sábado, 14 de fevereiro de 2009

TARDE DEMAIS 3

Por Gustavo do Carmo


Toca o telefone. Depois de muita espera, é atendido por uma voz jovem.

— Alô?

— Alô, boa tarde? Eu queria falar com a Neyla Beatriz?

— É ela mesma.

— Oi, Neyla. Aqui é Norma Maia, do Teatro Municipal. Estou ligando para te dar uma boa notícia. Você foi aprovada no nosso teste para integrar o nosso corpo de baile e excursionar pela Europa. Foi uma seleção muito difícil. Tivemos mais de quinhentas finalistas. Por isso, houve essa demora de seis meses para escolher o elenco. Você foi escolhida para viajar conosco para Paris. Pode comparecer aqui amanhã para assinarmos o contrato e começarmos a tratar da viagem?

— (...)

— Alô? Neyla?

Um longo silêncio é percebido na linha. É interrompido apenas por uma série de soluços.

— Neyla? Você está chorando? É de emoção, não é? Mas pode comemorar! Você foi escolhida e vai fazer parte do balé mais importante do Brasil!

— EU NÃO POSSO MAIS DANÇAR! Grita Neyla

— Mas por quê?! Você foi a melhor bailarina do teste. Ouça bem: você foi aprovada! Não tem mais nenhuma etapa pela frente! Você já está contratada! CON-TRA-TA-DA! Ouviu? Não pode desistir agora que já foi escolhida.

— Eu não posso mais dançar... (interrompe entre soluços e prantos)... porque eu sofri um acidente há dois meses e... eu perdi uma perna.

— Oh! Meu Deus! Mas que pena! Como foi isso?

— Eu estava viajando na garupa da moto com o meu namorado quando ele se chocou com um caminhão. Ele havia me dado o seu capacete. Eu perdi a perna e ele não resistiu!

— Olha! Eu sinto muito pelo que aconteceu! Infelizmente, você realmente não vai poder participar do elenco. Mas quero que você viaje conosco para Paris como nossa convidada na platéia da primeira apresentação da turnê e do novo grupo. Não se abale! Veremos se podemos te convidar para um espetáculo com cadeirantes em breve.

Neyla perdeu o contrato para ser a bailarina do Teatro Municipal, mas ganhou uma viagem com tudo pago e hospedagem em hotel cinco estrelas na cidade-luz, além do melhor lugar na platéia do Ópera Garnier, onde seria realizada a apresentação. Viu-se no palco dançando. Não resistiu. A equipe paramédica foi acionada pelos seguranças do teatro.

Um comentário:

Tiana de Souza disse...

Esse texto lembra as ironias da vida.
Mas é triste, quando a chance chega
tarde demais.

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