terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Pecaminoso Momo, preso dentro dela.

De Miguel Angel


Durante todo o trajeto pela Estrada do Mar não se olharam nem se falaram, até chegarem a São Paulo. No longo percurso, saboreando aquela onda inquietante de esperança e pesar mesclados, que o risco e o obstáculo vencido emprestam, perguntou-se uma só vez se Pierre, o chofer, manteria a discrição, até certo ponto cúmplice com seu gesto. Gorjeta extra ajudaria a imobilizar sua língua. Isso sempre dava certo com serviçais. Como Ezequiel, o mordomo. Mas este, ao contrário, era para ter a língua agitada e informá-la dos passos de Ricardo. Pelo menos os poucos que lhe interessavam. Depois, no silêncio da mansão vazia, foi o Carnaval mais ruidoso e pecaminoso já passado em toda sua vida. O Corso Paulista solto na rua; o seu titânico Momo, preso dentro dela.

Ao fim da jornada, alquebrada a alegoria, Ovídio espreguiçou no recôncavo das entrepernas. “Exausta, mas não saciada, teve de parar, ainda ardendo de volúpia”, antes de adormecer.

Certeza a branqueia queria era só seu picaçu. Além disso, gosta de mordiscar o pinguelo dela até fazê-la chorar de satisfação!

Derramou lentamente um pouco de bebida nas costas dele; isso o fez reagir arrepiado, virando-se e expondo o “picaçu” já ereto. Sua dureza ela constatou ao apertá-lo carinhosamente. Sorriram simultaneamente, cúmplices no mudo comentário sobre tamanho e solidez. Servindo-se da garrafa, encheu de novo o cálice ainda com resquícios de cocaína, e, após beber um gole, deixou o resto para bochechar. Inclinouse e borrifou em cima da ponta escura, antes de introduzi-la naturalmente na boca. O líquido borbulhante provocou nele mais arrepios. A língua acariciou a glande com rápidos movimentos, fazendo o frênulo tremer. Restos de bebida derramando da boca umedeciam e perfumavam ainda mais o fruto carnoso do seu “cabeça-de-negro”. Sentiu os dedos procurando a vulva ardente e tão molhada como o que possuía na boca.

Facilitou o encontro com movimento lânguido.

E tinha secura por mulher branca que gosta de sem-vergonheza. “Sinhá”, “Vosmecê”. Assim gosta que a chame. Graças a Deus tem tarimba prós assuntos de bimbada. Contrariamente não estaria levando essa vadiação tão boa. Não é, seu bicho preto?

Sabia perfeitamente quantas vezes se encontraram desde o dia em que o trouxe a São Paulo, praticamente seqüestrado. Conta que fazia questão de manter em dia, a fim de se martirizar impudicamente aguardando o próximo encontro naquele rancho escondido em algum subúrbio. Sustentava todos os seus gastos com a intenção de não vê-lo solto por aí. Queria tê-lo só para si, e o tinha! Escravo exclusivo. Necessitando-a, esperando por ela como ar, como refeição, como água, ou melhor ainda, cocaína e champanhe! Impregná-lo dela, mantendo-o dependente, fendedor acorrentado a seu corpo. Era sua vingança por estar sentindo o mesmo. Estaria amando o belo animal? Melhor seria tudo não passar da dolorosa, doce e perversa volúpia. Ou o nome que tivesse essa urgência quase constante de ser penetrada por ele, invadindo todas suas fendas, apaziguando o furor de seu útero, consumindo e sugando todas as faculdades mentais que os diferenciavam dos animais.

A tetéia vai chegando e, sem dizer “Oi”, arranca suas calças, pega nas prendas, amola seu canivete de fazer gosto té demais. Quando tão excitado, no trevareio, pede pelo amor de Deus, mas ela ri fazendo chapuletada na barriga que nem o jumento da fazenda, diz ela. Segura a vara que nem chicote até esporrar, espalhando pra todo lado. Mas fantasiar amar um negro ignorante que só sabia falar - se tanto - de sítios e terras das quais sonhava ser proprietário um dia? Um preto provavelmente fugitivo? Melhor era tirar essas idéias da cabeça e se deleitar com a outra cabeça dele, a que estava na sua garganta. O resto não importava, ele não precisava pensar.

Mesmo sendo branca, peituda ela, tinha esse pegadio com ele, pena metida nesse abusar do copo. De sociedade, respeitada e rica. Mocetona! Mas pra ele, quenga sempre quente, e gosta de lambuzar o traseiro com azeite e trastejar nele, levar beliscão nos peito. A buchela dela mordia seu picaçu igual nunca sentira antes. Quem diria, que mocambeiro feito ele, teria chamego com uma branca? E muito da perfumada! Antes dela só bronha ou o catinguento das decaídas, isso sobrando alguns contecos pra pagar a bimbada! Assim mesmo com medo de pegar doença. Troço feito na preocupação perde toda graça o tesão. Bestagem de trepar com aquelas lambisgóias, com mais frescuras de “sinhás” que as próprias. Mas esta aqui, vistosona por demais!

A grossura de milho, saindo e entrando até a garganta; pouco depois passar a língua em toda a extensão; as mãos acariciando os testículos e sentindo a fragrância; a volúpia de proporcionar prazer similar não lhe permitia considerar a possibilidade de aquilo acabar. Talvez ele estivesse apaixonado por ela. “Fantasia divertida e diabólica, Magda.” Por que não? Afinal, não existia chance nenhuma de ele encontrar mulher assim feito ela, branca, fogosa e gostosa, rica e... puta!

“Se fugisse da mesma maneira que fez o outro negro safado?”

Antes disso o mandaria matar, ou ela mesma o faria.

Tipão de mulher! Chaleira só da sua birimbela, o que interessa pr’ela. Só depois de muita sacanagem montava naquela égua branca, trotando até arrebentar. Ela não disse que finalmente tinha conseguido tora de home vistoso na sua vida? Até escrevera versos pr’ele! Gostou disso, seu tição do inferno?

No momento em que, abocanhador, mergulhou entre suas pernas sem ela precisar largar o que possuía na boca, nem terremoto moralista quatrocentista conseguiria arrancá-la dali ou impedi-la de continuar. Logo mais, atingindo o limite do gozo, ele virou-se estabanado, arrancando o membro da boca dela. Nesse movimento inesperado os dentes rasgaram de leve a pele. Ele mordeu o lábio, mais por surpresa e aflição, e olhou o membro ferido: sangue se misturava à saliva e ao champanhe.

Ela fez menção de levá-lo de novo à boca como a ampará-lo, mas ele deu-lhe um tabefe e um empurrão, fazendo a garrafa de champanhe virar, derramar o resto sobre a cama e ela tombar de costas. Com o impacto as molas rangeram ruidosamente. Montou sobre ela agarrando com força a garganta até o limite do sufoco; apartando-lhe as pernas, furioso a penetrou. Rebolando o toco morno e sangrento, esfregava-o, entranhado na vagina em vaivém vigoroso, abocanhando lábios e garganta alternadamente. Acelerou os movimentos ao sentir os músculos da vagina fechando em torno dele, sugando-o. E então...então o orgasmo vindo a paralisá-la pouco a pouco, espasmo voluptuoso a eletrificá-la, vindo, bem-recebido, bem pungente, vindo, “bem-vindo amor!” Nem sequer os anjos do céu (não estava no zênite?) nem capetas do inferno (não estava também nele?) teriam poder para deter o momento que ansiava eternizar. “Morrer assim”, soluçou entre dentes. No frenesi à beira do desmaio, o último som ouvido foi o alarido do gozo dele, o esfrega-esfrega dos seios suados no seu torso e o compasso das molas da cama. Desfaleceu molhada de esperma, sangue, champanhe e lágrimas.

Fragmento de capítulo do romance A Cena Muda de Miguel Angel Fernandez

2 comentários:

Giovani Iemini disse...

eita danadeira!

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

Lindo!
Bom livro, este!
Espero que o outro seja tão bom como a "Cena Muda"

Abraços transatlânticos!

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