quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

RESENHA DA QUINZENA - NA PRAIA


Precipitações determinantes

Por Gustavo do Carmo


Na praia é o livro mais recente do escritor britânico Ian McEwan lançado no Brasil. O autor é um dos mais elogiados da atualidade. Seus outros livros, Sábado e Reparação, estão sempre na lista dos melhores livros. McEwan também teve O Inocente lançado no Brasil. Todos pela editora Companhia das Letras.

Traduzido para o português por Bernardo Carvalho, Na praia é uma crônica da insegurança e de precipitações de um casal. Precipitações determinantes que fizeram uma história de amor que tinha tudo para dar certo se transformar em um casamento natimorto.

Dois jovens ingleses, às vésperas da revolução sexual do início dos anos 60, se casam e vão passar a lua-de-mel no litoral inglês de Dorset. Últimos representantes da inibição sexual herdada do periodo vitoriano, Edward e Florence são virgens e pretendem consumar (já que tiveram preliminares antes do casamento) o primeiro ato sexual de suas vidas em um hotel próximo à praia inglesa de Chesil, às margens do Canal da Mancha. Mas ambos são inseguros. Esconderam os seus sentimentos um do outro, desde quando se conheceram em uma campanha pelo desarmamento nuclear que a moça organizava. Eles começaram a namorar, se afastaram por um tempo, se reencontraram, noivaram, se casaram aos vinte e dois anos e guardaram seus fantasmas e orgulhos até a noite de núpcias.

Edward, ao mesmo tempo que tinha medo de abusar da amada, receava não corresponder aos seus desejos. Não só sexuais, como também familiares e profissionais. Filho de um professor de ensino médio com uma mãe que ficou com problemas mentais depois de um acidente, foi criado na província e teve vida simples. Por isso, também tinha medo de não ser aceito pela família rica da noiva. Felizmente a rejeição não aconteceu. Recém-formado em história, Edward conseguiu conquistar o respeito do sogro e até teve uma oferta de emprego na indústria da família. Já Florence desejava ser violinista e tinha medo que o marido a impedisse de seguir a sua promissora carreira. Além disso, tinha horror a ser penetrada sexualmente. Queria ser mãe, desde que engravidasse como a Virgem Maria.

O casal realizava todos os protocolos da relação com calma até demais. Como, por exemplo, a distância do tempo em que Edward viu os seios de Florence e depois pôde tocá-los e muitos meses depois poder beijá-los. A primeira precipitação do casal aconteceu justamente na cama de dossel no quarto de hotel, depois do longo jantar e da demora dos garçons em deixá-los sozinhos. Edward teve um gesto involuntário que fez Florence pular da cama e fugir do quarto e do hotel. Ela foi se refugiar na praia até ser encontrada pelo novo marido. Em vez de se reconciliarem, tiveram uma áspera e dolorosa discussão que determinou o destino do casamento. Neste caso os dois se precipitaram juntos.

É a única ação que acontece na trama principal da novela (assim classificada pelo comentarista Rafael Rodrigues no site Digestivo Cultural, pois "romance", segundo ele, é uma narrativa com diversas ações acontecendo paralelamente, com tais ações tendo uma ligação entre si. Em Na praia há uma ação, uma história, e há também outras, mas que são contadas em flashbacks. Existe uma ligação, mas não são paralelas. E uma ação não interfere na outra).

Esses flashbacks, aliás são excessivos como os detalhamentos e, junto com os poucos diálogos, torna a leitura um pouco chata e sonolenta, apesar de ser um livro curto, de apenas 128 páginas e cinco capítulos. Mesmo assim, Na praia faz o leitor refletir sobre as nossas escolhas e atitudes. Ainda de acordo com Rafael Rodrigues, uma escolha mal feita, uma palavra mal dita, enfim, uma precipitação, pode ser o fim não só de um destino, mas de vários. Foi o que McEwan quis dizer.




SOBRE O LIVRO


Na Praia
Ian McEwan
2007
Formato (a x l): 21x14
128 páginas
Preço sugerido: R$ 34,00

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