sexta-feira, 31 de julho de 2009

Por Dudu Oliva

Sempre ouvi dizer das diferenças entre classes sociais, por idade e nacionalidades distintas; porém, de um tempo para cá, comecei a pensar que há peculiaridades em relação à existência de cada indivíduo. Há casos de duas pessoas estarem na mesma faixa etária, condição social e nível cultural; mas, simplesmente, não possuírem nenhuma empatia um com o outro.

Diferente de outros casos, os quais pessoas de origens distintas se são dão muito bem por haver uma harmonia existencial. Este fato começou a chamar minha atenção, depois que comprei um livro por um real numa feira no Centro da cidade: Destinos de Humberto Campos, uma obra póstuma de crônicas. Coincidentemente li uma narrativa que me chamou atenção de primeira, O VIOLINO ENCANTADO.

O escritor articula sua versão do conto de Sienkiewicz*, no qual narra o encanto de um menino pobre ao ver um violino. Um dia, invade a casa dos patrões para admirar o instrumento e é acusado de querer roubá-lo, levando uma sova em seguida.

“O menino deixou-se ficar, como caíra. Um sorriso meigo subiu-lhe à boca, de mistura com um gole de sangue. Abriu muitos os olhos para a lua, que se mirava lá dentro, nas suas pupilas. E começou a ouvir a continuação da ária, mas agora, mais linda, mais doce, mais harmoniosa, e que se perdeu ao longe, à distância, na noite do seu sono eterno...”


Humberto Campos faz um paralelo do conto com o Coelho Neto** escritor, político e professor brasileiro.

“ Naquela noite de luar, era aquele o seu violino encantado. Apenas, ao contrário do pequenino músico de Sienkiewicz, Coelho Neto, rejuvenescido pelo exemplo dos moços, vai, agora, com certeza, caminhar a convalescença, para o trabalho, para as vitórias novas, num espetáculo soberbo de saúde, de força, e de ressurreição...”

Depois da leitura, comecei a pensar na existência de indivíduos que, apesar da pouca cultura, possuem uma sensibilidade para arte e às belezas da natureza. Por exemplo, no meu ponto de vista, o menino do conto e Coelho Neto têm algo em comum: a sensibilidade de perceber o que está em volta; entretanto, um só tem intuição e imaginação; o outro o domínio da palavra e uma vasta cultura. Talvez, um intelectual do mesmo porte do escritor seja completamente contrário a ele que, por sua vez, está mais próximo do garoto do violino.

Sinceramente, quero acreditar em existências gêmeas que podem superar diferenças sociais, culturais, religiosas e étnicas. Já pensou, uma pessoa do outro lado do mundo; ter uma ligação com você?


* ( escritor polaco, premiado com o prêmio Nobel da literatura em 1905 e considerado um dos mais brilhantes escritores da segunda metade do século XIX.)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Henryk_Sienkiewicz

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Coelho_Neto

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quinta-feira, 30 de julho de 2009


Por

João Paulo Mesquita Simões



Milícia criada pelo Estado Novo em 1936, tinha por objectivo “organizar a resistência moral da Nação e cooperar na sua defesa contra os inimigos da pátria e da ordem social”, devendo, para isso, “repudiar e combater, em todos os campos, as doutrinas subversivas, nomeadamente o comunismo e o anarquismo”. Foi criada e sustentada pelo governo de Salazar e dirigida por uma Junta Central,d diretamente nomeada pelo Ministro do Interior.

Não era obrigatório pertencercer-se à Legião Portuguesa. Era voluntário. Mas um voluntário quase obrigatório, pois quem não passasse por ela, tinha dificuldades em arranjar empregos sobretudo no Funcionalismo Público.

Durante o período salazarista e do Estado Novo, foram muito estreitas as relações entre a Legião Portuguesa e a polícia política. Uma maneira de vigiar o Povo e controlá-lo. Foi extinta com a Revolução de Abril de 1974.


(Baseado na Nova Enciclopédia Larousse, volume 14 de 2002 editada pelo Círculo de Leitores)


O bloco aqui apresentado, faz parte da série de oito valores desenhados por António Lima e gravados por Gustavo de Almeida Araújo. Impressos na Imprensa Nacional Casa da Moeda em folhas de 100 selos, circularam de 27 de Janeiro a 19 de Abril de 1940 e o bloco até Setembro de 1945.
O objectivo era fazer propaganda à Legião Portuguesa e também à Mocidade Portuguesa, por iniciativa dos CTT. Mas a palavra “Mocidade” foi rejeitada do selo, ficando só “Legião”.

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terça-feira, 28 de julho de 2009

de Miguel Angel


Não tem essa de homem incapaz de matar.
Dependendo de hora e lugar, homem vira bicho, mata, e se for
preciso, come o inimigo. Como os índios. Odiava índios. E
matador covarde, aproveitador de mulher tonta.
O solavanco do bonde retomando a marcha, a sineta do condutor,
e as vozes do povo misturadas trouxeram-no de volta.
Sobressaíam os gritos de ordens dos soldados se pavoneando
na calçada; de lá alguém gritou, parecendo vendedor de
loterias: “Aí, Corintiano!” De dentro do bonde, lá da frente:
“Três a um, seu! Quer mais?”

- Deixa disso, nego, o crioulo vai aparecer pra já.
- Ué, cê faz o serviço assim que assoma o nariz pela porta. Pra isso basta um. E eu tô ocupado agora. Ou tá com medo do preto, Corintiano?

Tudo parou. Ouvido de repente surdo. Fez-se silêncio na sua cabeça, todas as forças do instinto se uniram fortalecendo mirada; lince no fundo do bonde vislumbrando-o por inteiro, avançando e furando os obstáculos até chegar na frente, de onde partira a voz inimiga reconhecida e tantas vezes relembrada.
A mirada estancou na nuca inesquecível.

- Medo, eu? Já meti faca nas costas... nos peitos de muito
preto safado...

O branco cadelo! O peçonhento amarelo estava lá. Fria certeza, decisão maquinal, parecia ensaiada. De pé imediatamente, andando devagar até a frente, licença a quem estivesse atrapalhando seu caminho, como bom crioulo educado “conhecendo seu lugar”; ele conhecia seu lugar: lá na frente do bonde!
E o lugar da faca estava besta de conhecer: na cintura, esperando. Andavam sempre juntos, desde aquela vez. Já estava com ela quando jogou o preto degolado no poço abandonado.
Esperava mais cabras voltarem dia desses, para terminarem o serviço. Mas aquilo lhe acontecendo, nunca poderia imaginar: ele caçando no meio da grande cidade de São Paulo, em pleno dia de revolução e dentro de um bonde. Sentiu a outra cabeça se encher de sangue, latejar entre as pernas no compasso nervoso do coração. Devia ser pelo deleite que estava
prevendo. “Deus queira, orgulho meu.” Deus há de querer tição assanhado.
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Do romance "A Cena Muda"
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domingo, 26 de julho de 2009

Por Ed Santos

No último espetáculo do ano quem pinta o rosto pro trabalho fez a melhor piada. Quis que o trapezista resolvesse uma equação aritmética de ponta cabeça enquanto fazia suas acrobacias lá nas barras suspensas. O resultado deveria ser o número de vezes que o contorcionista desapareceria do picadeiro. Obra do mágico que tinha feito uma aposta com a mulher barbada - quem perdesse iria entrar na jaula dos leões. O auto-retrato havia sido pintado pelo olhar triste do público respeitável; aflição e ansiedade. A probabilidade de acerto da solução do exercício matemático entretanto era mínina, porém maior que a credulidade ante ao efeito da sopa de lentilha da véspera e a camiseta branca. Ninguém percebeu, mas o lenço que o mágico usou era branco. Sorte ou não, alguém já viu mágico usar lenço branco? Só pombo e coelho. Lenço, sempre vermelho. E velho.
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sexta-feira, 24 de julho de 2009


Por Dudu Oliva

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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Por
João Paulo Simões






















Esta emissão foi feita a pedido do Presidente da Comissão Executiva do 5° Congresso Internacional da Vinha e do Vinho. Desenho alegórico de José da Rocha Pereira, e gravura de Gustavo de Almeida Araújo. Imprimidos na Imprensa Nacional Casa da Moeda, foram emitidos em folhas de cem selos com as seguintes cores e valores: $15 violeta, $25 castanho, $40 lilás e 1$75 azul escuro. O denteado é de 11,5.


Este Congresso foi realizado em Lisboa, de 15 a 23 de Outubro de 1938. O desenho da emissão representa uma videira no meio de um cacho de uvas. Este desenho foi muito criticado na época, por não fazer qualquer alusão ao Congresso e representar umas uvas tão grandes que quase pareciam ovos ou amêndoas da Páscoa.

(Baseado em Livros Electrónicos de Carlos Kulberg)








Um pouco de História...



As últimas investigações arqueológicas, permitem admitir terem sido os Fenícios quem trouxe o vinho pela primeira vez apra o território que é hoje Portugal. Segundo a historiografia portuguesa moderna, estes navegadores oriundos do Médio Oriente, utilizavam o vinho para trocas comerciais desde o século VIII a.C. e, sobretudo, no século seguinte.Portugal é um pequeno território peninsular sulcado por dezenas de rios de norte a sul do país. Alguns destes rios foram entrada dos povos da Fenícia e da Grécia. Estes navegadores pretendiam obter metais, emtroca do vinho, manufacturas e azeite.
Assim, foram trazidos para a Península Ibérica novas castas e a arte de bem fazer o vinho.
Depois, os Romanos, aquando da invasão, contribuiram para a modernização e cultura da vinha. Com a queda do Império Romano, o vinho continuou a ser produzido por outros povos.
Com a fundação de Portugal, o vinho passou a ser o produto mais exportado e, sobretudo, na segunda metade do século XIV com a Expansão Portuguesa. Mais tarde, no século XVII, o vinho do Porto, passou a ser reconhecido internacionalmente.
Mas nem tudo eram boas notícias. No século XIX, a filoxera dizimou muitas vinhas e só no fim deste século é que a vinha recomeçou a ressurgir e, no princípio do século XX, foram demarcadas.


(Baseado em “Portugal vinhos cultura e tradição” do Círculo de Leitores e http://www.portugalweb.pt/historia-vinho-portugal.html)


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terça-feira, 21 de julho de 2009

de Miguel Angel


Sim, estava na hora de morrer. Amanhã veria como seria. Lera na Bíblia sobre isso e dizia horrores sobre o pecado do suicídio. Mas pecado maior não era estar nessa estrada... – Estrada? – ve-re-da estreita e barrenta pejada de insetos e pássaros berrando aloprados, seu nariz a escorrer, doendo o corpo todo, com vontade de... – de morrer! Poderia morrer nesse momento? Ó se morreria! Esticou as rédeas e o cavalo relinchou baixinho, mal-humorado, depois cabeceou recuperando a folga das rédeas e desobediente continuou a marcha.
– Para pr’eu morrer, seu pangaré desgraçado! – puxou com mais força sofreando de vez o animal que, mastigando o cabresto, resmungou irritadiço, exalando densas nuvens de vapor. E esperou. Ambos esperaram. Firmeza? – Não! – Como faria para morrer? – Sim! – Como seria? Pendurada pelo pescoço num ramo de árvore! – Cadê a corda? – Jogar-se no próximo despenhadeiro! – Qual? Cuspiu de novo e soluçou, soluçou. E no irremediável desespero, apertou os olhos molhados até doerem e, na barra da saia, assoou-se barulhenta. Embaralhada com os gritos dos pássaros e zumbidos de insetos, ouviu detrás dela:
– Salúd, senhorita!
... e ouvi por detrás de mim uma grande voz, como de trombeta,
E voltei-me para ver quem falava comigo.
E, ao voltar-me, vi um semelhante a filho de homem, vestido de uma roupa talar,
e cingido à altura do peito um cinto de ouro e um rifle
e a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve;
e os seus olhos como chama de fogo;
– Mi nombre es Alfonso, mucho gusto! – Gritou o desconhecido, à distancia.
Sem mais, aproximou-se, tirou delicadamente as rédeas das mãos de Amanda: “¿Puedo ayudarla?” e conduziu os cavalos até emparelhá-los e seus joelhos se tocarem: “¿Que tiene este zaino, no quiere andar?” Amanda, imobilizada pelo inesperado, ainda tinha lágrimas nos olhos, e o nariz escorrendo e a boca aberta, cobertos com a borda da saia; o homem fingiu não olhar a perna descoberta até a coxa: “Para donde vaya la señorita... ¿puedo acompañarla?” Ela largou a saia, arrumou-a cobrindo as pernas, esfregou os olhos com a manga do casaco, fechou a boca e o frio desvaneceu-se espantado pelo calor que via nos olhos daquele cavaleiro amadurecido. O piar da perdiz, o guincho do gavião e o caracará emudeceram, para ela ouvir claramente: “Es un plazer encontrar tan temprano y en este camino una mujer asi… asi… ¿Usted tiene nombre?” O silêncio de Amanda respondeu. O homem tirou o chapéu e mostrou esparsa cabeleira prematuramente encanecida e sorriu contrafeito: “Me desculpe, moça! Algumas vezes esqueço que estou no Brasil! Sou paraguaio, como deve ter notado...” Amanda interrompeu dizendo: “Amanda”. O galante homem repetiu: “Amanda”? e recitou, divertindo-se: “Amar Amanda. Amanda ama. Amo minha ama”, e soletrou “Amanda”. É como se diz chuva, no guarani de meu povo.” – explicou folgazão. Amanda não sabia, mas gostou, até do cavalo branco contrastando com o marrom de seu pangaré, par a par troteando com as pernas do casal se roçando de permeio. Ela apreciou o anel dourado no dedo e a corda entrelaçada que segurava o grande chapéu descansando na nuca do homem amorenado, mais de raça que de sol. Admirou as botas de cano longo, os acicates de prata e da bata envergada, que se expandia feito manto sobre as ancas do animal, permitindo-lhe entrever o casaco de botões dourados sob a cartucheira a tiracolo.
– Estou indo pros lados de Dourados. Vosmecê também? – explicou e quis saber o homem, sem deixar de segurar as rédeas dela.
– Perto da vila próxima... Lá tem uma escola. – Tartamudeou, Amanda.
– A moça estuda?
– Ensino.
– Maestra! Professora de letras e escritas! Aritmética! Que interessante. – Celebrou o paraguaio.
Pela primeira vez Amanda se sentiu Interessante. E gostou da voz do homem, do sorriso de brancos e grandes dentes e dele conduzir seu manhoso. Que era égua, e parecia simpatizar com o dele.
Até alcançarem o casebre da escolinha, Amanda ouviu e pouco entendeu, que seu novo conhecido estava no Brasil intermediando negócios de compra de terras a conterrâneos do Paraguai. (...) Finalmente, na última curva do caminho, tão esquecida de onde ia e de onde vinha, Amanda surpreendeu-se ao ver aparecer a escola à sua frente e com o chilrear de diversos curumins brincando no pátio que rodeava a modesta edificação; gritando seu nome ao reconhecê-la, alguns correram a seu encontro e outros, dela, amedrontados com o cavaleiro desconhecido a seu lado.
Apeando da montaria, o homem disse: – Voltando de Dourados, deverei passar por aqui novamente. – Tomando-a nos braços para ajudá-la a desmontar, mantendo-a firme no ar, sussurrou. – Posso revê-la, Amanda? – E ela igualmente apreciou sentir seu corpo roçando-se, apertado entre ele e o flanco do animal, em arrastado descer. Depois o homem remontou e, cavaleiroso, à maneira de despedida, gracejou – Gosto muito de “chuva”, Amanda! Hasta la próxima, lluvia! –, riu e acenou-lhe com o chapéu, sacudiu os cabelos brancos, idênticos ao garboso animal que montava, cobriu a cabeça e desapareceu troteador na próxima curva da estrada.
Do interior do educandário, entre a criançada, o padre observava da janela, franzindo a testa, a professora atrasada se despedindo de um estranho, e entrar toda esfuziante.
– Padre! – exclamou ao vê-lo.
– Surpresa! Vim fazer uma visita. – e sinalando a janela aberta, emendou. – Aquele homem foi causa de seu atraso? Quem é ele?
– Não sei.
– Ai, ai, Amanda. Lá vem você com suas mentiras.
– É paraguaio.
– Se sabe onde nasceu, deve saber o que quer. Conhece-o de há muito?
– De hoje. – Amanda tirou o casaco e da janela chamou retardatárias. – Crianças! Todas pra dentro!
– Vivendo no meio desse mato, sozinha. Que será que andas aprontando. E esse homem. O que ele quer de vosmecê? – insistiu o padre. Amanda deu de ombros e disse.
– Não sei. Nada. Crianças, pra cá! – voltou a chamar.
O velho clérigo sentou-se a um canto do recinto e, reparando na aula, notou um contentamento em Amanda que ele desconhecia; mas não desistiria de tentar descobrir as intenções daquele estrangeiro. E principalmente as dela. Estava convencido que a responsabilidade pelo destino da moça cabia a ele, padre-mestre, e aos missionários. E sempre duvidou ter sido uma boa ideia conceder aquela tapera só para mantê-la longe, ainda que perto deles.
A partir daquele dia – Amanda jamais podia supor –, sua vida iria se transformar... – Transformar!? – trans-tor-nar completamente.
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Do romance "Moscas e aranhas de guerra"
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domingo, 19 de julho de 2009

Por Ed Santos

De uns tempos pra cá passei a comer mais verduras, diferentemente da infância, que era só arroz feijão e carne, o PF familiar, e a teimosia de dizer que “não gosto de cenoura”, sem ao menos experimentá-la.

Alguns costumes são alterados com o passar dos anos, outros não, e quando a gente cai na real, percebe que precisa se cuidar mais depois de uma certa idade. Uma pena, porque se a gente cuidasse mais do corpo e da mente, teríamos melhores dias restantes. Agora, até evito comer carne suína (não pela gripe), e dou preferência às brancas (frango e peixes). Mesmo que tenha vontade de comer carnes, sempre dou um jeito de acrescentar uns legumes ao prato, seguindo a máxima de que prato bom é o prato colorido, e no meu caso, cheio.

Às vezes dá aquela vontade de comer um belo bife acebolado, com ovo – gema mole – e fritas, mas nessa altura do campeonato, os quilos a mais me impedem. Ainda bem que existem os restaurantes à quilo com todas as suas opções, que salvam a gente, embora nos remetam aos pensamentos mais auspiciosos do mundo gastronômico, sejam eles as massas, os doces e o churrasco, estes sempre regados de muita cerveja e refrigerantes.

Falando em bebidas, os cuidados são praticamente os mesmos. Os refrigerantes foram substituídos pelo suco de laranja e a cerveja pelo vinho tinto, dadas as proporções, claro. Os doces nunca tiveram presença freqüente no cardápio, mas sempre que possível, rola uma fruta.

Talvez substituir alimentos deva ser uma decisão muito pessoal. Cada um come o que quer, e na quantidade que quiser. Mas acredito que mais importante do que trocar uma costela assada no bafo por uma salada de rúcula com tomates secos e mussarela de búfala, é não ter que trocar uma caminhada após o almoço por um antiácido efervescente. Depois, só uma meia horinha de siesta pra recuperar as energias.

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sábado, 18 de julho de 2009

Gustavo do Carmo

Imagem encontrada no Google

Mal atravessou a porta automática de vidro da livraria em uma média cidade do interior do estado, que é bem iluminada, refrigerada e tem uma boa variedade de títulos, o anônimo escritor foi logo reconhecido pela atendente que o aborda:

— Oi, aqueles livros que você me perguntou se tinham, “Garras da Inteligência” e o “Homem sem biografia”, já chegaram.


— Ah, obrigado por reservar. Mas,desculpa, eu já os comprei lá no Rio. O primeiro eu já li e o segundo estou na metade.


A funcionária faz uma cara decepcionada e lamenta.


— Nós que pedimos desculpa por não termos os livros na hora em que você queria. Não sabíamos que você estava com tanta pressa para lê-los. Infelizmente chegaram tarde demais, né?


— Tudo bem. Eu agradeço por me lembrarem do meu pedido depois de sete meses. Agora vim aqui procurar por outro livro. Vocês têm a biografia de Lella Salvattore?


— Deixa eu ver aqui no computador.


A moça se encaminha para o balcão e é acompanhada pelo cliente. Batuca no teclado do computador aqui, clica no mouse ali e depois de um minuto de silêncio responde frustrada:


— Infelizmente não.


— Obrigado.


O conhecido cliente e escritor anônimo se encaminha para a porta de vidro e sai da livraria. No dia seguinte e nas próximas cinco tardes ele volta e faz o mesmo pedido. Na última negativa tem a certeza de que a livraria não tem tanta variedade quanto aparenta e só vai encontrar o livro que quer no Rio.
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sexta-feira, 17 de julho de 2009


Por dudu oliva

É uma breve história que mostra a beleza de um fugaz caso de amor. Um jovem sonhador e solitária vaga pelas ruas de São Petersburgo e encontra uma jovem, que chora perto de um canal de águas turvas. Em quatro noites, tornam-se amigos íntimos até um desfecho triste.

Um dos aspectos interessante que considero no livro é a relação do protagonista com a cidade e de como os centros urbanos tornam as pessoas solitárias; havendo a incomunicabilidade. Apesar disso, existem um romantismo e uma esperança em mudar o mundo cimentado e frio. O protagonista vive a sonhar e a delirar, logo é considerado um louco ou alienado ao racionalismo da sociedade ocidental. Mesmo marginalizado, diferente de do personagem principal Ródion Románovitch Raskólnikov de Crime e Castigo do mesmo autor, ele não deixa a amargura o dominar e ainda tem esperança:

“ Meu Deus! Um momento de felicidade! Sim! Não será o bastante para reencher uma vida?”

Achei o livro muito atual e reafirma que Dostoiésvsky foi um dos precursores da literatura contemporânea.

Noites brancas é uma narrativa sucinta e se mostra uma grande obra literária. Enfim, evidencia que tamanho não é documento. Desculpa pelo clichê, mas, por enquanto, não tenho outras palavras para definir o relato que pode ser um conto longo ou uma novela curta.


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quinta-feira, 16 de julho de 2009







João Paulo Mesquita Simões


Em 1 de Janeiro de 2009 passam dez anos sobre um dos momentos cimeiros do projecto europeu e da história contemporânea –a criação do euro.
Com efeito, em 1 de Janeiro de 1999 tinha início a chamada terceira fase da União Económica e Monetária, prevista no Tratado da União Europeia, com a introdução do euro e a condução de uma política monetária e cambial únicas, da responsabilidade do Eurosistema (formado pelo Banco Central Europeu e pelos bancos centrais nacionais dos Estados-Membros participantes na área do euro, nos quais se inclui o Banco de Portugal).
Naquela data, Portugal e mais dez Estados-Membros – Bélgica, Alemanha, Irlanda, Espanha, França, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Áustria e Finlândia – preenchiam as condições para adoptar o euro. Actualmente, a área do euro integra dezasseis países, após a adesão da Grécia (1 de Janeiro de 2001), Eslovénia (1 de Janeiro de 2007), Chipre e Malta (1 de Janeiro de 2008) e Eslováquia (1 de Janeiro de 2009). Para a grande maioria dos cidadãos, no entanto, o euro apenas se tornaria visível em 1 de Janeiro de 2002, com a entrada em circulação de moedas e notas de euro.
O euro representa um decisivo passo no longo processo de integração europeia, desde a instituição, em 1957, da Comunidade Económica Europeia, criando um quadro de estabilidade e de progresso para os cidadãos e para as economias dos países participantes. Cerca de 320 milhões de cidadãos da área do euro comprovam, no dia-a-dia, as vantagens da utilização de uma moeda que também se tornou referência internacional.
Ao associar-se à celebração dos dez anos do euro enquanto símbolo da identidade europeia e factor de integração e de desenvolvimento, a presente emissão filatélica celebra igualmente o esforço conjunto dos países da União Europeia em prol de um projecto determinado a garantir a paz e a prosperidade do continente europeu.

Dados Técnicos
Emissão constituída por dois selos de 0.47€ e 1.00€, desenhados por João Machado em papel de 100 g/m2. O formato é de 40 x 30.6 mm e picotado 13 x “Cruz de Cristo”. Impressor: Cartor

(In: http://www2.ctt.pt/femce/jsp/app/public/category_info.jspx?shopCode=LOJV&categoryCode=8061

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domingo, 12 de julho de 2009

Por Ed Santos

Pegando carona na infelicidade da falta que Michael Jackson nos fará à partir de agora, outro dia me perguntaram qual meu estilo musical favorito. Por mais previsível que parecesse eu não consegui responder, e o pior de tudo foi perceber que no meu caso, não há preferência.
Nasci e passei toda minha infância e adolescência na periferia e o acesso à música naquela época era bastante restrito. Só fui ouvir rádio FM quando tinha uns 13, 14 anos.
Meus pais gostavam de rock and roll, twist, etc., mas lá em casa tinha um LP de vinil, uma coletânea de artistas cantores brasileiros, que me conduziram a conhecer o que depois eu chamaria de MPB. Tinha “Estácio, Holly Estácio”, “Esse Cara” e uma que não tocou muito, “Cala Boca Zé Bedeu”, de Sérgio Sampaio.
No final dos 70, passei a ouvir mais o tal Receiver Fm e comecei a freqüentar as domingueiras de um salão de bailes perto de casa. Lá conhecei a mais pura essência da Black Music. O suingue, o balanço, aquilo me deixava em transe.
Mais tarde, ouvi rock, muito rock, começando pelo nacional era o boom dos 80’s. Camisa de Vênus, Ultraje a Rigor, RPM, Paralamas, Titãs e Legião. Época de descobertas...
Depois, veio o desejo de conhecer mais a nossa MPB. Analisar as letras, copiá-las num caderno e ouvir Caetano até decorar tudo, e tentar entender o que o Tom quis dizer em “Águas de Março”. Alguém já ouviu falar em “febre terçã”?
Como se pode ver, essa é minha preferência musical. Uma identidade confusa e indefinida, e totalmente (ainda bem!), sem rótulos. Hoje levo no meu Ipod uma miscelânea de estilos e ritmos, de Ed Mota à Sex Pistols. Descobri que tenho essência Black, mas alma Punk.
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sábado, 11 de julho de 2009

Gustavo do Carmo



O jornal do fim de noite de um famoso canal de televisão exibia uma matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

Um dos entrevistados, freqüentador de um supermercado que funcionava durante 24 horas, era Dionísio, um jovem rapaz, na faixa dos vinte e cinco anos. Ele disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. No final da matéria voltou para acrescentar que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo.

De fato, Dionísio só tinha tempo para resolver os seus problemas de madrugada. Mas não trabalhava exatamente o dia inteiro. Jornalista formado, fazia clipagem, ou seja, buscava o que saía na imprensa sobre o cliente da produtora e criava um álbum com as matérias publicadas. Seu turno era das quatro às dez da manhã. Deixava o escritório na Tijuca, andava uns dez minutos e pegava o ônibus. Chegava ao apartamento, em Copacabana, em pouco menos de uma hora, dependendo do trânsito. Por volta do meio-dia ia almoçar (ou jantar) e, depois, finalmente dormia. Acordava às oito da noite. Fazia o seu desjejum enquanto muita gente jantava. Começava o seu dia quando os vizinhos chegavam do trabalho, exaustos, o que era percebido pelo movimento de entrada na garagem do prédio.

Fazia os trabalhos que levava para casa. Duas horas depois saía à rua. Passava no caixa eletrônico do banco e em seguida no jornaleiro, onde comprava as primeiras edições dos cinco principais informativos e também das duas publicações esportivas. Era mais pelo trabalho, ao qual se dedicava muito, do que para o lazer. Após algumas voltas no calçadão da praia, entrava na loja de conveniência e fazia um lanche que servia de almoço para não mexer na cozinha de madrugada e acordar os vizinhos do apartamento em frente. Finalmente ia ao supermercado e fazia as compras da semana.

Não eram todos os dias que Dionísio visitava o supermercado. Somente às quintas-feiras. As segundas eram reservadas para a academia, as terças para o dentista ou o tratamento de pele, na quarta tinha novamente a academia e às sextas ele ficava em casa por causa do movimento noturno no bairro. No sábado à noite, viajava para Conceição de Macabu, onde nasceu, foi criado e ainda moram os pais. Voltava para o Rio segunda-feira de manhã.

Acostumado com a rotina na capital, dormia o dia inteiro e só acordava à noite na cidade pequena, onde tudo fechava cedo. Os bares e restaurantes funcionavam até, no máximo, às duas horas da manhã. Dionísio não gostava de beber e os restaurantes eram muito fracos. Ficava perambulando pela casa durante cerca de quinze horas. Angustiava-se. Morria de saudades dos pais, mas não via a hora de voltar ao apartamento alugado no Rio de Janeiro, ao seu trabalho de clipping e às atividades comerciais da madrugada.

Dionísio achou o emprego na internet. Tinha o sonho de morar e fazer sua vida no Rio, mas precisava trabalhar. Chamado para a entrevista, passou e foi aprovado. Fizeram uma festa em casa. No entanto, os pais ficaram tristes porque o filho precisou se mudar e eles não podiam ir. A mãe, costureira, tinha os seus clientes e o pai tinha um bazar que não podia ficar abandonado. Ainda assim, seria bom para Dionísio morar sozinho e ganhar experiência de vida. O pai ainda ajudou o filho a alugar um apartamento de dois quartos na Tijuca, perto do trabalho.

Na empresa, o primeiro material que reuniu foi muito elogiado por um cliente, ex-participante de reality-show. Depois outra aprovação de uma petrolífera multinacional. A mesma opinião teve uma ONG de educação. Dionísio passou a ser mais procurado. Com isso, a sua responsabilidade aumentou. Pediu e ganhou um aumento. Com ele, depois de alguns meses, entregou o apartamento na Tijuca e alugou outro na Rua Constante Ramos, em Copacabana, também de dois quartos, realizando outro antigo sonho: morar perto da praia.

Nos primeiros dias de trabalho, Dionísio tentou manter uma vida normal. Mas chegava em casa tão cansado que acabava dormindo e só acordando às oito da noite. Aí notou que precisava fazer o trabalho que trouxera e se viu sem tempo para sair na rua e fazer atividades básicas como ir ao supermercado, à banca de jornal, ao dentista, além de aproveitar a cidade do Rio de Janeiro.

Um dia, viu no jornal da televisão uma primeira matéria sobre os serviços dia e noite. Se interessou tanto que decidiu procurá-los. Começou freqüentando uma loja de conveniência, ainda na Tijuca. Depois procurou um dentista. Marcou a primeira consulta para uma da manhã. Já na terceira, o profissional desistiu porque foi assaltado ao voltar pra casa e parou de trabalhar de madrugada. Dionísio teve que procurar outro para o seu horário incomum. Só achou em Copacabana. Quando o supermercado que freqüentava na zona norte também deixou de atender à noite, Dionísio decidiu se mudar. Já estava viciado em resolver seus problemas urbanos de madrugada. Tanto que recusou a oferta da dona da empresa de transferir o seu expediente para o horário comercial.

Um dia ele foi dispensado. Não soube se foi por corte no pessoal ou a diretora percebeu alguma coisa errada nele. Apesar de dedicado, Dionísio teria deixado de incluir uma matéria importante sobre um cliente. Uns disseram que Dionísio já começara a trabalhar demais. Estaria tão ansioso para aproveitar as atividades noturnas do comércio que já não dormia mais. Uma moça teria visto seus olhos vermelhos e logo achou que era por causa de drogas. Um colega o encontrou em uma drogaria de plantão, às três da madrugada, na Tijuca, perto do escritório. Houve várias versões sobre a demissão de Dionísio. O fato é que o rapaz não se importou. Nem quis voltar para Macabu. Preferiu continuar em Copacabana, mesmo.

Por três meses cumpriu o ritual ao qual estava acostumado a fazer. Aparentemente estava tudo normal. Era como se Dionísio ainda trabalhasse na produtora de clipping. A partir do quarto mês, o pai não quis mais pagar o aluguel. Era uma forma de pressioná-lo a voltar para o interior. Depois de alguma resistência, acabou cedendo. Entregou o apartamento no Rio de Janeiro e voltou para a cidade natal.

Tentou manter a mesma rotina de quando era clipista na Tijuca. Queria comprar os sete jornais, as duas revistas, ir à academia, ao supermercado, ao dentista e à esteticista. Não conseguiu porque tudo isso só funcionava durante o dia, sob a luz do sol, que Dionísio já rejeitava. Parecia um vampiro que temia virar pó com a claridade. Já andava de óculos escuros pela casa fechada com cortinas, assustando os pais e as freguesas da mãe. Ficava o dia inteiro sem dormir e só saía na rua à noite, na cidade já deserta. Vivia na farmácia de plantão, comprando estimulantes sem necessidade, virando assunto na cidade, envergonhando os pais.

O pai perdeu a paciência e tentou impor um limite. Ou Dionísio voltava a trabalhar ou seria expulso de casa porque não ia sustentar vagabundo. Logo se apiedou e ofereceu o bazar para ele trabalhar. Dionísio não tinha vergonha da fonte de sustento da família, mas quando adolescente só queria trabalhar como jornalista. Agora, já maduro, até aceitou ajudar o pai. Desde que trabalhasse de madrugada.

Como um empresário visionário, propôs que o bazar funcionasse 24 horas e ele tomaria conta. Seu Osmar, pai de Dionísio, recusou imediatamente. Disse que não ia dar lucro e que era perigoso, pois a farmácia já fora assaltada. Dionísio, então, pediu à mãe que lhe ensinasse a costurar (algo que ele odiava quando criança) e propôs adiantar as encomendas enquanto ela dormia. Dona Maria Lúcia estranhou, mas acabou aceitando.

Dionísio costurou por algumas semanas. Estava indo bem. Ganhava até elogios das freguesas da mãe. Eis que o pai voltou a procurá-lo para dizer que lhe tinha arranjado um emprego de vigia noturno. O rapaz aceitou na hora, antes de Seu Osmar perguntar se ele tinha certeza, pois era um emprego perigoso.

E lá foi Dionísio trabalhar como vigia da farmácia. Ganhou até uma arma, sem bala, pois servia apenas para assustar os ladrões. O turno de Dionísio era de meia-noite às seis da manhã. A farmácia ficava ao lado da sua casa.

Quando chegava, tomava banho antes do café da manhã que preparava para ele e a mãe. Já de óculos escuros, assistia à televisão e ajudava a mãe a fazer o almoço e também a costurar. Às quatro da tarde começava a fazer seu clipping... imaginário.

Não comprava os sete jornais faz tempo. Inventava tudo. Os pais começaram a ficar preocupados. Principalmente quando Dionísio começou a atender telefonemas inexistentes de clientes virtuais. Não os da internet, que ele tentava conseguir realmente, mas não tinha sucesso. Eram clientes criados por ele mesmo. Já começava a falar sozinho, organizando reuniões fantasiosas.

Uma noite, o dono da farmácia foi procurar o pai de Dionísio em sua casa. Ele não havia comparecido ao trabalho. Os pais e o patrão, amigo da família, o procuraram pela casa toda. Dona Maria Lúcia começou a se desesperar. Ainda mais quando o pai achou um bilhete curto e seco deixado pelo filho: “Fui para o Rio de Janeiro.” A primeira coisa que Seu Osmar fez foi procurar o revólver do dono da farmácia. Não estava lá. A sua pistola particular também não.

Dionísio chegou a Copacabana por volta das dez da noite. Entrou no supermercado que freqüentava quando morava no Rio. Ouviu pelo alto-falante o locutor anunciar que o estabelecimento estava encerrando as atividades do dia. O ex-clipista estranhou.

Perguntou a um segurança porque eles estavam fechando se o supermercado funcionava 24 horas por dia. O vigilante, um moreno forte e alto, disse que eles pararam de atender dia e noite depois de um assalto que sofreram. Dionísio se indignou. Sacou as duas armas que trouxe do interior e o rendeu.

Mesmo em desvantagem física, Dionísio obrigou o segurança a fechar as portas do supermercado e manteve todos os funcionários e fregueses como reféns. Gritando muito, completamente alterado, exigiu a presença de repórteres da mais famosa emissora de televisão. Ameaçou explodir o supermercado se alguém chamasse a polícia antes dele terminar o seu plano. Alguns fregueses cochichavam que Dionísio estava drogado, por causa dos seus olhos vermelhos. Mas ele não estava. Nem tinha tomado o estimulante. O que o entorpecia era a loucura mesmo.

Duas horas depois apareceu a equipe da imprensa. Uma repórter morena e bonita, de terninho amarelo, acompanhada do cinegrafista, um homem forte e moreno como o segurança rendido por Dionísio. Este autorizou a entrada apenas dos dois jornalistas e impôs as condições para liberar os fregueses e os funcionários do supermercado: produzir uma matéria sobre os serviços 24 horas na cidade do Rio de Janeiro. Assustados, os repórteres concordaram imediatamente. E começaram a entrevistar os freqüentadores, deveriam mostrar que estava tudo bem. Que era apenas uma pauta de rotina.

Dionísio atuou como o produtor da matéria desejada. Selecionou algumas pessoas. Escolheu um casal, um homem de cabelos grisalhos, o gerente e uma das caixas do supermercado para serem entrevistados. Ele mesmo também fez parte da matéria. Exigiu uma maquiagem para disfarçar os olhos vermelhos.

Dionísio disse para a repórter que trabalhava o dia inteiro e só tinha tempo para fazer compras depois da meia-noite. Depois de uma pausa na gravação, acrescentou que era mais prático e tranqüilo comprar no horário alternativo. Recomendou que este depoimento encerraria a matéria.


Satisfeito, Dionísio libertou os funcionários e os freqüentadores do supermercado. Todos estavam livres após quatro horas de tensão. Com exceção dos dois jornalistas, que continuaram com as duas pistolas apontadas por Dionísio. O clipista exigiu continuar a matéria na academia e, depois, nos consultórios noturnos do dentista e da esteticista.

Não deu tempo. No caminho para o carro da reportagem, Dionísio vacilou ao espirrar. Foi dominado pelo cinegrafista e surpreendido pela polícia, que o prendeu e o levou para a casa de custódia, sob a acusação de seqüestro, porte ilegal de armas e perturbação da ordem pública.

Condenado, foi cumprir a pena no manicômio judiciário. Lá, assistiu ao telejornal do fim de noite com a matéria sobre pessoas que faziam compras em supermercados, malhavam na academia, faziam tratamento de pele e marcavam consulta até com o dentista. Tudo de madrugada.

Dionísio era a estrela principal. Depois, começou a fazer o seu próprio clipping com as matérias verdadeiras sobre o seqüestro no supermercado publicadas na imprensa.

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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Por Dudu Oliva

Para escrever uma crônica é preciso ser simples, mas não simplório. Colocar uma pitada de ironia e humor dá uma diferença boa no texto. Tem que saber do que está falando. Entretanto, não há necessidade de se aprofundar em pensamentos complexos.

Caro cronista, seja coerente e suave. Uma boa crônica deve fazer com que o leitor esqueça a leitura e viaje com o que está relatando. O leitor deve se desapontar, porque acabou de ler o texto. A crônica é uma narrativa livre, não há necessidade de ser comprometido com a realidade. Se é para deixar o texto mais agradável, por que não aumentar um pouco as peripécias?

Quem pretende representar a realidade, desculpe a franqueza, é um inocente que chega às raias da tolice, pois o que se vê mais por aí são correntes ideológicas ou pontos de vista.

Lógico que para ser um cronista precisa escrever bem, mas não use palavras que ninguém vai entender. Agora, não gosta de se expressar assim, escreva artigos acadêmicos para Academia Brasileira de Letras. Contribuirá bastante para o conhecimento. Todas as formas de conhecimentos são fundamentais para a construção de um mundo melhor.
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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Por
João Paulo Mesquita Simões









A personalidade de Gil Vicente, ainda não foi bem identificada. Isto porque, há um ourives também chamado Gil Vicente, cuja vida está documentada até 1517, autor da custódia de Belém (a obra-prima da ourivesaria portuguesa quinhentista) que realizou importantes trabalhos para a corte. O principal argumento a favor da identificação do poeta com o ourives é um apontamento que alguém escreveu no século XVI à margem de um documento nomeando aquele ourives Mestre da Balança da Casa da Moeda de Lisboa. Diz o apontamernto: Gil Vicente, trovador, Mestre da Balança.

O que se sabe de Gil Vicente, reduz-se ao seguinte: Nasceu à roda de 1465, encenou a sua primeira peça em 1502, foi colaborador do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Desempenhou na corte a importante função de organizar as festas palacianas, como por exemplo, da recepção em Lisboa à terceira mulher de D. Manuel.

Publicou Gil Vicente ainda em vida, alguns dos seus autos, em folhetos de cordel que depois foram reeditados. Destas edições, algumas foram proibidas pela inquisição. Conhecem-se apenas o Auto da Barca do Inferno, a Faça de Inês Pereira, o D. Duardos e o Pranto da Maria Parda.

Estes autos tinham por objectivo satirizar a nossa sociedade. Foi um grande poeta, Gil Vicente. A sua obra é vasta e seria impossível relatá-la toda aqui.

Parte deste texto, foi baseado na História da Literatura Portuguesa, 12ª edição da Porto Editora de 1982.

Pensa-se que o poeta faleceu em fins de 1536, pouco se sabendo da sua pessoa.

Relativamente à Filatelia, esta emissão de dois selos de $40 castanho escuro e 1$00 carmim, foram desenhados por Raquel Roque Gameiro Ottolini e gravura de Arnaldo Fragoso.

Impressos na Casa da Moeda em folhas de 100 selos, em papel de porcelana denteado 11 ½, circularam de 29 de Julho de 1937 até 30 de Setembro de 1945.




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terça-feira, 7 de julho de 2009

por Miguel Fernandez








M
as, paulatinamente, os intervalos daqueles chiliques foram encurtando e o que antes se manifestava por meio de triviais alterações de comportamento – como perder por instantes a noção de quanto o cercava ou responder absurdos a perguntas banais – provocando zombarias entre fregueses e agregados –, transformou-se na ênfase de um generalizado estremecimento corporal no meio de uma noite que despertou aterrorizada a tia, deitada a seu lado. Esta senhora, agreste iletrada e nada afeita em complicados, bastando-lhe saber que toda massa de pão resulta da mistura de farinha de trigo, água e fermento e o lucro de sua venda chegar a mais de 100% do investido, na essência de todo e qualquer fenômeno inexplicável, haverá, para tudo elucidar indiscutivelmente, o misticismo; destarte, o primeiro consultado a descobrir o cerne, foi o padre domingueiro que, numa breve observação, afiançou tratar-se de artimanhas do demônio. Porém, devido à continuidade dos acessos convulsivos, o segundo consultado – a muito rogo e custo, não em reis, mas em convicção –, foi um médico que após sucinta análise, diagnosticou a mesma doença acolhida por Martinho Lutero – com tamanha maldição, que a somou ao inventário das pestes rogadas à Igreja Católica, entre sífilis, escorbuto, lepra e carbúnculo -, com o insinuante codinome latino de morbus demoniacus: epilepsia.
Quiçá por menos mórbido ou demasiado antigo, o epíteto dos egípcios fora sepultado com suas múmias: Nesejet: doença enviada pelos bons deuses. No entanto, a versão escolhida e difundida aos quatro ventos pela santíssima e supina ignorância, foi a estigmatizada por Lúcifer, Belzebu, Lusbel, Satã ou Asmodeu, entre os cristãos. Exu, Leba e Cariapemba, entre os orixás; Jurupari, Anhangá e Caipora, para os ameríndios.
E para D. Adelaide, o diagnóstico clínico não passava da opinião de quem não entende de possessões, e pôs um fim a suas considerações em compartilhar leito e volição, provocando o distanciamento, que se alargou até um habitáculo adaptado às pressas nos fundos do sobrado, onde o jovem instalou-se de cama propriu, a ocultar dos serventes e clientes da padaria, as possessões satânicas que ela apostava seu sobrinho ser receptor. Mesmo submetendo-se às subsequentes e aterradoras mandingas mandadas realizar pela viúva galega, os acessos continuaram incólumes às feitiçarias e benzas. Acabando por abrir mão da empreitada que o exorcizaria devolvendo-o à sua cama e ao balcão da padaria, D. Adelaide, derrotada pelo suppositum posseiro, substituiu o vazio do leito pela renúncia.
Encafofado no meio de esquecidas plataformas de madeira e formas de pães, repletas de aranhas nos seus recônditos, engolfado entre sacos de farinha, passou-se o trajeto da puberdade durante o qual, com pavor de ser enviado para alguma prisão, asilo ou lazareto, destino de muitos dos portadores da mesma síndrome, esquivou-se de situações que pudessem precipitar um ataque em público. Como decorrência, seu interesse em descobrir origem e cura tornou-se impulso cada vez mais persistente e aflitivo...
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() Do capítulo: "No resumo dos antecedentes hereditários, gestacionais
e obstétricos do Dr. Fernando Garcia",
extraído do romance "Moscas e Aranhas de Guerra" de Dalton W. Reis

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domingo, 5 de julho de 2009

Por Ed Santos

Alguém disse que ela não viria mais. Havia desistido. Mesmo porque, depois das duas primeiras aulas, acho qualquer um na sua mais plena consciência perceberia que aquele curso...
Eu mesmo tinha comigo que ela sempre foi meio relapsa sim. Várias vezes ao nos encontrarmos eu percebi uma certa arrogância vindo dela. Sabe quando a pessoa chega no mesmo lugar que você está, te olha fundo nos olhos e quando você ameaça balançar a cabeça pra cumprimentar, ela vira a cara? Então.
Uma outra disse que “copiar e colar” é a mesma coisa que "cortar e grudar”. “É tudo a mesma coisa. Você aperta o dedo aqui desse lado do ratinho e leva a setinha pra onde você quer”.
Na hora do intervalo, ser tolerante em tomar café ao lado de alguns é uma vitória. Não dá pra bater papo sabe? Qualquer assunto fica chato e a noite demora a passar. Muitas tartarugas fugindo, e um leão morto a cada aula.
Hoje cheguei atrasado. Abri a porta e todo mundo torceu o pescoço pra ver quem era. Juro que não cheguei tão atrasado assim, tanto que depois que eu entrei, vi uns dois ou três saindo, por que quarta tem futebol depois da novela.
Logo em seguida, ela levantou, veio falar alguma coisa no ouvido de outra garota que estava sentada do meu lado. Passou por mim com a mesma arrogância de sempre. Nunca haviam se falado, mas foram tantos sorrisos gastos naqueles dois minutos de prosa, que parecia que uma era a mais recente amiga de infância da outra. Uma aula de Educação Moral e Cívica, ou OSPB, seria mais interessante.
Agora preciso parar. A mulher que fala sozinha chegou.
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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Por Dudu Oliva








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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Por

João Paulo Mesquita Simões





No Porto, o ensino médico-cirúrgico, vinha do Hospital D. Lopo, fundado em 1605 e substituído pelo Hospital de Santo António, em 1770. Foi neste hospital que se instalou, em reduzidas dependências, uma Escola de Cirurgia, antecessora da Escola Régia de Cirurgia fundada em 1825. Por Decreto de 29 de Dezembro de 1836, Passos Manuel, deu nova organização às Escolas de Cirurgia de Lisboa e Porto que passariam a denominar-se Escolas Médico Cirurgicas de Lisboa e Porto e, mais tarde, Faculdade de Medicina da nova Universidade do Porto em 1911. Em Lisboa, sucede a este curso, a Escola Régia de Cirurgia (Hospital de São José) criada no ano de 1825.

Ambas as Escolas nasceram a par por iniciativa de Teófilo Ferreira de Aguiar, cirugião-mór.

Com estas duas Escolas, deu-se um enorme passo na evolução da Cirurgia e da Anatomia em Portugal.

Desenho alegórico de Álvaro Duarte de Almeida, que ao querer apresentar o símbolo da medicina – vara delgada e lisa, terminada em duas asas e rodeada por duas serpentes – representou uma cobra enroscada no pé de uma taça que é o símbolo da Farmácia. Impressos na Imprensa Nacional de Lisboa, zincogravados sobre papel liso, em folhas de cem selos. A gomagem e o denteado 11,5, foram feitos na Casa da Moeda. Foram emitidos 4 050 000 selos azul claro de vinte cinco centavos, que circularam de 24 de Julho de 1937 até 1 de Outubro de 1945.



(Baseado em Livros Electrónicos de Carlos Kulberg)
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