domingo, 27 de setembro de 2009

Por Ed Santos

Na manicure, a Marilda se lamenta porque não pode acompanhar o marido que foi fazer um exame de sangue. Logo ela que se achava tão companheira, tão próxima do parceiro, e tão disponível, desconfiou que o Amadeu não queria que ela fosse com ele.

- Neuza, o Amadeu anda meio estranho ultimamente, meio afastado, sabe. Tô sentindo ele meio distante. Não quer mais minha companhia pra nada. Cê acredita que outro dia ele foi sozinho no cinema?

- Nossa. Faz tanto tempo que não faço isso.

- O que? Ir no cinema?

- Não. Ir no cinema sozinha. Eu adoro!

- Que é isso Neuza? Você também? Pensei que era só aquele relapso do meu marido.

- Que nada. Ir no cinema sozinha é ótimo. Eu sempre fui. Mesmo depois de casada. O Paulo nem liga. Também, não gosta de cinema.

- Meu Deus! Como uma pessoa pode ir no cinema sozinha? Sem companhia, sem ninguém, sem passear de mãos dadas.

- Ah, Marilda. Eu vou no cinema é pra assistir o filme e não pra outras coisas. Namorar a gente namora em casa.

- E o romantismo mulher? Onde fica?

- Ah, minha filha! Não preciso ir no cinema pra ser romântica, não. Eu e o Paulo, a gente se completa em todos os sentidos, inclusive nos momentos em que estamos sozinhos, estamos um com o outro entende?

- Nossa Neuza, que palavras bonitas! Tô até com inveja.

- A gente tem uma sintonia muito forte sabe? A gente respeita o lado individual de cada um. Um dia, durante uma discussão quando a gente ainda namorava, ele virou pra mim e disse: “Neuza, eu tenho minha vida, você tem a sua e a gente tem a nossa. Se eu tiver uma vida feliz e você também, a nossa com certeza será”. Depois desse dia eu tive certeza que amava o Paulo.

A Marilda ficou emocionada com as palavras da manicure, e deixou escorrer uma lágrima. Ao tentar não enxugá-la, puxou a mão direita justo no momento que a Neuza apertava-lhe o alicate junto à cutícula do dedo médio. Ao ver o sangue no canto da unha, começou a passar mal e lembrou que o marido não estava ali ao seu lado. Entendeu que sua história era totalmente diferente da história da manicure. O seu casamento realmente estava acabando.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Por dudu oliva

Olhava-me pela janela. Eu malhando, podia sentir sua respiração ofegante sob o véu. Escancarava a janela, queria que visse o meu corpo. Quando nos encontrávamos no metrô, ela não dizia nada, mas, o corpo falava tudo. Tentava se esconder ainda mais naquele véu colorido. Será que sabe a dança do ventre? Perguntava-me sempre. Via algumas aulas na academia, ficava com tesão de ver as mulheres remexerem as barrigas definidas e com piercing nos umbigos. Será que queria dançar para mim, como se fosse um convite para possuí-la. Sempre ouvi que os olhos são o espelho da alma. Podia ver seus olhos em chamas sob o véu colorido.

Ficamos alguns meses assim. Abria a janela e ela se escondia na escuridão do seu apartamento. Porém, um dia, a campainha tocou. Fui atender sem camisa, acabara de fazer flexão. Tive uma surpresa. Era ela toda coberta com um vestido que parecia uma manta espessa. Fez um gesto para me sentar. Começou a se despir, mas continuou com o véu. Atrás de tantos panos, havia a típica roupa das dançarinas da dança do ventre. Pegou na bolsa um cd e colocou no som. Eu não sabia se estava maluco ou se era realidade o que acontecia. Ela transbordava sensualidade. Senti-me um califa.

Quando terminou, veio para minha direção. Sentou no meu colo. Percebi que estava segurando um pequeno frasco. Sem dizer uma palavra, me fez beber um líquido doce. A partir daí, não me lembro mais de nada.

Acordei no sofá. Estava coberto com o edredom e numa das mãos estava com o véu colorido. Fiquei atordoado. O que teria acontecido? Liguei a TV, como sempre fazia de manhã. Vi um vagão de metrô todo retorcido em chamas. Quando a repórter disse a localidade do atentado, senti calafrio. Sempre passava por ali, para trabalhar e encontrava a mulher misteriosa. Minha mente estava confusa. Comecei a fazer conexões, quando a repórter disse que os sobreviventes e testemunhas viram, minutos antes, uma jovem coberta por um véu entrar no vagão, segundos depois, aconteceu há explosão. Não podia ser! Dias depois, a suspeitas se concretizaram. Cachorra!! Por que fez isso? Poderíamos ter nos conhecido melhor. Mas era uma mulher-bomba, preferiu a missão a mim. Tempos depois, percebi que estava precipitado com a conclusão. Ela me salvou.

Matou milhares de pessoas inocentes, mas, salvou a minha vida. Senti ao mesmo tempo culpa e felicidade de estar vivo.

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quinta-feira, 24 de setembro de 2009


João Paulo Mesquita Simões



Bastante parecido com o pão alentejano, este pão de trigo de tipo caseiro é um pão grande, redondo, cuja “cabeça” tem quase o mesmo diâmetro que a base. Os pães tendidos à mão vão sendo acamados nos tabuleiros, meio escondidos pelas pregas dos lençóis e das mantas brancas, enquanto esperam o momento de entrar no forno. Como dizem os Algarvios, “são cozidos no barro”, ou seja num forno de lajes de barro. À entrada do forno, as bolas de massa são esticadas num dos lados para obter a cabeça, e dobradas sobre a base, espalmando a massa com as mãos. O pão de testa apresenta uma côdea ligeiramente dourada, sem brilho, e bastante miolo.


(In: Pagela dos CTT)
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terça-feira, 22 de setembro de 2009

de Miguel Angel



Uma poça de água se formara aos pés de Angélica e Garcia advertiu-a do perigo de apanhar um resfriado e lhe sugere tomar providências. Assentindo, ela subiu ao cômodo e Garcia se incumbiu de atiçar o fogo; passados uns minutos, ele a viu descendo, calçando chinelos atoalhados e coberta com uma manta; parecia ter esquecido sua recente revolta, mas seu nervoso sorriso exteriorizava um sentimento insondável para Garcia; as roupas molhadas que levava nos braços foram espalhadas perto do fogão; Angélica terminou de preparar o café e logo a bebida os confortou. O entardecer amortecera a luz na janela fechando as folhas das acácias e acentuando seu perfume; sentados lado a lado diante da mesa, observaram fascinados o crepitar das chamas envolvendo-os em luz e calor; espontâneo, sem saber bem por que, Garcia pousou sua mão na dela; respondendo, ela copiou o gesto com a outra e o movimento fez a manta que a cobria escorregar dos ombros indo se aninhar no seu regaço; recatada, ela fez menção de recolhê-la, mas o doutor a impediu, segurando-lhe ambas mãos, sem encontrar resistência; o brilho das chamas ondulou na turgência dos seios nus e Garcia obedeceu ao irresistível repousando sobre um deles seu afago; os olhos se encontraram retratando idêntico claror; assim enfronhados no silêncio, demoraram-se por um longo tempo.
Não te importes com o passado, não sondes o destino, não percas este instante: Eis a paz
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Do romance: "Moscas e Aranhas"
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009


Texto: Divulgação

“Fábulas”, de Monteiro Lobato, saiu pela primeira vez em 1922. Neste livro, o criador do Sítio do Picapau Amarelo reconta fábulas de Esopo e La Fontaine e publica algumas de sua autoria. Adaptadas para o universo do Sítio, as fábulas estimulam a participação de todos os personagens através de perguntas e críticas. Nesta nova edição da obra de Lobato, cada volume adaptado é ilustrado por um artista diferente que apresenta a sua interpretação dos personagens. “Fábulas” é ilustrado por Alcy Linares, um dos ilustradores de livros infantis mais premiados no Brasil.

Nota do Editor: Eu indico a edição atual mas estou lendo uma edição antiga, de 1973, que pertencia à minha prima. As páginas estão amareladas, caindo aos pedaços e ainda está faltando algumas páginas. Cheguei a colar algumas. As histórias são ótimas, só acho chatos os comentários da turma do Sítio. Alguns até agradam.
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domingo, 20 de setembro de 2009

Por Ed Santos

Eles não iam muito com a cara do professor de ciências, o Silvio. Um tipo magro, com um bigodinho ridículo e vesgo. Logo na primeira aula todos perceberam que o Silvio usava o bordão “Bacaninha”. “Se vocês acertarem este exercício, vão levar uma nota bacaninha”, “Olhem aqui, que célula bacaninha”, ou “Viram só que aula bacaninha que vocês tiveram hoje?”.

O Tadeu pescou na hora e já soltou:

- Professor sua prova vai ser difícil ou vai ser bacaninha?

- Pra quem estudar, pode ter certeza que ela vai ser bacaninha. Agora, pra quem só vive no mundo da lua, ou conversando durante a aula, pode ser péssima.

O recado foi dado mas não foi pro Tadeu, que sempre prestava atenção nas aulas e era bom aluno. A direta era pra Fabiana que carregava um caminhão pelo Tadeu e que passava a noite toda mexendo nos cachos dele.

Um dia antes da prova, durante o intervalo, o Tadeu foi surpreendido:

- Tadeu, será que você não se toca não?

- Se toca do que Fabiana?

- Do meu comportamento, ora!

- O que que tem?

- O que é que eu fico fazendo durante a aula toda?

- Fica mexendo no meu cabelo

- Então?

- Então o que?

- Voce não gosta?

- Às vezes.

- Por que?

- Você fica desarrumando meus cachos, mas não é ruim não. Ruim é ouvir o pessoal dizer que você “paga um pau pra mim”.

- Mas é exatamente isso. Eu gosto de você de verdade. Quero namorar com você.

No outro dia, dia da prova, o Tadeu entra na aula e vê o Bacaninha em pé em cima da mesa e de óculos escuros.

- Como é que um professor vesgo de óculos escuros pode aplicar uma prova em pé em cima da mesa? – perguntou à si mesmo o Tadeu ao sentar-se ao lado da amiga.

- Oi Fabiana.

- Oi.

- O que é isso, hein? Esse professor aí em pé de óculos.

- O pior é que eu não entendi nada da matéria. Fiz uma colinha aqui, mas tô vendo que vai ser difícil colar hoje. Já é difícil saber pra onde o Silvio tá olhando, imagina de óculos escuros!

- É. Pelo visto você não vai ter uma nota bacaninha.

- É! Nem vou poder mexer nos seus cabelos hoje.

- É! Hoje não, mas amanhã quem sabe?

- É! Aí acho que vai ser bem bacaninha!

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Por dudu oliva


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quinta-feira, 17 de setembro de 2009



João Paulo Mesquita Simões








“No tempo do corporativismo. as padarias fechavam ao sábado, ao meio-dia e deixavam os restaurantes sem pão fresco ao domingo. Contrariando a lei, alguns restaurantes começaram a fazer pães pequenos de cem gramas que chegavam à mesa ainda quentes.” Em Almeirim e nos arredores, algumas padeiras ainda fabricam estes pães também chamados de “bolinhas”. recorrendo ao método tradicional. A massa é batida. cresce no alguidar e vai ao forno. Os grandes pães são os primeiros a entrar, enquanto os pequenos ficam mais perto da boca do forno, atrás das brasas. Alguns destes pãezinhos levam dentro chouriço cortado em rodelas finas. Depois de vinte minutos, saem do forno, coradinhos e avermelhados pela gordura a derreter.
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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Por Gustavo do Carmo




Já está à venda na Bienal do Livro no Riocentro e no site da Litteris Editora (http://www.litteris.com.br/) a antologia poética "Uma Viagem pra Pasárgada", com textos inspirados no clássico poema de Manuel Bandeira.


Eu participo com o poema "Vou-me embora pra SP".



Preço: 18 reais com capa simples e 25 reais com capa dura. Acesse a página do livro clicando na capa.

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de Miguel Angel

Naquela mesma noite, Angélica foi invadida por pesadelo que a fez chorar e gritar de angústia:
de pé ao lado de minha cama, observa-me em silêncio uma velha índia que ostenta dois chifres portando grossa vela negra / dois ratos se assomam na sua boca e, expelidos num vômito, vão se refugiar debaixo do meu cobertor / protegidos pela escuridão, procurarão o interior das minhas coxas para se refugiar e fazer ninho / encolho as pernas, com horror cubro meu sexo com as mãos / a velha se dirige a um outro quarto, vou atrás, sem ela perceber / só ela entra nele, eu espio da porta entreaberta porque percebo pela fresta do batente, que atrás da porta está outra índia escondida / nua e montada num cavalo branco, espera eu entrar para me atacar / no meio do cômodo, há uma cama e deitada nela uma mulher parece dormir / a velha se agacha e com a chama da vela começa a pôr fogo nos lençóis / o fogo começa a se alastrar, eu fico angustiada por causa da mulher que não se dá conta do que acontece, parece morta, mas eu sei que dorme profundamente / de repente entendo que a mulher é Amanda, minha irmã / preciso acordá-la, porém, não posso ser vista pela índia que espera por mim atrás da porta / então grito desesperadamente para acordar minha irmã sem ligar para a índia que, com sinais medonhos, me ordena parar de gritar, para não acordar essa mulher que merece ser queimada por lhe roubar seus ratos e seu filho / penso lhe explicar que está enganada, que seus dois ratos estão escondidos na minha cama e pode ir lá pegá-los / as chamas provocam fumaça que se levanta e cobrindo o teto, formam nuvens espessas iguais as de um céu tormentoso / penso, com alívio, que se chovesse, o fogo seria apagado / mas continuo a gritar para minha irmã acordar e sair daquela cama / volto ao meu quarto para pegar os ratos e devolvê-los à bruxa, isso fará ela parar / devo encontrá-los antes que o fogo queime minha irmã / procuro no cobertor e entre os lençóis, e descubro os ratos fazendo ninho dentro do travesseiro / mesmo com asco, aperto o travesseiro contra meu peito para eles não fugirem e volto à soleira do quarto / a velha ainda está lá, avivando com um poncho e assoprando o fogo para ampliar as chamas / cuidando para não entrar no quarto, atiro o travesseiro em sua direção e grito que seus malditos ratos estão dentro dele e agora pode deixar minha irmã em paz, senão, vou entrar e eu mesma apagarei o fogo / ela dá uma risada e recolhe o travesseiro que acabei de lhe jogar, procura pelos ratos e disse que não tente enganá-la, que ela já sabe que seus queridinhos estão no esconderijo de minhas pernas / levanto meu roupão para ver se é verdade e vejo que eles conseguiram fazer ninho entre meus pêlos e dezenas de filhotes estão se mexendo / o asco e o desespero tomam conta de mim, tento arrancar os bichos / pulo e corro chorando e chamando minha mãe ajudar a me livrar deles, mas não esqueço minha irmã / então percebo que os ratos são um truque da velha, para eu sair dali e permitir o fogo tomar conta da cama / trovoadas começam a iluminar as nuvens do teto, rezo para chover logo sobre a cama / os trovões fazem um barulho ensurdecedor / uma tormenta se forma / um vento uivando como mil lobos, entra no quarto / a janela se abre com estrondo / me acalmo ao perceber que o barulho está acordando minha irmã / mas aproveito para gritar mais alto Acorda, Amanda! Acorda, irmã / a velha parece preocupada e, a um assobio, os ratos que estavam entre meus pêlos vão em sua direção / são dezenas de filhotes e um após outro, vão subindo pelas pernas dela e entrando pela sua boca escancarada / ela está furiosa com a chuva que começa a cair sobre a cama / consegue apagar o fogo aos poucos / molha minha irmã, que começa a acordar / fico muito feliz e, alegre, pulo como uma louca para fazer a velha ir embora de vez / ela insiste em repor o fogo nos lençóis, apesar da água caindo sobre a vela / me dou conta que é um sortilégio, a água não conseguirá apagar a vela, e dou berros para detê-la, pensando que isso vai ajudar minha irmã acordar de vez: Acorda, Amanda! Acorda, irmã! / de repente, dou-me conta que meus gritos saem de minha boca como um vento que ajuda as janelas se abrirem, e isso poderá apagar o fogo, então grito mais e mais grito Acorda, Amanda! Acorda, irmã!
Acordada com os gritos de Angélica ressoando pela casa, D. Ivone, assustada, senta na cama e toca o sino. Mateus não demora a chegar.
– Vamos até o quarto de minha filha. Vamos!
Acorda, Amanda! Acorda, irmã!
Mateus cobre os ombros da velha senhora com uma manta e coloca um braço dela ao redor de seu pescoço. Assim apoiada, vão até o cômodo de onde se ouvem gritos.
D. Ivone tenta abrir a porta trancada, bate com os punhos nela.
– Abre a porta, Angélica! Que está acontecendo? Mateus, arromba ela!...
Acorda, Amanda! Acorda, minha irmã!
Mateus abre a porta com um empurrão.
– Vá trazer um chá calmante! Corre! – ordena a senhora e ao entrar no quarto, vê Angélica de olhos fechados surgir entre lençóis molhados de suor, sentar na cama e, se debatendo, tapear o baixo ventre. Impelidos pelo vento que esvoaçam as cortinas, os postigos açoitam ruidosamente a janela. – Que gritos são esses, minha querida?... – Ao ouvir sua voz, a moça abre os olhos ainda espantados de pesadelo e os braços em sinal de acode. – D. Ivone senta a seu lado e a abraça. – Venha cá, já passou, passou... – Angélica acorda, olha em redor apavorada, examina o travesseiro e o arremessa para longe, soluça no colo de D. Ivone que a ampara com seu abraço – Pronto, mamãe está aqui. Chora, criatura. Que medo é esse? ... Chora, meu anjo, chora... Vês? Já passou? Foi-se embora quem te assustou?... – Angélica se aconchega, tremendo...
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Trecho do romance "Moscas e aranhas de guerra" de Dalton W. Reis
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domingo, 13 de setembro de 2009

Por Ed Santos


O homem é o único animal adulto que toma leite. A mulher, sua parceira, infelizmente compartilha desta atitude humana. A única ressalva. O macho não percebe isso. Isso é uma característica das mulheres, assim como o clichê “ficar grávida” e menstruar. Se bem que a menstruação é um caso à parte, porque é precedida da tensão pré-menstrual.

A discussão é inevitável. Toda mulher trem sua tensão pré-menstrual e toda mulher vive sua tensão pré-menstrual à sua maneira. Umas sentem cólicas insuportáveis, outras não sentem absolutamente nada e muitas outras ficam no maior índice possível de irritabilidade. Daquelas que bastam levantar a pálpebra pela manhã pra sentirem que o mundo todo está contra elas.

Uma velha amiga me confidenciou o seguinte:

“Eu tenho uma maneira diferente de encarar minha tensão pré-menstrual. Pra mim, a tensão pré-menstrual funciona como se fosse um sinal, tipo:

- Olha! Vai chover! Recolhe a roupa do varal! Fecha a janela! Põe o Totó pra dentro!

Um prenúncio. Um aviso. Depois daquele momento pré-chuva, aí vem. Nossa, que alívio! Todas as tensões somem e o corpo fica leve. Sabe aquela coisa de ajoelhar no sofá e ficar observando a chuva pela janela?

Não sou do tipo de mulher que tem ódio mortal do universo quanto está na tensão pré-menstrual. Também não tenho apego nenhum à estar naqueles dias, pelo contrário, o que acontece é que convivo com o fato muito bem, obrigado. Faz parte da vida, e eu vivo muito bem com isso, e aprendi agir assim depois de tentar sem sucesso todos os recursos possíveis, desde a fitoterapia, alopatia, homeopatia, me dediquei ao desprendimento total, além, do mais tenho a sorte de ter um companheiro que não toma leite como os outros e que me serve com todas as vitaminas que são necessárias para restabelecer a tranqüilidade àqueles dias:

Vitamina A, de Amor

Vitamina B, de Beijo

Vitamina C, de Carinho

Vitamina D, de Dedicação

Vitamina E, de Entrega.”

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009


Por dudu oliva


The Olly and Dolly Sisters
László Moholy-Nagy American, born Hungary, about 1925 Gelatin silver print14 3/4 x 10 13/16 in. 84.XM.997.24


O jovem artista fixou o olhar no quadro, deslumbrou-se com a harmonia das formas e se especializou em pincelar formas geométricas. Até hoje, quando espia sua Musa, a imaginação eclode e às vezes sonha que está entre os seus pequeninos seios retangulares.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Por

João Paulo Mesquita Simões


É um pão de trigo em forma de florão, que se divide em quatro partes iguais. O padeiro espalma e dobra a massa, até formar um quadrado: depois enrola-a e vinca-a ao meio com o cutelo da mão, fazendo um rasgo. Repete a operação no sentido oposto de forma a obter quatro lóbulos de massa. Antes de o pôr no forno a cozer, borrifa o coração do pão, para que as quatro partes se separem, abrindo como pétalas de flor.


(In: Pagela dos CTT)
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domingo, 6 de setembro de 2009

Por Ed Santos

Sinceramente esperei pela chuva hoje, pela garoa ao menos
Mas ela teimou em não vir
Teimosia tem limites.
Seria o fim se fosse dormir sem vê-las, gotas
Na esperança, abrem-se as vidraças e ao olho nú, tingi-se o céu de um fundo breu
Carregado de olhos vidrados nos nobres eunucos possuidores da mais intensa carga de tesão
Não poderei deitar-me, sem apetecer reagir ao tempo bom.
O recurso é a lúdica tempestade abaixo da claraboia, e o edredon que me acolhe.
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sábado, 5 de setembro de 2009

Por Gustavo do Carmo

Crédito da Imagem: Photo Bucket - http://photobucket.com
Empolgado, como se tivesse achado a cura definitiva do câncer, o editor-chefe do jornal ordena à sua secretária:

— Gabrielle, faz um favor? Faz uma ligação para a residência de Arnaldo Cervantes? Estão aqui os números do telefone e do celular dele.

Depois de alguns minutos, Gabrielle retorna o pedido:

— Não consegui falar com ele, seu Mário. O telefone de casa não atende e o celular está fora de área.
— Que pena! Depois eu ligo pra ele então.
Senhor Mário voltou para o seu trabalho, a revisão de uma matéria. Lucas Santos, principal repórter do jornal, entra na sala transparente do editor-chefe para lhe comunicar uma pauta:
— Chefe, acabei de receber a notícia de que um homem está lá no terraço do Avenida Central tentando se matar. Eu estou indo cobrir, O.K.?

— Está bem, Lucas. Mas antes de você sair, dê uma lida neste conto. Muito bom! Diz o editor, ainda com alto grau de entusiasmo. — Já encontramos o nosso colunista para o novo caderno de sábado.
Lucas lê o conto e dá um sorriso de aprovação. Pergunta:
— Esse Arnaldo Cervantes é pseudônimo?
— Claro que não.
— Então eu tenho quase a certeza de que é esse cara aqui que está tentando se matar lá no Centro. O tal potencial suicida se chama Arnaldo Miguel Oliveira de Cervantes.
A euforia de Mário dá lugar ao desespero.
— Está brincando! Por que você acha que é ele?
— Porque, pelo que apurei, esse tal Arnaldo é um aspirante a escritor que perdeu o pai recentemente e sua família está à beira da falência. Há quanto tempo ele te mandou esse texto?
— Faz um tempão. Só agora que eu tive tempo de ler. Mas será que é ele mesmo?
— Tá na cara que é ele. Tem foto dele?
— Deixa eu procurar o currículo.
Mário batucou o teclado do computador por um minuto enquanto via sua caixa de e-mails.
— Achei um currículo com a foto dele. Nossa! Ele me mandou no ano passado. Agora sou eu que pergunto se você tem uma imagem dele.

— Não. Ainda não tenho. Mas liga a televisão que deve estar passando alguma coisa.

Mário liga a televisão e de primeira vê o trânsito parado, multidão de gente, corpo de bombeiros, polícia e repórteres. Em seguida aparece um close do rapaz, de cabelos pretos, cacheados e despenteados. Rosto abatido, olheiras imensas. Barba por fazer. Ele só grita:

— SE NÃO ME DEREM UM EMPREGO EU ME ATIRO DAQUI!!!!

A repórter da cobertura informa que ele não sequestrou ninguém e chegou ao terraço sem ser notado. Só foi percebido quando pulou no parapeito e começou a se equilibrar. Começou a gritar quando o segurança do edifício mandou ele descer. Então, ele começou a desabafar a mesma informação que Lucas havia dado sobre a sua situação familiar e econômica.

O que confirmou a identidade do suicida com o autor do conto nas mãos de Mário foi uma pinta na face esquerda, presente nas duas imagens: da televisão e da foto do currículo.

— É ele mesmo! Arnaldo Miguel Oliveira de Cervantes! Vai lá rápido, Lucas! Oferece a coluna para ele. Pode dizer que o salário é acima do mercado! Não perca tempo!
— O.K.! Vou lá correndo! Fui!
Quinze minutos depois, toca o telefone da sala de Mário:
— Chefe! Cheguei tarde demais! O Arnaldo acabou de se jogar do prédio. A voz de Lucas estava bem embargada.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Por dudu oliva

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quinta-feira, 3 de setembro de 2009


Por

João Paulo Mesquita Simões


A regueifa, do árabe (ar)rgaifâ, é uma rosca feita de massa de pão alvo. Este pão torcido, tradicional do Norte do país, é uma variedade de pão espanhol, cuja massa é sujeita a uma compressão, manual ou mecânica, processo que permite torná-la mais fina, mais branca e menos aguada. Depois da missa dominical, era comum as pessoas passearem com uma regueifa enfiada no braço, o que lhe valeu o nome de “pão do Domingo”. Este pão aparece à venda em todas as festas e romarias, sendo que a regueifa de Valongo é a mais conhecida e reconhece-se por apresentar enfeites de massa: laços, pinhas, folhas, nozes, espigas, entre outros.


(In: Pagela dos CTT)
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

de Miguel Angel

O ódio contido, a bebida, a vingança jurada e o repuxar das cicatrizes dos açoites, o empurraram porta afora e dando um pulo, gritou:
- Filho da puta! – atirou duas vezes sem acertar o oponente. Edimilson virou-se, gritou – Cala a boca, desgraçado! – e disparou: a bala atravessou o cangote de Carlos que soltou a arma, para levar as mãos à ferida e apertar as cordoveias ansiando deter o sangue que esguichava e, tossindo de sufoco, caiu, vomitando vida em estertor.
Sem deixar de vigiar de esguelha o corpo de Carlos se debatendo em agonia – Mais um cabra de merda, abatido! – disse Edimilson, voltando rapidamente a mira em direção de Charles, que a tudo assistira, sem ter tido a chance de sacar seu revólver. – Vamos levantando os braço, gringo! – Ordenou o barbudo.
No interior da casa, Ronin, deduzindo o contratempo, foi até a sala e cautelosamente espiou da janela. Viu o soldado fazendo mira a poucos metros de Charles que, sentado na charrete, mantinha os braços erguidos.
– Quantos filho da puta tão lá dentro, gringo?– gritou Edimilson.

*
A mil metros dali, cinco homens, um sargento e um embaixador plenipotenciário à frente, galopavam rumando à casa.

*
Charles se mantinha tenso, aguardando qualquer descuido para atacar.
No interior, Ronin afastou a cortina da janela e apontou cuidadosamente. Mas Edimilson recebera aquela medalha não por alcaguetar, mas pela presteza em combate, e percebendo o movimento na janela, apontou e atirou. Foram os segundos que Charles ansiava e Edimilson temia: o Colt brotou na mão de Charles com agilidade de feitiçaria e atirou. A bala entrou pela orelha do valente soldado alojando-se no crânio e ali permaneceu; a hemorragia instantânea foi esvaziando o cérebro de sangue que escoava pelo nariz, olhos e ouvido; Edimilson, olhando supresso para Charles, dobrando os joelhos vagarosamente, tentava retomar o fuzil que lhe caíra das mãos. O segundo disparo de misericórdia que o derrubou de vez, partiu da arma fumegante que Ronin empunhava na porta de entrada.
–Esse idiota deve ter mandado avisar o quartel. É melhor dar o fora logo, companheiro! Falta muito? – exclamou Charles, guardando o revólver no coldre.
– Melhor perder o que falta a arriscar o que temos. MacMahon terá que se contentar com o que sobrou. Vamos sair daqui! – Disse Ronin, pulando a mureta; trepando na charrete, de imediato cobriu com a lona as mochilas repletas.
– Vamos embora, camarada! – Ordenou Ronin. Charles e seu látego manobraram os cavalos para partirem em veloz escapada.

*
A 500 metros do lugar, sete cavalos a todo galope, dividiam um Sargento, cinco praças e um espavorido embaixador norte-americano, visando a casa que lhe fora cedida temporariamente pelo Império do Brasil. Ninguém deu atenção à charrete passando em sentido oposto.

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Fragmento do romance "Moscas e Aranhas de Guerra" de Dalton W. Reis
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