quarta-feira, 27 de agosto de 2008

RESENHA DA QUINZENA - VOTA BRASIL

Por Gustavo do Carmo

Toda época de eleição é a mesma coisa: somos bombardeados por campanhas que estimulam o voto consciente e responsável, nos convencendo a escolher o candidato certo que vai nos representar no governo da nossa cidade, estado ou país durante quatro anos. É inegável o valor e a necessidade dessas campanhas, mas já estamos cansados de saber disso (embora tenha gente que não saiba e para esses existem essas propagandas). Porém, enquanto os eleitores aprendem a votar, os candidatos não aprendem a exercer o seu cargo.

O TSE, mantendo a tradição, lançou, para as eleições municipais deste ano, mais uma campanha de conscientização com a assinatura Vota Brasil. Depois de focar a família, os jovens e até as crianças, futuras eleitoras, o alvo desta vez parece ter sido os neuróticos. Brincadeira. Na verdade a intenção foi mostrar, em mensagens subliminares, o incômodo que o candidato errado pode trazer para o eleitor através de pessoas normais com problemas incomuns como andar em círculos na hora da pressa, conviver com uma abelha dentro do ouvido durante quatro anos, inconter o choro quando toca o telefone celular e sapatear durante o nervosismo. Ao final de cada vídeo uma dica falada de como votar bem.

A campanha, criada voluntariamente pela W/Brasil, na verdade, começou com outra temática: a perda da oportunidade. Com o mote "Perder uma oportunidade pode fazer você perder muito tempo nos próximos quatro anos", mostrava duas situações através de dois homens. Em "Cometa", um observador acampado para ver um cometa raro (provavelmente o Halley, que só passa a cada 76 anos, tendo passado a última em 1986) aguardava pela luneta sofisticada quando o vento apaga a lamparina. Enquanto tenta acender, o cometa vai passando lentamente atrás dele, sem que o astrônomo amador perceba. Em "Carro" o motorista é obrigado a parar e esperar um longo trem passar para atravessar a passagem de nível. Para se distrair decide ouvir uma música. Mas ao procurar o CD preferido no porta-luvas, caem vários no assoalho. Enquanto ele se abaixa para catá-los e procurar o disco que queria o trem termina de passar e a cancela se abre dando passagem, mas o rapaz ainda está procurando Quando o tal CD cai na sua cabeça ele volta a atenção para o trânsito, mas a cancela se fecha novamente para a passagem de outro trem. 

É uma idéia bem-humorada para retratar o tempo que o eleitor perde votando no candidato errado. Mas o tema oportunidade não é novo. Há alguns anos o banco HSBC fez um comercial do tipo mostrando um fã da jornalista Valéria Monteiro (ainda no auge do sucesso) viajando num carro cheio de fotos dela. Enquanto uma cai no chão e ele se abaixa para pegar, o carro passa pela estrada, impedindo que fã visse o seu ídolo parado no acostamento esperando alguém que a ajudasse a chamar o reboque ou trocar o pneu. Muito parecida com a do trem, lembra?





Coincidência ou não, logo depois estreou a outra série de filmes com o mote: "Quatro anos é muito tempo. Principalmente quando as coisas não vão bem". Foi então que entraram em cena quatro novos personagens que, ao contrário da primeira fase, ganharam nome e voz, dando depoimentos sobre como conviver com algo desagradável por quatro anos. No filme "Círculos" Mariana é uma executiva que anda em círculos quando está apressada. Ela tenta andar reto, mas seus pés simplesmente preferem fazer a volta. O episódio quer dizer que votando errado o cidadão ou mesmo o país não sai do lugar, não evolui. 

Em "Abelhas", Mário é um homem simples que estava no parque quando uma abelha entrou em seu ouvido. Ele quase enlouqueceu, mas se acostumou a ponto de colocar mel no próprio ouvido para acalmar a bichinha e mostrar que quem não votou direito vai ter que se acostumar com o incômodo do vereador errado te representando na sua cidade. 

Já João Paulo fez a escolha errada em "Emoções" e vai ficar chorando à toa por quatro anos com o toque do celular (ou o vereador, na mensagem). Por sua vez o envergonhado Lúcio começa a sapatear em ocasiões impróprias toda a vez que fica nervoso. Durante a apresentação do projeto no trabalho e no próprio casamento a situação é tão vexatória que ele reconhece que isso acaba com a reputação de um sujeito. A mensagem dentro do filme "Sapateado"? Quem não votou direito, dança!





Quando estreou no início de agosto o tema me pareceu non-sense demais para uma campanha séria e oficial. No entanto, após várias exibições, como muito telespectador-eleitor, fui captando as mensagens subliminares e, por isso, acabei me simpatizando com os peculiares personagens. Logo, pude concluir que esta é a campanha mais criativa de todas criadas pela Justiça Eleitoral.



Um comentário:

Penetralia disse...

Meu nome é Lúcio e estou fazendo uma blognovela a partir desse comercial. Tá lá no meu blog:

www.penetralia-penetralia.blogspot.com

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