terça-feira, 14 de abril de 2009

Na poeira da rua principal

Por Miguel Angel





Óleo s/ tela 27x35cm ©MAF



As ventas dos cavalos paraguaios dilatavam-se pelo esforço da furiosa corrida, cujo galope levantava o pó seco da estrada se grudando ao suor de espuma branca a lhes cobrir os beiços.
Sem eles o saberem, pulando todo tipo de obstáculos das veredas que atravessava como um veloz cavalo alado, Francisco os deixava para trás. Metro a metro. Salto a salto.
Envolta na toalha, Amanda dirigiu-se aos fundos da casa, onde a velha se amoitava numa tenda; algo no seu interior poderia explicar; incomodada, apartou galinhas, perus e outros bichos famintos que disputavam sua atenção, e encurtou a distância a passos largos; chegando defronte ao tugúrio, parou cinco segundos, vacilante. – A covarde! De um manotaço afastou a cortina de couro cru da entrada e adentrou; o bafo quente da fetidez e o choque da visão do corpo pendurado, balançando, a língua assomando, os olhos esbugalhados, a estontearam e, sufocada, saiu da tenda de um pulo. Foi recobrando a respiração e – A Lerda! –, o raciocínio.
(...)
Desolada Amanda, retorna ao quarto e, se vestindo, dá um pulo de sobressalto ao ouvir o estrondo da porta de entrada do armazém sendo derrubada com violência, sem perceber a entrada sorrateira do soldado pela janela do quarto.
Acorda Amanda!
Num relance, ela divide a atenção entre pavor e surpresa: à sua frente, um nervoso Chico lhe faz sinais de calada e fuga, e, provindo do empório, gritos de ordem de soldados paraguaios; num ímpeto, Amanda beija ligeiramente o cabo, calça as botas – agravam-se os barulhos de quebra no armazém –, recolhe roupas e objetos que cabem numa sacola pega a esmo – berreiros e estrondo de portas arrombadas –; agarra a mão estendida do cabo e se deixa levar em veloz corrida rumo ao fundo da casa; dribla trastes, chuta bichos, pula lama e restos de sacos, desvia de trastes – os militares invadiram o interior da casa, buscam nos aposentos –; o casal se embrenha no vasto pomar, mas este não consegue escondê-lo – soldados saem do interior da casa, ao vê-lo escapando entre os arvoredos, ordenam que parem, e logo atiram contra os fugitivos –; ao final do horto se encontra a próxima e ultima barreira: a mureta cercando a porção de terreno. Chico arremessa por cima dela o rifle que carrega; balas dos soldados zumbem nos seus ouvidos; de um pulo, trepa na mureta; com as mãos livres, puxa Amanda ajudando-a a escalar; outras balas se enterram na argamassa da parede; de onde o casal se encontra, na altura de menos de três metros, podem se ver dois cavalos amarrados a uma árvore na viela adjacente ao muro. Amanda atira a sacola e, imitando o cabo, pula atrás dele; ambos rolam entre as patas dos animais. Os disparos e os gritos dos perseguidores importunam os cavalos que relincham amedrontados – um soldado assoma o rosto furibundo pela beirada da mureta –; Chico agarra uma das rédeas com firmeza, facilitando Amanda a montar – o soldado paraguaio galga a mureta e faz mira no casal –; utilizando chicote e berro, Amanda sai a toda brida na frente; segurando sacola, o cabo monta no outro animal; a bala roça a orelha do cabo; cravando os acicates nas ilharga do animal, ele emparelha com Amanda na fugida e no meio ao sibilo das balas, se perdem na poeira da rua principal.
(...)
------------
Fragmento do romance Moscas e Aranhas de Guerra de Miguel Angel Fernandez

2 comentários:

Anônimo disse...

Ufa! Ainda bem que Amanda e Chico conseguiram fugir.
Estava aqui torcendo pelos mocinhos, heheheheh.
E você, caro Miguel, sempre Miguel & Anjo, escrevendo e descrevendo muiiiitttooo bem!
Beijos,
A Condessa.

Anônimo disse...

Mon cher
A guerra sempre foi um excelente "pano de fundo" para peripécias, fugas, atropelos, encontros e desencontros. Escolhas mal e bem feitas foram (e continuarão a ser) emolduradas pelo pavor e, nessas horas, a solidariedade se faz presente, aproximando inimigos. E isso tudo, mostrado pelo traçado de sua pena, se torna mais emocionante.
Beijocas de "boa semana"!
Sinhá

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