputou uma corrida de kart amistosa nas ruas de Campinas e foi pole-position por sorteio. Entretanto, foi somente em 1974 que Ayrton começou a competir oficialmente. Venceu a 1a corrida que disputou em Interlagos. Foi campeão paulista, título que repetiu em 75 e 76. Foi campeão brasileiro em 1978 e 1980. E sul-americano em 1977 e 1979. Em seu último ano no kart, Senna foi vice-campeão mundial. O campeonato jamais conquistou.

No ano seguinte, mudou-se para a Europa, a convite da equipe Van Diemen, e foi disputar o campeonato inglês de Fórmula Ford 1600. Era pra ter estreado no ano anterior, mas Senna preferiu continuar no Brasil para não contrariar o pai, que ainda achava cedo a oportunidade de correr, sem necessidade de patrocínio. Ganhando 12 das 20 corridas foi campeão inglês. Em 1982 mudou de equipe e de categoria dentro da Ford, passando a 2000. Mas manteve o chassi Van Diemen. Resultado: Campeão inglês e europeu.

Em 1983, correndo com patrocínio do Banerj (Banco do Estado do Rio de Janeiro), disputou a Fórmula 3 pela equipe West Surrey, com o chassi Ralf/Toyota. Obteve o recorde de vitórias e foi campeão inglês. O desempenho atraiu convites de diversas equipes de Fórmula 1 como Toleman, Lotus, Mc Laren e Williams. Testou esta última, mas acertou com a modesta Toleman para estrear na temporada 1984 de Fórmula 1, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Antes disso, ainda em 83, venceu o tradicional Grande Prêmio de Macau, então colônia portuguesa na China. Disputada em circuito de rua, a prova é para a Fórmula 3 o que o GP de Mônaco é para a Fórmula 1. Já em 1984 venceu uma corrida promocional da Mercedes-Benz entre vários pilotos veteranos como o francês Alain Prost e o austríaco Niki Lauda. Todos pilotaram o sedã 190E, que estava sendo lançado no mercado. E Senna ganhou o carro como prêmio.

De volta a Fórmula 1, em Mônaco, Senna chegou em segundo e só não ultrapassou o vencedor Alain Prost porque a corrida foi encerrada, supostamente, por causa da chuva torrencial. Encerrou a sua primeira temporada em nono lugar.

Em 1985 mudou-se para a Lotus e, logo na segunda prova, venceu sua primeira corrida, em Estoril, Portugal. Voltou a vencer na antepenúltima prova em Spa-Francochamps, Bélgica. Terminou o campeonato em quarto. Em 1986, ainda na Lotus, venceu os GPs da Espanha e dos EUA. Repetiu o quarto lugar. No ano seguinte, a sua equipe trocou a marca do patrocinador e a cor do carro de preta (John Player Special) para amarela (Camel), além do motor Renault pelo Honda. Ficou em terceiro lugar graças a vitórias em Mônaco (sua primeira no principado) e em Detroit, EUA (outro lugar onde Senna costumava ganhar).

Foi para a McLaren em 1988, correndo novamente com propulsor Honda e, lá, foi tricampeão de Fórmula 1 naquele ano, mais 1990 e 1991. Seu primeiro título foi uma disputa particular com Alain Prost, seu companheiro de equipe e já seu desafeto. A McLaren só não venceu em Monza, na Itália. Nesta corrida, Senna foi tirado da corrida por um piloto que mais tarde viria a se destacar no rali Paris-Dacar: Jean Louis Schleisser. Em Suzuka, no Japão, Senna venceu a prova após cair da pole para o 11o lugar na largada por causa de um problema na transmissão.

Em 1989 perdeu o campeonato no GP do Japão após levar uma fechada de Prost, numa curva do mesmo circuito de Suzuka. Prost abandonou a corrida, mas Senna cortou caminho por uma chicane e acabou desclassificado pelo então presidente da Fisa, Jean Marie Ballestre, conterrâneo de Prost. O clima era tão ruim que o francês mudou-se para a Ferrari e, no ano seguinte, de novo no Japão, levou o troco de Senna na largada. Os dois abandonaram a corrida, mas daquela vez, a vantagem de não marcar pontos era de Senna.

Em 1991, a disputa foi com o inglês Nigel Mansell, de quem havia vencido por milésimos o GP da Espanha de 1986. Mansell saiu da pista e deu o título para Senna, que, em agradecimento ao companheirismo do colega austríaco de equipe, Gerhard Berger, deu a vitória para ele.

Em 1992, Senna viveu o seu pior ano na McLaren. Já no ano anterior venceu, com dificuldade, um campeonato que parecia fácil. A Williams de Mansell e do italiano Ricardo Patrese desenvolveu uma suspensão ativa e um câmbio automático tão eficientes que Mansell dominou a segunda metade da temporada. Senna só foi campeão porque venceu as quatro primeiras corridas de 91, inclusive no Brasil, em Interlagos, SP, numa vitória que lhe provocou um esgotamento físico após a quebra de três das seis marchas manuais. No ano seguinte, não teve jeito. A Williams dominou a temporada e Mansell foi campeão. Patrese foi o vice. E em terceiro, uma então jovem promessa alemã chamada Michael Schumacher, que venceu a sua primeira corrida naquele ano, um depois de estrear no mesmo circuito de Spa Francorchamps, aquele em que Senna ganhou sua segunda corrida. Senna ficou em quarto e só venceu duas vezes: uma em Mônaco, após uma disputa inesquecível com Mansell e outra em Monza. Com o mau resultado ameaçou abandonar a Fórmula 1. Chegou a testar até um carro de Fórmula Indy.

A Honda deixou a McLaren e a categoria. A equipe inglesa comprou o genérico e fraco motor Ford Cosworth. E não teve nem direito de pegar um conjunto novo, que era prioridade da Benetton de Schumacher. Ron Dennis tentou acertar com a Renault, mas a marca francesa preferiu a Williams que contratou o ídolo local Prost. Senna acabou acertando um contrato por corrida com a sua velha equipe. Queria correr na Williams, que demitiu Mansell. Mas foi rejeitado por Alain Prost.

Aliás, Prost, Mansell e Schumacher foram os maiores inimigos de Senna. E o brasileiro e igualmente tricampeão Nelson Piquet, também. A briga com o francês foi apenas através de declarações indiretas e polêmicas. A discórdia era notada mais pela falta de cortesia e frieza do que por discussões violentas. Com Mansell e Schumacher, Senna se envolveu em briga físicas. E Piquet fez comentários maldosos sobre a opção sexual de Ayrton Senna.

Quanto a isso, não havia dúvidas. Ou havia? Senna nunca teve um amor fixo. Mas já foi casado com uma moça da sua vizinhança no início dos anos 80. Quando foi campeão, a mídia alardeou um romance com a apresentadora Xuxa Meneghel. E em 1993 estava namorando a então jovem e desconhecida modelo Adriane Galisteu.

Voltando à Fórmula 1, mesmo com a equipe fraca, Senna venceu com a McLaren em Interlagos, em Donington Park (Inglaterra - GP da Europa), em Mônaco, no Japão e na Austrália, que seria sua última vitória. Nesta época já tinha acertado com a tão sonhada equipe Williams para 1994.
Senna era um piloto vencedor, perfeccionista, obcecado por vitórias e com habilidade extraordinária para vencer na chuva. Mas em seus últimos três anos estava um pouco sem sorte. Quando conseguiu se transferir para uma equipe que achava grande, outra estava se destacando: a Benetton, de Michael Schumacher. O alemão venceu as duas primeiras corridas em Interlagos e em Aida, no Japão, enquanto Senna rodou na primeira e se envolveu em uma batida na largada do GP do Pacífico de 1994.

A terceira corrida, em Ímola, San Marino, parecia ser o início da sua recuperação. Só que não começou nada bem. Na sexta-feira, primeiro dia do treino de classificação do grid de largada, o jovem Rubens Barrichello saiu da pista com a sua Jordan e chocou-se violentamente com a barreira de pneus. Só sofreu algumas escoriações e quebrou o nariz, ficando impedido de disputar a corrida. No sábado, o austríaco Roland Ratzemberger, da iniciante equipe Symtec, perdeu o controle do carro na curva Tamburello e chocou-se violentamente na curva Villeneuve. Ratzemberger morreu horas depois no hospital de Bolonha, na Itália (San Marino fica no território italiano).

No domingo, apesar de ter obtido a pole na véspera, Senna não estava bem. Preocupado com o acidente fatal, lutou politicamente por mais segurança, ameaçou não correr, mas acabou cedendo e partiu pra corrida. Ficou em silêncio e cabisbaixo durante todo warm-up e no grid. A largada foi dada, mas a corrida logo foi intervinda com o safety-car por causa de um acidente entre o finlandês J.J. Lehto e o português Pedro Lamy. Sete voltas depois, a disputa foi reiniciada e Senna disparou na frente de Schumacher. Uma volta e meia depois, Senna saía da pista na curva Tamburello e batia violentamente no muro de concreto. O tricampeão foi levado inconsciente para o hospital Maggiore, em Bolonha, o mesmo onde morreu Ratzemberger na véspera. No início da tarde brasileira do dia 1º de maio de 1994, a morte de Ayrton Senna era anunciada.

O Brasil e o mundo inteiro se comoveram. Quem o achava antipático e fresco compreendeu sua personalidade. Senna virou um exemplo profissional para Prost, Mansell, Piquet e Schumacher.
Há oito anos não ocorria uma morte na Fórmula 1, desde que Elio de Angelis perdera a vida num teste particular em 1986. Até num único fim-de-semana morrerem dois, o primeiro durante a corrida desde 1982. E, injustamente, um deles era o nosso maior ídolo.

Se para a maior categoria do automobilismo mundial, a morte de Senna tornou os carros mais seguros, a ponto de ninguém mais falecer em uma corrida de Fórmula 1 desde 1994, para o Brasil, a morte de um dos seus tricampeões, jogou o nosso país no papel de coadjuvante da categoria, nos dando apenas pilotos escudeiros como Rubens Barrichello e Felipe Massa. Ficamos seis anos e meio sem ganhar uma única corrida e quinze anos sem ver um brasileiro disputando o título.

Em 2010, o sobrinho de Ayrton, filho de sua irmã Vivianne, Bruno Senna está estreando na Fórmula 1 na fraca equipe Hispania. Ainda não mostrou a que veio. Quem sabe nas próximas etapas mostre que talento e vitórias sejam genéticos?
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Por Ed Santos



Quinta-feira passada estava eu na fila do cartório, na hora do almoço pra tirar umas cópias autenticadas que seriam arquivadas num processo de pequenas causas que tenho contra uma prestadora de serviço, que obviamente não prestou serviço com qualidade.
Precisava correr porque tinha uma reunião às 14:30 e já eram 13:45. Até ser atendido e chegar no escritório...
Já comecei bem o horário de almoço. Quando eu estava saindo da sala, já fechando a porta, o telefone tocou e não tive como não atender. Depois, no estacionamento, um carro travou o meu e eu não conseguia sair. Tive que pedir pro segurança chamar o dono. Ele só conseguiu tirar depois que o segurança e eu ajudamos a empurrar o carro com a bateria arriada. Enfim sai e graças à Deus não peguei transito no caminho.
14:00. Eu nem almocei ainda e pelo visto nem vou. Eram 13 pessoas para serem atendidas antes de mim, e por um único atendente. Ele recolhia os documentos, falava alguma coisa, dava uma senha e pedia para as pessoas aguardarem a moça do caixa chamar.
Só olhei no relógio para conferir a hora depois que fui atendido porque não queria ficar nervoso. Eram 14:13 e é óbvio que fiquei nervoso.
Enquanto aguardava ser chamado, fiquei pensando: “e agora, o que fazer? Ir embora e seguir pra minha reunião, ou ficar e conseguir os documentos para o processo?” Resolvi esperar, porque afinal de contas precisava ser ressarcido do valor cobrado por um serviço que não me agradou.
Do meu lado, dois caras conversavam sobre o Arruda. Aquele ex-governador do Distrito Federal que se envolveu com propinas e tudo mais. Fiquei escutando os dois dizendo sobre dinheiro na meia, dinheiro na cueca, etc. Interessante é que a gente até esquece que tá com pressa quando ouve um assunto que interessa, principalmente quando se trata de um escândalo nacional tratado num diálogo informal entre duas pessoas e que, no caso, você é uma terceira pessoa que tá de abelhudo só ouvindo e acha que ninguém tá percebendo.
Fui até o caixa.
- São R$11,70 – disse a mocinha nem me olhando.
Fucei, fucei e puxei uma nota de R$20,00 pra pagar.
- Não tem trocado?
- Vou ficar devendo.
- Um momento, por favor.
Só me faltava essa. Depois de tanto tempo esperando!
Às 14:33 ela retorna por uma porta lateral que possivelmente dava na tesouraria.
- Aqui seu troco, moço.
- Obrigado.
Saí correndo em direção ao escritório. A reunião, essa hora, já deveria ter começado. Não queria nem ver a cara do meu chefe. Corri, passei vários faróis vermelhos, quase atropelei uma menina de bicicleta. Nossa! Que era aquilo?
Quando cheguei na portaria, meu chefe estava saindo:
- Não vai ter reunião, viu! Preciso dar uma saída e depois conversamos.
Entrei no pátio com uma sensação de leveza indescritível tamanha era a minha tranqüilidade naquele momento. Tirei o peso das costas e o suor do rosto, aliviado como quem nunca seria acusado de guardar dinheiro na meia, ou de chegar atrasado num compromisso.
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sábado, 20 de março de 2010


Por Gustavo do Carmo


Em um sebo imundo e escuro na Praça Tiradentes, cercado por revistas antigas e empoeiradas, Orlando agachou-se muito de mau jeito para folhear as raridades que estavam ao pé da estante, praticamente no chão. Tinha que encontrar, entre duas pilhas de quase um metro de publicações com mais de quarenta anos, reportagens ou anúncios sobre uma loja de eletrodomésticos existente na época, já extinta atualmente.

Orlando pesquisava para a monografia de conclusão do seu curso de publicidade. Prometeu ao orientador produzir um histórico sobre a empresa e ressuscitá-la ficticiamente, elaborando um plano de marketing completo, desde o planejamento até a criação das novas campanhas publicitárias, novos layouts, etc, além de traçar as estratégias de mídia.

Não achava nada. A rede de varejo parecia existir só na cabeça dele, embora fosse muito famosa. Acabou se distraindo com as pérolas que encontrava no acervo. Viu logomarcas antigas de grandes empresas. Descobriu uma empresa que parecia ser nova, mas já tinha mais de setenta anos. Encontrou entrevistas de celebridades mortas há anos contando os seus planos para o futuro. Localizou atrizes que hoje são avós, iniciando a carreira com rostos virginais, assim como jogadores de futebol, há muito tempo aposentados, frágeis de tão novatos, mas já posando no time campeão. E até princesas, hoje entrando na meia idade, nascendo.

Aliás, falando nisso, achou uma revista, cuja matéria de capa mostrava um parto em detalhes, documentado em fotos bem grandes. Da preparação do enxoval, semanas antes do nascimento, até o bebê ser entregue, pela enfermeira, à mãe de primeira viagem.

A revista era dos anos sessenta. A gestante parecia ser uma modelo fotográfica ou atriz de fotonovela. Branca, cabelos lisos, negros e presos naquele coque clássico, com franja e uma mecha caindo para o rosto, maquiagem da época tão pesada que a sombra e os cílios, aparentemente postiços, pareciam esconder os seus lindos olhos verdes. A não ser pela protuberância da barriga, seu corpo era magro e estava protegido pelo vestido tubinho lilás. Orlando não leu a reportagem, mas acreditou ser, de fato, uma modelo e atriz porque fazia tantas caras e bocas, principalmente na hora da anestesia.

O pai do bebê só aparecia de terno e gravata. Era um homem claro, de cabelo com corte quadrado - típico daquela década - e físico forte, mesmo se estivesse sem o traje social. Devia ser bem rico, pois a casa do casal, mostrada no momento da saída para a maternidade, era grande, bela e havia um jardim esmeraldino.

Orlando deixou a monografia de lado e concentrou-se na leitura da matéria. O texto confirmou tudo o que ele acreditava. A mulher era uma modelo fotográfica de reclames publicitários em revistas e jornais. Casou-se com o diretor de uma petrolífera francesa instalada no Brasil. A revista ainda trazia as fotos dos pais do marido, um casal aparentando setenta anos, que provavelmente já deve ter morrido, e da mãe da moça. Os futuros avós paternos tinham cabelos grisalhos e estavam sorrindo. O senhor ainda ostentava um ralo bigode branco, enquanto a senhora usava aquele coque tipo coroa. Já a avó materna tinha o mesmo penteado da filha. Era mais nova que a mãe do rapaz. A cor dos seus fios eram castanhos claros, que a deixavam com uma aparência de sessenta anos. No final da foto-reportagem, todos posaram felizes com a criança recém-nascida no colo. Pela legenda, a modelo tinha dado à luz um menino.

Orlando, a partir de então, ficou extremamente curioso para descobrir como estaria esta família feliz nos dias de hoje. Calculou que o bebê já estaria com uns quarenta anos. Deve ter sido uma criança rica e mimada, mas alheia aos anos de chumbo daquela década de setenta. Adolescente, teria ido ao Rock in Rio I com um grupo de amigos, entre eles uma bela menina e a beijado ao som de Love Of My Life, de Freddie Mercury. Talvez casou-se com ela alguns anos depois, já formado em administração de empresas e milionário como o pai. Deve ter sofrido um pouco com o confisco da poupança em 1990, mas se recuperado com o Plano Real.

Na pior das hipóteses, pode ter sido um adolescente rebelde que brigou com os pais e fugiu de casa nos anos oitenta. Amadureceu, arrumou um emprego simples, foi crescendo, abriu um comércio na zona norte ou na baixada fluminense e leva vida de classe média, lutando com o filho mais novo, que quer ser artista, para assumir o negócio.

Orlando separou a revista com o nascimento do bebê, guardou as outras revistas na estante e levantou-se. Foi até o balcão e a comprou por dez reais. Colocou-a em baixo do braço e seguiu em direção ao ponto de ônibus. A monografia já estava esquecida na cabeça. Ficou obcecado pelo paradeiro atual do casal feliz, seu bebê e seus pais. Pegou o coletivo.

Agora pensa que a bela modelo pode ter morrido de alguma doença incurável. O pai, ou já se casou novamente com uma mulher mais nova, ou criou o filho sozinho, assumindo também o papel da mãe. Pode ter acontecido o contrário. O menino também poderia ter brigado com o pai ao assumir-se gay e o rico diretor da empresa petrolífera teria expulsado o filho de casa.

Orlando chegou em casa. A primeira coisa que fez foi procurar o sobrenome da família na internet. Diante de dezenas de milhares de respostas, decidiu pesquisar pelo repórter e o fotógrafo da revista, já que a publicação não existe mais. Era impossível ligar para os telefones da redação anunciados no expediente, pois os números ainda eram de seis dígitos.

Correu até a faculdade e perguntou para um professor de jornalismo se ele conhecia o repórter ou o fotógrafo que fez a matéria. O professor disse que não, mas conhecia o editor da revista. Já falecido. Orlando ainda insistiu se ele conhecia a família do tal editor, mas o catedrático afirmou que não tem mais contato com os filhos dele.

O jovem estudante decidiu procurar na biblioteca o nome de cada um dos funcionários da revista. Quando estava no computador, foi abordado por seu orientador, que lhe perguntou como estava indo o trabalho.

— Estou pesquisando, professor.

O orientador vê a revista sobre a mochila de Orlando e pergunta:

— Que revista é essa?

— Ah, eu achei uma matéria interessante nela e me bateu uma curiosidade para saber como está esse bebê que nasceu na reportagem de capa.

O professor era compreensivo, mas reclamou:

— Fala sério, Orlando! Você precisando fazer o seu projeto experimental e ainda fica preocupado com uma reportagem qualquer? Para que você quer saber disso? Deixa pra descobrir depois de entregar o projeto, pôxa! O tempo está passando e até agora você não me apresentou nem o projeto de monografia.

— O senhor tem razão, professor. Vou me concentrar no nosso trabalho.

Enquanto o orientador se levantava para ir embora da biblioteca, Orlando pergunta se ele conhecia algum dos jornalistas da tal revista. O professor deu o telefone de um amigo que trabalhava na publicação. Imediatamente, Orlando ligou do seu celular, mas ninguém atendeu.

A busca pelo paradeiro do bebê tornou-se uma obsessão. A monografia da publicidade acabou ficando em segundo plano. Orlando já não dormia mais. Passava horas pesquisando pelo repórter Alanílson Guedes ou pelo fotógrafo Genival Pedreira. Visitando as redações de todos os meios de comunicação da cidade, descobriu o telefone de um ex-estagiário da revista. Ligou para o agora senhor em um péssimo momento: ele havia acabado de falecer, fulminado do coração.

Desistiu de encontrar os jornalistas. Concentrou-se na família. Procurou a petrolífera onde o pai do bebê trabalhava. Descobriu o histórico de toda a diretoria da empresa. Achou o nome do empresário, mas não obteve maiores informações por motivos de segurança. Procurou pela agência da modelo, mãe do bebê. Nada encontrou.

Enlouqueceu. Já não dormia mais em casa. Seus pais se desesperaram de tanta preocupação. Um dia, depois de tanto andar em busca da família ou dos jornalistas, dormiu no Passeio Público. Foi acordado por um catador de papel. Orlando estava tão alucinado que perguntou ao catador se ele conhecia o jornalista, o fotógrafo, o empresário, a modelo ou qualquer outra pessoa que lhe pudesse ajudar a encontrar o bebê da reportagem. Mostrou a revista que, de tanto ser folheada, já estava mais velha do que quando a encontrou no sebo.

O catador engoliu em seco, tentou segurar a lágrima nos olhos e respondeu com a voz embargada:

— Sou eu. Nasci rico e tive até o meu parto acompanhado pela imprensa. Só que cinco anos depois, o José foi demitido da distribuidora de gasolina. Começou a beber e a jogar. Fomos morar no subúrbio. Alcoólatra, esse monstro começou a bater na minha mãe. Um dia, descobriu que eu não era o filho dele. Não bateu nela. Matou de vez com um tiro no pescoço. Foi preso. Morreu de cirrose na cadeia. A minha mãe era filha única. Minha avó morreu de desgosto. Os pais daquele homem já eram falecidos na época do crime. Meus tios não quiseram me cuidar por eu ser bastardo. Fui para o orfanato. Fiquei jogado lá, não me deram estudo e saí de lá quando fiquei adulto. Não me deram nem emprego depois que eu cresci. Comecei a catar papel para sobreviver.

Orlando ainda teve tempo de perguntar pelos repórteres que fizeram a matéria. O catador de papel se descontrolou:

— NÃO ME FALE DAQUELES SAFADOS!!!! QUANDO PRECISEI DELES NUNCA ME DERAM A MÃO!!!! AINDA BEM QUE JÁ MORRERAM!!!!

Orlando ouviu tudo o que queria. Acordou na biblioteca da faculdade, acariciado por Gisele, sua colega de faculdade e namorada. A moça viu a revista antiga com o bebê na capa e perguntou intrigada:

— Onde você achou a revista que mostra o nascimento do meu pai?
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quinta-feira, 18 de março de 2010


João Paulo Mesquita Simões

Comemoram-se este ano os Cem Anos da Implantação da República em Portugal.

Não queria deixar passar esta data em branco, sem fazer uma alusão ao papel da Mulher ao longo da nossa História recente, nomeadamente na transição da Monarquia para a República.
O 5 de Outubro de 1910, marca a viragem da História Portuguesa no dealbar do Século XX, cheia de esperança nos valores da Revolução Francesa e tão significativa para os direitos civis, políticos e, de alguma forma ainda que muito tímida, sociais.
Nesta conjectura, os CTT lançaram uma emissão em Outubro de 2009 cujo título “As Mulheres e a República”, destaca o papel relevante de alguns vultos femininos que fizeram história como Mulheres.
Nas Comemorações dos 100 Anos da Implantação da República em Portugal e estando a decorrer ao longo deste ano várias efemérides relativas ao Centenário, é justo neste dia, falar da Mulher e, ao mesmo tempo, a sua evolução no período republicano.

A emissão que vou apresentar, é composta por seis selos, um bloco e o sobrescrito de 1º dia de circulação.
Retrata-nos:

ADELAIDE CABETE - Nasceu em Elvas a 25 de Janeiro de 1867.
Médica, professora, pedagoga e militante republicana e feminista.
De origem modesta, só iniciou estudos depois de casar (1885) com Manuel Ramos Fernandes Cabete, um sargento autodidacta, explicador de latim e grego, que a incentivou e acompanhou naquele propósito. Fez (1890), aos 23 anos, o exame da instrução primária e concluiu (1900), aos 33 anos, a licenciatura em Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, com a tese A Protecção às Mulheres Grávidas Pobres.
Como médica, distinguiu-se no apoio às mulheres grávidas, na divulgação dos cuidados materno-infantis (puericultura) e no combate ao alcoolismo, publicando sobre o assunto a obra Papel que o Estudo da Puericultura, da Higiene Feminina, etc. Deve Desempenhar no Ensino Doméstico (1913), Protecção à Mulher Grávida (1924) e A Luta Anti-Alcoólica nas Escolas (1924). Foi professora de Higiene no Instituto Feminino de Odivelas.
Como republicana e feminista, desenvolveu intensa actividade militante a favor do estabelecimento daquele regime político e pela dignificação do estatuto da mulher. Colaborou na imprensa feminista da época e, designadamente, na revista Alma Feminina, que também dirigiu (1920-29). Promoveu os primeiros congressos abolicionistas da prostituição, participou na fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1909), do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914) e das Ligas da Bondade. Foi Presidente da Cruzada Nacional das Mulheres Portuguesas e colaborou também na organização do 1º Congresso Feminista e de Educação (1924). Participou ainda no Congresso Feminista de Gant (1913) e representou o governo português no 1º Congresso Feminista Internacional (1923) que decorreu em Itália.
Desiludida com a nova situação política do país resultante da imposição da ditadura do Estado Novo (1926), partiu para Angola, onde se dedicou sobretudo à medicina.
Iniciada maçona (1907) na loja Humanidade (Lisboa), como o nome simbólico de Louise Michel, manteve-se sempre ligada àquela oficina, quer no período em que a loja esteve ligada ao Grande Oriente Lusitano Unido (1904-14 e 1920-23), quer quando se tornou independente (1914-20), quer ainda quando aderiu à Maçonaria do Direito Humano (1923). Foi Venerável da loja durante vários anos e Grã-Mestra do Areópago Teixeira Simões (1926).

ANA DE CASTRO OSÓRIO nasceu em Mangualde em 18 de Junho de 1872. Despertou cedo para a escrita. Talvez fosse o ambiente familiar: o gosto pelas palavras corria-lhe nas veias. O seu irmão, Alberto Osório de Castro, foi poeta. Os seus dois filhos e netos também se tornaram escritores. Ana de Castro Osório iniciou a carreira literária em Setúbal, colaborando com vários periódicos. A partir de 1897 começou a publicar uma colecção em fascículos, intitulada “Para as Crianças”, obra gigantesca que durou até à sua morte.
Foi aqui que nasceu a literatura infantil em Portugal. Cada edição tinha um pouco de tudo: traduções de contos dos irmãos Grimm ou de Andersen, originais da autoria da escritora e adivinhas. As crianças deliciaram-se. Beatriz Pinheiro, directora da revista “Ave-Azul”, escreveu, em 1899, que Ana de Castro Osório “soube compreender a necessidade de prazer intelectual que se faz sentir na criança”. Publicou, nesse mesmo ano, o primeiro excerto do romance “Ambições”, que viria a ser editado em 1903. Foi o primeiro de uma série de histórias de ficção dirigidas a adultos.
O poder dos homens na sociedade portuguesa de então fazia com que ser mulher - e interventiva - fosse inevitavelmente uma arte. Ana de Castro Osório teve essa destreza. Casou com Paulino de Oliveira, poeta e membro do Partido Republicano. Aproximou-se do campo republicano e, com isso, pôde defender os seus ideais num quadro partidário. A nível associativo, fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e o Grupo de Estudos Feministas. Escreveu artigos e organizou conferências. Tudo em prol da mulher. Com o advento da República, colaborou com o ministro da Justiça, Afonso Costa, na elaboração da Lei do Divórcio.

ANGELINA VIDAL nasceu em Lisboa a 11-3-1853.
Angelina Casimira do Carmo e Silva (Vidal, por casamento), é filha do maestro Joaquim Casimiro Júnior, considerado pelo “Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses” “o mais inspirado músico português, a maior alma de artista que a arte musical tem produzido no nosso país”. Angelina herda de seu pai o gosto pela música, pela cultura (pai e filha foram directores de jornais), pela política (o pai teve de fugir por ser miguelista) e um certo destino de se entregar à arte, esquecendo-se dos bens materiais.
Nascida num meio culto, apesar de não ser endinheirado, Angelina Vidal recebeu a educação própria das meninas “prendadas” do seu tempo.
Órfã de pai aos 9 anos, vai para Viseu aos cuidados da família da mãe. É nessa cidade que dá início à sua vida literária sob o pseudónimo “republicana viseense”. Casa aos 19 anos com o médico Augusto de Campos Vidal, diplomado pela Universidade de Coimbra. Desta união, nasceram cinco filhos. Infelizmente, o seu marido falece ao largo da Guiné portuguesa com 46 anos.
Nem sempre Angelina foi feliz. Por volta de 1877, surgem os primeiros poemetos que revelam as primeiras desilusões. A sua actividade de republicana federalista, começa a evidenciar-se. Proclama-se livre pensadora, anticlerical. A projecção do seu nome leva-a ao Porto em 1880, iniciando em 1881 colaboração com A Voz do Operário e evoluindo para ideias socialistas. Uma controvérsia: seu marido servia a Monarquia. Ela combatia-a.
Nesta situação, separou-se do marido, tendo sido os filhos entregues ao pai, que tinha o vício do jogo, estando muitas vezes ausente, sendo por isso as crianças entregues a um colégio particular.
Viveu mal, com crises económicas gravíssimas, tendo colocado a hipótese de suicídio.
Vem a falecer a 1 de Agosto de 1917, depois de ter feito algumas traduções e trabalhos para jornais, que pouco davam para o seu sustento.
Após a sua morte, o Estado decretou-lhe uma pensão por viuvez por seu marido ter falecido ao serviço da Pátria.
Angelina Vidal, notabilizou-se como educadora sobretudo na alfabetização das classes operárias após a instauração da República. Como era contra a Monarquia, nunca lhe foi dado um lugar de destaque no ensino, pois era vista como uma inimiga.
Mulher muito à frente para a época, hospedava-se com seus filhos em hotéis quando tinha de dar conferências, coisa pouco vista na época. Era vaiada por uns, aplaudida por outros, mas legou-nos imensos escritos em defesa da República, do operariado, da Mulher trabalhadora.
Segundo Raul Santos, “foi, no nosso país, a primeira mulher que se pôs ao serviço do povo e dos mais tocados pela desigualdade social todas as modalidades do seu peregrino talentoso e generoso coração”.
Foi das primeiras femininistas portuguesas que dizia entre outras coisas, que se ela “reconhecia que a mulher tem os mesmos direitos que o homem e que é necessário instruí-la”.
Conhece-se a sua participação em pelo menos 78 jornais e periódicos, certamente um recorde nacional. Na vastidão da sua obra, é difícil discernir as publicações jornalísticas ou literárias que não devam ser consideradas educativas. O seu trabalho revela sempre preocupação com a divulgação, a formação e educação de crianças, jovens e adultos.

CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO. Médica, lutadora sufragista e fundadora da Associação de Propaganda Feminista, foi a primeira mulher a votar em Portugal, embora vivesse num país em que o sufrágio universal só seria instituído passados mais de sessenta anos, ou seja, depois do 25 de Abril de 1974.
O voto depositado nas urnas para as eleições da Assembleia Constituinte, em 1911, pela médica Carolina Beatriz Ângelo, constitui um episódio deveras exemplar de luta pela cidadania e pela emancipação da situação das mulheres em Portugal, numa altura em que o direito de voto era reconhecido apenas a "cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família".
Invocando a sua qualidade de chefe de família, uma vez que era viúva e mãe, Carolina Beatriz Ângelo conseguiu que um tribunal lhe reconhecesse o direito a votar (à revelia) com base no sentido do plural da expressão ‘cidadãos portugueses’ cujo masculino se refere, ao mesmo tempo, a homens e a mulheres.
Como consequência do seu acto, e para evitar que tal exemplo pudesse ser repetido, a lei foi alterada no ano seguinte, com a especificação de que apenas os chefes de família do sexo masculino poderiam votar.
Carolina Beatriz Ângelo foi assim, também, a primeira mulher a votar no quadro dos doze países europeus que vieram a constituir a União Europeia (até ao alargamento, em 1996).


CAROLINA MICHAELIS- Como se vê, esta filóloga - portuguesa, por casamento e por devoção - nasceu na Alemanha. Tendo estudado num colégio, e depois em casa com professor particular, o romanista Goldbeck, Carolina Michaëlis já aos 16 anos publicava uma recensão a Adolfo Mussafia ("Altspanische Prosadarstellung der Crescentiasage von A. Mussafia - Wien, 1866", Archiv für das Studium der neueren Sprachen und Litteraturen, 41, 1867, pp. 106-112); antes dos vinte, uma edição do Romancero do Cid (Leipzig, 1871); um ano passado entra como intérprete do Ministério do Interior alemão para os assuntos da Península Ibérica. Da deriva do interesse pela cultura hispânica para temas mais especificamente portugueses resulta conhecer Joaquim de Vasconcelos - musicólogo, historiador de arte, que estudara na Alemanha e que, por aquela altura, ao lado de Antero e de Adolfo Coelho, se houvera contra Castilho na polémica da tradução do Fausto ("Alguns artigos que publicou sobre litteratura portuguesa foram attraindo a attenção de um grupo de jovens patriotas que, em caloroso enthusiasmo, exprimiram a sua admiração e gratidão á novel auctora"); com Joaquim se casaria Carolina em Berlim, em 1876. Chegou nesse ano ao Porto, mas em 1877 estará uns meses na Biblioteca da Ajuda, "meses felizes e saudosos", a "decifrar e copiar, com paixão e paciéncia, essas pájinas seis vezes seculares", ou seja, o Cancioneiro da Ajuda. Os trabalhos de edição do Cancioneiro demorariam a completar-se 27 anos (publicação dos dois volumes de edição crítica e comentada em 1904, em Halle; para não contar com glossário: Revista Lusitana, 23, 1920, pp. 1-95), ilustrando bem características de D. Carolina, "pesquisa dos materiais, levada até ao extremo", "tratamento completo de todos os dados disponíveis conducentes à solidez e à validade das teses" (Maria Ana Ramos, "Palavras entre filólogos: uma carta de Leite de Vasconcellos a Carolina Michaëlis", Estudos Portugueses. Homenagem a Luciana Stegagno Picchio, 1991, pp. 143-158, p. 135)"). Em 1911, convidada para professora da Faculdade de Letras de Lisboa, transfere-se para a Universidade de Coimbra, onde lhe era mais fácil leccionar mantendo residência no Porto. No mesmo ano é eleita para a Academia das Ciências, o que, por se tratar de mulher, ainda foi objecto de discussões e melindres. (Sobre a maneira de ser de Carolina Michaëlis, veja-se o artigo de Luise Ey, sua amiga, "Dona Carolina Michaëlis na intimidade", Boletim da Segunda Classe..., pp. 231-245; um exemplo só: "Lembra-me uma famosa pesca no porto de Leixões, onde D, Carolina apanhou á isca um polvo enorme que ao jantar fez a delicia do esposo".)
Não é possível reportar-se aqui nem o essencial da sua produção nas áreas camoniana, vicentina, mirandina, bernardina, da romancística e, claro, da lírica trovadoresca, enfim todos os seus contributos para o conhecimento da literatura medieval e clássica - vejam-se a bibliografia que abre a Miscelânea de estudos em honra de D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Coimbra, 1933), ou, para síntese, o verbete sobre a filóloga no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa (organizado por G. Lanciani e G. Tavani; Lisboa, 1993). E também não mencionaremos a bibliografia de um seu campo de acção secundário, os estudos etnográficos - veja-se uma lista de trabalhos etnográficos em José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa. Tentame de sistematização, 1, Lisboa, 1933, p. 275. Mesmo assim, a edição do Cancioneiro da Ajuda (Halle, 1904, 2 volumes; há desses dois volumes e do glossário saído em 1920 recente reimpressão, precedida de prefácio por Ivo Castro: Lisboa, 1990, 2 volumes), a que com justiça se costuma acrescentar o epíteto "monumental", é adequado interface até chegarmos à bibliografia mais marcadamente linguística. Outras investigações etimológicas estão disseminadas nos ensaios sobre literatura (por exemplo, "Mestre Giraldo e os seus tratados de alveitaria e cetraria", Revista Lusitana, 23 (3-4), 1910; o volume 2 dos Dispersos publicados pela Revista de Portugal - série A - Língua Portuguesa colige outros artigos de âmbito linguístico). No verbete que lhe dedica no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, Ramón Lorenzo arrola como obra "linguística" mais conhecida as Lições de Filologia Portuguesa segundo as Prelecções feitas aos cursos de 1911-12 e de 1912-1913, seguidas das Lições Práticas de Português Arcaico (edição da Revista de Portugal: 1946 [circula reimpressão da Dinalivro, sem data]; tenha-se em conta porém que não é obra que D. Carolina tivesse preparado para publicação e que, como sebenta que era, deve ser das que mais se ressentem da passagem de quase um século); lembra também os artigos sobre infinitivo ("Der portugiesische Infinitiv", Romanische Forschungen, 7, 1893, pp. 49-122), sobre colocação do adjectivo ("Duas palavras sôbre a collocação do adjectivo em português", Revista Lusitana, 3, 1895, pp. 84-86), sobre a metafonia, a história do "l" e do "n", supletivismo no português ("Inéditos de D. Carolina Michaëlis", Revista Lusitana, 28, 1930, pp. 16-41); juntar-lhe-íamos ainda os artigos sobre a Cartilha maternal de João de Deus ("A cartilha portugueza e em especial a do Snr. João de Deus", O Ensino, 1, 1877, pp. 9-15, 17-19, 33-39). Sobre Carolina Michaëlis, além da bibliografia em periódicos de homenagem (Lusitania, fasc. 10, 1927; Boletim da Segunda Classe [da Academia das Ciências], Actas e Pareceres. Estudos, Documentos e Notícias, 5 (1911), Coimbra, 1912) ou em enciclopédias, há opúsculo acessível, O essencial sobre Carolina Michaëlis de Vasconcelos (por Maria Assunção Pinto Correia; Lisboa, 1986).


MARIA VELEDA - (Professora, feminista, republicana, livre-pensadora e espiritualista, 1871-1955)
Maria Veleda foi uma mulher pioneira na luta pela educação das crianças e os direitos das mulheres e na propaganda dos ideais republicanos, destacando-se como uma das mais importantes dirigentes do primeiro movimento feminista português.
Tendo-se estreado na imprensa algarvia e alentejana com a publicação de poesia, contos e novelas, dedicou-se depois aos temas feministas e educativos. Na linha da escola moderna de Francisco Ferrer, defendia a educação laica e integral, em que se aliassem a teoria e a prática, a liberdade, a criatividade, o espírito crítico e os valores éticos e cívicos. Num tempo em que a literatura infantil quase não existia em Portugal, publicou, em 1902, uma colecção de contos para crianças, intitulada «Cor-de-Rosa» e o opúsculo “Emancipação Feminina”.
Em 1909, por sua iniciativa, a «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas» fundou a «Obra Maternal» para acolher e educar crianças abandonadas ou em perigo moral, instituição que se manterá até 1916, graças à solidariedade da sociedade civil e às receitas obtidas em saraus teatrais, cujas peças dramáticas e cómicas Maria Veleda também escrevia e levava à cena. Em 1912, o governo nomeou-a Delegada de Vigilância da Tutoria Central da Infância de Lisboa, instituição destinada a recolher as crianças desamparadas, pedintes ou delinquentes, cargo que ocupou até 1941.
Consciente da situação de desigualdade em que as mulheres viviam, numa sociedade conservadora e pouco aberta à mudança, iniciou, nos primeiros anos do século XX, um dos maiores combates da sua vida: defender a igualdade de direitos jurídicos, cívicos e políticos entre os sexos. Numa época em que as mulheres estavam, por imperativos económicos, sociais e culturais, confinadas à esfera doméstica, criou cursos nocturnos no Centro Republicano Afonso Costa, onde era professora do ensino primário, e nos Centros Republicanos António José de Almeida e Boto Machado, para as ensinar a ler e a escrever e as educar civicamente, preparando-as para o exercício de uma profissão e a participação na vida política.
Entre 1910 e 1915, como dirigente da «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas» e das revistas A Mulher e a Criança e A Madrugada, empenhou-se na luta pelo sufrágio feminino, escrevendo, discursando, fazendo petições e chefiando delegações e representações aos órgãos de soberania. Combateu a prostituição, sobretudo, a de menores, e o direito de fiança por abuso sexual de crianças. Fundou o “Grupo das Treze” para combater a superstição, o obscurantismo e o fanatismo religioso que afectava sobretudo as mulheres e as impedia de se libertarem dos preconceitos sociais e da influência clerical que as mantinham submetidas aos dogmas da Igreja e à tutela masculina.
Convertida ao livre-pensamento e iniciada na Maçonaria, em 1907, aderiu também aos ideais da República e tornou-se oradora dos Centros Republicanos, escolas liberais, associações operárias e intelectuais, grémios, círios civis e comícios do Partido Republicano, da Junta Federal do Livre-Pensamento e da Associação Promotora do Registo Civil. Alguns destes discursos e conferências foram publicados no livro A Conquista, prefaciado por António José de Almeida.
O combate à monarquia e ao clericalismo valeu-lhe a condenação por abuso de liberdade de imprensa, em 1909, além das constantes perseguições e ameaças de morte, movidas por alguns sectores católicos e monárquicos mais conservadores.
Depois da implantação da República, por ocasião das incursões monárquicas de Paiva Couceiro, integrou o Grupo Pró-Pátria e percorreu o país em missão de propaganda, discursando em defesa do regime ameaçado. Em 1915, em consonância com o Partido Democrático de Afonso Costa, juntou-se aos conspiradores na preparação do golpe revolucionário que destituíu o governo ditatorial do General Pimenta de Castro e, a seguir, envolveu-se na propaganda a favor da entrada de Portugal na 1ª. Guerra Mundial.
Nesse mesmo ano, saíu da «Liga», filiou-se no Partido Democrático e fundou a «Associação Feminina de Propaganda Democrática», cuja acção terminou em 1916, em nome da “União Sagrada” de todos os portugueses, na defesa dos interesses da Pátria ameaçada.
Desiludida com a actuação dos governos republicanos que não cumpriram as promessas de conceder o voto às mulheres nem souberam orientar a República de modo a estabelecer as verdadeiras Igualdade, Liberdade e Fraternidade e construir uma sociedade mais justa e melhor, abandonou o activismo político e feminista em 1921, após os acontecimentos da “noite sangrenta”. Fez-se jornalista do Século e de A Pátria de Luanda, onde continuou a defender os ideais feministas e republicanos que sempre a nortearam.
Atraída pelos caminhos da espiritualidade e do esoterismo e preocupada com o sentido da existência humana, aderiu ao espiritismo filosófico, científico e experimental. Fundou o «Grupo Espiritualista Luz e Amor» e, em 1925, dinamizou a organização do I Congresso Espírita Português e participou na criação da Federação Espírita Portuguesa. Fundou as Revistas A Asa, O Futuro e A Vanguarda Espírita e colaborou na imprensa espiritualista de todo o país, publicando poesia e artigos de pendor reflexivo e memorialista. Em 1950, publicou as «Memórias de Maria Veleda» no jornal República.

Maria Veleda dedicou a vida aos ideais de justiça, liberdade, igualdade e democracia e empenhou-se na construção de uma sociedade melhor, onde todos pudessem ser felizes. Semeou ideias, iniciou processos de mudança nas práticas sociais e lançou o debate sobre os lugares, os papéis e os poderes de mulheres e homens num mundo novo.

VIRGÍNIA QUARESMA- Foi a primeira mulher a exercer jornalismo em Portugal. Foi colaboradora muito activa nas redacções dos jornais O Século e A Capital. Fundou a primeira agência de publicidade no jornalismo. No período que se seguiu à Implantação da República até ao Movimento de 28 de Maio de 1926, esta jornalista distinguiu-se em importantes reportagens de teor politíco e social.

EMÍLIA DE SOUSA COSTA - Foi uma prolífica autora de histórias infantis e uma divulgadora empenhada da obra dos irmãos Grimm, Jakob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), em Portugal, através da adaptação de muitos dos seus contos para a língua portuguesa.












Textos retirados parcialmente da Internet.

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terça-feira, 16 de março de 2010

de Miguel Angel

Atrás respeitar luto, abreviado pela impaciência, a baronesa fez gosto por retomar reuniões sociais, entremeando carteados entre amigos e familiares, com bailes do Cassino Fluminense, passeios expedicionários, piqueniques domingueiros e diversas outras festividades. A mudança na condição social em função da viuvez conferiu-lhe novos direitos e privilégios, entrementes, restaram considerações aos códigos do decoro público; como a viajada senhora entendia que a ética estava inserida no brocardo basco: Erric bere legue, ycheac bere aztura*. (*Cada terra sua lei, cada casa seu costume,) Claudia de Souto Correia fez questão da ligação íntima com Garcia permanecer incógnita daquele aglomerado ciumento com iguarias institucionais e estimativas quantitativas, que podiam interferir em seus interesses. Convenientemente, ela achava mais divertido assim. E somente amigos pretendiam aparentar ser a todos.

Debruçado no trabalho, Garcia parecia imperturbável – se percebia, julgou irrelevante no começo –, a viúva lhe metamorfosear a aparência, outrora desleixada e motivo de chacota, pese sua vistosa compleição, de alguns janotas habitués de conferências. Numa semana, bigode raspado e suíças curtas num moderno corte de cabelo sugerindo novo penteado apartado ao centro; na outra, a arte de modistas francesas confeccionaram, com fazenda importada da Inglaterra, roupas com cortes da moda francesa, e até bengala com castão de marfim lhe conferiam a elegância que nunca supôs ter, nem Nhá Marchais, que muito se divertia no papel de artífice; finalmente, e não menos expressivo, com intensiva obra e graça, domesticou o tosco cientista e amante elétrico, com lições de etiqueta comportamental; de modo a assumir os tiques de seu novo grupo social, ensinou-lhe a modular as palavras, a postura do corpo e cujo resultado só recalcitrantes notariam defeito. Obediente, em função de sua utilidade operacional, Garcia consentia a dedicação da viúva; contudo, a natural vaidade, incorporada ao pacote que acompanha os homens desde priscas eras, parecia lhe estimular a prazerosa desforra do estúrdio pato que fora, ao pavão de crista e plumagem colorida que virara.(...)

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Fragmento do romance "Sobre Moscas e Aranhas de Guerra"

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domingo, 14 de março de 2010

Por Ed Santos



E antes mesmo de terminar o café da manhã, eu já estava pensando no que fazer pro almoço.Lembrei que a Silvana me havia dado uma receita de um cupim assado que ela fez, e que segundo ela ficou espetacular.
Terminei o café e a leitura do jornal e desci pra feira pensando num suculento e fresco maço de agrião. A Silvana só tinha me falado da carne, mas eu queria dar uma incrementada. Antes, passei na barraca da Rose pra ver umas frutas e levei um abacaxi perola que a barraqueira me garantiu ser um mel. Depois fui na barraca dos legumes e verduras pra comprar o tal agrião, e ele tava do jeito que eu tinha pensado.
Então fui em busca do cupim. Deveria ser uma peca de uns dois quilos mais ou menos pra poder caber na forma que eu tenho, mesmo porque, só quem iria almoçar era eu, a patroa e os três moleques. E ainda ia sobrar, porque lá em casa tudo mundo come pouco.
Missão cumprida e lá fui eu todo feliz. Abri a geladeira pra poder dar uma olhada no segredo da receita: um creme de alho que  a Silvana recomendou. A minha intenção era fazer um arroz branco, o tal cupim servido com o molho de alho e uma salada de agrião. Pra acompanhar tinha um cabernet sauvignon esperando ser aberto.
Temperei o cupim só no sal e envolvi no papel alumínio. O forno já estava pré-aquecido havia uns 15 minutos. Botei lá na minha assadeira pequena. Enquanto aguardava a carne ser assada preparei o arroz e a salada. O tempo exato de forno eu não sei, mas o pessoal já tava aborrecido com a demora do almoço que enfim saiu.
Fartura geral naquela mesa e depois ninguém quis nem tirar a mesa, quem dirá lavar a louça. A combinação confesso que me surpreendeu e o resultado foi melhor que o esperado. Quando fui servir a sobremesa tive uma surpresa não muito agradável. O abacaxi pérola realmente era um mel como a Rose havia dito, mas o problema foi na hora de descascar. Cortei meu dedo. Poxa tava tudo tão perfeito naquele domingão! Mas o corte apesar de profundo, não mereceu maiores cuidados. Depois de muito sangrar, fiz um curativo e pronto.
        Quase quatro da tarde e fui me aconchegando no tapete da sala enquanto minha esposa cuidava do jardim e os moleques brincavam no quintal - cada um tem seu ritmo pra fazer digestão né? O cochilo no meu caso, era necessário não por conta daquela preguicinha de domingo, mas pra recarregar as baterias pra enfrentar a semana seguinte. Acordei a tempo de ver o jogo de futebol começar, mas fui surpreendido por minha esposa dizendo que eu não estava em condições de pilotar o controle remoto: “Quem mandou se cortar? Agora eu tomo conta do controle. A  não ser que você queira ir assistir lá no quarto!”
        Como vemos, realmente o domingo “poderia” ter sido perfeito.
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Por Dudu Oliva

Fiz uma coisa e agora sinto remorso. Deletei uma pessoa do meu Orkut, porque me mandava recados em massa de mensagens positivas e com figuras meigas. O que me irritou não foi o conteúdo das mensagens, mas o excesso de informações que lotavam a minha página de recado.

Se tiver algo de especial a dizer ou uma informação importante, acho bacana a pessoa compartilhar com amigos e outras pessoas. É só usar o equilíbrio ou o bom senso.

Confesso que ingresse nas redes sociais, fiquei enviando um monte de recados a fim de divulgar meu blog e escritos. Já escrevi várias vezes aqui no blogo o que escreveram para mim uma vez: “Você divulga seu blog como as Casas Bahia”. Como dizem por aí: “ quem nunca comeu melado se lambuza.”. Com o tempo, apesar de ter algumas recaídas, percebi que o efeito colateral desta prática abusiva( SPAM) causa uma repulsa nas pessoas. Simplesmente apagam as mensagens sem ler sequer uma palavra.

Retornando ao fato do primeiro parágrafo, ao ver aqueles “scraps” massivos, senti um esvaziamento dos significados das palavras. Como se a essência das palavras se esvaíssem, tornando-as ocas. Por isso, saber usar na hora certa as redes de relacionamentos virtuais, para divulgar qualquer coisa, é uma sabedoria; principalmente, contra banalidades.
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quinta-feira, 11 de março de 2010


João Paulo Mesquita Simões


Dia 8 de Março, foi o Dia Internacional da Mulher.

Não querendo deixar passar a data em branco, embora já tenham passado uns dias, e hoje é o meu dia de postar no Tudo Cultural, deixo-vos este poema de Florbela Espanca.


Mais AltoMais alto, sim!

mais alto, mais além

Do sonho, onde morar a dor da vida,

Até sair de mim! Ser a Perdida,

A que se não encontra!

Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!

Ser orgulho, ser àguia na subida,

Até chegar a ser, entontecida,

Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A intangível!

Turris Ebúrnea erguida nos espaços,

À rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber

mal da vida dentro dos meus braços,

Dos meus divinos braços de Mulher!



Florbela Espanca


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domingo, 7 de março de 2010

Por Ed Santos



É chover no molhado dizer que o sempre apressado motoboy contribui em muito para o desenvolvimento do país, visto sua facilidade de locomoção e a agilidade na execução de suas tarefas. Também seria redundância dizer que a pressa é inimiga da perfeição. Basta ver os números de acidentes em que eles se envolvem.
Esse dias me envolvi em um ATSV (acidente de trânsito sem vítima). Dirigia meu carro na Radial Leste no fim da tarde, quando ao mudar da faixa direita para a faixa esquerda, sinalizando exatamente como determina o código nacional de trânsito, fui ultrapassado repentinamente pela esquerda por um motociclista. Percebi a tempo de não jogar o cara na mureta de proteção, mas ao desviar, outra motocicleta tentava me ultrapassar pelo “corredor” da direita. Conclusão: ASTV. Derrubei o motociclista e o garupa. O fato de desviar do motociclista da esquerda foi o motivo da queda do da direita.
Depois de nos certificarmos que não havia nenhuma lesão grave em ninguém – ainda bem, tratamos de tirar os veículos do local e liberar a pista. Desde aí, ainda com os ânimos alterados, houve tentativa de conversa para verificar os danos nos veículos, mas sem sucesso. A carenagem da moto do rapaz quebrou e a porta do meu carro ficou amassada. Quem iria arcar com as despesas? Eu que fechei o corredor atrapalhando o motociclista, ou ele, que bateu no meu carro?
Sem resposta para as perguntas e sem conseguir acalmar os ânimos, as autoridades de trânsito foram acionadas. A motocicleta apresentava algumas irregularidades que comprometeriam o condutor e seria apreendida se eu quisesse. Resolvemos por trocar telefones e o rapaz iria me ligar. Até agora nada. E sendo assim cada um ficou com seu prejuízo. Segue diálogo do momento:
- Poxa, se a gente for levar isso à diante, minha moto vai ser apreendida e eu preciso dela pra trabalhar.
- Olha, eu não tô aqui pra prejudicar ninguém.
- Então. Me dá seu telefone que eu vou ver o preço da carenagem nova na loja. Só vende na Honda.
- E a minha porta?
- Meu tio é funileiro. Ele arruma pra você. Você só vai pagar o material.
- Então faz o seguinte. Você vê o preço da sua carenagem na Honda que eu pago, tá? Mas seu tio não põe a mão no meu carro porque eu também quero uma porta nova, e só vende na Volks. Eu vou ligar lá e depois te falo o preço, tá?
Porque será que ninguém me ligou até agora?
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sábado, 6 de março de 2010

Microcontos de Gustavo do Carmo




Fatura
Foi sorteado e ganhou um mês de fatura paga do cartão crédito. Mas foi exatamente no mês em que sua esposa estava se restabelecendo de um acidente no hospital. No mês seguinte, ela voltou a estourar o limite como sempre.

Acordando
Acordou sem inspiração e vontade para nada. Dormiu às cinco da manhã com um livro pronto para ser publicado.


Dormindo
Dormiu pensando que ia assinar um bom contrato para publicar o seu livro. Acordou e descobriu que teria que pagar pela edição.



Sono Profundo
Esperou tanto por uma oportunidade que acabou se cansando. Quando o jornal ligou para lhe oferecer um emprego, ele estava num sono profundo.



Sorte
Sempre acreditou que passar embaixo da escada dava sorte. E pra ele deu mesmo. Quando passou, caiu um martelo de obra em sua cabeça. Sobreviveu, mas levou alguns pontos. Ganhou uma indenização bem gorda.



Azar
Sempre acreditou que cruzar com gato preto dava azar. E pra ele deu mesmo. Quando tentou tirá-lo do seu caminho ficou todo arranhado.



Ágil
Teve uma ideia para escrever um livro que seria um best-seller e o livraria da dependência financeira do pai. Um grande autor teve a mesma ideia. Foi mais ágil e publicou mais um best-seller.



Supersticioso I
Não era supersticioso. Quando passou por baixo da escada, um martelo caiu em sua cabeça, afundando-lhe o crânio.


Supersticioso II
Não era supersticioso e não tinha medo de gato preto. Foi brincar com ele e levou um arranhão na jugular.



Espinhos
Era uma mulher tão sem sorte que conseguiu pegar a única rosa com espinhos no show do Roberto Carlos.
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